UMA OPINIÃO SOBRE A ACTION FRANÇAISE, 1968 | por Pe. VICTOR-ALAIN BERTO

À carta particular que hoje torno pública, pois pode ser útil para outros além do destinatário, não pôde este dar mais do que resposta abreviada: o Sr. Lucien Thomas foi chamado de volta por Deus pouco tempo depois. Dessa resposta, destaco algumas linhas:

“Quanto aos ‘perigos’ que o Santo Padre podia discernir do lado da A.F., confio plenamente em vós. Sou desprovido de toda a ciência teológica. Se, quanto a mim, não vi nada de pernicioso, isso não quer dizer que perigos não houvesse. Tudo o que posso garantir é que, tanto ao meu redor como em mim mesmo, não fiz, no plano prático, nenhuma constatação desfavorável.”

Contrariamente ao que ele disse com excesso de modéstia, o Sr. Lucien Thomas não era “desprovido de toda a ciência teológica”. Esse veterano dos antigos combatentes foi um cristão muito instruído. É um enorme prazer, para mim, prestar esta homenagem à sua memória. Na luz em que entrou, ele sabe agora melhor do que eu o que pode haver de bem fundado em minhas observações sobre a importante obra à qual ele empregou suas últimas forças.

V.-A. B.

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8 de junho de 1965.

Senhor,

Antes de agradecer-vos por haver-me enviado o vosso livro, eu quis tomar o tempo de o ler [17. Lucien THOMAS, L’Action française devant l’Église, de Pie X à Pie XII (A Action Française perante a Igreja, de Pio X a Pio XII), Nouvelles Éditions Latines, 1965]; ele me interessou de tal maneira, que levei apenas quatro dias, a despeito das quatrocentas páginas de texto e de minhas ocupações ordinárias. “Interessou” é ainda dizer muito pouco. Pareceu-me que eu revivia esses sombrios, esses mortificantes anos 1926-1939, quando não somente os católicos que, a um ou outro título, pertenciam efetivamente à Action Française, mas muitos outros a quem se queria prejudicar imputando-lhes falsamente essa pertença, sofreram tão duramente. E os últimos, de certa maneira, mais que os primeiros, pois, sem que fossem canonicamente atingidos nem mesmo visados pelas censuras, a matilha que ladra redobrou contra eles os clamores e os espezinhou depois de havê-los derrubado. Vós pronunciais só de passagem o nome de meu venerado mestre, o Rev.mo Pe. Henri Le Floch. Fui durante cinco anos seu aluno; ele me admitiu em seguida à honra de sua amizade, e essa amizade só terminou junto com a vida dele – se bem que espero que ele ma estenda no Paraíso. É um fato certo que ele tinha, como o santo cardeal Billot, simpatias pela Action Française; é fato não menos certo que ele não pertencia a ela. As simpatias foram suficientes para que se lançasse contra ele em público a monstruosa, falsificação de documentos encobertos, escondidos, – escondidos do próprio Papa e restituídos aos arquivos do Santo Ofício somente por injunção cominatória de Pio XI. Não creio que o Pe. Le Floch tenha sabido um dia quem foi o inventor dessa perfídia; de minha parte, eu me pergunto ainda como foi possível encontrarem-se dois bispos pelo menos, Dom Gieure, de Bayonne, e Dom Durand, de Oran, para acolhê-la sem verificação e divulgá-la com tanta leviandade.

*

Eu vos deixarei contente, me parece, relatando-vos uma palavra de Maurras que fui o único a ter ouvido, nas circunstâncias seguintes: Maurras e Maurice Pujo retornavam de Palermo, onde eles haviam assistido às obséquias do Sr. Duque de Orléans. Eu não saberia precisar o dia com exatidão, mas foi em março ou abril de 1926; os dois viajantes fizeram escala em Roma. Alguns de meus confrades do Pontifício Seminário Francês se inscreveram no hotel deles. Vós sabeis até onde Maurras levava a preocupação com a polidez. Naquela mesma noite ou no dia seguinte, ele veio ao Seminário, acompanhado de Pujo, durante nossa recreação, e um dos que eles visitavam ofereceu-me de entrar com ele no parlatório. Não precisei que me dissesse outra vez e assisti ao colóquio, testemunha muda, assaz constrangido com a minha figura, mas muito contente de conhecer os rostos de dois líderes políticos cujos nomes estavam em todas as bocas, para o louvor ou para a vituperação.

Esse colóquio foi, no mais, difícil a ponto de ter seu lado doloroso, pois era preciso que Pujo, que sabia como se podia vencer a surdez de Maurras, repetisse a este, boca contra têmpora, as palavras dos interlocutores. Não tenho recordação alguma do que foi dito. Quando o sino soou o fim da recreação, nós nos levantamos para reconduzir ao portão do Seminário os ilustres visitantes. Acelerei o passo, não pedindo senão passar despercebido, mas Maurras percebeu-me mesmo assim, no último instante, na soleira, e voltou dois passos para trás, para me apertar a mão como ele havia acabado de fazer aos meus confrades. Ele não tinha nada a me dizer, eu era para ele totalmente desconhecido, e no entanto, enquanto ele segurava a minha mão na sua, disse-me estas palavras que fui o único a escutar, pois eu ficara para trás: “Quem vem a Roma, retorna a Roma.”

Nada seria mais raso que semelhante afirmação se a entendêssemos tão somente de uma viagem a refazer, e de resto eu não podia me enganar sobre a insistência com que Maurras articulou as três últimas sílabas. Em contrapartida, nada seria mais estranho que um compromisso de retorno espiritual a Roma, enunciado diante de um transeunte por um homem tão ciosamente reservado sobre seus percursos interiores. Na primavera de 1926, Maurras está ainda a um quarto de século de sua conversão. Não, nada de compromisso; mas talvez, e quase certamente, uma esperança. É ao menos a explicação que dei a mim mesmo, na ocasião, sobre frase tão surpreendente, que nada me dava ocasião de esperar e que recebi, direto no peito, de um homem a quem eu não podia imputar banalidade alguma. Ainda hoje, trinta e nove anos depois, continuo convicto de que Maurras, longe de ter jamais se comprazido no agnosticismo, sempre esperou que se reencontraria um dia super hanc Petram, sobre a Rocha romana, e que foi essa esperança que aflorou quando, com sua requintada polidez, ele procurou o que, à guisa de despedida, poderia deixar a um seminarista desconhecido.

Eu não podia responder nada, pois eu não teria sido ouvido. Eu me inclinei, nossas mãos se separaram, a porta se fechou. Eu nunca mais revi Maurras, jamais lhe escrevi e não recebi dele, pois, absolutamente nenhuma confirmação do sentido que dei então, e que dou ainda, às palavras dele. O que é certo e infinitamente mais importante é que esse sentido viu-se confirmado pelo acontecimento. Não sei se Maurras jamais refez a viagem a Roma, mas ele retornou a Roma.

*

Eu não teria fim se agora empreendesse estudar a explicação dada por vós da decisão tomada por Pio XI de obrigar os católicos a retirar-se da Action Française. Estou, de minha parte, muito longe de pensar que as considerações de ordem política tenham tido, no espírito de Pio XI, a importância que vós atribuís a elas. Admito de bom grado que Pio XI não mediu (e como ele teria podido fazê-lo?) que desastrosas consequências teria para a França a destruição da Action Française.

Muito provavelmente, ele não contava com destruí-la nem mesmo com fazer a ela grande prejuízo, pois ele a acreditava composta principalmente de incréus, ao passo que os católicos se encontravam nela em imensa maioria. Mas, tivesse ele conhecido com precisão a exata proporção de católicos entre os ligueiros, os Camelots du Roi [ala jovem da A.F. – N. do T.], os assinantes do jornal etc., tivessem-no certificado de que, mandando os católicos se retirarem da Action Française, ele dava nela um golpe quase mortal, ele ainda assim não deixaria de emitir e manter suas decisões, não por razões de política religiosa, como a suposta utilidade para a Igreja de uma poderosa “Mitteleuropa”, [N. do T. – Alusão do A. à velha calúnia de o Papa Pio XI ser filogermânico] mas por motivos de ordem especificamente, diretamente e imediatamente religiosa: Pio XI acreditou sinceramente e profundamente que a consciência dos católicos e a retidão do juízo deles corria grave perigo na Action Française, e tanto mais que, na Action Française, a fulgurante superioridade de Maurras fazia dele cada vez mais o chefe da ação política e o doutor do ensinamento político. Pio XI pensava (não era a priori inverossímil, e não se olvidou nada, do lado liberal, para fazê-lo pensar assim) que os católicos da Action Française estavam expostos a receber mais dia menos dia, desse líder descrente, ordens inexeqüíveis para uma consciência cristã. Por outro lado, perigo a seus olhos já presente e permanente, esses mesmos católicos, os dias não tendo para eles, como para todos, mais do que vinte e quatro horas, e as escolhas entre as diversas ordens de atividade sendo para eles, como para todos, inevitáveis, ao dedicarem-se à ação política, eles subtraíam tempo e forças da ação religiosa católica. Para dizê-lo de passagem, era completamente inoperante aos olhos de Pio XI alegar que o “politique d’abord” [“política em primeiro lugar”, célebre bordão da A.F. – N. do T.] não se entendia na ordem dos valores, mas na ordem de execução, como se põe o boi na frente da carroça; pois Pio XI não admitia o “politique d’abord” nem sequer na ordem de execução, sob forma tão abrupta; e, tendo o desígnio de constituir por toda a parte uma Ação Católica (com “A” maiúsculo), importava-lhe extremamente que, a essa “participação organizada dos leigos no apostolado da Hierarquia”, fossem empregados, em primeiro lugar, o tempo e as forças que deixavam aos católicos de cada país suas ocupações familiares e profissionais.

Por fim e sem dúvida acima de tudo, Pio XI julgava inaceitável a redução de toda a ciência política a não ser nada além de uma ciência empiriológica que não tem com a fé, a teologia e a moral católica senão relações extrínsecas, mas que desfruta, como a física ou a química, de autonomia intrínseca. E cumpre reconhecer que uma tal concepção é muito contestável. Sem que eu possa entrar aqui numa demonstração, não me parece que se possa negar que uma ciência política integral não é inteiramente empiriológica, e envolve concepções do homem e da cidade que não são as mesmas em ambiente cristão e em ambiente não cristão. Assim, quanto mais se repetia ao Santo Padre que não se era, nem se queria ser, mais do que uma “escola política”, a qual não tinha de ser, enquanto tal, nem cristã nem não cristã, não mais do que uma “escola de medicina” ou uma “escola artística” (a não ser, bem entendido, aceitando a regulamentação extrínseca dada pela moral), quanto mais, dizia eu, se repetia isso ao Santo Padre, mais se o desagradava. Como, lamentavelmente, se o desgostou muito mais ainda quando, durante “os anos sombrios”, se o censurou por intervir em matéria puramente temporal ou puramente cívica, na qual seu magistério não teria de se exercer, o que era dar-lhe uma lição de competência, que ele não podia aceitar.

O maior infortúnio foi que Pio XI nunca se tenha explicado doutrinariamente. Nem seu Discurso aos terciários franciscanos, nem a Alocução consistorial, nem, e muito menos, sua Carta ao Cardeal de Bordéus, satisfazem ao espírito.

Durante os três primeiros meses do caso, fora a afirmação reiterada de que ele agia por motivos unicamente religiosos, ele não disse nada de preciso, de esclarecedor, sobre a natureza desses motivos. Após o “non possumus” da Action Française, para todo o sempre deplorável, ele não pensou mais senão em fazer-se obedecer e abater os desobedientes.

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Do lado da Action Française, o que se havia de fazer? Teria sido preciso – mas é vão reescrever a história – que Maurras, já que ele não se convertia, já que ele queria menos ainda sequer aparentar exteriormente uma conversão, deixasse voluntariamente a um católico o primeiro posto na Action Française, mas isso tampouco queria ele, e seus amigos católicos não o queriam mais do que ele. Ou então talvez que os católicos royalistes[monarquistas], ou antes os royalistes católicos, se constituíssem numa formação distinta, que não estivesse ligada à Action Française, a não ser por coalizões temporárias e particulares. Mas também isso não era nada praticável, e a Santa Sé não teria melhor aceito o projeto, assim como não aceitara o de constituir, no interior da Action Française, grupos de católicos providos de capelães [18. Arranjo proposto na época pelo Sr. Jacques Maritain, no opúsculo Une opinion sur l’Action française et le devoir des catholiques (Uma opinião sobre a Action Française e o dever dos católicos), e expressamente rejeitado pela Santa Sé. (Nota de 1968)].

E o que mais, então? Eu não sei. Vós dizeis que a Action Française teve muita paciência; para mim, ainda não o suficiente. Havia que esperar, esperar, esperar até o esclarecimento que, afinal, teria vindo, sim. Certamente, não faltavam pessoas, e inclusive bem próximas do Santo Padre, que haviam jurado a morte da Action Française; porém, que o Santo Padre, pessoalmente, quisesse também a morte da Action Française, isso não é certo de modo algum, e não acredito nem um pouco nisso.

Tudo o que se depreende de seus atos é que ele quis retirar dela os católicos, deixando a Action Française tornar-se aquilo que ela pudesse ser sem eles, medindo mal provavelmente, e mais provavelmente ainda pouco preocupado em medir, a gravidade do golpe que ela recebia, convicto aliás – convicção de que ele nunca se afastou – de que a salvação mesmo temporal da França não estava de tal modo ligada à prosperidade da Action Françaiseque católicos devessem fazer do apoio e propagação desse movimento uma obrigação de consciência, sob pena de incivismo e de traição.

[19. O Papa dizia: “Obediência em primeiro lugar”. A Action Française dizia: “Explicações em primeiro lugar”. Era ao Papa que cabia ceder? E um outro Papa teria procurado algum meio de resolver essa confrontação? Mas era Pio XI quem reinava, e nenhum outro, Pio XI, penetrado até à medula da ideia de que um Papa tem como dever primordial fazer-se obedecer, de que a aparência mesma de uma fraqueza seria um atentado perpetrado por ele próprio contra a autoridade de que ele está divinamente revestido e da qual ele não é senão depositário, Pio XI que, ao longo de um reinado de dezessete anos, pôs ao serviço dessa alta e justa ideia da Soberania Pontifícia uma “vontade de bronze”.

Ponho essas últimas palavras entre aspas pelo seguinte:

Em julho de 1927, Pio XI decidiu a remoção do Pe. Le Floch, havia vinte e três anos Superior do Seminário Francês. Mandado a Roma para executar essa dura sentença, Mons. Le Hunsec, Superior Geral da Congregação do Espírito Santo, foi recebido em audiência na manhã de 5 ou 6 de julho. Ele suplicou ao Santo Padre que o desencarregasse de uma missão tanto mais dolorosa para ele quanto, antes de se tornar Superior do Pe. Le Floch, ele havia sido seu aluno no Escolasticado de Chevilly.

Pio XI deu um soco na mesa e disse com irritação: “Eu sou o Papa.”

Mons. Le Hunsec encontrou a coragem de insistir. Vendo que a resolução de afastar o Pe. Le Floch estava tomada sem possibilidade de volta atrás, pediu que, em vez de ter de comunicar uma remoção, ele fosse autorizado a pedir ao Padre Le Floch a demissão de seu posto.

– “É um rebelde, disse o Pontífice sem se acalmar, ele não obedecerá.”

– “Santíssimo Padre, ouso responder-Vos pela obediência dele. Suplico a Vossa Santidade permitir-me ao menos tentar.”

– “Seja, disse enfim Pio XI, mas vereis, eu vos digo que é um rebelde, ele não vos dará ouvidos.”

O Superior Geral estava bastante seguro do contrário. Saindo do Vaticano, lançou-se num dos raros táxis que havia então em Roma, ganhou o Seminário e disse ao Padre Le Floch que tinha ordem do Papa de exigir de imediato sua demissão. O Padre Le Floch entrou no escritório, redigiu a carta pela qual depunha seu cargo nas mãos do Papa, que Mons. Le Hunsec levou na hora de volta para o augusto destinatário, o qual não somente mostrou-se satisfeito, mas fez escrever, por seu Secretário de Estado, uma Carta em que ele declarou “prestar homenagem ao longo, intenso e meritório trabalho” do Padre Le Floch na chefia do Seminário e nos Dicastérios Romanos.

Pus em estilo direto unicamente as frases que estou em condições de relatar tais quais, palavra por palavra, escutei-as da boca de Mons. Le Hunsec numa longa conversa que tivemos face a face (éramos compatriotas, e ele me honrava com a sua benevolência) pouco tempo depois, no Bispado de Vannes, onde ele hospedava Mons. Tréhiou.

Ele concluiu sua narração após estas palavras: “Agora, faça-se comigo o que se quiser; nada pode me acontecer de pior; estou blindado.”

blindagem escondia mal a ferida.

O Pe. Le Floch deixou Roma em meados de julho. Assim que eu soube que ele havia chegado à sua casa de família em Kerlaz, e que meu reitor (como chamamos, na Bretanha, os curas das paróquias rurais) pôde me conceder alguns dias de liberdade, fui correndo até ele. Ele estava sozinho. Abraçamo-nos ternamente, e, como para cortar pela raiz toda pergunta sobre os meios possíveis de obter seu retorno a Roma, suas primeiras palavras foram: “Tudo é inútil, não há nada a tentar, o Papa tem uma vontade de bronze.”

Enquanto aplicada a Pio XI, a expressão é, pois, do Pe. Le Floch, e foi por isso que a pus mais acima entre aspas.]

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Uma última reflexão me ocorre (vosso livro me sugeriu mil, mas é preciso concluir). Parece-vos incompreensível que a Action Française, adversária constante, enérgica, judiciosa do modernismo, tenha podido ser ela própria taxada de modernismo. Reportai-vos, contudo, ao que eu disse mais acima sobre uma ciência política integral que pudesse se constituir exaustivamente sem nenhuma referência interna às verdades cristãs.

Era, ao menos à primeira vista, dizer da política o que diziam os primeiros modernistas da exegese e da história bíblica, que eles queriam fazer passar por disciplinas “independentes”, ainda que chegassem a conclusões inconciliáveis com o ensinamento da Igreja. Eu disse: à primeira vista, porque não há aí senão uma analogia, porque o caso da política como ciência deve ser estudado por si mesmo, e porque o grande infortúnio, ainda outra vez, foi que a Santa Sé não fez na ocasião exposição doutrinal sobre questão dessa importância. É verdade que ela não o fez tampouco desde então, e que os fiéis ainda estão reduzidos aí às opiniões dos teólogos particulares, que estão longe de ser unânimes.

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Paro por aqui, pois prometi deter-me. O que eu quis principalmente mostrar-vos e que não aparece o bastante, ao meu humilde parecer, no vosso livro, é que a pertença de católicos à Action Française, notadamente à “escola política” da Action Française, não subentendia uma evidente legitimidade. Sim, os pretensos fatos alegados contra ela não eram, em sua maioria, mais que revoltantes falsificações. Jamais a Action Française teve o intuito de restabelecer a escravidão; jamais foi impresso: “Defeso a Deus entrar em nossos observatórios”, jamais algum dogma cristão foi questionado. Essas acusações não valiam nada, e ainda é para mim um escândalo e um enigma que elas tenham sido as únicas, ou praticamente as únicas, que foram expressamente articuladas. Mas havia outra coisa, algo que Pio XI parece antes ter percebido por intuição que esclarecido discursivamente, algo que, não sendo de ordem dogmática, não por isso deixava de ser de ordem religiosa, algo que dizia respeito à atitude intelectual dos católicos se eles aceitassem, tais como eram, as sínteses, mesmo parciais, de Maurras.

Para tomar uma comparação, concordo que muito imperfeita, os católicos deviam receber Maurras como Santo Tomás de Aquino recebeu Aristóteles, ou seja, não somente completando-o e coroando-o com nexos externos, mas retificando-o e corrigindo-o sobre diversos pontos internos. Os católicos da Action Française da época, ao mesmo tempo que afirmavam com força e com inteira sinceridade que eles completavam e coroavam a síntese política maurrassiana pela aceitação integral do dogma católico, nunca pareceram entender que não era isso o que lhes era exigido. Por um erro inverso, eles se enganaram por completo sobre o que lhes era exigido. Em número elevadíssimo (e, se não me engano, esse foi o vosso caso), eles acreditaram que o Papa queria proibi-los de compartilhar, em matéria política concreta, quanto aos acontecimentos do dia, das preferências da Action Française e de seu chefe, como se o Soberano Pontífice tivesse querido, por exemplo, proibi-los de combater o pacifismo de Briand ou de apoiar o esforço de Poincaré em restaurar as finanças arruinadas pelo Cartel des Gauches [coalizão das esquerdas]. O que lhes era exigido se situava entre uma coisa e outra: mais do que a aceitação integral da fé católica; menos, e muito menos, do que deixar-se ditar, pela Santa Sé, sua atitude em “política acontecimental”, como se diz hoje.

Assim, Caro Senhor, a esse “testemunho sincero de um veterano” que me fizestes a honra de enviar-me, respondo com a apreciação não menos sincera de outro veterano, não dentre os aderentes da Action Française, mas dentre seus amigos, dentre aqueles que com-padeceram com ela, e que é também, e acima de tudo, um veterano da romanidade.

Suplico-vos queirais aceitar, Caro Senhor, a expressão de minha agradecida consideração,

V.-A. Berto.

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Eu teria podido me explicar menos longamente; aproveitei a ocasião de falar de acontecimentos já distantes, e para os historiadores futuros os menores testemunhos terão seu valor. (Nota de 1968).

Nota complementar

Parece-me que não me expliquei assaz claramente nas páginas precedentes. Não houve condenação doutrinal da Action Française como o foi a do Sillonem 1910, pois não havia matéria. Seja como movimento, seja como jornal, a Action Française foi sempre muito atenta em respeitar integralmente a doutrina católica, e não somente quanto às verdades propriamente reveladas, mas quanto àquilo que podemos chamar a filosofia cristã e o direito cristão, tais como encontramo-los expostos nos documentos pontifícios. Havia no Instituto da Action Française uma cátedra do Syllabus e o tomismo tinha ali todas as honras. O jornal, em polêmicas sem conta, defendeu os direitos da Igreja, as reivindicações dos bispos e dos católicos de França, combateu sem trégua os perseguidores. Os inimigos da Action Française tentaram fazer crer na “heresia da Action Française”, no “cisma da Action Française”; jamais essas enormidades receberam da Santa Sé nem sombra de uma confirmação. Os católicos da Action Française eram certamente irrepreensíveis em doutrina.

Mas o “doutrinal” não cobre todo o espaço do “religioso”. O mesmo Pontífice Romano é na Igreja o Supremo Pastor e o Supremo Doutor, mas sua função pastoral é muito mais ampla que sua função doutrinal. Ele pode ter de repreender e de corrigir em seus filhos (*) outra coisa que não erros doutrinários, como por exemplo um modo de ver muito pouco evangélico, uma falta de zelo apostólico, um entusiasmo demasiado exclusivo por objetos puramente temporais. Em tudo isso, o Supremo Doutor pode não encontrar nada que retificar, mas o Supremo Pastor pode encontrar muito o que retificar. E penso que é essa distinção entre o “doutrinal” e o “religioso” que melhor explica a atitude de Pio XI.
[(*) Mas Pio XI acreditava a Action Française composta sobretudo de não crentes…]
[N. do T. – Não sei dizer se essa nota marcada com asterisco, e não numerada como as demais, é um adendo de última hora do A. ou acréscimo da Redação de Itinéraires.]

De fato, noventa por cento dos aderentes católicos da Action Française não eram somente de doutrina irrepreensível, eram homens “religiosos”, frequentemente entre os melhores cristãos de suas paróquias, entre os mais fervorosos, entre os mais zelosos. Pio XI acreditou que, para estabelecer em França “a Ação Católica” tal como ele a definiu: “uma participação organizada dos leigos no apostolado da Hierarquia”, era preciso antes retirar da Action Française os católicos que a ela aderiam; muito embora essa adesão se limitasse o mais das vezes à simples assinatura do jornal. Muito pelo contrário, como o notou Madiran, os católicos ditos “da Action Française” teriam entrado em massa na “Ação Católica”. Acontece que “as árvores escondem a floresta”. Pio XI viu a orla da floresta: o jornal, a Liga, os Camelots du Roi, ou seja os elementos mais ativos, mais apaixonados, mais engajados na ação propriamente política; e, por um desastre suplementar nesse desastroso caso, não se logrou fazê-lo ver a floresta, os soldados rasos da Action Française, monarquistas certamente, mas acima de tudo católicos, não somente de doutrina, mas de ação cotidiana e, nessa ação cotidiana, muito mais católicos que royalistes. Pois essa infantaria não tinha todos os dias a ocasião de se dedicar à ação monarquista, mas tinha todos os dias e não deixava escapar a ocasião de se dedicar à ação católica, nas obras de piedade, nas obras caritativas, nas obras sociais. Esse devotamento mesmo, inimigos (e não a Santa Sé) fizeram dele um crime: era “pôr a religião ao serviço da política”. Mas isso era calúnia pura e simples, a calúnia mais negra, não somente a mais gratuita, mas a mais vergonhosamente contrária aos fatos mais comprovados. Teria sido infinitamente mais justo dizer que a multidão dos aderentes “médios” da Action Française punha a política ao serviço da religião; pois se a sua opção política tinha antes de tudo, como é inevitável, razão política, o bem da pátria que ela via, conforme uma liberdade que lhe foi sempre explicitamente reconhecida, na restauração monárquica, essa opção, para um número elevadíssimo, tinha também razão religiosa: trabalhava-se para o restabelecimento da monarquia, porque disso se esperava o fim do laicismo estatal que, sob o mito mentiroso da neutralidade, assassinava o Cristianismo nos humildes, nos pobres e nos pequenos do povo simples da França.

Essa esperança era quimérica? O quanto se queira. Quimérica ou não, era um motivo religioso de ação política, muito forte nos católicos ditos da Action Française, principal mesmo num grande número e irredutivelmente incompatível, em uma mesma consciência, com a perversa vontade de “pôr a religião ao serviço da política”.

Mas, em contrapartida, não punham eles demasiado exclusivamente suas esperanças de um melhoramento religioso na “pré-condição” de uma restauração política? Essa reprimenda, ao menos, poderia parecer bem fundada, e parece realmente que Pio XI considerou-a bem fundada, e merecida a grosso modo, embora em graus diversos, pelo conjunto dos católicos aderentes à Action Française:

a) o Papa podia julgar circunstancialmente inoportuno, para o próprio bem da religião, que católicos dessem uma motivação religiosa, mesmo acessória, a uma ação política;

b) ele podia achar mau em si, mau por princípio, que católicos dessem motivação religiosa a um tipo de ação política visando a derrubada do regime estabelecido, e, se fosse o caso, por um coup de force (“Si le coup de force est possible…” [“Se o ‘golpe de força’ for possível…”] é o título de um opúsculo de Maurras), enquanto que, segundo a teologia católica, a única motivação, mesmo política, que torna lícito aos cidadãos, cristãos ou não, semelhante tipo de ação é o caráter evidentemente tirânico do regime estabelecido, com fundada esperança de melhora.
[20. Eu me exprimiria com mais nuanças hoje. Por um lado, um “coup de force” não é necessariamente uma revolução violenta e sangrenta: há disso exemplos recentes. Por outro lado, pode haver, por parte do poder estabelecido, uma injustiça tão cruel e tão perseverante que, mesmo aquém da “tirania” em sentido estrito, seja cristãmente permitido fazê-la cessar pela força; ou então, ao contrário, o poder pode cair num tal estado de decomposição que a nação se veja em anarquia, que é um mal não menor que a tirania, não sendo outra coisa que a tirania dos piores; e nesse caso ainda, estando salva a moralidade dos meios, o “coup de force” é cristãmente legítimo por parte dos melhores. (Nota de 1968).]

c) mais geralmente ainda, ele podia julgar necessário recordar que uma melhora religiosa só pode ter como causa própria (sob a graça divina, bem entendido) uma ação religiosa, e que uma ação política nunca pode, para melhorar as coisas, fazer mais que proporcionar condições favoráveis, mas extrínsecas, a uma melhora religiosa;

d) ele podia temer que a célebre palavra de ordem: “Politique d’abord”, infatigavelmente repetida e inculcada pelo jornal, pelos panfletos, pelas conferências, conduzisse os “católicos da Action Française” a empregar as suas forças, o seu tempo, o seu dinheiro, unicamente à ação política, ao ponto de não lhes restar mais nem dinheiro, nem tempo, nem forças, para a ação religiosa propriamente dita; é um ponto no qual já toquei no corpo da carta precedente, e eu disse também mais acima que, na realidade, esse perigo não existia de modo algum para a massa dos “católicos da Action Française”, que eram pelo contrário, em muito grande número, empenhados nas obras de ação propriamente religiosa;

e) por fim, e é também um ponto de que já falei, “a verdade do juízo prático se mede pela conformidade deste à retidão do querer”. Uma vontade que não está fixamente orientada, tanto quanto o permite a fraqueza humana, para o fim último está sujeita a escolher mal seus fins próximos, e quando essa vontade é a de um líder apaixonadamente escutado, as más escolhas que ela poderá fazer arrastarão aqueles que o seguem. Não é suficiente responder que o não crente, cuja vontade é mal orientada com relação ao fim último, permanece tão capaz quanto o crente de discernir e de ir atrás de fins próximos honestos. Em matérias de ordem puramente natural, como a biologia ou a astronomia, sim; numa matéria que envolve a todo instante o juízo moral, como a política, não, o perigo não é negável de que cristãos possam se ver levados, sob um chefe incréu, a atitudes inaceitáveis para a consciência cristã. Os “católicos da Action Française” estavam convictos de que isso não aconteceria nunca; Pio XI não partilhava dessa convicção.

Aí estão, pois, cinco motivações religiosas embora não “doutrinais” que puderam, umas ou outras, ou todas ao mesmo tempo, determinar a decisão de Pio XI. É possível que tenha havido outras. Eu já o disse, o Papa nunca se explicou sobre isso: mas, relendo depois de quarenta anos os três atos pontifícios em que ele visa – sem nomeá-los – os “católicos da Action Française”, vê-se como o seu pensamento permaneceu compactado e obscuro, e que somente a sua vontade foi clara. Para mim, que “vivi” esses acontecimentos, não tenho hoje mais certeza do que tinha então de que a “reconstrução” que propus acima das motivações de Pio XI esteja correta. Ela deve aproximar-se da verdade num ou noutro ponto e tem, ao menos, a vantagem de mostrar que Pio XI pôde ter, conforme sua afirmação reiterada, motivos religiosos de querer que os católicos se retirassem da Action Française, mesmo que esta não oferecesse matéria para uma condenação doutrinal.

As polêmicas que inundaram o caso não esclareceram nada, pelo contrário, só fizeram tudo embaralhar. Não havia absolutamente em França adversários declarados da Action Française além daqueles que eram chamados ainda (o termo envelheceu desde então) os “católicos liberais”. Pio XI, que não tinha nada de um “liberal”, havia provavelmente (aqui também faço uma conjectura) contado, para apoiar suas decisões, com uma espécie de “terceira força”; ele foi rapidamente desenganado e desapontado. Uma vez expulsos de todos os “postos-chave” os aderentes ou os amigos, mesmo mornos, da Action Française, não mais restaram senão “liberais” para ocupar esses postos. Eles não perderam a oportunidade. O Pontífice não contava com semelhantes auxiliares; ele se absteve de dar-lhes o seu respaldo, até o dia em que, como era inevitável, ele teve de assinalar sua reprovação, após esses católicos terem tomado, sobre a guerra da Espanha, posição contrária àquela que ele próprio tomara publicamente. Havia muitos anos já, que ele abrandara muito sua severidade, sem contudo levantar as sanções de foro externo. Atribui-se a ele ter dito que deixava para o seu sucessor o encargo de pôr fim ao caso. Efetivamente, alguns meses após a sua exaltação, Pio XII levantou as sanções.

O “caso da Action Française” havia terminado. As consequências, estas, perduram ainda.

V.-A. B.

Trad. br. por F. Coelho, de: “Une opinion sur l’Action française”, in Itinéraires, n.º 122, de abril de 1968, pp. 77-92.

Um comentário em “UMA OPINIÃO SOBRE A ACTION FRANÇAISE, 1968 | por Pe. VICTOR-ALAIN BERTO

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