O MISTÉRIO PASCAL, 2010 | por Pe. ÁLVARO CALDERÓN, F.S.S.P.X.

Tudo que o humanismo precisava para tornar o Evangelho amável e tirar proveito de seus benefícios era dissolver a Cruz de Cristo. Para o humanismo integral, o grande defeito do cristianismo medieval, em certo sentido o seu único, foi ter centrado o mistério de Cristo no Sacrifício, tingindo a religião com um matiz negativo, tão repugnante ao coração do homem.

Encorajada pela gentileza do seu subjetivismo, a nova teologia foi arquitetando uma reinterpretação positiva do cristianismo, mais adaptada ao homem moderno, à qual impôs o belo nome de Mistério Pascal. Acreditava com isso ter sintetizado o antidepressivo mais eficaz para o humanista ateu: a alegria cristã sem os efeitos colaterais da espiritualidade sacrificial medieval.

Consideremos em primeiro lugar o Mistério Pascal em si mesmo e em seguida sua participação pelos sacramentos.

I. A ABOLIÇÃO DA CRUZ

A doutrina católica ensina que o sacrifício da Cruz se fez necessário pela preordenação divina, pois era o meio mais conveniente para reparar as consequências do pecado. Pela desobediência do pecado, os homens não deram a Deus a glória que lhe deviam e mereceram a pena de morte. O Verbo se fez homem para satisfazer a dívida dos homens com Deus, pois por sua obediência até a morte glorificou-O infinitamente, e trouxe aos pecadores a possibilidade da redenção.

Para abolir a necessidade do preço de sangue, os magos do humanismo anularam a nota de débito. Se o pecado não nos deixa em dívida com Deus, o sacrifício da Cruz é um pormenor desnecessário no mistério e Cristo e podemos deixá-lo de lado. [1]

1° O pecado não nos deixa em dívida com Deus

Não é preciso buscar muito longe para achar o truque que permite escamotear o documento da nossa dívida. Deus é imutável, portanto os atos bons do homem nada lhe acrescentam e os maus nada lhe tiram. O homem faz-se bom em seu próprio benefício e mau para seu próprio dano. Deus é bom Pai – este, já o dissemos, é o primeiro princípio do humanismo católico – que nos criou por nós mesmos, alegra-se por nós quando progredimos, aflige-se por nós quando sofremos algum dano, mas a Ele nada acrescentamos nem O privamos de coisa alguma. O pior dos pecadores é para Deus – de acordo com o blasfemo humanismo – um filhinho querido que ralou o joelho.

2° A salvação não é obra de justiça, mas de amor

Se para com Deus não existe dívida alguma, tampouco existe a necessidade de lhe dar satisfação. A doutrina anselmiana da satisfação penal de Jesus Cristo, [2] dessa forma, não seria mais que um antropomorfismo medieval. Cristo teria sofrido a dor e a morte por simples solidariedade para conosco, para mostrar que nada humano é estranho a ele.

Ademais, sendo embora verdade que o pecado possa deixar o homem em dívida com os demais homens, Jesus Cristo veio para nos dizer que seu Pai é um Deus de misericórdia e não de justiça, que perdoa sem se importar com o dano causado, sendo por isso necessário que os homens se perdoem uns aos outros sem exigência alguma de satisfação: da mesma forma como Deus não leva em conta nossas dívidas, não devemos levar em conta as de nossos devedores.

Se os homens da esfera religiosa não derem esse exemplo de amor universal, que não discrimina entre justos e pecadores, nunca se alcançará a solidariedade na esfera política das nações.

Esse pensamento que acabamos de expressar é sutil, porém é blasfemo. Não fala de uma misericórdia que vai além da justiça e a aperfeiçoa, mas de uma misericórdia injusta, indiferente ao bem e ao mal. Corresponde à hegeliana visão positiva dos contraditórios de que falávamos mais acima, é indispensável para se poder falar de fraternidade universal entre os homens e, sobretudo, desvincula a ação de seu compromisso com a verdade. Agora o ladrão pode pedir perdão sem devolver o que foi roubado, e o Papa recebe de braços abertos no Vaticano os perseguidores da igreja.

3° O Salvador não é Jesus Cristo, mas Deus Pai

A verdade revelada nos ensina que, apesar de a encarnação ter sido iniciativa misericordiosíssima de Deus, a redenção pela Cruz foi obra de Cristo enquanto homem e em nome de seus irmãos pecadores, pois deu satisfação pelos nossos pecados. Por isso diz Santo Tomás [S.Th., III, q. 48, a. 5], “ser imediatamente redentor é próprio de Cristo enquanto homem, embora a redenção mesma possa ser atribuída, como à causa primeira, à Santíssima Trindade”.

Ao eliminar o dogma da satisfação vicária, a nova teologia enxerga a salvação (o nome de “redenção” já não convém) como uma obra em que Cristo é simples ministro ou instrumento, e que por isso deve ser atribuída imediatamente a Deus Pai, que é quem o enviou. Agora já não se dirá que Jesus Cristo é nosso Salvador, mas que Deus nos salva n’Ele: “N’Ele [Cristo] Deus nos reconciliou consigo e conosco mesmos e nos livrou da escravidão do diabo e do pecado” (Gaudium et spes n. 22).

4° A salvação não se cumpre na morte, mas na gloriosa Ressurreição

A doutrina católica ensina que a vida de Jesus Cristo tem o seu centro no sacrifício da Cruz. A nova teologia substitui o mistério da Cruz pelo Mistério Pascal, num dos seus passes de mágica talvez o mais bem-sucedido. Para um católico com vida litúrgica o nome é encantador, pois lhe recorda essa alegria tão pura que se alcança depois da Sexta-feira Santa. Páscoa significa “passagem”, e a nova teologia reduz o sentido da morte de Cristo a uma simples passagem para a glória da Ressurreição. É este último acontecimento que deverá ocupar de agora em diante o centro do mistério de Cristo.

Esse é um truque com algo de genial na maneira como dá a causa exemplar da guinada antropocêntrica. O sacrifício da Cruz é obra do homem para a glorificação de Deus, ao passo que a Ressurreição é obra de Deus para a glorificação do homem. Nosso Senhor Jesus Cristo agiu durante toda a sua vida por amor ao Pai e consumou sua obra oferecendo o Sacrifício de glorificação de Deus, com sua obediência até a morte: “Consummatum est”. A gloriosa Ressurreição é a resposta do Pai, justíssima para com Cristo e misericordiosa para conosco: “Humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz. Por isso Deus o exaltou” (Fl 2, 9). A intenção perpétua na vida de Nosso Senhor foi a Cruz para glória do Pai e não sua própria ressurreição: “Não busco a minha glória. Há quem a busque e ele fará justiça” (jo 8, 50). O humanismo, por outro lado, inverte os fins: já não busca sacrificar-se pela glorificação de Deus, mas sim que Deus se sacrifique pela glorificação do homem.

II. A LITURGIA DO FARISEU

Participamos do mistério de Cristo pela fé e os sacramentos, especialmente pela Eucaristia. Assim como a vida de Jesus Cristo está centrada na Cruz, a vida cristã está centrada na celebração da Eucaristia, que é a renovação de seu Sacrifício, para que os fiéis o ofereçam com os mesmos fins de adoração e propiciação, e se ofereçam junto com a divina Vítima para a satisfação de suas culpas.

O pensamento humanista, por sua vez, não acredita dever a Deus satisfação alguma, pois Deus é um bom Pai que se satisfaz com o próprio homem. Pelo contrário, na verdade é Deus o devedor do homem, pois quando o homem trabalha em sua própria glorificação, esta redunda em glória para Deus. Assim, a celebração da Eucaristia, que segundo a teologia nova é a renovação do mistério Pascal, termina sendo um culto de glorificação do homem, já que a grandeza do homem engrandece a Deus.

Soa como blasfêmia e de fato o é, mas essa guinada satânica – como vimos – pode passar perfeitamente despercebida. Segundo a liturgia da Missa reformada pelo Concílio, Cristo glorioso (o Kyrios) faz-se presente assim que se põe o sinal sacramental, isto é, assim que se reúne a assembleia litúrgica; ou melhor, a assembleia mesma é o Cristo glorioso. A glória do homem é a liberdade, pois por ela se torna semelhante a Deus; os homens que se reúnem são homens religiosos, nos quais brilha a imagem de Deus, isto é, são homens que se libertaram. A Eucaristia é o Cântico da ação de graças de Moisés depois de atravessar o Mar Vermelho e livrar-se da escravidão. Nela se oferece “o fruto da terra e do trabalho do homem”, porque o homem padeceu trabalhando com os bens da terra para se livrar da miséria e de toda tirania – o conceito negativo medieval de padecer com Cristo para merecer passivamente ser glorificado com Ele é trocado pelo conceito moderno positivo de trabalhar para obter ativamente a glória da liberdade; não é preciso com-padecer, mas colaborar. Agora já pode entoar o canto do triunfo e de ação de graças.

A nova liturgia é a liturgia do Fariseu: “Ó Deus! Graças te dou porque não sou como os demais homens” (Lc 18,1). Não só não adora nem perde perdão, nem sequer impetração há mais. Está satisfeito de si mesmo, e vê-se que a sua ação de graças não se dirige propriamente a Deus, antes sugere que é Deus quem lhe deve estar agradecido. E muito significativo que na missa nova se tenha omitido o rito tradicional pelo qual o sacerdote pára antes de subir ao altar e se curva para pedir perdão, repetindo o gesto publicano.

III. O MISTÉRIO PASCAL NO CONCÍLIO

A doutrina do Mistério Pascal foi desenvolvida nos círculos mais fechados da nova teologia, nos anos anteriores ao Concílio. Na Constituição conciliar Sacrosanctum Concilium, sobre a sagrada liturgia, há uma menção a ela, mas não chega a ser desenvolvida. Isso ocorreu por ter sido aquele o único documento que foi preparado pelas comissões preparatórias do Concílio, nas quais era ainda forte a presença de teólogos tradicionais, de modo que os inovadores tiveram que ser muito cautelosos na exposição de suas ideias. Os demais documentos conciliares foram redigidos depois de ter acontecido algo que até então era inimaginável: a entrega do Concílio nas mãos do modernismo. Mas posteriormente a reforma dos ritos litúrgicos foi posta em prática por uma comissão totalmente integrada por elementos inovadores, que adotaram a doutrina do Mistério Pascal e o ecumenismo como princípios diretores para todas as mudanças.

[1] Os erros denunciados neste ponto foram amplamente explicados e refutados no nosso artigo “El Misterio Pascual”, em Cuadernos de La Reja, n. 4.

[2] Santo Anselmo de Canterbury foi o primeiro a expressar esse dogma de fé nos termos mais explícitos de dívida e satisfação.

Excerto de Pe. ÁLVARO CALDERÓN, F.S.S.P.X; Prometeu – A Religião do Homem, Castela e Editora São Pio X, 2020, pp. 315-321.

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