DOS PECADOS CONTRA A NATUREZA, século IV | por S. JOÃO CRISÓSTOMO

QUARTA HOMILIA SOBRE A EPÍSTOLA AOS ROMANOS

Versículos comentados:

1, 26. Por isso Deus os entregou a paixões aviltantes: suas mulheres mudaram as relações naturais por relações contra a natureza;

27. igualmente os homens, deixando a relação natural com a mulher, arderam em desejo uns para com os outros.

Todas as paixões são aviltantes, principalmente, porém, a paixão entre os varões; na verdade, a alma sofre mais e cobre-se de vergonha pelos pecados do que o corpo com as doenças. Pondera, contudo, que ainda aqui o Apóstolo lhes nega perdão, como relativamente à doutrina. A respeito das mulheres diz: “Mudaram as relações naturais”. Não se pode dizer, declara, chegaram a este ponto porque foi proibida a união segundo a Lei, nem porque, não podendo satisfazer a concupiscência, caíram nesta estranha loucura, uma vez que há mudança apenas acerca de coisas que já se têm. A respeito da doutrina também dizia: “Eles trocaram a verdade de Deus pela mentira”. Quanto aos homens, assinalou-o de outro modo, dizendo: “Deixando a relação natural com a mulher”. De igual maneira a uns e outros não deixa pretexto de desculpa. Acusa-os não somente porque, tendo seu modo de gozar, deixaram-no por outro, mas também porque, desprezando o que era segundo a natureza, fugiram-se para outro, contra a natureza. São mais difíceis e ingratos aqueles prazeres contra a natureza, de forma que não podem desculpar-se com o prazer. O verdadeiro prazer é segundo a natureza; mas quem abandona a Deus, revoluciona tudo. Por isso não apenas sua doutrina era satânica, mas também a vida era diabólica. Ao tratar, portanto, da doutrina, destacou o mundo e a mente humana, dizendo que, pela sabedoria que Deus lhes dera, os homens teriam podido, por meio das coisas visíveis, ser conduzidos ao Criador; enfim, como não quiseram, tornaram-se indignos de perdão. Aqui, porém, em vez do mundo, fala do prazer segundo a natureza, do qual poderiam com liberdade e maior alegria usufruir, livres de torpeza. Mas não quiseram. Por isso, foram excluídos de todo perdão, por ofenderem a própria natureza. E o que é mais torpe, quando também as mulheres desejavam a união, eles deviam ter maior pudor quanto às dos homens. Aqui, na verdade, é digna de admiração a prudência de Paulo, porque, diante de duas questões contrárias, a ambas resolve com muito apuro. Pois queria falar castamente e estimular o ouvinte; não era possível atender a ambos os casos, mas um ocasionava impedimento ao outro. Se falas com pudor, não podes atingir o ouvinte; se queres atacar com veemência, és forçado a tratar do assunto nua e cruamente. Mas aquele santo prudente pôde realizar ambas as coisas cuidadosamente, acentuando a acusação em nome da natureza, usando-a qual invólucro para falar com pudor.

Em seguida, após ter atingido primeiro as mulheres, procede aos homens, dizendo: “Igualmente os homens, deixando a relação natural com a mulher”. É sinal de extrema malícia, porque ambos os sexos estavam corrompidos. O homem, porque foi estabelecido como mestre da mulher, e a mulher, que recebeu a ordem de ser auxiliar do homem e ambos mutuamente agem quais inimigos. Pondera, porém, com quanta ênfase emprega as palavras. Pois não disse que eles amaram-se e desejaram-se mutuamente, mas: “Arderam em desejo uns para com os outros”. Vês que tudo provém de excessiva concupiscência, que não podia ser contida em seus limites? Tudo o que excede as leis promulgadas por Deus, deseja o que é alheio, e não permanece nos limites estabelecidos. Muitos frequentemente, abandonado o apetite dos alimentos, comem terra e pequenas pedras, e outros por ardente sede, desejam muitas vezes a lama; assim também eles arderam naquele amor iníquo. Se disseres: E de onde vem tamanho aumento de concupiscência? Porque abandonaram a Deus. E o abandono de Deus, donde se origina? Da iniquidade dos que o abandonaram: praticando torpezas homens com homens.

Pelo fato de ouvires: “Arderam” não penses que a doença se deteve na concupiscência; pois, na maioria dos casos, a concupiscência se inflama por sua covardia. Por isso não disse: “Arrastados”, ou “Ocupados”, como em outra passagem, mas como? “Praticando”. Pecado em obras; e não somente em obras, mas com empenho. Nem disse: “Concupiscência”, mas propriamente: “Torpezas”, porque deturparam a natureza e conculcaram as leis. E vê a grande confusão que surgiu de ambas as partes. Não apenas a cabeça foi colocada para baixo, mas também os pés para cima, e fizeram-se inimigos mutuamente, travando uma guerra cerrada, multíplice, vária e pior que a mais iníqua guerra civil. De fato, dividiram-na em quatro espécies vãs e iníquas. Não era dupla ou tripla, mas quádrupla a guerra. Reflete. Importava que os dois, homem e mulher, se tornassem um só, pois foi dito: “Serão os dois uma só carne” (Gn 2,24). Realizava-se isto pelo desejo da união, e congregava os sexos. O diabo, afastando esta concupiscência, e alterando-a, separou os sexos um do outro, e de uma fez duas partes e isto contra a lei de Deus; porque ele disse: “Serão os dois uma só carne”, e ele dividiu uma em duas. Eis a primeira guerra. Ainda para que mutuamente se declarassem guerra essas duas partes, fez com que as mulheres infligissem injúria às mulheres, e não somente aos homens; os homens também se ergueram contra os homens e contra o sexo feminino, como que numa luta noturna. Vês a segunda e a terceira guerra, ou antes, a quarta e a quinta? Há ainda outra coisa; além das supramencionadas, agiram iniquamente contra a própria natureza. Vendo o diabo que principalmente por esta concupiscência os sexos se unem, esforçou-se por romper este vínculo, de tal sorte que não só se dissolvesse o gênero por falta do sêmen, mas também porque se combatiam mutuamente e altercavam. E recebendo em si mesmos a paga da sua aberração.

Vê como ele volta à fonte do mal, a saber a impiedade da doutrina; e declara que é “a paga de sua aberração”. Uma vez que se falasse da geena e do suplício, não pareceria merecedor de crédito aos ímpios e aos que desejavam viver desta maneira, ou antes cairia no ridículo, mostra que o tormento se encontra no próprio prazer. Se não o sentirem, ou até lhe agradarem, não te admires, pois os loucos e os frenéticos, que causam a si mesmos dano e infelicidade, enquanto excitam lágrimas nos outros, riem e se alegram com seus atos. Mas nem por isso dizemos que eles ficam isentos do castigo, mas de tal modo sofrem dano pior e mais grave, porque não reconhecem o estado em que se encontram. Não se deve votar tomando por base os doentes mas os sadios. De fato, parece que a questão é antiga e se tornou lei. Determinado legislador dentre os pagãos ordenara que nenhum escravo dos pagãos usasse “unção seca” ou pederastia, mas concede esta prerrogativa, ou antes esta torpeza, só aos homens livres. Entretanto, eles não consideravam torpeza tais atos, mas coisa honesta e alta demais para a condição dos escravos, permitindo-os aos livres. E isto, entre o povo sapientíssimo de Atenas, e por aquele grande entre eles, Sólon. Encontram-se também muitos outros livros dos filósofos cheios desta doença. Todavia, não dizemos que era coisa estabelecida, mas que eram miseráveis e dignos de copiosas lágrimas os que aceitavam esta lei. Eles sofrem o mesmo que as meretrizes; ou antes, são muito mais infelizes. Pois, sua união, embora ilegítima, é segundo a natureza; esta, contudo é ilegítima e contra a natureza. Mesmo se não houvesse geena e ameaça de castigo, seria pior do que qualquer tormento. Se lhes agrada, estás me falando de aumento do suplício. Se alguém visse um homem nu a correr, com o corpo todo sujo de lama, sem pudor, mas felicitando-se a si mesmo, não se congratularia com ele, ou antes o deploraria por não perceber que agia vergonhosamente. Para tornar o opróbrio mais evidente, seja-me permitido oferecer-vos outro exemplo. Se alguém condenasse uma jovem que no tálamo se unisse a animais, e ela, contudo, se deleitasse, não seria merecedora de lágrimas por não poder libertar-se desta doença, ou antes, nem a sentisse? É bem evidente. Se aquele é grave, este não é menos; pois é mais infeliz sofrer ultraje dos seus do que os estranhos. Digo que são piores do que os homicidas. É preferível morrer a viver com tal opróbrio. Pois o homicida separa a alma do corpo; este, porém, perde a alma com o corpo. Qualquer pecado que mencionares não é igual a esta iniquidade. Se aqueles que sofrem desses males tivessem senso, haveriam de preferir mil vezes morrer do que padecer tais males.

Nada, nada é na verdade mais grave e irracional do que este opróbrio. Se Paulo, ao falar da fornicação, dizia: “Todo outro pecado que o homem cometa é exterior ao seu corpo; aquele, porém, que se entrega à fornicação, peca contra o próprio corpo” (1Cor 6,18), o que diremos desta loucura, de tal modo pior que a fornicação que é impossível explicar. Não digo somente que te tornaste mulher, mas que deixaste de ser homem, sem transformar a natureza, nem conservar a que tiveste; mas és traidor de ambas e dignos de seres repelido e apedrejado por homens e mulheres, porque injuriaste a ambos os sexos. E para que saibas a que ponto é péssimo, se alguém te oferecer transformar-te de homem em cão, acaso não fugirias dele como de um pernicioso? Mas, de homem não te fez cão, mas um animal muito pior do que o cão. O cão, na verdade, é útil, o amante para nada serve. O que farias, pergunto, se alguém ameaçasse fazer com que os homens dessem à luz, acaso não nos encheríamos de cólera? Ora, estes loucos fazem muito pior. Não é o mesmo transformar-se em mulher, e continuando a ser homem fazer-se mulher; antes, nem isto nem aquilo. Se de outro modo quiseres saber a grandeza deste mal, interroga os legisladores que punem os que fazem eunucos; e saberás que não é senão porque mutilam a natureza. Ora, eles não infligem tanta injúria, pois os mutilados muitas vezes depois se tornaram úteis. Nada mais inútil, porém, do que o homem que se tornou meretriz; e não só a alma, mas também o corpo do homem sofreu, cheio de ignomínia, digno de ser inteiramente despojado. Quantas geenas lhe serão suficientes? Se, ao ouvires falar de geena, ris, incrédulo, lembra-te daquele fogo que consumiu os sodomitas. Vimos, de fato, vimos também na vida presente uma imagem da geena. Uma vez que muitos não acreditavam no que se segue à ressurreição, agora ouvindo dizer que o fogo é inextinguível, Deus os reconduziu pelas realidades presentes ao são juízo. Tal é, de fato, o fogo e incêndio de Sodoma. Sabem-no os que a visitaram, e viram aquela chaga infligida por Deus e a obra dos raios do céu. Reflete a gravidade do pecado que forçosamente antecipa o aparecimento da geena. Visto que muitos desprezavam aquelas palavras, Deus lhes mostrou a imagem da geena de nova forma. De fato, era estupenda aquela chuva, porque aquelas uniões eram contra a natureza; e inundou a terra porque a concupiscência inundara aquelas almas. Por isso, a chuva não é a costumeira. Não apenas fez com que o seio da terra fosse infértil, mas tornou-a incapaz de receber sementes. Tal era a união dos homens na terra de Sodoma que inutilizava mais o corpo. O que há de mais execrável e infame do que um homem que se torna meretriz. Ó furor! Ó espanto! Como grassou esta concupiscência, que invadiu a natureza humana, como um inimigo na guerra; ou antes tanto mais molesta quanto a alma é melhor do que o corpo. Ó vós, mais irracionais do que os irracionais, e mais impudentes do que os cães! Nunca houve entre eles tais cópulas, mas a natureza conhece os próprios limites; vós, contudo, tornastes ignóbil vosso gênero por tal injúria. De onde se originaram tais males? Da volúpia, de não conhecerdes a Deus. Quando se rejeita o temor de Deus, todos os bens desaparecem.

A fim de evitar que tal aconteça, tenhamos assiduamente o temor de Deus diante dos olhos. Nada, nada causa a perdição do homem como perder tal âncora, e nada o preserva quanto continuamente ter o olhar fixo nele. Pois se, diante dos olhos de um homem, admitimos o pecado com maior lentidão, ou antes, frequentemente por respeito aos servos mais moderados, nada de desonesto praticamos, pensa na segurança de que gozaremos se tivermos a Deus diante dos olhos. Nunca o diabo nos atacará se o tivermos, porque inutilmente se esforçará; se, porém, vagarmos fora, e ele nos vir dissipados e sem freio, aproveita-se deste início, e sempre poderá separar-nos do rebanho. E o que sofrem na praça os servos desleixados que abandonam os serviços necessários para os quais foram enviados pelos senhores, acedendo em vão e inutilmente aos que encontram, e perdendo o tempo ali no ócio, sucede-nos a nós, quando nos afastamos dos preceitos de Deus. De resto, ficamos admirando as riquezas, a beleza dos corpos, e outras coisas que não nos interessam, como aqueles escravos dão atenção aos mágicos mendicantes, e em seguida, ao voltarem tardiamente, sofrem em casa os piores castigos. Muitos, na verdade, abandonam o caminho proposto, e seguem a outros que se portam indignamente. Não procedamos desta forma, porque fomos enviados a muitas tarefas urgentes; e se pararmos descuidosos, olhando boquiabertos para bagatelas e gastando inutilmente o tempo, sofreremos os piores castigos. Se queres lazer, tens o que admirar, e com que ficar boquiaberto em todo tempo; não é causa de zombaria, e sim de admiração e muitos louvores. Ao invés, quem admira coisas ridículas, será tal e pior do que aquele que provoca riso. Foge rapidamente para que tal não te aconteça.

Por que, pergunto, estás parado, boquiaberto, sem escapar, diante das riquezas? O que vês de admirável, o que fitas? Cavalos ornados de ouro, escravos bárbaros ou eunucos, vestes esplêndidas, almas libertinas, frontes erguidas, correrias, tumultos? Acaso são coisas dignas de admiração? Em que diferem dos mendigos que dançam e sibilam na praça? Com efeito, eles, dominados pela fome, tomam parte naquele coro tão ridículo, levados e arrastados ao redor, ora às lautas mesas, ora ao lupanar, ora ao enxame dos aduladores e à multidão de parasitas. Se carregam ouro, são sumamente miseráveis porque tomam o maior cuidado com o que não lhes compete. Não consideres as vestes deles, mas descobre-lhes o espírito, e pondera se não está com mil feridas e revestida de farrapos, abandonada e desprotegida. Qual a utilidade de sua loucura exterior? É muito melhor ser pobre e levar vida virtuosa do que ser rei com maldade. Com efeito, o pobre, no seu íntimo, goza de todo prazer espiritual, sem se lembrar da pobreza externa por causa das riquezas internas. O rei, porém, que se delicia no que não lhe convém, no que mais o distingue, é atormentado na alma, nos pensamentos, na consciência, que emigrarão com ele. Cientes destas coisas, deponhamos as vestes áureas, assumamos a virtude e o prazer dela originário. Assim, pois, aqui e no além, fruiremos de grande prazer e conseguiremos os bens prometidos pela graça e amor aos homens de nosso Senhor Jesus Cristo, ao qual com o Pai, na unidade do Espírito Santo, glória, honra, império, agora e sempre, e nos séculos dos séculos. Amém.

Extraído de S. JOÃO CRISÓSTOMO; Comentários às Cartas de São Paulo, vol. I, Paulus, edição Kindle.

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