DUAS EXPLICAÇÕES RECENTES DA  NECESSIDADE DA IGREJA PARA A SALVAÇÃO, 1946 | por Mons. JOSEPH CLIFFORD FENTON

O índice do Enchiridion Symbolorum de Denzinger remete a vinte afirmações ou explanações, em vários documentos do Magistério eclesiástico, do dogma de que não há salvação fora da Igreja Católica. Desde o outono de 1952, temos também disponível o texto completo da Carta do Santo Ofício Suprema haec Sacra, que contém a mais completa e detalhada exposição desse dogma que já foi dada num documento eclesiástico doutrinalmente autoritativo. A carta, incidentalmente, datava de 8 de agosto de 1949, mas o seu texto completo foi publicado somente três anos depois.

O que a Suprema haec Sacra e os vários documentos da Igreja docente coligidos no Enchiridion Symbolorum têm a dizer sobre a necessidade da Igreja para a salvação é definitivamente coisa de interesse prático não somente para os teólogos profissionais. Esse ensinamento da ecclesia docens [Igreja docente] destina-se à inteira Igreja, a todo o povo de Deus. O dogma de que não há salvação fora da verdadeira Igreja de Jesus Cristo faz parte, e parte importante, daquela mensagem sobrenatural que chamamos de a Revelação pública divina. O povo tem o direito de receber a verdade divinamente revelada que Nosso Senhor dirigiu a todos os Seus discípulos.

No entanto, é axiomático que de longe a maior parte do povo não obtém – e, falando em termos práticos, não tem como obter – as suas explanações do dogma Católico diretamente dos documentos autoritativos do Magistério eclesiástico. Nos dias de sua juventude, adquirem esse conhecimento de maneira ordenada, embora necessariamente elementar, mediante suas lições de catecismo. Depois, ao longo da vida, recebem suas instruções em questões de fé dos sermões que ouvem e dos livros e periódicos católicos que leem. Em nosso tempo, a palavra impressa parece desempenhar um papel sempre crescente nesse processo de instrução.

Por isso, o livro ou o artigo que trate de questões de doutrina católica tem de ser julgado segundo parâmetros inexoravelmente elevados. Homem nenhum escreve uma obra doutrinal que não seja para convencer. É uma consequência necessária da atividade dele que as pessoas que leem sua publicação tenderão a acreditar que a explanação de um dogma Católico dada por ele é verdadeira ou, no mínimo, aceitável. Se ele for infeliz o bastante para apresentar esse ensinamento imprecisamente, o resultado final seria que alguém por cuja salvação Nosso Senhor morreu na Cruz viria a aceitar como ensinamento de Deus algo que não está na mensagem revelada d’Ele, ou viria a rejeitar alguma verdade que Deus efetivamente revelou. Objetivamente, mal poderia haver frustração mais fundamental da atividade de quem se propõe a trabalhar como embaixador de Cristo do que a produção de um tal efeito.

Assim como não existe nenhuma função maior que a de embaixador de Cristo: alguém que tem o privilégio de trazer as verdades divinas d’Ele para as pessoas por quem Ele morreu, assim também não há objetivamente maior infortúnio do que levar as pessoas a formarem uma interpretação incorreta do ensinamento divino. Há consequências malignas práticas e concretas da instrução doutrinal inexata no campo da moralidade. Assim, é bem possível que uma noção incorreta de Igreja, adquirida via alguma apresentação imperfeita da doutrina católica, possa ser fonte de conduta lamentável para com a Igreja mesma. Contudo, o mal do ensinamento doutrinal impreciso não deve, em última análise, ser calculado em termos dos efeitos adversos que possam ou não possam decorrer dele na ordem prática. A representação falsa da mensagem divina de Nosso Senhor é calamitosa em si mesma, quando a consideramos objetivamente.

Claro está que um livro ou artigo doutrinal faz o seu trabalho propriamente quando, e somente quando, o seu conteúdo está estritamente em linha com os pronunciamentos autoritativos pertinentes do Magistério eclesiástico. Naturalmente, isso não significa que o livro ou artigo em questão deva limitar-se a uma tradução literal e seca dos documentos eclesiásticos oficiais que dizem respeito ao assunto tratado no livro ou artigo. Mas, por outro lado, nenhuma explanação literária de um dogma estará em linha com o ensinamento do Magistério se ela apresentar como aceitável ou como verdadeira alguma proposição manifestamente contradita por – ou incompatível com – uma declaração da ecclesia docens sobre o tema. E, se o ensinamento contido nalgum livro ou artigo não está completamente de acordo com os ensinamentos do Magistério da Igreja, aí então definitivamente não é alimento intelectual salubre para os filhos da Igreja.

Recentemente, dois livros muito bem escritos foram publicados em nosso país [os E.U.A.]. Nenhum dos dois está primordialmente preocupado com o dogma da necessidade da Igreja para a obtenção da eterna salvação, mas ambos oferecem explicações deste ensinamento. Um desses livros, The Living Christ,1 do Pe. John L. Murphy, já conquistou o amplo reconhecimento que lhe pertence. O outro, Wisdom Shall Enter,2 do Pe. Leo J. Trese, indubitavelmente se mostrará igualmente popular. Os Padres Murphy e Trese certamente devem ser contados entre os mais capazes expositores do ensinamento Católico em nosso país na hora presente.

[1. John L. Murphy, The Living Christ (Milwaukee: The Bruce Publishing Company, 1952), xii+228pp.] 

[2. Leo J. Trese, Wisdom Shall Enter (Chicago: Fides Publishers, 1954), 144pp.] 

É precisamente por causa da capacidade extraordinária desses dois escritores, e em virtude da extensa circulação que as mais recentes produções literárias deles alcançaram e sem dúvida continuarão a receber, que é importante examinar o que os livros deles têm a dizer sobre a necessidade da Igreja para a salvação. Inevitavelmente haverá uma vasta porção do nosso povo que aceitará como verdadeiras e como genuína doutrina Católica as explanações desse dogma contidas nesses dois livros. Objetivamente as pessoas sofrerão dano se os ensinamentos contidos nesses livros forem de qualquer forma opostos a – ou incompatíveis com – o que os documentos autoritativos do Magistério eclesiástico nos dizem acerca da significação do dogma de que não há salvação alguma fora da Igreja Católica.

Há algumas imperfeições do capítulo do Padre Murphy sobre “A Igreja e a Salvação” que impedem que esse capítulo atinja o nível do restante do livro. Elas devem ser corrigidas nas tiragens subsequentes que esse volume parece fadado a alcançar.

1. Ele parece dar a impressão de que não houve qualquer variância genuína e importante entre os teólogos Católicos na explicação que eles dão ao dogma. Somos informados de que “Os teólogos consideraram o axioma [‘Fora da Igreja não há salvação’] de diferentes maneiras nas tentativas que fazem de explicá-lo, mas basicamente todos eles dizem a mesma coisa; é mais uma questão de palavras que de ideias… A despeito das nuanças que variam, sem embargo, todos eles nos dizem a mesma coisa.”3 [3. The Living Christ, p. 105.]

Na Humani Generis, porém, o Papa Pio XII menciona, entre os “frutos envenenados” das novidades doutrinárias com que está preocupado principalmente nesta Carta Encíclica, o fato de que “Alguns reduzem a uma fórmula vazia a necessidade de pertencer à verdadeira Igreja para que a eterna salvação possa ser obtida.”4 [4. DB, 3019.] De acordo com o Soberano Pontífice, então, havia teólogos que explicavam o dogma inadequadamente e incorretamente. O ensinamento de que todos os teólogos nos dizem a mesma coisa, ou mesmo aproximadamente a mesma coisa, acerca do dogma da necessidade da Igreja para a salvação está em descompasso com a efetiva declaração do Magistério eclesiástico sobre a matéria.

2. O Padre Murphy transforma em problema a justaposição de “duas verdades aparentemente opostas”, expostas pelo Papa Pio IX na Singulari Quadam. O autor de The Living Christ escreve que o Papa Pio IX “primeiro nos diz que ‘devemos, com efeito, crer com fé que ninguém pode ser salvo fora da Apostólica Romana Igreja, que ela é a única arca da salvação, que todo aquele que não tiver entrado aqui perecerá no dilúvio’; todavia por outro lado, ele adiciona que ‘devemos igualmente crer com certeza que aqueles que laboram debaixo de ignorância da verdadeira religião, se tal ignorância for invencível, não são culpados ante os olhos do Senhor.’”5 [5. The Living Christ, pp. 105 ss.] 

Já no texto da Singulari Quadam, contudo, não há o menor vestígio de qualquer oposição nem sequer aparente entre os dois princípios enunciados pelo Papa Pio IX. Conforme o segundo desses princípios, “qui verae religionis ignorantia laborent, si ea sit invincibilis, nulla ipsos obstringi huiusce rei culpa ante oculos Domini.”6 [6. DB, 1647.] [N. do T. – Tradução livre: “aqueles que laboram sob ignorância da verdadeira religião, se tal ignorância for invencível, não são culpados dessa ignorância ante os olhos do Senhor.”]. A tradução dada em The Living Christ não leva em conta nenhuma as palavras que destaquei em itálico ao citar a passagem do original. Quando essas duas palavras são excluídas da passagem, temos uma assertiva cabal e absoluta no sentido de que as pessoas que são invencivelmente ignorantes da verdadeira religião estão sem culpa diante de Deus, afirmação esta que faria a ignorância invencível acerca da verdadeira religião ficar um pouco parecida com um sacramento. Quando, em contrapartida, olhamos para essa passagem exatamente tal como o Papa Pio IX a apresentou, verificamos que ela significa que a ignorância invencível acerca da verdadeira religião não é um pecado, que as pessoas não serão culpadas e punidas por Deus por serem invencivelmente ignorantes acerca da verdadeira religião. Visto o contexto da Singulari Quadam, este segundo dos dois princípios expostos pelo Papa Pio IX mostra ser um desenvolvimento da asserção do grande Sumo Pontífice de que “os dogmas da Fé Católica não são de modo algum opostos à divina misericórdia e justiça.”7 [7. DB, 1646.] 

3. O Padre Murphy enfraquece e confunde seriamente a explicação dele ao falar ora de “necessidade de pertencer à Igreja”, ora de “necessidade de ser membro da Igreja”. Ele faz a afirmação de que “Embora o axioma ‘Fora da Igreja não há salvação’ indubitavelmente se refira à condição de membro real da Igreja visível, há ainda um sentido mais profundo envolvido em tal afirmação”.8 [8. The Living Christ, p. 116.]

Não pareceria haver muita desculpa para imaginar, ou para levar o público leitor católico a imaginar, que o axioma de nenhuma salvação fora da Igreja “indubitavelmente se refira à condição de membro real da Igreja visível”. Não há declaração alguma do Magistério eclesiástico de que a condição de membro real da Igreja é necessária para a obtenção da eterna salvação. O Quarto Concílio Lateranense designa a Igreja como aquela “fora da qual absolutamente ninguém (nullus omnino) é salvo”9 [9. DB, 430.]. A Unam Sanctam do Papa Bonifácio VIII fala dela como aquela “fora da qual não há nem salvação nem remissão dos pecados”10 [10. DB, 468.]. A mais vigorosa e impressionante de todas as mais antigas declarações autoritativas deste dogma, a proferida pelo Concílio de Florença em seu Decreto para os Jacobitas, afirma que aqueles “intra catholicam Ecclesiam non exsistentes” irão para o fogo eterno “nisi ante finem vitae eidem [Ecclesiae] fuerint aggregati”11 [11. DB, 714.] [N. do T. – Tradução livre: “aqueles ‘que não estiverem dentro da Igreja Católica’ irão para o fogo eterno ‘a não ser que antes do fim da vida se agreguem à mesma Igreja’.”]. A Humani Generis menciona a “necessitatem pertinendi ad veram Ecclesiam, ut sempiterna attingatur salus”12 [12. DB, 3019.] [N. do T. – Tradução livre: “necessidade de pertencer à verdadeira Igreja, para alcançar a eterna salvação”.]. Em caso nenhum há qualquer referência a uma necessidade de pertença como verdadeiro membro à verdadeira Igreja.

Suprema haec Sacra é bastante explícita sobre esse ponto. “Quandoquidem ut quis aeternam obtineat salutem, non semper exigitur ut reapse Ecclesiae tamquam membrum incorporetur, sed id saltem requiritur, ut eidem voto et desiderio adhaereat.”13 [13. AER, CXXVII, 4 (Out. 1952), 308.] [N. do T. – Tradução da tradução oficial em inglês: “Haja vista que, para que alguém obtenha a salvação eterna, nem sempre é preciso que esteja incorporado à Igreja realmente como membro, mas é necessário que no mínimo esteja unido a ela por desejo e aspiração”.]. Noutras palavras, conforme essa instrução autoritativa emitida pelo Santo Ofício por ordem do próprio Santo Padre, o dogma de que não há salvação fora da Igreja definitivamente não significa que um homem tem de ser verdadeiramente membro da Igreja para ser salvo.

O livro do Padre Murphy foi escrito alguns meses antes da publicação do texto integral da Suprema haec Sacra. É lastimável, entretanto, que o mais capaz dos livros recentes que tratam da necessidade da Igreja para a salvação contenha algum ensinamento que não esteja de acordo com a doutrina exposta naquela instrução do Santo Ofício. O Magistério eclesiástico, que reconheceu e venerou como Santos a homens que sofreram o martírio sem terem tido a oportunidade de ser batizados e, destarte, de obter a real condição de membros da Igreja, definitivamente não deve se representado para o nosso povo como ensinando que a condição de membro real da Igreja é necessária à salvação.

4. Em The Living Christ, duas explanações do dogma diversas e mutuamente incompatíveis são descritas como diferindo apenas numa questão relativamente desimportante de terminologia. Ficamos sabendo que “Quer se deseje interpretar o axioma [‘Fora da Igreja não há salvação’] como referente apenas à verdadeira condição de membro e considerar outros fora da Igreja como ‘exceções’ queridas por Deus; ou quer se deseje interpretá-lo como significando que ‘fora da verdadeira condição de membro da Igreja ou de um implícito ou explícito desejo de ser membro não há salvação’, ele nos diz a mesma coisa. Os termos são realmente uma questão sutil para os teólogos debaterem.”14 [14. The Living Christ, p. 117.]

O autor de The Living Christ deixa bem claro que prefere interpretar a afirmação de que não há salvação fora da Igreja em termos de pertença como membro da Igreja antes que em termos de ou ser membro ou ter um desejo de ser membro. Ele declara que alguns “explicaram o axioma como dizendo que se alguém não for membro da Igreja ou realmente ou por desejo, não tem salvação”.15 [15. Ibid., p. 116.] Mas, de acordo com ele, “Essa interpretação parece mesmo forçar o sentido do próprio axioma, que parece ter sempre indicado o projeto ideal da economia de Deus; e, além disso, o próprio termo ‘membro por desejo’ está aberto à crítica de ser inglês ruim e teologia desajeitada.”16 [16. Ibid.]

As críticas do Padre Murphy contra o uso da expressão “membro por desejo” são bem justificadas no caso daquelas pessoas que quisessem falar de tal forma a passar a impressão de que um membro por desejo seja uma espécie de membro da Igreja, que tem uma condição de membro de algum modo distinta daquela de um membro in re. Um procedimento desses é definitivamente inglês ruim e teologia desajeitada. Quando, por outro lado, dizemos que um homem pode obter a eterna salvação como membro da verdadeira Igreja ou então como alguém que deseja pertencer a ela, nós simplesmente estamos repetindo o ensinamento da própria Suprema haec Sacra. Esse ensinamento não “força” o sentido do axioma “Fora da Igreja não há salvação” de maneira nenhuma. É, pelo contrário, parte da interpretação dada pela própria Igreja ao dogma do qual o axioma mesmo é expressão.

Se todavia escolhermos interpretar esse axioma como referente apenas à condição de membro real da Igreja, considerando outros fora da Igreja como “exceções” queridas por Deus, estamos oferecendo uma explanação do dogma e do axioma bastante incompatível com as declarações explícitas do Magistério eclesiástico. O axioma, em última análise, não é nada mais nem menos do que a afirmação popular e comum de um dogma que a ecclesia docens expôs e explicou muitas vezes. Os pronunciamentos do Magistério com respeito à necessidade da Igreja para a salvação são sempre irrestritos e universais. Assim, o Magistério nos diz que absolutamente ninguém(nullus omnino) é salvo fora da Igreja e que nenhum daqueles que não estejam dentro da Igreja Católica (nullos intra catholicam Ecclesiam non exsistentes) pode se tornar partícipe da vida eterna. Afirmações como estas não admitem exceções. Se houver indivíduos que alcancem a eterna salvação fora da Igreja Católica, de acordo com a forma como o próprio Magistério interpreta o sentido da palavra “fora” nesse contexto, aí então essas declarações da ecclesia docens simplesmente não são verdadeiras.

Assim, as duas explicações do axioma que o Padre Murphy oferece como, ao menos na prática, equivalentes, na realidade são discrepantes e mutuamente incompatíveis. Uma calha de ser afirmação do ensinamento da própria Igreja. A outra envolve oposição às declarações autoritativas do Magistério da Igreja. O fato de que o próprio grande Cardeal Newman ensinou que o dogma da necessidade da Igreja para a salvação admitia exceções não justifica de maneira alguma o emprego desse artifício.17 [17. Cf. Certain Difficulties Felt by Anglicans in Catholic Teaching [Certas Dificuldades Com o Ensinamento Católico Sentidas pelos Anglicanos] (London: Longmans, Green, and Co., 1896.), II, 336.]

5. O Padre Murphy debilitou sua explanação do dogma pelo uso do termo “ideal”. Somos informados de que “Temos aqui a afirmação do ideal: que todos e cada um dos homens na era do Novo Testamento devem tornar-se realmente membros dessa Igreja visível estabelecida por Cristo, e através dela receber as graças da Redenção. Contudo, Deus soube desde toda a eternidade que haveria realmente homens que não se tornariam membros dessa Igreja, sem qualquer culpa própria deles.”18 [18. The Living Christ, p. 106.] Uma vez mais, somos informados de que “Encarado dessa forma, o axioma pode ser entendido como referente ao plano ideal da Providência; é a regra e não a exceção. Aqueles que são salvos fora da Igreja são as exceções…”19 [19. Ibid., p. 107.]. Ademais, ele afirma que “É a ordem primordialmente desejada por Deus, a regra que Ele estipula, que todos devam ser salvos dentro da Igreja. Ao estabelecer essa regra geral, porém, Deus não malogrou em prover àqueles que podemos chamar de exceções.”20 [20. Ibid.]

Vemos assim a equivalência prática, para a explicação do dogma dada pelo Padre Murphy, entre ser realmente membro da Igreja e estar “dentro” da Igreja. Isso não está de acordo com o ensinamento do Magistério. Igualmente, há uma tendência a enxergar no axioma meramente uma declaração de um decreto antecedente da vontade divina. O corpo de ensinamentos autoritativos do qual o axioma é a expressão comumente empregada, contudo, não suporta uma tal interpretação. Todos estes alegam ser declarações de fatos reais. Pretendem ser expressões da vontade consequente de Deus. Significam, segundo a Suprema haec Sacra, que a Igreja é necessária para a salvação com necessidade de meio, bem como com necessidade de preceito. A Igreja não é meramente uma entidade que era necessária para todos segundo um decreto antecedente da vontade divina. Ela é uma sociedade, o Corpo Místico de Jesus Cristo, fora da qual absolutamente ninguém pode ser salvo realmente.

O enfoque do Padre Trese a esse ensinamento é um tanto diferente do do Pe. Murphy. Ele procura, no melhor sentido do termo, popularizar o ensinamento católico. Escreve simples e incisivamente, para explicar os fundamentos da nossa doutrina.

Não obstante, é em razão de sua própria tendência à simplicidade que Wisdom Shall Enter apresenta uma explicação um tanto malvinda acerca da necessidade da Igreja para a salvação. “Estes então”, diz-nos o Padre Trese, “são aqueles para os quais é verdadeiro dizer que: ‘Fora da Igreja não há salvação’: o Católico que já tem a fé e não tem como perdê-la sem culpa própria; e o não-Católico que sabe, ou ao menos suspeita, que a Igreja Católica é a de Cristo.”21 [21. Wisdom Shall Enter, p. 142.]

Wisdom Shall Enter foi publicado um bom tempo depois da publicação do texto completo da Suprema haec Sacra. Nesta autoritativa carta do Santo Ofício, enviada por ordem do próprio Santo Padre, nós lemos: “Neque enim in praecepto tantummodo dedit Salvator ut omnes homines intrarent Ecclesiam, sed statuit quoque Ecclesiam medium esse salutis, sine quo nemo intrare valeat regnum gloriae caelestis.”22 [22. AER, CXXVII, 4 (Oct. 1952), 308.] [N. do T. – Tradução da tradução oficial em inglês: “Não somente o Salvador ordenou que todas as nações entrassem na Igreja, mas Ele também decretou que a Igreja fosse um meio de salvação sem o qual ninguém pode entrar no reino da glória celestial”.]. Isso é parte da explicação da Igreja mesma ao dogma de que não há salvação fora da Igreja. Por isso, as pessoas são seriamente desencaminhadas se são persuadidas a crer que esse dogma se aplica apenas aos Católicos e àqueles não-Católicos que sabem, ou suspeitam, que a Igreja Católica é a verdadeira Igreja de Jesus Cristo. No entanto, é precisamente esta a impressão que se recebe de uma afirmação de que “estes…são aqueles para os quais” o dogma se aplica.

O Padre Trese, é verdade, ensina que o estado de espírito de um protestante (ou de um judeu ou muçulmano) que está sinceramente convicto de que a religião dele é a verdadeira religião, e que corresponde às expectativas da sua religião dando o melhor de si, é este: “Eu quero fazer tudo o que Deus pede de mim, não importa o quê.”23 [23. Wisdom Shall Enter, p. 143.] Ele não conecta, porém, esse ensinamento com o dogma de que não há salvação fora da Igreja Católica.

Ele dá cabo de sua própria explicação desse assunto com o seguinte parágrafo:

« Mas este fato ainda permanece: o Caminho de Salvação do próprio Cristo só pode ser o melhor, o mais certo, o mais seguro caminho. Há bons protestantes, e há maus católicos. Mas em nenhuma outra igreja a santidade pessoal consegue alcançar tamanhas altitudes quanto na Igreja do próprio Cristo; em nenhuma outra igreja a bondade será tão amplamente disseminada, nem a salvação tão segura. Com todos os socorros que Cristo confiou à Sua Igreja – a Missa, os Sacramentos, a plenitude da Verdade – o “bom Católico” tem uma vantagem sobre o “bom não-Católico” além de toda medida. »24 [24. Ibid., p. 143 ss.].

Seria difícil de encontrar uma defesa da Igreja Católica elaborada mais completamente em termos de eclesiologia distintamente protestante. A Igreja Católica é apresentada, não como o Corpo Místico de Cristo, realmente necessário para todos os homens, mas meramente como a melhor das organizações religiosas disponíveis aos homens. Aliás, o parágrafo parece sugerir que haja algum caminho de salvação disponível além de por intermédio de Nosso Senhor. É doloroso de constatar que uma porção do povo católico será levada a imaginar que uma afirmação como essa primeira sentença do parágrafo supracitado seja uma expressão correta de genuína doutrina católica.

Na realidade, a Igreja Católica não se apresenta a si mesma meramente como a melhor ou a mais eficaz sociedade religiosa sobre a terra. Ela é o Corpo Místico de Cristo, a única sociedade religiosa objetivamente aprovada por Deus e por ele aceitável. Ela é o único reino de Deus na terra, a verdadeira ecclesia de Jesus Cristo.

Conforme a teoria protestante original de eclesiologia, em contrapartida, o reino de Deus, a ecclesia das Escrituras, não é uma sociedade organizada em absoluto. Essa verdadeira ecclesia é descrita como uma igreja invisível, como a soma total de todas as pessoas boas, ou pessoas predestinadas, na terra. À luz dessa teoria errônea, as igrejas visíveis, as sociedades organizadas nas quais os homens que desejam seguir a Nosso Senhor estão organizados, desempenham um papel distintamente subsidiário. Se o Evangelho é pregado sinceramente e os sacramentos administrados corretamente dentro dessas organizações, elas aparecem como mais ou menos aceitáveis e úteis socorros para as pessoas que supostamente estão unidas a Nosso Senhor na igreja invisível.

Nenhum proponente dessa teoria jamais sustentou que todas as denominações religiosas sejam igualmente boas. Muito pelo contrário, uma organização supunha-se mais aceitável e mais útil do que as outras caso pudesse oferecer orientação e socorro espirituais mais eficazes aos seus membros. Naturalmente, toda denominação viria a alegar para si um alto grau de excelência, enquanto, ao mesmo tempo, acreditava, de acordo com essa mesma teoria geral, que as demais sociedades religiosas que passaram no teste, segundo as notas protestantes da Igreja, eram legítimas e realmente eficazes, ainda que talvez em grau menor.

A teoria mesma é irremediavelmente errônea, porque o Corpo Místico de Jesus Cristo é a Igreja Católica visível. A sociedade religiosa sobre a qual o Bispo de Roma preside como Vigário de Nosso Senhor na terra é a única unidade social dentro da qual os homens podem realmente obter contato salutar com Deus em Cristo.

Entretanto, naquele parágrafo final de Wisdom Shall Enter, vemos a Igreja Católica ser apresentada à luz de tal teoria. O “Caminho de Salvação do próprio Cristo” é designado como o melhor, o mais certo e o mais seguro, mas definitivamente não como o único caminho. Há outras “igrejas” nas quais a própria salvação se encontra, ainda que não tão seguramente quanto na Igreja Católica.

Um tal ensinamento não está em conformidade com as declarações do Magistério da Igreja. Assim, para só citar um exemplo, na Singulari Quadam, a grande alocução que o Papa Pio IX proferiu no dia seguinte à sua definição do dogma da Imaculada Conceição de Nossa Senhora, o Santo Padre disse que era seu dever admoestar os Bispos que o ouviam a fazerem tudo em seu poder “para apartar do espírito dos homens aquela opinião igualmente ímpia e letal segundo a qual o caminho da salvação eterna pode ser encontrado em qualquer religião.”25 [25. DB, 1646.] Esse erro está presente inclusive quando o caminho da salvação é pintado como disponível noutras religiões menos perfeitamente, ou com menos segurança, do que na Igreja Católica.

Aqueles que se beneficiarão da leitura de Wisdom Shall Enter serão bem mais beneficiados se, em futuras impressões dessa obra, a parte sobre a necessidade da Igreja para a salvação for revisada em linha com as declarações e explanações pertinentes do Magistério eclesiástico.

Trad. por Felipe Coelho, de de: “Two Recent Explanations Of The Church’s Necessity For Salvation” (AER, abr. 1954, p. 259-269).

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