O CONCEITO DE IGREJA DO Pe. JOURNET, 1952 | por Mons. JOSEPH CLIFFORD FENTON

Desde o fim do século XVI, os escritos teológicos acerca do conceito básico da Igreja Católica girou em torno dos últimos quatro parágrafos do segundo capítulo de De Ecclesia de São Roberto Belarmino. A maioria dos autores que lidaram com esta questão particular da Sagrada Doutrina tentaram explicar e desenvolver as coisas estabelecidas nestes parágrafos. Outros, um tanto numerosos durante o curso deste último meio-século, têm desafiado estes ensinamentos.
Os quatro páragrafos com os quais estamos interessados contém a afirmação e justificação de São Roberto Belarmino da sua definição da verdadeira Igreja de Jesus Cristo:

“Mas nós ensinamos que há apenas uma Igreja, e não duas, e que essa única e verdadeira Igreja é aquela assembléia (coetum) de homens unidos pela profissão da mesma fé cristã e pela comunhão dos mesmos sacramentos, sob a autoridade dos legítimos pastores e em especial a do Vigário de Cristo na Terra, o Romano Pontífice. Desta definição é fácil inferir quais homens pertencem à Igreja e quais não pertencem. Esta definição tem três partes: a profissão da fé verdadeira, a comunhão dos mesmos sacramentos e a submissão ao Romano Pontífice, o legítimo pastor. Pela primeira parte, todos os infiéis, tanto os que nunca estiveram na Igreja, como os judeus, turcos e pagãos, como os que nela estiveram, mas saíram, como os hereges e apóstatas, estão excluídos. Pela segunda parte, catecúmenos e excomungados estão excluídos, uma vez que os primeiros ainda não foram admitidos à comunhão dos sacramentos, enquanto os últimos foram expulsos desta comunhão. Pela terceira, cismáticos, que têm a fé e os sacramentos, mas não estão sujeitos ao legítimo pastor e consequentemente professam a fé e recebem os sacramentos. Todos os outros estão inclusos, ainda que sejam réprobos, pecadores impenitentes e homens ímpios.

Há esta diferença entre nosso ensinamento nessa questão e todos os outros [as quatro noções heréticas listadas anteriormente neste capítulo]. Todos os outros mantém que virtudes internas são necessárias para que um homem possa ser constituído membro da Igreja, e portanto eles consideram que a verdadeira Igreja seja invisível. Por outro lado, por mais que acreditemos que as virtudes de fé, esperança e caridade e todas as outras virtudes sejam encontradas na Igreja, nós não acreditamos que nenhuma virtude interna, mas apenas a profissão externa da fé e a comunhão dos sacramentos de forma manifestamente sensível sejam necessárias para que um homem seja absolutamente julgado como parte da verdadeira Igreja da qual as Escrituras falam. Porque a Igreja é uma assembléia de homens tão visível e palpável quanto a assembléia de romanos, ou o Reino da França, ou a República de Veneza.

Devemos entender que, de acordo com Agostinho, em seu Breviculus Collationis, onde ele está tratando da colação do terceiro dia, a Igreja é um corpo vivo em que há uma alma e um corpo. Os Dons internos do Espírito Santo, fé, esperança, caridade e o resto, constituem a alma. A profissão externa da fé e a comunhão dos sacramentos constituem o corpo. É por isso que alguns pertencem ao corpo e à alma da Igreja e portanto a Cristo, a Cabeça, tanto internamente quanto externamente. Tais homens são membros da Igreja mais perfeitamente, pois são como membros vivos de um corpo. Ainda, mesmo entre estes, alguns participam desta vida em maior – e outros em menor – grau, enquanto alguns têm apenas o começo desta vida e, por assim dizer, sensação sem movimento, como é o caso daqueles que possuem a fé apenas, sem a caridade. Novamente, há aqueles que pertencem à alma e não ao corpo [da Igreja], tal é o caso dos catecúmenos e excomungados – se eles possuem a fé e a caridade, como bem podem possuir. Por fim, há aqueles que são do corpo mas não da alma da Igreja, como aqueles que não possuem virtudes internas, mas ainda professam a fé e recebem os sacramentos sob a autoridade dos legítimos pastores por motivo de alguma esperança temporal ou medo. Estes são como os cabelos, ou unhas, ou líquidos maléficos no corpo humano.

Portanto nossa definição toma apenas esta última maneira de pertencer à Igreja, uma vez que este é o requisito mínimo para que possa ser dito de um homem que ele seja parte da Igreja visível. Agora devemos demonstrar de uma forma ordenada que os não-batizados, hereges, apóstatas, pessoas excomungadas e cismáticos não pertencem à Igreja e que aqueles que não são eleitos [à vida eterna], os imperfeitos, os pecadores – mesmo aqueles cujas ofensas são manifestas -, e infiéis ocultos de fato pertencem à Igreja caso eles tenham os sacramentos, a profissão externa da fé, a sujeição [aos legítimos pastores] e todo o resto.” [1. De ecclesia militante, capítulo 2. A tradução é minha, como são as várias traduções das passagens do livro do Pe. Journet citado neste artigo. (N. do T. – Por minha vez, minha tradução partiu diretamente do texto do artigo. N. do E. do site. – a tradução integral desse capítulo encontra-se na postagem A DEFINIÇÃO DE IGREJA, segundo a edição do CDB.)]

Durante a primeira metade do nosso século, houve alguns esforços notáveis para desafiar o ensinamento de São Roberto Belarmino de “que há apenas uma Igreja, e não duas”. Alguns autores um tanto modernos no campo da Sagrada Teologia tentaram provar a coexistência de uma igreja invisível ao lado da visível. Outros, enquanto sem negar explicitamente a visibilidade essencial da verdadeira Igreja, mantiveram que os limites são bastante indistintos e portanto, por implicação, tentaram roubar do conceito de visibilidade muito de seu significado. Alguns outros se sentiram repelidos pela franqueza do ensinamento de S. Roberto e tentaram mostrar que algum tipo de fé sincera e verdadeira fosse na verdade necessária para a membresia na verdadeira Igreja.
É de se notar que muita da oposição ao ensinamento de S. Roberto foi posta em descrédito pelo conteúdo da encíclica Mystici Corporis. De acordo com a encíclica, “como membros da Igreja contam-se realmente só aqueles que receberam o lavacro da regeneração e professam a verdadeira fé, nem se separaram voluntariamente do organismo do corpo, ou não foram dele cortados pela legítima autoridade em razão de culpas gravíssimas.” [2. AAS, XXV, (1943), 202] Portanto o ensinamento de São Roberto foi apresentado como doutrina da Igreja Católica, oficializada pelo Vigário de Cristo na Terra.
No ano passado, no entanto, apareceu na França o que parece ser um dos desafios mais radicais ao ensinamento de S. Roberto em toda a literatura teológica moderna. O padre Charles Journet [N. do E. – mais tarde cardeal], professor no seminário maior de Friburgo na Suíça, publicou uma seção do seu extenso e erudito tratado L’Église du Verbe Incarné. [3. L’Église du Verbe Incarné, Essai de théologie spéculative. II Sa structure interne et son unité catholique, por Charles Journet. O livro foi publicado por Desclée, De Brouwer et Cie. de Paris e é uma parte da Bibliotheque de la Revue Thomiste. A primeira parte já foi escrita, de acordo com o autor, mas no momento deste artigo ela ainda não foi publicada. As planejadas terceira e quarta seções ainda não foram completadas. O volume em que estamos interessados vai de xlviii + 1393 páginas] Nesse livro, o autor contesta os procedimentos básicos e as principais argumentações do segundo capítulo de De Ecclesia Militante de São Roberto. O padre Journet objeta à iniciativa de S. Roberto de não incluir uma menção da fé e da caridade em sua definição da Igreja. Ele também acha a afirmação de S. Roberto de que “a Igreja é uma assembléia de homens tão visível e palpável quanto a assembléia de romanos, ou o Reino da França, ou a República de Veneza” completamente inaceitável. Eis o que o Pe. Journet tem a dizer sobre o assunto:

“S. Belarmino procura definir a Igreja sem mencionar a caridade ou a virtude sobrenatural da fé. No calor da controvérsia, preocupado com a tarefa de opor o erro protestante da Igreja invisível com a verdade católica da Igreja visível, ele força a si mesmo a colocar em parênteses tudo quanto for possível que pertença ao domínio dos mistérios da Igreja: graça, virtudes infusas e as três Pessoas Divinas, deixando apenas um casco. [Ele chega] ao ponto de esquecer momentaneamente o que ele, sendo um santo, sabia melhor do que todo mundo: o fato de que, se a Igreja é visível, ela não é da mesma forma que a de uma sociedade natural ou que a da República de Veneza; ela é [visível] como é: uma sociedade sobrenatural, o próprio Corpo [Místico] de Cristo.” [4. Journet, op. cit., p. 1181]

Após dar uma tradução francesa à maior parte da seção do livro de S. Roberto que este artigo contém em [português], Pe. Journet faz a seguinte observação:

“Pode-se dizer que, neste infeliz capítulo de De definitione ecclesiae, o próprio Belarmino percebe que não está fazendo um bom trabalho (se rend compte qu’il s’est mal engagé). Afinal, o que no início ele defendeu como a única verdadeira Igreja, isto é, a comunidade em que a fé é professada de uma maneira exterior, que os sacramentos são recebidos de uma maneira exterior e a autoridade é obedecida de uma maneira exterior; essa é a realidade a qual ele agora afirma representar verdadeiramente apenas o corpo da Igreja. Os dons interiores do Espírito Santo, fé, esperança e caridade constituem a alma da Igreja. Portanto a alma e o corpo da Igreja seriam separáveis, de forma que um homem poderia pertencer ao corpo da Igreja sem pertencer à alma, à alma sem pertencer ao corpo, etc.” [5. Ibid., p. 1192. Cf. pp. 53 ff]

De acordo com essa visão, o Pe. Journet nega uma das contenções centrais de De Ecclesia Militante de S. Roberto. O Pe. Journet acredita que “nem hipócritas completos, nem hereges ocultos pertencem à Igreja”. [6. Ibid., p. 1183]

O autor de L’Église du Verbe Incarné deu evidência de extraordinária erudição em seu livro. Infelizmente, no entanto, ele não se mostrou um estudante perpicaz de São Roberto Belarmino. Ele parece equivocar-se completamente sobre o tipo de definição que S. Roberto se esforçou para elaborar no segundo capítulo de De Ecclesia Militante. Ele com certeza faz um mau julgamento sobre uso que São Roberto fez dos termos “alma” e “corpo” quando ele os aplicou à Igreja nesse capítulo em particular. E ele com certeza faz uma grave injustiça ao magnífico Doutor da Igreja quando ele sugere que, no calor da controvérsia, verdades importantes da Igreja de Jesus Cristo foram expostas incorretamente ou esquecidas na composição de De ecclesia militante.
Em primeiro lugar, qualquer exame diligente do texto mostrará claramente que S. Roberto nunca teve a intenção de formular qualquer definição essencial da verdadeira Igreja de Jesus Cristo no segundo capítulo de De Ecclesia Militante. Por todo o capítulo, e, também, por todos os outros oito capítulos seguintes, S. Roberto se preocupa apenas com as condições requisitas para a membresia na única e verdadeira Igreja. Sua definição sobre a Igreja é uma descrição desta sociedade de acordo com os termos dos requisitos mínimos para se tornar membro dela. Nunca houve a pretensão de ser qualquer outra coisa.
São Roberto Belarmino estava engajado na controvérsia contra oponentes que concordavam com ele sobre o conceito básico da única e verdadeira Igreja de Jesus Cristo. Todos os participantes nesta disputa estavam em perfeito acordo sobre a existência de uma comunidade de homens onde nela apenas poderia ser encontrado o contato salvífico com Nosso Senhor. A questão em disputa era a identidade desta comunidade. Os autores protestantes renovaram, com algumas modificações próprias, o antigo e herético ensinamento que essa comunidade não era uma sociedade organizada, e específicamente que não era uma sociedade organizada presidida pelo Bispo de Roma como sua cabeça visível. Os autores católicos foram firmes em sua insistência que a verdadeira Igreja, o Corpo Místico de Cristo, o único Reino de Deus na Terra, era essa mesma organização. Quando esses homens declararam que a verdadeira Igreja é visível, eles quiseram dizer que o Reino de Deus na Terra, a única assembléia pela qual os homens têm contato salvífico com Cristo, é uma sociedade, incluindo entre seus membros homens bons e maus, réprobos e predestinados. Quando, por outro lado, os autores protestantes defenderam o conceito de uma Igreja invisível, eles quiseram dizer que a assembléia de santos não era de forma alguma um grupo social organizado, e que o contato salvífico com Nosso Senhor poderia ser alcançado independentemente em qualquer organização.
A verdade católica, em outras palavras, é o ensinamento que o Corpo Místico de Jesus Cristo na Terra é uma sociedade organizada, e portanto uma comunidade em que os homens possuem membresia devido a certos fatores definitivamente reconhecíveis ou visíveis. São Roberto, e Becano depois dele [7. Becano copia a expressão de São Roberto em seu Manuele controversiarum huius temporis (Würzburg, 1623), p. 38], foram perfeitamente coerentes ao apelar ao paralelo com os vários grupos políticos existentes em seus tempos. Pela graça da Divina Providência, a única e verdadeira Igreja de Jesus Cristo na Terra é tão visível e manifesta quanto a República de Veneza ou o Reino da França sempre foram. São Roberto não “esqueceu” nada quando ele insistiu nessa verdade.
Além do mais, São Roberto Belarmino foi perfeitamente fiel ao ensinamento de Nosso Senhor sobre Sua Igreja quando ele deixou de fora a caridade e a virtude sobrenatural da fé da fórmula pela qual ele quis expressar os requisitos mínimos para a membresia nesta Igreja. Um dos principais temas das parábolas de Nosso Senhor sobre o Reino é o aviso que no último dia a Igreja será purificada pela permanente expulsão dos membros que se foram deste mundo sem as virtudes sobrenaturais. A implicação óbvia deste aviso é que aqui na Terra os homens que estão desvirtuados pelo menos da caridade podem reter sua membresia no Seu Corpo Místico.
Um dos erros centrais sobre a constituição da Igreja de Nosso Senhor sempre tomou a forma de uma espécie de Docetismo eclesiástico. Assim com os docetistas, há muito tempo atrás, estavam indispostos a admitir que um homem real, que verdadeiramente sofreu e foi verdadeiramente repudiado e crucificado, poderia de fato ser o Filho de Deus, então, em tempos mais recentes, sempre houve indivíduos que se sentiram repelidos pela cogitação que essa organização, com seus membros maus misturado com seus membros bons, é verdadeiramente o Corpo Místico de Cristo. Eles foram demasiado delicados em aceitar o fato que Deus quer que encontremos o contato salvífico com Nosso Senhor em uma organização [em que] qualquer dos seus membros ou mesmo superiores podem não estar de modo algum vivendo a vida da divina graça. Foi precisamente contra esta tendência que São Roberto escreveu seu livro, De ecclesia militante. Infelizmente, é esta tendência que viria a designar seu capítulo sobre a definição da Igreja como “cet infortuné chapitre”.
Quando o Pe. Journet objeta contra a omissão de São Roberto Belarmino dos fatores que, para ele, constituíam a “alma” da Igreja, da sua definição em termos de pertencimento, ele [comete] um grave equívoco sobre o procedimento e habitual terminologia de São Roberto. Pe. Journet, de fato, constrói seu conceito central da Igreja ao redor das noções de “alma” e “corpo”. Ele distingue diligentemente a alma incriada da Igreja e sua alma criada. Para ele, como veremos, as “almas” e o “corpo” se juntam para formar a Igreja em si.
São Roberto, por outro lado, empregou os termos de uma maneira bem diferente. A primeira asserção no importantíssimo parágrafo em que ele primeiro emprega essa definição em De Ecclesia Militante é a declaração que “a Igreja é um corpo vivo, em que há uma alma e um corpo”. [8. São Roberto, loc. cit.] São Roberto atribuiu esse ensinamento a Santo Agostinho, e Pe. Journet, incidentalmente, nos diz que ele leu o Breviculus collationis, a obra de Santo Agostinho mencionada nesta referência, e não encontrou o texto em questão. [9. Cf. Journet, p. 566, n]
Na verdade, não há passagem que contenha explícitamente esta asserção em todo o Breviculus collationis. Mais tarde no De ecclesia militante, no capítulo nono para ser exato, São Roberto indica o texto o qual ele havia referenciado. É o parágrafo em que Santo Agostinho fala do homo interior e do homo exterior, usando uma expressão empregada pelo próprio São Paulo. [10. A passagem em Breviculus collationis diz: “Dictum est etiam de homine exteriore et interiore, quae cum sint diversa, non tamen dici duos homines: quanto minus dici duas Ecclesias, cum iidem ipsi qui nunc boni tolerant permixtos malos et ressurecturi moriuntur, tunc nec mixtos malos habituri sint, nec omnio morturi.” A expressão “interiorem hominem” ocorre em Rom. 7,22; e em Eph. 3,16. O termo “homo exterior” não se encontra na Vulgata] Neste nono capítulo, São Roberto fala dos bons católicos como quasi anina ecclesiae e dos maus como quasi corpus. [11. O texto de S. Roberto diz o seguinte: “Certe in breviculo collationum, collatione tertia, cum Donatistae calumniarentur Catholicos duas Ecclesias facere; unam quae solos bonos, aliam quae bonos cum malis contineret: responderunt Catholici se nunquam duas Ecclesias somniasse, sed tantum distinguere partes vel tempora Ecclesiae; partes quidem quia aliter boni, aliter mali, ad Ecclesiam pertinent, boni enim sunt pars interior et quasi anima Ecclesiae, mali sunt pars exterior et quasi corpus, et dabant exemplum de homine interiore et exteriore, qui non sunt duo homines sed duae partes eiusdem hominis.”]
É perfeitamente óbvio, portanto, que São Roberto Belarmino nunca levou os termos “corpo” e “alma” da Igreja tão à sério quanto leva o Pe. Journet. No mesmo volume, o santo designa a própria Igreja, os fatores que os primeiros controversialistas católicos chamaram de vínculo externo ou corporal com a Igreja, e maus católicos, como um “corpo”. Ele usa o termo “alma” como forma de indicar tanto o vínculo interno de união dentro da Igreja e os próprios bons católicos. Ele óbviamente nunca pretendeu que os termos fossem aplicados estritamente, de acordo com todas as exigências da teoria hilemórfica. Em seu pensamento, a Igreja com certeza não era uma entidade constituída de seu “corpo” animado e atuado pelo que ele designou no seu famoso segundo capítulo como “alma.”
Na verdade o uso do Pe. Journet dos termos “alma” e “corpo” como referência à Igreja Católica é tal que implica que a Igreja de fato não é verdadeiramente uma coetus hominum, uma assembléia ou grupo de homens. “É fácil,” nos diz ele, “definir o corpo da Igreja do ponto de vista da causa eficiente, formal ou final da Igreja. Devemos dizer que ele é o comportamento visível e externo dos homens (le comportement visible et extérieur des hommes) – isto é, seus seres visíveis, suas atividades visíveis, suas obras visíveis.” [12. Journet, op. cit., p. 879] Esta é a realidade que é movida pela ação do Espírito Santo e de Nosso Senhor mesmo, pelo derramamento de sua graça capital e elevada à causa final da economia da graça.
É importante perceber que não são os próprios homens, mas a sua conduta e atividades que são ditas constituir o “corpo” da Igreja Católica, o elemento que, junto com a “alma” e vivificado por essa “alma”, constitui a Igreja em si mesma. As seguintes elucidações do Pe. Journet mostram que ele leva esse conceito muito à sério. Ele nos diz que “há pecadores na Igreja mas eles não levam o seu pecado dentro dela. A Igreja não é sem pecadores, mas é sem pecado, ‘toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito seme­lhante, mas santa e irrepreensível.’ [13. Cf. Eph 5,27] Seus limites passam pelos nossos corações para ali dividir a luz das trevas.” [14. Journet, op. cit., p. 1103]
A linguagem usada pelo Pe. Journet nesta conexão é figurativa ao extremo. Em si mesma, e neste contexto, é incompatível com a noção que a Igreja é propriamente e definitivamente uma coetus hominum. E, se as idéias subjacentes a esta linguagem forem completamente aceitáveis, seguiria que a antiga definição da Igreja como uma congregatio ou convocatio fidelium nunca poderia ser mais do que apenas aproximadamente precisa. A congregação ou sociedade é uma reunião de homens e não simplesmente a soma de suas condutas.
Além do mais, neste livro, o Pe. Journet tende a representar a Igreja mais como uma instituição em cuja direção bons homens tendem automaticamente a seguir do que uma sociedade com uma verdadeira, urgente e universal comissão missionária. Ele parece a representar primariamente como um centro em cuja direção a vida sobrenatural da graça no mundo destina-se a convergir mais ou menos por conta própria.

Na ordem da salvação, acumulada próxima de Cristo que a favorece com Seu contato, é o ponto de condensação de uma imensa nebulosidade, o centro sólido que, além disso, atrai, sustenta e chama ao seu rastro mais ou menos perto de milhões de homens espalhados como átomos pelo espaço e pelo tempo. [15. Ibid., p. 1102]

A comissão missionária da Igreja Católica tem certamente pouco valor neste conceito e em outro apresentado no seguinte parágrafo, que forma a conclusão ao tratado do Pe. Journet da necessidade da Igreja.

Portanto a Igreja, a Igreja de Cristo confiada a Pedro, é ao mesmo tempo mais pura e mais extensiva do que nos parece. É mais pura porque é sem pecado, apesar de não ser sem pecadores, e as faltas de seus membros nunca a deformam. É mais extensiva porque reune em si mesma tudo o que está salvo no mundo. Ela sabe que, das profundezas do espaço e do tempo, estão ligadas a ela por desejo, de uma forma inicial e oculta, milhões de homens que estão privados por ignorância invencível de a conhecer, mas que não se negaram, em meio aos erros aos quais eles vivem, a graça da fé viva que, no segredo de seus corações, o Deus que deseja que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade os oferece. [A Igreja] em si não os conhece por nome, mas ela sente a sua inumerável presença arredor de si e às vezes, em meio ao silêncio das orações, ela ouve no anoitecer o confuso som de sua jornada. [16. Ibid., p. 1114]

Este conceito de Igreja, cercada e, como se fosse almofadada, neste mundo por milhões de seus aderentes desconhecidos e inconscientes pode parecer reconfortante, mas na verdade não possui nada como um suporte adequado no conteúdo da revelação de Deus sobre Sua Igreja. É um dogma de fé católica que a verdadeira Igreja é necessária para a salvação. E também é perfeitamente certo, um artigo da doutrina católica, que um homem pode estar anexado à Igreja de forma que possa ser salvo, e ser membro da Igreja Triunfante, sem nunca pertencer à Igreja Militante aqui na Terra. Este é o caso daqueles que a Igreja honra e venera como mártires porque eles deram a sua vida pela fé sem antes terem a oportunidade de receber o sacramento do batismo, sem o qual é impossível ser membro da Igreja Militante do Novo Testamento. Este é o caso de catecúmenos que morrem sem antes receber o batismo, como o familiar ensino Santo Ambrósio nos assegura. [17. Cf. De obitu Valentiniani]
Além do mais, também é certo que um homem possa ter uma fé verdadeira e vital mesmo que ele nunca tenha conhecimento explícito da Igreja Católica. Os teólogos que desenvolveram as verdades absolutamente mínimas as quais um homem precisa acreditar explicitamente para ser salvo nunca incluíram o ensinamento sobre a Igreja em si como uma destas verdades. Então devemos crer que um homem possa ser salvo, e portanto atraído neste mundo por desejo à Igreja Militante, sem possuir um conhecimento explícito da Igreja. Existe tal coisa como um efetivi e implícito desejo da Igreja.
Mas uma coisa é afirmar a doutrina católica, e outra bem diferente é ensinar que a pureza e a extensão da Igreja são maiores pela ligação da Igreja a milhões que são desconhecidos pela Igreja e ignorantes de sua ligação. A Igreja Católica não é nem um pouco maior por causa das pessoas que desejam entrar nela, mesmo quando seu desejo é bem explícito. Um homem que está ligado à Igreja por desejo é precisamente alguém que não é membro dela. E é, na melhor das hipóteses, confuso insistir que uma sociedade visível e visivelmente santa se torna mais santa em virtude de homens a quem ela não reconhece como membros e quem não estão cientes eles mesmos desta sociedade.
Há uma tremenda quantidade de muito bons ensinamentos em L’Église du Verbe incarné. Deve ser especialmente elogiado o sucesso do autor em unir o conceito da graça capital de Nosso Senhor com a própria noção de Igreja. No entanto, apesar de suas numerosas e excelentes seções e a qualidade de sua erudição, há um perigo definido de que o volume possa gerar mais confusão do que luz entre seus leitores, particularmente os mais jovens.
O livro é uma sistematização e um avanço em uma linha do ensino eclesiológico. Infelizmente, esta linha não é aquela estabelecida por São Roberto Belarmino, o maior dos Doutores da Igreja no campo da eclesiologia. É uma adotada por escritores como Adam e Karrer, e, nos últimos dias, Congar. Ela é honesta em sua declarada oposição aos princípios centrais de São Roberto Belarmino em seu De ecclesia militante. Ao mesmo tempo, no entanto, ela aduz nenhuma evidência que deveria influenciar estudantes e professores da Sagrada Teologia a esquecer a doutrina de São Roberto Belarmino sobre a visibilidade da Igreja Católica.

Joseph Clifford Fenton
The Catholic University of America
Washington, D.C.

Trad. por Rafael Gravioli, de “Father Journet’s Concept of the Church”, The American Ecclesiastical Review, Vol. CXXVII, n.°5, nov. 1952, pp. 370-380.

2 comentários em “O CONCEITO DE IGREJA DO Pe. JOURNET, 1952 | por Mons. JOSEPH CLIFFORD FENTON

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  1. Os profetas (monges) e sacerdotes são a alma da Igreja, os leigos constituem corpo. É por isso q todo revolucionário sempre buscou perseguir sobretudo as ordens monásticas e o clero, porque sem essa hierarquia sagrada o restante dos fiéis não são muito mais q um corpo sem alma, destinado à dissolução final… Faz tempo q eu parei de acreditar naquele conto da carochinha romântico q reza q as “senhorinhas piedosas das capelinhas do interior” são a verdadeira alma da Igreja, e não a autoridade intelectual divinamente constituída para guiar o rebanho cristão… O fato de uma verdade tão óbvia aparentemente ter passado despercebida a homens da envergadura de um Mons. Fenton e de um Card. Journet diz muito sobre esse triste século XX…

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  2. Aliás, o exposto acima é uma das razões por q eu sou contra q os leigos se atrevam a ler os textos sagrados por conta própria, coisa sempre desencorajada pela Igreja, q tinha a seu favor, quanto a isso, o fato de q quase todo mundo no passado era analfabeto e o acesso a uma Bíblia não era tão simples. Os Evangelhos foram escritos para a casta sacerdotal, não para o comum dos leigos… É triste ver tantos padres (q não compreendem sua posição de membros da casta sacerdotal) hoje em dia incentivando os leigos a ler textos q estes não foram treinados para ler e q os próprios padres, por negligência pessoal e má formação intelectual, não são capazes de compreender… Ou os católicos abandonamos o romantismo ilusório e tolo acerca da Igreja, o qual nos faz negligenciar n só a casta sacerdotal, mas também os nossos profetas (aqueles q professam a religião em sentido eminente e q, por assim dizer, a encarnam em sua própria vida), ou vamos continuar rezando — ou fingindo rezar — por milagres q nunca virão, já q nós mesmos nos recusamos a aprender com o passado e com os textos sagrados, fechando nossa inteligência à verdade profunda das coisas e caindo num sentimentalismo e fundamentalismo q já são o maior indício do nosso desespero…

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