A FARSA DO JOGO ESQUERDA-DIREITA, 1973 | por GUSTAVO CORÇÃO

Um símbolo profundo escondido

Todos nós sabemos que os termos “esquerda” e “direita”, com conotação de antagonismo político, tiveram origem histórica na disposição das bancadas parlamentares. Daí em diante, por um conhecido processo semântico, os termos desligaram-se das significações primeiras e passaram a denotar mentalidades, cosmovisões em forte antagonismo. O fenômeno linguístico não é raro, nem mereceria maior atenção, se não estivesse associado à mais apaixonante controvérsia ideológica do século, atuante como gerador de equívocos e molas de censuras, na cultura mais orgulhosa de sua lucidez em todo o Ocidente.

Este fato de estar uma metáfora tão vigorosamente ligada a um drama de dimensões planetárias nos leva a desconfiar da gratuidade ou da casualidade da escolha dos termos. Sabemos hoje que há metáforas leves, destinadas a produzir aproximações inesperadas, centelhas poéticas que nos induzem a apreciar a maravilhosa solidariedade de todas as existências, e outras metáforas densas, maliciosas, inventadas para ocultar algum símbolo profundo com que entretemos algumas de nossas “mentiras vitais”.

Desconfiamos que o jogo E-D [Esquerda-Direita] esteja neste caso, e em vez de dizer cherchez la femme, diremos cherchons le symbole. [“procurem a mulher” e “procuremos o símbolo”]

Os termos “esquerda” e “direita” são adjetivos aplicáveis a qualquer par de coisas simétricas, e destinados a significar, cada um deles, mais uma relação do que uma coisa. A primeira reclamação que Jules Monnerot faz do uso e do abuso do binário é justamente a da coisificação do que só se deveria entender como uma pura relação, [Jules Monnerot, La France Intellectuelle., pp. 118-119] E qual será a razão desse “solecismo político”?

Parece-me que descobriremos a pista do segredo se lembrarmos que os termos posicionais, significadores de uma simetria no espaço, muito antes de existirem bancadas parlamentares, têm sua primeira e direta significação adjetiva aplicada às duas mãos do homem. E tão unidos estão a esses substantivos, tão profunda é essa primeira associação, tão imediata é a adjetivação que logo facilmente se substantivam os dois adjetivos e, assim substantivados, absorvem totalmente o nome da coisa, ou com ela se identificam. “Direita” não será então apenas a qualificação posicional desta mão, é o seu nome, é ela própria. No dicionário de Aulete o termo “direita” é logo, primeiramente, apresentado como “substantivo feminino”. Em latim e em grego observa-se a mesma forte tendência à substantivação dos termos dextera e sinistra ou dexiós e aristeróis.

Ora, em todos os nossos dualismos nenhum há em que, pela força de sua simetria, tão veementemente e tão visivelmente se oponham e se componham as duas partes; nenhum há que tão instrutivamente nos inculque as vantagens e a necessidade de uma integração. A mão esquerda e a mão direita, como todas as formas simétricas, são formas geométricas iguais mas de incompatível superposição. Não posso na mão esquerda calçar a luva da direita a menos que faça meu braço girar cento e oitenta graus dentro de uma quarta dimensão do espaço. Que quer isto dizer? A frase “([…] girar o braço pela quarta dimensão” não tem nenhuma significação física; é apenas a generalização lógica de uma propriedade dos entes de razão matemáticos. Se o leitor quiser entender melhor essa idéia, trace num pedaço de papel a figura de dois triângulos simétricos, recorte-os com a tesoura e verá que não conseguirá superpô-los enquanto mantiver esses dois entes geométricos de duas dimensões no seu espaço de duas dimensões, o plano. Para conseguir a superposição, a identificação posicional, será preciso tirar um deles do plano e, graças à terceira dimensão de que dispomos, deitá-lo sobre o plano com a outra face sobre o triângulo que permaneceu no plano. Generalizando, direi que duas formas simétricas de n dimensões só se superporão graças a um rebatimento por um espaço de n+1 dimensões.

Deixemos o mundo fantasioso dos entes de razão e voltemos às nossas mãos. Ei-las: sua igualdade simétrica é um desafio e um convite. Estamos diante de uma contraposição feita para composição, ou de uma disjunção que pede conjunção. A diferença na igualdade é um incentivo para a união, para a complementação e para a colaboração.

Nós sabemos, nas profundezas de nossa alma, que nosso eu está sempre ameaçado de uma disjunção, de um mal-estar, de uma inimizade interna, semente e modelo de todas as inimizades exteriores. O mais profundo de nossos instintos é o da unidade pessoal reforçado e aguçado pelo sentimento da unicidade do eu. A vida nos solicita, nos desafia, e em cada uma de suas arestas nos fere e nos quer dilacerar, e os outros nos chamam, nos pedem, nos comem. Aprendemos com a vida e com os outros, se alguma coisa aprendemos, a lição paradoxal, a lição quase absurda das leis do amor. Cabem em duas palavras: integridade difusiva. Só é difusivo, capaz de plena vida de conhecimento e amor, só é capaz de entrega, dom de si mesmo, difusão de seu ser e de seus dons, quem em si mesmo e consigo mesmo estiver bem integrado. Em outro lugar [Gustavo Corção, Dois amores, duas cidades. Campinas, SP: Vide Editorial, 2019, p. 361 e ss.] já vimos que nosso relacionamento com os outros é homólogo do relacionamento que temos em nosso próprio eu: amamos e desamamos o próximo conforme nos amamos e desamamos a nós mesmos. É do supremo mandamento: “Amar a Deus, e ao próximo como a ti mesmo” que Santo Tomás [IIª IIæ, q. 26, art. 4] tira a ordem da caridade, e que tiramos nós a lei de sua difusão em conformidade com sua integração. Mas a perfeita integração que capacita a alma para a perfeita difusão de amor só se obtém se nosso próprio eu procura em Deus, e não no seu eu-exterior, a fonte de todo o verdadeiro amor. O amor-próprio, ou egoísmo, cicatriz do pecado original, cisão do eu, está na raiz de todos os descomedimentos humanos. De todos os pecados. Nosso tempo, por causa de sua atmosfera civilizacional, é especialmente marcado por uma terrível abundância de eus em avançado processo de desintegração. E as energias liberadas por essas desintegrações atômicas enchem de letal egoísmo, de essencial inimizade, a atmosfera de nossa civilização. O mundo morre de desamor. E as filantropias que inventa são a mais cruel forma desse desamor.

Ora, está em nossas mãos, nesta, naquela, na direita, na esquerda, duas, duais, diversas, iguais e inconciliáveis no espaço, simétricas – está em nossas mãos a figura exterior mais eloqüente de nosso drama interior. Separadas, alheias, diversas, duas, duais, devem complementar-se diligentemente para a obra comum: vede o artífice como sabe bem explorar e conjugar o bom dualismo quando a esquerda segura a peça enquanto a direita busca o instrumento; vede o pianista como distribui as partes da mesma música nas duas mãos espalhadas, ora afastadas como se se desconhecessem, ora aproximadas como se quisessem na obra comum encontrar a tão desejada integração. Vede como se afastam ou se juntam nos sinais da amizade. Mas é no rebatimento que realiza numa espécie de quarta dimensão que nossas pobres mãos divididas, duas, duais, conseguem docemente realizar o gesto perfeito de súplica e de adoração. Mas devem afastar-se, abrir-se, ignorar-se, esquecer-se cada uma de si mesma, na hora de dar: Nesciat sinistra tua quid faciat dextera tua (Mt 6, 3).

E o símbolo do jogo E-D? O símbolo escondido na persistente e difundida metáfora, que tumultua um século, está agora desvendado. Denunciemo-lo. O sucesso da metáfora e a violência de sua aplicação e sobretudo a sua capacidade de confundir, mentir e falsear se explicam pelo humanismo que Maritain em Humanismo Integral chamou de humanismo antropocêntrico, e nós (na mesma linha de idéias) preferimos chamar de humanismo antropoexcêntrico. [Ibid., p. 154] Ou se explicam por todo um processo civilizacional aberrantemente afastado de Deus e gerador de inimizades. Os homens quiseram-se bastar, pretenderam desvincular-se de todas as “alienações”, e nesse ato de suprema soberba produziram um humanismo que só tem consciência de sua interna inimizade, e fabricaram um mundo novo que rapidamente se aproxima do modelo dos institutos para alienados.

O símbolo da antítese esquerda-direita está no secreto desejo de rasgar o homem. O século disputa a hegemonia da nova civilização e disputa com a Igreja a posse do filho, preferindo-o rasgado em dois como a falsa mãe desvendada pelo rei sábio.

E aí está. O binário E-D pertence ao léxico das filosofias da inimizade que vêem no homem, de Hobbes a Marx, o irredutível, o inconciliável inimigo do homem.

Não contestarei, evidentemente, a validez de esquemas no domínio da caracterologia, e até, se quiserem, a validez de binômios tipológicos que indiquem oposições de inclinações temperamentais. Poderíamos, por exemplo, colocar na esquerda as pessoas que por índole se dedicam a obras sociais, à enfermagem, ao ensino primário etc. e colocar na direita as pessoas que, por índole ou feitio do corpo, se dedicam à cirurgia, à carreira militar ou ao Corpo de Bombeiros.

Esse esquema tipológico poderia ser desenvolvido por algum estudioso, mas duvido de que alcançasse o sucesso e o vigor do jogo E-D, que encheu todo um século de equívocos e ódios. E por quê? Porque o jogo E-D tem seu motor naqueles elementos intrinsecamente maus incluídos entre outros que são intrinsecamente bons, dependendo todavia do uso que deles fazemos.

Voltemos atrás e reconsideremos as categorias confrontadas nas colunas esquerda e direita. Há no lado E. um elemento: o anarquismo, que é intrinsecamente perverso por ser, não apenas a contestação das sociedades de direito natural que não se sustentam sem o princípio da autoridade, como também a contestação disfarçada da Autoridade suprema. Ao lado do anarquismo vemos o revolucionarismo que é a dinâmica do anarquismo. A mística do revolucionarismo é essencialmente uma mística de inimizade, de contestação, de ruptura com o passado, de recusa de qualquer paternidade. O revolucionário místico, como já vimos em outro lugar, [Revista Permanência, Rio de Janeiro, nº 13, outubro de 1969] não é apenas o espírito ferido pelas injustiças sociais e desejoso de um mundo aperfeiçoado; é essencialmente um negador que quer a estaca zero, o recomeço de um mundo mal venu, como dizia Van Gogh a seu irmão.

No mesmo lado E., representando a realização histórica em vigor da mística anarquista e revolucionária, está o comunismo marxista, sem o qual o jogo E-D perde o seu princípio interno de inimizade, e logo perderia sua força externa de perturbar, mentir e confundir. E é a presença desse jogo E-D na atmosfera cultural de nosso século que explica, de um lado a “censura” e a cegueira para as coisas concretas de filósofos do nível de Maritain e Yves Simon, e de outro lado a enxurrada de secularização e de apostasias. Mais adiante voltaremos, com apoio em Henry Bars, ao problema dos “dois Maritain”, mas desde já quero frisar que há uma enorme injustiça na equiparação e no paralelismo que os próprios “progressistas”, como Adrien Dansette traçam entre Maritain e Mounier. O segundo foi realmente um dos precursores de tudo isto que aí está. Sua vida concentrou-se toda no sinistrismo católico, enquanto Maritain só acidentalmente, e descontinuamente, interrompeu sua grande obra de permanente tomismo, e teve atuação nos meios de esquerda. Atuação infeliz, para a qual faltou-lhe tantas vezes a pequena sabedoria do bom senso familiarizado com as obscuridades inteligíveis do contingente e do efêmero.

O jogo E-D foi um jogo falseado e falsificador

Sim, um jogo falseado, e posto em circulação pela torrente do anarquismo revolucionário. Não há nos binômios que fazem parte do jogo a simetria de peças e regras como no xadrez, ainda que umas peças sejam brancas e outras pretas. A rigor não há “esquerda” e “direita”. Historicamente, como feixe de linhas-de-história, só há “esquerda”. A “direita” não existe como corrente histórica. Ela passa a existir como coisa designada e apontada à execração pela “esquerda”.

Abstratamente podíamos imaginar a possibilidade de existir na civilização sumeriana, na Gália ou na Islândia primitiva tipos humanos temperamental e espiritualmente divididos em torno de alguns daqueles binômios. Sempre houve, certamente, tipos mais inclinados a conservar do que a reformar, e tipos opostos; e sempre existiram, certamente, tipos propensos a acentuar o valor e a necessidade da autoridade, e tipos opostos, propensos a ver na autoridade mais os defeitos da miséria humana do que as perfeições que são reflexos das perfeições de Deus. Admitamos que na Suméria e na Islândia o desgosto da autoridade, em certos indivíduos, chegou a ver nela um mal, e na anarquia um ideal. Mesmo assim eu não diria que houve na Suméria, ou entre os incas, o binômio E-D. Porque não é somente a presença de tais idéias e valores, e o seu uso por algumas pessoas, que faz existir o jogo E-D.

Esse jogo de binários, como abundantemente o tivemos, só começa a existir quando aquelas idéias e valores formam corrente histórica. Enquanto permanecem avulsas e raras, o jogo não começa, porque o jogo E-D não pode ser jogado entre 2 ou 20 pessoas. Ele se processa e só pode processar-se quando ganha dimensões de disputa civilizacional.

No século em que vivemos não são 3 ou 3.000.000 de pessoas que formam a E. inicial que dá partida ao jogo: é todo um estuário de erros, desatinos e desacertos de quatro séculos que produziu certas “formas históricas” particularmente virulentas e capazes de pôr em movimento o perturbador binário.

Jean Madiran viu com grande lucidez esse aspecto da trapaça intelectual que atingiu principalmente o povo mais inteligente do mundo, e escreveu um livro [Jean Madiran, On ne se moque pas de Dieu. Nouvelles Éditions Latines, 1957, pp. 27 e ss. A nova versão (supostamente definitiva) deste capítulo apareceu ulteriormente sob a forma de um opúsculo intitulado: La Droite et la Gauche (Nouvelle Editions Latines, 1977)] que dedica todo o capítulo II a esse problema.

E eis o que diz Madiran:

A distinção entre a esquerda e a direita é sempre uma iniciativa da esquerda, feita pela esquerda e em proveito da esquerda. Há uma direita na proporção em que uma esquerda se forma para designar a direita e a ela se opor: o inverso nunca se dá. Os que instauram e põem em funcionamento o jogo Esquerda-Direita, logo se situam na esquerda de onde delimitam a direita para combatê-la e excluí-la. Num segundo momento, a direita, assim designada e apartada, arregaça as mangas, nunca muito depressa nem com muita disposição, e então se organiza, se defende, contra-ataca e às vezes consegue vitórias…

Por isso, será “de direita” aquele que a esquerda designa ou denuncia arbitrariamente como tal: o inverso não é verdade, não existe. A arbitrariedade do processo se explica, ou se impõe, já que o jogo Esquerda-Direita, que mais exatamente deveria chamar-se esquerda-contra-direita é inventado, conduzido e julgado sempre pela esquerda, jamais pela direita.

A direita sabe ou sente que se submete sem poder fixar ou modificar as regras do jogo. A própria extrema-direita, quando não está contente com M. André Tardieu ou com M. Paul Reynaud, dirá que eles cedem às esquerdas, que aplicam seus programas, ou até dirá que traem. Jamais dirão que M. Tardieu ou M. Reynaud se tornaram homens da esquerda. E por quê? Porque a direita não se julga com títulos nem com a possibilidade de colar o rótulo nos frascos. A esquerda, ao contrário, senhora e árbitro do jogo que inventou e iniciou, relega para as direitas quem ela acha que deve relegar, e como e quando lhe parece oportuno e conveniente.

Duas páginas adiante, no mesmo livro que teríamos a tentação de transcrever inteiro se não estivéssemos nós comprometidos com o nosso próprio livro, Madiran aborda o problema da correlação entre as esquerdas e as injustiças, e aí nossa concordância não é perfeita. Estivéssemos um diante do outro, para prazer maior meu, e ambos na Idade Média, a exuberante palavra de Madiran seria interrompida por mim nos moldes escolásticos: “nego”, “concedo”, “distingo”.

Madiran chega a conceder que a esquerda se constitui para combater a injustiça, mas logo adverte que não é bom o seu método de combater as injustiças. Na página 31 lemos: “A esquerda e o cristianismo lutam ambos contra a injustiça, e algumas vezes contra a mesma injustiça, mas nunca da mesma maneira, ressalvada a hipótese de uma contaminação do método cristão pelo método de esquerda”.

Eu hoje posso dizer que conheço bem o vigor com que Madiran defende a Igreja e a civilização contra o Monstro, e sei perfeitamente que ele não é inclinado a concessões e a meios-termos emolientes. Mas neste caso não concedo o que ele concede. Não, a esquerda propriamente dita jamais lutou contra a injustiça ou pela justiça; mas freqüentemente lutou contra os que, por assim dizer, lhe fazem o favor de praticar certas injustiças. É melhor usar o termo próprio: as esquerdas aproveitam as injustiças, vivem das injustiças, para manter em movimento os dois cilindros da motocicleta do progresso na direção da luta de classes.

Mas, antes que o leitor grite que assim eu exagero, corro a prestar um esclarecimento: há nas esquerdas definidas como corrente histórica de inspiração anarco-socialista, ou comunista, duas espécies de membros: os positivos e os negativos. E honni soit qui mal y pense. [E aí daquele que não compreender] Os positivos são os da esquerda propriamente dita; os negativos são os simpatizantes, os incautos, os cândidos, ceux qui sont dupes [os tolos]. E esses, efetivamente, entram na caravana com a vaga e mole ilusão de estarem combatendo uma injustiça; mas esses mesmos, na maioria dos casos, estão buscando ser alguma coisa, ou tentando acalmar algum ressentimento familiar. Os outros, os positivos de esquerda, usam as abundantes injustiças, mas o que os move é sobretudo uma paixão de impor ao mundo uma forma nova, uma idéia. E a vontade de poder. E não há mais violenta paixão do que essa de ver realizada, materializada, e funcionando, uma idéia emanada de nossa mente criadora. Eu, que já inventei órgãos eletrônicos, e outras coisas de meu primeiro ofício, posso imaginar a violência da paixão que deseja realizar uma idéia, quando essa idéia em vez de envolver resistores, capacitores e transistores, envolve gente, crianças, mulheres, velhos, instituições, edifícios e todo o vistoso trem de uma civilização.

É ingênuo estabelecer qualquer paralelismo entre o ideal desses ideólogos e a cálida justiça tão apetecida pelos corações normais. Os agregados, os negativos, frequentemente ingênuos e até imbe-cis, podem ser levados ao sinistrismo por algum anseio de justiça, embora seja hoje difícil admitir a ingenuidade nessa matéria.

Estou pensando aqui em dois personagens de Roger Martin du Gard, Jacques Thibault e Meynestrel. Relendo as páginas do grande romance, lembrei-me de uma carta de Marcel de Corte, publicada anos atrás, onde o filósofo belga dizia que nada há mais cruel do que esse amor abstrato dos socialistas. Tolstoi e Henri Troyat, em Ana Karenina e Tant que la Terre Durera, também souberam dar realce a essa dualidade de tipos revolucionários, o positivo, possuído pelo cruel amor abstrato, e o negativo que adere à revolução por um vago sonho de justiça, ou por algum desejo de ferir o pai. Retocando uma frase de Jean Lacroix, poderíamos dizer “la gauche est le meurtre du père”. [A esquerda é o assassinato do pai]

E aqui, neste tópico que trata dos que são atraídos pela “esquerda” por um real embora perturbado anseio de justiça, não posso esquecer a admirável figura de Simone Weil que vejo, levada pelo mais monstruoso dos equívocos, fazendo a mala e tomando o trem para lutar ao lado dos rouges na Espanha. Durou pouco seu entusiasmo e sua febre, que mais se alimentava de 50 séculos de dor de todo um povo do que de um século de disparates franceses. Pobre grande judia! Na primeira expedição organizada para matar um “cura” pela simplíssima razão de ser “cura”, Simone Weil se dispõe a dar sua própria vida pela do cura, mas não chegou a realizar o sacrifício porque a expedição punitiva não encontrou a vítima. Simone Weil volta à França, amargurada, e escreve uma carta a Georges Bernanos que também não suportara as experiências da guerra civil, mas jamais procurara consolo disto nas “esquerdas” que ninguém detestou com tão perfeita galhardia.

Outro grande amigo com quem Simone Weil se conforta é o admirável Gustave Thibon, que recolheu o último poema recitado com lágrimas por Charles Maurras, e que ainda hoje, não menos galhardamente, colabora na revista Itinéraires.

Simone Weil já terá encontrado no céu a justiça e o amor que, por um prodigioso equívoco do século, andou algum tempo procurando entre os “possessos”.

O espírito de esquerda e o espírito de direita

Gustave Thibon, que hoje milita ardorosamente contra a Onda, ao lado dos companheiros de Itinéraires, não consegue escapar ao estranho fascínio que o jogo E-D exerce sobre os franceses. No seu último livro, Diagnostics, [Gustave Thibon; Diagnostics. Éditions Génin, Paris, 1945] dedica um capítulo inteiro a esse problema, e começa com estas palavras:

É fácil definir o homem de esquerda como um invejoso ou um utopista, e o homem de direita como um satisfeito ou um “realista”. Essas fórmulas nos ensinam pouca coisa sobre a verdadeira diferença interior entre esses dois tipos da humanidade.

Tentemos ver melhor. Se evocarmos em cada campo algumas personalidades superiores (só elas serão capazes de nos fornecer a amplificação necessária à descoberta das essências), a seguinte conclusão se imporá: o grande homem de direita (Bossuet, De Maistre, Maurras, etc.) é profundo e estreito, o grande homem de esquerda (Fénelon, Rousseau, Hugo, Gide, etc.) é profundo e confuso (trouble). Uns e outros possuem toda a envergadura humana: em suas entranhas se misturam o mal e o bem, o real e o irreal, a terra e o céu. O que os distingue é isto: o homem de direita, dilacerado entre uma visão clara da miséria e da desordem do mundo e o apelo de uma pureza impossível de confundir com qualquer coisa a ela inferior, tende a separar com força o real e o ideal; o homem de esquerda, cujo coração é quente e O espírito menos lúcido, mais depressa se inclina a confundi-los, a baralhá-los… [ibid., p. 56]

E por aí adiante, o lúcido Gustave Thibon (ora homem de “direi-ta”, ora de “esquerda”, segundo sua própria definição) se deixa levar pelas equivocidades do jogo inventado precisamente para produzi-las. Voltando às primeiras linhas do tópico citado, onde o autor se refere à “diferença interior entre esses dois tipos da humanidade”, eu começo por negar aquilo que o autor de início aceita sem nenhum espírito crítico: a existência desses dois tipos da humanidade.

É curioso que todos os autores até aqui citados falam de “direita” e “esquerda” como se houvesse um unânime consenso na existência dessas duas coisas e até um unânime consenso de uma diferença em primeira aproximação; sim, falam como se desejassem analisar melhor, mais a fundo, duas coisas que todo o mundo conhece. Ora, esse pressuposto é falso. As únicas coisas que preexistem são os termos, mas na verdade a límpida conclusão a que se chega é que ninguém sabe quem é de direita e quem é de esquerda. Gustave Thibon, colaborador de Itinéraires, deve ser visto hoje como un homme de droite; mas ontem e anteontem o grande amigo de Simone Weil e dos pobres era visto como um homem de esquerda. E o que dizer de Frederico Ozanam, o admirável amigo dos pobres, autor da famosa frase que podia ser explorada um século depois pelos padres-operários: “Allons aux barbares”? [Vamos aos bárbaros] um homem de esquerda e quase diríamos de extrema-esquerda; mas quando nos lembramos da atitude que tomou em 1848 e das páginas candentes e proféticas com que denunciou o “socialismo”, mais depressa diríamos que é um irmão de Donoso Cortés e até ousaríamos traçar uma extrapolação em que seu pensamento viria passar na área da Action Française, e a léguas de distância do Sillon de um Marc Sangnier.

Insisto neste ponto: o binômio esquerda-direita é falso e falsea-dor, e o melhor que dele se pode dizer é a denúncia de sua equivocidade tantas vezes posta a serviço da impostura. Para tornar mais claro o meu pensamento direi que uma tipologia só pode ser dual à custa de um brutal tratamento ou de uma escamoteação. Pode-mos, sem dúvida, aplicar à humanidade várias análises tipológicas, segundo várias linhas de comportamento, e podemos tirar, de cada linha de comportamento definida por dois contrários (reais ou apa-rentes) dois tipos opostos E e D. Se nos entregássemos a essa fastidiosa ou divertida análise, mas nunca esclarecedora, veríamos com surpresa que muitos indivíduos classificados como E. numa linha de comportamento são classificados como D. em outra. O próprio Maritain, que tanto usou o esquema tipológico E-D, quando se sente embaraçado, usa o recurso de uma divisão do esquema E-D em dois: um temperamental e fisiológico e outro político. No opúsculo Lettre sur l’Indépendance, Maritain desenvolve a idéia e chega a admitir que

as coisas se embrulham quando os homens de direita (no sentido fisiológico) fazem uma política de esquerda, e reciprocamente. Penso que Lênin é um bom exemplo do primeiro caso. Não há mais terríveis revoluções que as revoluções de esquerda feitas por temperamentos de direita; e não há mais fracos governos que os governos de direita conduzidos por temperamentos de esquerda (Luís XVI).

Tudo isto hoje me parece um jogo do espírito e quase un jeu de mots. É com mal-estar que leio a atribuição de governo de direita à monarquia de Luís XVI, e de temperamento de esquerda ao próprio Luís XVI. Também li com penoso sentimento a oposição feita por Gustave Thibon entre o “calor de coração” dos homens de esquerda e a lucidez fria dos homens de direita; e estou inclinado a crer que foi esta a taxa de imposto mais pesada que Gustave Thibon teve que pagar à tolice universal.

Estou pensando na rapaziada de nossa extrema-esquerda e no terno calor com que decidiram, no aniversário da morte de Gue-vara, o assassinato “justiceiro” de um oficial norte-americano que saía de casa com seu filho de onze anos. Deveremos usar o recurso proposto por Maritain, dizendo que esses moços se acharam na mesma trágica situação de Lênin e que são moços de direita engajados numa guerrilha de esquerda?

Parece-me decididamente mais razoável abandonar esse binário equívoco e gerador de equívocos e procurar em cada caso a adjetivação apropriada que tanto a língua portuguesa como a francesa possuem fartamente. Mas antes disso, e pelo menos uma vez no século, é preciso denunciar a impostura que está na base de todos esses equívocos.

A impostura do jogo E-D

Em qualquer época da história e em qualquer parte deste mundo, por isso mesmo chamado vale de lágrimas, é possível demarcar vários “conjuntos” de homens cuja norma de pertinência seria uma das várias aflições da vida. Haverá o conjunto dos carecas, o conjunto dos desdentados, o conjunto dos cardíacos, o dos neuróticos, e o largo e denso conjunto dos pobres de cada pobreza. Dada a conhecida tendência que o homem tem de atribuir a outrem a culpa de sua miséria ou de sua dor, é fácil imaginar a correlata tendência de explorar essa tendência de inculpar os outros.

Ora, uma das características de nossa civilização, como já vimos em outra obra, [Gustavo Corção, op. cit. p. 285 e ss.] consiste precisamente na exacerbação dessa filosofia da inimizade, de Hobbes a Marx. É então fácil imaginar que o largo, denso e doloroso conjunto dos pobres será assediado por solícitos advogados que requererão, primeiro: explicar toda a pobreza de uns pela riqueza dos outros; segundo, corrigir esse erro por um levante dos pobres, ou por uma revolução. Para isto os “advogados” dos desfalcados, dos oprimidos, contando com os bons sentimentos e a imaturidade da maior parte do mundo, erguem o punho, impostam a voz e declaram: “Nós somos os amigos dos pobres! Nós somos os que combatem pela justiça!”.

E quem não concordar com eles, na explicação da origem da pobreza ou no método de sua eliminação, sentir-se-á tolhido, vagamente apontado como mau, como insensível à causa dos pobres.

Hoje, qualquer honesto estudante de economia e de sociologia sabe que as desigualdades econômicas se explicam por várias causas, entre as quais a exploração injusta está longe de ocupar os primeiros lugares. Numa sociedade qualquer, imaginariamente tratada por um processo de pasteurização igualitária, ao cabo de poucos meses apresentar-se-ão diferenciações e, no fim de poucos anos, ver-se-ão nela milionários e pobres. Alguns desses enriquecimentos serão injustos e feitos à custa do empobrecimento de muitos; mas nem todos. Há casos de enriquecimento de um ou de poucos, que contrariam essa aritmética estática dos marxistas e que, ao contrário, produzem o enriquecimento geral e, por conseguinte, a melhora da vida dos pobres. Não é difícil encher um volume com exemplos. Tomemos um, no domínio da medicina: quem descobrisse um remédio eficaz para a gripe ficaria rico. Para os socialistas ele só poderia ficar rico à custa do empobrecimento alheio; mas para a economia do bom senso, a riqueza desse homem se explica melhor pela riqueza de todos. É claro que, num determinado instante da história do dinheiro possuído por uma comunidade, houve um fluxo favorável a esse químico bem sucedido e uma diminuição no bolso de cada gripado. Mas logo no momento seguinte, na suposição da real eficácia do remédio, verificar-se-á que todos ganharam mais com a cura do que perderam com o custo do remédio. Houve portanto enriquecimento geral, mas não igual, que não é exigido pela justiça. O inventor e o produtor ganharam mais do que os operários da fábrica. Será justo esse prêmio dos que souberam criar valores que seus operários apenas sabem materialmente fazer? O fato incontestável é que todos, operários e burgueses, se beneficiam. Quererão os reformadores do mundo inventar um sistema em que o aumento de produtividade e de riqueza geral não beneficiasse em primeiro lugar seus próprios criadores, e não criasse por conseguinte desníveis de riqueza? Então terão de inventar outro homem, outro coração, outra alma insensível aos proveitos pessoais e desinteressada do progresso. O que há de especialmente estúpido nas utopias socialistas é a contradição dos que ao mesmo tempo deseiam o progresso, sem o qual não se pode proporcionar bem-estar material a uma multidão, e reivindicam um igualitarismo, com o qual não se vê como se dará partida ao motor do progresso. Se os socialistas fossem ardorosos apóstolos de um hiperespiritualismo desinteressado dos bens materiais, entender-se-ia que fossem também ardorosos apóstolos de um igualitarismo que não faz questão de progredir materialmente. Sim, o que há de grotesco, de supremamente impostor, no ideal socialista é a contradição entre o brutal materialismo dos fins propostos e o delirante e falso espiritualismo dos meios imaginados.

Além disso, e em vista das experiências que o planisfério do século nos exibe, temos todos os fundamentos para duvidar da sinceridade de bons sentimentos que tão facilmente se transformam em ferocidade de demônios. Em outras palavras, e admitindo a realidade da entredevoração humana e da exploração dos mais pobres pelos menos pobres, o que se pode dizer de todas as experiências socialistas é que revelaram uma requintada perversidade, parecida com a de todos os exploradores das misérias humanas: os capitalistas exploraram o trabalho dos operários; os socialistas exploraram o sofrimento, a lágrima do pobre, Uma das grandes imposturas das esquerdas foi esta: ostentaram bons sentimentos escondendo cuidadosamente a vontade de poder que os levava a aproveitar-se da sofrida massa humana, tornaram-se donos dos bons sentimentos e logo denunciaram a dureza, o egoísmo de todos aqueles que discordavam de sua panacéia social. Se discordavam dela, não era porque apenas discordassem da droga, mas porque desprezavam a justiça e até a caridade.

Cabe ainda aqui outra reflexão. Qualquer pessoa medianamente iniciada nas ciências da humana convivência sabe que o bem comum é arduamente promovido por um rico concurso de fatores. Numa sociedade complexa, densa, como a de nossos dias, a melhor divisão de bens em cada conjuntura, a mais razoável política de atendimento dos pobres, não pode ser direta, uniforme, imediata sem se tornar catastrófica. Trabalha diretamente para os pobres todo aquele que trabalha em obras assistenciais, em obras de misericórdia, e todo aquele que dá diretamente seu tempo e seus bens aos mais necessitados. Mas trabalha socialmente para os pobres – e às vezes mais eficazmente – aquele que indiretamente traz sua contribuição para o bem comum. Todos os professores que ensinarem bem o que sabem, todos os pesquisadores que se debruçam sobre problemas de engenharia ou medicina, todos os profissionais que cumprirem seu dever de estado trabalham para todos e portanto para os pobres. Os que mais alegam serviços prestados nessa matéria são os que menos fizeram, mas são efetivamente os que mais exploraram a miséria humana. Os comunistas, na Rússia, constituem o mais espantoso exemplo da impostura e do equívoco socialista. É preciso lembrar que esta corrente se compõe quimicamente de um perverso para cem ou mil ingênuos. O fato brutal que no princípio deste século deveria ter definitivamente vacinado o planeta para o socialismo foi a Revolução Russa seguida de um governo que quis aplicar num povo traumatizado três ou quatro idéias de uma primária economia política. O genial Lênin, cercado de outros ideólogos, imaginou e decretou uma reforma agrária que matou, entre 1920 e 1930, mais de oitenta milhões de camponeses russos.

Para encobrir esse total e colossal fracasso, desencadeou um jogo de chicote-queimado: o jogo Esquerda-Direita, que consistiu essencialmente em cobrir a evidência dos fatos com a ideologia. E como em toda a parte do mundo havia pobres, e especialmente na Europa havia a aceleração do progresso material que proporciona o confronto capital-trabalho, tornou-se fácil manter a repetição do binômio E-D. Os intelectuais ditos generosos prestaram-se admiravelmente a esse jogo por causa da tendência que têm à levitação. Pairam nas nuvens. E então um Emmanuel Mounier pôde tranqüilamente dizer esta frase: “Nós, que a vida inteira lutamos pela justiça..”.

[…]

Solecismos políticos fundamentais: a direita e a esquerda

Como atrás disse, Jules Monnerot também se preocupou com esse jogo falseado, dedicando-lhe um capítulo inteiro no livro [Jules Monnerot, La France Intellectuelle, p. 117 e ss.] em que denuncia a já quase secular journée des dupes dos “intelectuais” franceses. Nesse capítulo, o autor da famosa Sociologie du Communisme começa por citar uma passagem de um livro de René Rémond, [René Rémond, La droite em France. 1963, p. 257] na qual o historiador, tomando as “esquerdas” e as “direitas” por coisas subsistentes, cai na armadilha do jogo e passa a provar que todas as “direitas” enumeradas naquele período da história da França têm uma coisa comum: são antigas “esquerdas”. Ou melhor, foram esquerdas vencidas, superadas, por outra formação situada mais à esquerda que as suplantou. Diz então Monnerot:

Direita e derrota (ou envelhecimento) são sinônimos. Uma formação passa da direita à esquerda quando é vencida, e porque foi vencida. É o sentido da História; a História “mantém-se à esquerda” (ao contrário dos automobilistas). Mas isto só se aplica à História em maiúscula porque a história com minúscula não autoriza de modo algum tais generalizações. Na verdade, esse sinistrismo não pertence à História, e sim à ideologia.

Mas qual é a ideologia que, na França e na data em que foi publicado o livro de Rémond, antes de qualquer outra, decreta que a direção da História é “sinistra” e também que todos os governos, todos os partidos na França, desde 1815, passaram da direita à esquerda, todos, menos um? Qual é esta ideologia e este partido? É claro que só há uma palavra para responder a essas duas perguntas: comunista. E assim é que esse postulado comunista, aliás anticientífico e anti-histórico, é ministrado ex cathedra na França de hoje, aos jovens de hoje, sem nenhum antídoto crítico, e aparentemente com toda a sinceridade. Explicitemos o postulado implícito: o Partido Comunista é a esquerda realizada. A distância em relação ao Partido Comunista basta para medir, em dado momento, o grau de sinistrismo de uma formação política.

O partido comunista, nesse jogo, é a esquerda em ato-puro; é o referencial absoluto trazido à força para a política e para a história numa física antieinsteineana e anticoperniciana. E o curioso paralogismo está em pretender que tal concepção, tão brutalmente fixista, seja o modelo perfeito do progressismo. Desaparece a incoerência, ou coleção de solecismos, se lembrarmos que na metafísica e na teologia sobrenatural explicam-se os movimentos das coisas pela imobilidade de Deus. E concluímos: o comunismo é deus, ou é para seus crentes uma encarnação do verbo divino na realidade histórica do PC.

Monnerot termina seu capítulo, que gostaríamos de transcrever na integra:

O efeito desse jogo e dessa denominação afetiva é o de transferir, por contiguidade, o ódio que o propagandista espalha […] de um ser a outro ser, e finalmente, de transferência em transferência, é o de aplicar a Guy Mollet a aversão inicial que o homem de esquerda tem pelo Rei Carlos X. A identidade de denominação tem por objetivo estender e aplicar a dois seres, artificial e abusivamente identificados, o mesmo sentimento hostil.

Nesse sentido, a mágica – trata-se efetivamente de operações mágicas – produz efeitos reais. Porque, se for bem sucedida, e isto depende dos meios empregados (e os mass media aqui são dominantes), essa transferência de ódios passará a motivar os atos. Se conseguirmos, por condicionamento de reflexos, ligar um epíteto a condutas hostis, bastará alguma circunstância favorável para que um indivíduo, apontado como fascista, seja linchado por uma multidão previamente condicionada. O caso já se registrou mais de uma vez. O inevitável desgaste do epíteto fascista, a despeito das maldições rituais repetidas pelos “mandarins”, levou nossos publicistas sob controle “intelectual” à substituição progressiva do epíteto fascista por “extrema-direita”. Mas esse vitupério só se manteve por decreto. Abstrato demais, não pôde ser suficientemente mágico. Eles poderiam sempre achar quem os ajudasse a linchar um homem com o grito: “Fascista!” Mas dificilmente conseguirão comoção pública com gritos: “Extrema-direita!”. E é assim que o mau lógico acaba por nem conseguir ser um bom “publicitário”. Na rampa do declive da ininteligência intelectual, procura-se em vão uma linha de parada.

E não resisto ao prazer de terminar este penoso e trabalhoso capitulo com as mesmas palavras que Monnerot escolhe para terminar o seu. O leitor certamente já percebeu que este livro não tem um só autor. Sem chegar à mania dos congressos, dos sínodos, das conferências que não caberiam na minha pequena sala de estudo, convidei vários amigos vivos e mortos, enquanto eu mesmo ainda pertenço a “esta orgulhosa aristocracia dos vivos”. Mas calemo-nos, porque Monnerot já deu sinais de impaciência. Ouçamo-lo:

Essa bipartição mágica em direita e esquerda acarreta, pelo jogo de uma espécie de inércia psicológica, uma classificação dualística de categorias opostas, cada uma a cada outra, a qual poderá, por contágio paranóico, estender-se no espaço e no tempo. Já vi um conhecido intelectual aplicar-se a dividir os heróis de Homero e os profetas do Antigo Testamento em direitistas e esquerdistas. O alarmista Jeremias, em particular, homem de direita disfarçado em homem de esquerda, por suas profecias derrotistas para o seu próprio campo, aparecia ao nosso intelectual como “um social-democrata típico”. E o sacrifício de Ifigênia, em que se prefigura o proletariado, desmascara em Agamêmnon o “fascista” não menos típico.

O otimismo das esquerdas

Estava decidido a encerrar, com o tópico anterior, este fastidioso capítulo, quando me deparei com um livro da coleção L’Univers des Connaissances, editado pela Hachette e publicado simultaneamente na França, na Inglaterra, na Alemanha, na Espanha, nos Estados Unidos, na Itália e na Suécia. A excelente iconografia, a ótima impressão e o largo internacionalismo logo me convenceram de que o livro intitulado Qu’est-ce que la Gauche [O que é esquerda] muito provavelmente era mais uma contribuição para o dilúvio de estupidez que inunda o mundo moderno.

A rápida leitura confirmou o prognóstico. Efetivamente, depois de abundantes solecismos assinalados por Monnerot, o livro chega onde eu esperava. Começando por assinalar o inicial handicap das direitas nas Sagradas Escrituras, onde se vê (em Mt 25, 33) que as direitas são chamadas benditas e as esquerdas malditas, e de onde se poderia tirar mais um argumento a favor da tese que mostra a Igreja comprometida com os interesses da classe dominante, o autor anuncia o termo da secular injustiça.

Mas no mundo contemporâneo os maçons, os radicais e os socialistas inverteram as posições: desde algum tempo a esquerda adquiriu, no plano sentimental, uma significação nitidamente favorável, que implica progresso e enriquecimento do espírito.

A partir daí a dita esquerda, subsistente, quase hipostasiada, passa a ser apontada com confiança, OTIMISMO em relação ao homem e ao seu futuro, desde que esse futuro, evidentemente, seja atingido pela revolução que tudo promete, sob a condição de tudo rejeitarmos.

Jean Madiran disse em 1968 que sentiu nas ruas de Paris o hálito da revolução. Eu acabo de sentir nas páginas desse livro internacional e otimista o “hálito do nada” que perseguiu Friedrich Nietzsche e não resisto ao desejo de agora encerrar este árido capítulo com a pergunta de Léon Bloy estampada como epígrafe desta obra: “De que futuro nos falam eles, então, esses esperantes às avessas, esses escavadores do nada?”

O que realmente se vê neste mundo moderno modelado “pelos maçons, radicais e socialistas” é uma mortal desesperança – e não há nada mais lúgubre do que o otimismo desses desesperados.

Excetos de: GUSTAVO CORÇÃO; O século do nada, Vide Editorial, 2020, pp. 112-127 e 130-133.

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