NOVO PENTECOSTES, 1979 | por Mons. ANTÔNIO DE CASTRO MAYER

Os Primórdios do Cristianismo foram assinalados por uma especial efusão do Divino Espírito Santo. Com sua vinda estrondosa, inaugurou-se a Igreja. Já nesse mesmo dia de Pentecostes, falou ele ao coração de numerosa multidão, através do dom das línguas. Cada um do povo ouvia os apóstolos na sua própria língua sem atinar bem em qual delas eles se exprimiam. É ocioso lembrar que a multidão reunia gente de diversas nacionalidades.

Essa maravilha, e outras mais, se tornaram comuns naquelas pioneiras comunidades cristãs. Assim dispunha a Providência para que se afervorasse e robustecesse a Igreja de Cristo, feita para desafiar os séculos e todas as potências do mal. Mas, firmada a Santa Igreja, tais prodígios não foram mais necessários. A própria Igreja, que se impunha contra as máximas e assaltos do mundo, era prova visível da ação vivificante do Espírito Santo no seu seio.

Além disso, a vaidade humana esgueira-se mesmo onde ela menos se justifica. Nem sempre os gratuitamente agraciados com os dons do Paráclito se mantiveram dentro da obediência aos legítimos pastores da grei de Cristo, a quem competia ordenar as manifestações carismáticas nas assembléias cristãs. Houve reuniões cristãs, com a presença de tais carismáticos, que se transformavam num conjunto de loucos gritando e gesticulando como alucinados. São Paulo os repreende, e adverte que tudo deve fazer-se ordenadamente, porquanto tais dons não são a glória dos indivíduos, mas concessões em benefício da comunidade. Somente dentro da obediência aos hierarcas é que eles podem produzir fruto. Aliás, acima de todos os dons está a caridade, que é permanente. Não assim os demais carismas.

Eis que por volta do século III já são raros os dons carismáticos.

Mas, a glossolalia era um fenômeno singular e muito aliciante. Ótimo para propaganda e para atrair gente sequiosa do maravilhoso e, sobretudo, de uma religião fácil, sem compromissos. Assim, no século passado, dois pastores, um metodista e outro batista, separaram-se de suas confissões e fundaram uma nova seita com base no batismo do Espírito Santo, com a sequela dos antigos dons carismáticos: glossola. lia, profecia e dom das curas. Depois da Segunda Guerra Mundial, o movimento transpôs as fronteiras da Igreja Católica, e instaurou nela a renovação carismática, o neo-pentecostes, que faz acreditar tenha reaparecido a efusão do Espírito Santo, característica dos primeiros tempos do Cristianismo. Também neste pentecostalismo se dá o chamado batismo do Espírito Santo pela imposição das mãos.

Buscando, nas publicações dos fautores de semelhante “renovação”, o que está por baixo das manifestações sensacionalistas, encontramos afirmativas que preocupam. Assim, na ordem religiosa, o Pe. Barrufo, autorizado divulgador do movimento, declara que ” … os grupos de oração, nos quais se traduz o movimento carismático, têm em vista uma experiência de comunhão autêntica com Deus Pai (grifo nosso). Esta experiência se opera na docilidade ao Espírito Santo“. (Apud “Inconformidad”, Colômbia, n° 6, p. 23). Semelhante experiência censurou-a São Pio X, como a essência do Modernismo, que o faz herético porque partidário de uma religião sem dogmas, constituída apenas de sentimento.

E, realmente, numa religião, ou melhor, igreja assim concebida, fundam os carismáticos a esperança de seu ideal, que é de ordem sócio-econômica, como escreve o Pe. Haroldo Cohen, membro do comitê dirigente norte-americano:

Na medida em que crescemos, (…) sinto que o Espírito Santo nos guiará até (…) reformar aquelas estruturas da sociedade, que nos oprimem hoje. Quando as igrejas, e por fim, a única Igreja, depois de ter-nos unido a todos, estenderem a mão, o domínio de Jesus será restaurado verdadeiramente no mundo inteiro (Inconformidad, n. c. p. 29).

Explica-se que Paulo VI, homem aberto a todos os movimentos, se sentisse, não obstante, na obrigação de advertir os carismáticos da necessidade de aderirem com docilidade, à autêntica doutrina da Igre-ja, e de lembrar que não a cada um, mas à hierarquia, pertence declarar essa autenticidade.

Extraído de “Novo Pentecostes, escrito em 03/06/1979, Ontem Hoje Sempre, nº 24, maio/junho de 1994. Do livro O pensamento de Dom Antônio de Castro Mayer – Textos Selecionados, Permanência, 2010, pp. 23-24.

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