O PADRE O’REILLY SOBRE A IDEIA DE UMA PROLONGADA VACÂNCIA DA SANTA SÉ, 1999 | por JOHN S. DALY

(revisado e editado por John F. Lane em outubro de 1999)

Em 1882, um livro foi publicado na Inglaterra chamado The Relations of the Church to Society – Theological Essays [As Relações da Igreja com a Sociedade – Ensaios Teológicos], contendo vinte e nove ensaios do Pe. Edmund James O’Reilly, S.J., um dos teólogos proeminentes de seu tempo. O livro exprime com maravilhosa clareza e concisão muitas importantes verdades e intuições teológicas sobre matérias tanto indireta quanto diretamente relacionadas com o seu tema principal.

Para nossos fins o livro tem, sob um aspecto, relevância ainda maior do que já tinha quando de sua publicação, pois nele o Pe. O’Reilly assevera, com todo o peso daquela autoridade que ele possui, as seguintes opiniões:

1. que uma vacância da Santa Sé perdurando por um prolongado período de tempo não pode ser pronunciada como incompatível com as promessas de Cristo quanto à indefectibilidade da Igreja; e
2. que seria temerário ao extremo pôr quaisquer limites preconcebidos naquilo que Deus estará disposto a permitir que aconteça à Santa Sé (salvo, é claro, que um verdadeiro Papa nunca cairá em heresia, nem se desviará de modo algum). 

Claro que o Pe. O’Reilly não tem a posição de Papa ou Doutor da Igreja; mas, dito isso, ele certamente não foi nenhuma autoridade negligenciável. Alguma ideia da estima em que ele foi tido pode ser obtida a partir dos seguintes fatos:

O Cardeal Cullen, então Bispo diocesano de Armagh, escolheu-o como seu teólogo no Sínodo de Thurles em 1850.

Dom Brown, Bispo diocesano de Shrewsbury, escolheu-o como seu teólogo no Sínodo de Shrewsbury.

Dom Furlong, Bispo diocesano de Ferns e seu antigo colega como professor de teologia em Maynooth, escolheu-o como seu teólogo no Sínodo de Maynooth.

Ele foi nomeado professor de teologia na Universidade Católica em Dublin quando da fundação desta.

O Geral da Companhia de Jesus, Pe. Beckx, propôs designá-lo como professor de teologia em Roma, no Colégio Romano, embora no fim circunstâncias não relacionados ao Pe. O’Reilly tenham se interposto e impedido essa nomeação.

Em conferência realizada acerca dos estudos filosóficos e teológicos na Companhia de Jesus, ele foi escolhido para representar todas as “províncias” anglófonas da Companhia: ou seja, Irlanda, Inglaterra, Maryland, e as outras divisões dos Estados Unidos.

Em suma, o Pe. O’Reilly foi amplamente reconhecido como um dos teólogos mais eruditos e importantes de seu tempo.

Finalmente, a seguinte afirmação do Dr. Ward, na justamente renomada Dublin Review (edição de janeiro de 1876), vale a pena de ser citada (destaque adicionado):

“O que quer que escreva um teólogo tão sólido – alguém tão dócil à Igreja e tão consolidado nos caminhos teológicos antigos – não tem como deixar de ser de assinalado benefício para o leitor católico nestes tempos ansiosos e perigosos.”

O Dr. Ward pensava que os tempos dele eram ansiosos e perigosos! Bem, vejamos agora que “assinalado benefício” nós, pouco mais de um século depois, podemos extrair de algo dos escritos do Pe. O’Reilly.

Abrimos com uma breve passagem de um dos primeiros capítulos do livro, intitulado “O Ofício Pastoral da Igreja”. Na página 33, o Pe. O’Reilly diz isto (destaque acrescido):

“Se indagarmos como é que a jurisdição eclesiástica…foi continuada, a resposta é que…ela em parte veio e vem imediatamente de Deus no cumprimento de certas condições referentes às pessoas. Padres que tenham jurisdição derivam-na de Bispos ou do Papa. O Papa tem-na imediatamente de Deus, tão logo se dê sua eleição legítima. A legitimidade da eleição dele depende da observância das normas estabelecidas por Papas anteriores com respeito a tal eleição.”

Assim, se a jurisdição papal depende da eleição legítima de uma pessoa, o que certamente não se verifica no caso da aparente eleição de um herege formal à Cátedra de Pedro, segue-se que, na ausência de eleição legítima, absolutamente nenhuma jurisdição é concedida, nem “de jure” nem, a despeito do que alguns tentaram sustentar, “de facto“.

O Pe. O’Reilly faz a seguinte observação adiante no livro dele (página 287 – destaques nossos acrescentados):

“Um papa duvidoso pode ser realmente investido do poder requerido; mas ele não tem praticamente em relação à Igreja o mesmo direito de um Papa certo – Ele não está em condições de ser reconhecido como Cabeça da Igreja, e pode ser legitimamente compelido a desistir de sua reivindicação.”

Esse excerto vem de um dos dois capítulos dedicados pelo Pe. O’Reilly ao Concílio de Constança de 1414. Pode-se recordar que o Concílio de Constança foi realizado para pôr fim ao desastroso cisma que começara trinta e seis anos antes, e que naquela ocasião envolvia nada menos que três reivindicadores do Papado, cada um dos quais possuidor de séquito considerável. De volta ao Pe. O’Reilly:

“O Concílio reuniu-se em 1414…

Podemos fazer uma pausa aqui, para investigar o que deve ser dito sobre a posição, naquele tempo, dos três pretendentes, e sobre os direitos deles com relação ao Papado. Em primeiro lugar, houve durante todo esse tempo, desde a morte de Gregório XI em 1379, um Papa; com exceção, é claro, dos intervalos entre mortes e eleições para preencher as vacâncias assim criadas. Houve, digo eu, em todo momento um Papa, realmente investido com a dignidade de Vigário de Cristo e Cabeça da Igreja, não importa quais fossem as opiniões que pudessem existir entre muitos quanto a se era ele o genuíno; não que um interregno cobrindo todo esse período fosse impossível ou incompatível com as promessas de Cristo, pois isso não é algo manifesto de modo algum, mas que, na realidade, não houve esse interregno.”

Assim, um dos grandes teólogos do século dezenove, escrevendo logo em seguida ao Concílio do Vaticano, de 1870, conta-nos que “não é manifesto de modo algum” que um interregno de trinta e seis anos teria sido impossível ou incoerente com as promessas de Cristo. E podemos, portanto, indagar legitimamente: em que ponto, se é que em algum, seria tal coisa manifesta? Após trinta e sete anos? Ou quarenta e sete anos? Claramente, a partir do momento em que está estabelecido em princípio que um longo interregno não é incompatível com as promessas de Cristo, a questão de grau – quanto tempo – não pode entrar na questão. Isso cabe a Deus decidir, e quem pode saber que coisas espantosas Ele pode de fato decidir.

E, com efeito, à medida que o Pe. O’Reilly prossegue neste capítulo notável, escrito mais de cem anos atrás mas certamente amoldado pela Divina Providência muito mais expressamente para os nossos dias do que para os dele, ele faz exatamente essa observação sobre o que pode e não pode ser presumido que Deus não permitirá. Da página 287 (todos os destaques adicionados):

“Já tinha havido antipapas antes, de tempos em tempos, mas nunca com tal continuidade… nem jamais com tantos seguidores…

O grande cisma do Ocidente sugere-me uma reflexão que tomo a liberdade de expressar aqui. Se esse cisma não tivesse ocorrido, a hipótese de algo assim acontecer pareceria a muitos quimérica. Diriam eles que não podia ser, que Deus não permitiria que a Igreja chegasse a uma situação tão lastimável. Heresias podem brotar, disseminar-se e ter uma duração dolorosamente longa, por culpa e para a perdição de seus autores e fomentadores, e também para grande aflição dos fiéis, aumentada pela perseguição de fato nos muitos locais dominados por hereges… Porém, que a verdadeira Igreja permanecesse entre trinta e quarenta anos sem um Cabeça plenamente consolidado, e representante de Cristo na terra, isso não poderia ser. E, no entanto, foi; e não temos garantia de que não acontecerá novamente, embora possamos esperar fervorosamente que não aconteça. O que eu inferiria é que não devemos nos apressar em nos pronunciarmos sobre o que Deus pode permitir. Sabemos com absoluta certeza que Ele cumprirá Suas promessas; que não permitirá que aconteça nada que destoe delas; que Ele sustentará a Sua Igreja e a capacitará a triunfar de todos os inimigos e dificuldades; que Ele dará a cada um dos fiéis aquelas graças necessárias para que cada qual sirva a Ele e obtenha a salvação, assim como Ele fez durante o grande cisma que estamos considerando, e em todos os sofrimentos e provações que a Igreja atravessou desde o início. Também podemos confiar que Ele fará muito mais do que Ele comprometeu-Se a fazer mediante Suas promessas. Podemos nutrir a expectativa, com probabilidade que traz alegria, de sermos eximidos no futuro de algumas das tribulações e infortúnios que se nos abateram no passado. Mas nós, ou nossos sucessores nas futuras gerações de cristãos, talvez veremos males mais estranhos do que os já vivenciados, mesmo antes da aproximação imediata daquela grande recapitulação de todas as coisas na terra que precederá o dia do juízo. Não estou me fazendo passar por profeta, nem pretendendo ver prodígios de mau agouro, dos quais não tenho qualquer conhecimento. Tudo o que quero comunicar é que contingências relativas à Igreja, não excluídas pelas promessas divinas, não podem ser consideradas como praticamente impossíveis apenas porque seriam terríveis e aflitivas num grau altíssimo.”

Embora o próprio Pe. O’Reilly negue qualquer condição de profeta, sem embargo uma verdadeira profecia é, claramente, exatamente o que esta passagem acaba sendo. Ademais, é o tipo de profecia que, contanto que proposta condicionalmente, como nesse caso, tanto pode como deve ser feita à luz das provas e indícios em que ele está concentrando o seu olhar. A respeito de muito do que nos aguarda no futuro, não há necessidade de revelações especiais para o podermos saber. Como o Pe. O’Reilly indica, salvo onde Deus tenha-nos dito especificamente que algo não acontecerá, quaisquer preconcepções acerca do que Ele não permitirá são temerárias; e, é claro, tais presunções terão o resultado desastroso de que as pessoas serão desencaminhadas se os eventos em questão de fato ocorrerem. “Pois os meus pensamentos não são os seus pensamentos, nem os seus caminhos são os meus caminhos, diz o Senhor.” (Isaías 55,8)

Trad. por Felipe Coelho, de: De: “Fr. O’Reilly On The Idea Of A Long-Term Vacancy Of The Holy See / By John Daly. Revised and edited by John Lane, October 1999“.

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