POR QUE NÃO SOU OCULTISTA, 1929 | por Pe. LUCIEN ROURE, S.J.

O Sr. Fernando Divoire acaba de escrever um livrinho: Por que eu creio no Ocultismo[1. Fernand Divoire. Pourquoi je crois à l’Occultisme. Paris, aux Éditions de France, Coleção “Leurs Raisons” {“As Razões Deles”}, 1929. In-16, 124 págs.] O livro assinala um espírito perspicaz, penetrante mesmo, independente. O autor, que se proclama católico, aluno de Arcueil, pôs-se a estudar ocultismo por gosto natural, continuou perseverantemente, conservando — coisa bastante rara nesta circunstância — sua liberdade de pensamento, e nos apresenta hoje, modestamente, as razões pelas quais adere ao ocultismo. Ele não pretende formular nada além de conclusões pessoais. Mas essas conclusões, por isso mesmo que se apoiam na experiência, extravasam o valor de um testemunho individual.

Não seria de procurar neste livro um manifesto a favor do ocultismo, qual um panfleto de propaganda. Desde o início, o Sr. Fernando Divoire protesta que só quis fazer uma “recomendação aos meus semelhantes”. Nada menos sábio do que se aventurar no ocultismo às cegas, “pois nenhum estudo é, ao mesmo tempo, tão decepcionante, tão atraente, tão repelente como este do ocultismo”. “A gente se sente irritado em constatar que de milênio em milênio os mesmos enigmas se transmitem e não podemos, na maioria das vezes, mais que os recopiar sem ler mais claramente.” Alguns se jogam com frenesi no ocultismo: vão encontrar finalmente o segredo último das coisas, a chave que abre todos os mistérios. “Ler numa obra de doutrina que Aziluth é o mundo da emanação; Beriah, o da criação; Yetzirah, o da formação; Asiah, o do fazer: já é alguma coisa. Mas ficamos de imediato bem mais adiantados?” O negócio é subir tão alto quanto as palavras que se pronuncia. Ora, observa o Sr. Fernando Divoire, “conheci um certo número de amadores e profissionais do ocultismo. Posso contar nos dedos de uma mão os que percebiam todos os ecos das palavras que pronunciavam”.

É que se o ocultismo, como todas as ciências especializadas, tem o seu vocabulário, aí mais do que alhures, ao que parece, a gente se deixa apanhar pela miragem das palavras. Por ter memorizado e recitar alguns vocábulos estrepitosos, imagina-se de posse de verdades maravilhosas.

“O aprendiz de feiticeiro se perde nos nomes desusados e sonoros… Parece-lhe mergulhar o braço num cofrinho repleto de pedras preciosas brancas, vermelhas, douradas, verdes, pretas, azuis, de que somente ele sabe o valor e o símbolo. Ele recita as dez palavras: Coroa, Sabedoria, Inteligência, Misericórdia, Justiça, Beleza, Eternidade, Fundamento, Vitória, Reino, isso já traz bons sonhos. Mas nomeá-las Sephiroth e repetir: Kether, Hochmah, Binah, Hesed, Geburah, Tiphereth, Netzah, Hod, Yesod, Malkuth! Podemos, depois disso, nos permitir uma pequena pausa contente, antes de começarmos a penetrar o sentido das palavras, em hebraico ou em francês…” (P. 26-27.)

Mas em quantos livros ocultistas, diremos nós, que de fato têm a pretensão de não serem livros de aprendiz, as respostas aos problemas colocados se reduzem a escrever um desses vocábulos!

Se o ocultismo oferece tantas decepções, que razões conduzem o Sr. Fernando Divoire a crer nele? Seria porque, como ele nota no começo do livro, “homens, em todos os tempos, em todos os lugares do mundo, creram em forças escondidas”? Decerto está aí a razão profunda do gosto, da paixão pela prática ou estudo do ocultismo. Nós sabemos, como diz Hamlet, que há mais coisas entre o céu e a terra do que o nosso espírito é capaz de compreender. O mistério tenta e atormenta o homem. Sofremos por ignorar, temos necessidade de crer. Mas o ocultismo não pode se confundir com toda investigação do desconhecido, assim como o ocultado não pode se reduzir ao simples desconhecido. Senão, todo investigador seria um ocultista, e todas as ciências deveriam se incluir debaixo da denominação de ciências ocultas. O próprio Sr. Fernando Divoire se dá conta de que há uma distinção a fazer. Assim, ele se recusa a ver no magnetismo e no hipnotismo ciências ocultas. E ele está cheio de razão. Esse abuso de linguagem persistiu até uma época recentíssima. Intitulavam-se “Ocultismo” livros nos quais só se tratava de sono hipnótico, de sugestão, de distúrbios da personalidade. Em nossos dias, se está de acordo em reformar essa linguagem.

Mas então, o que se deve entender precisamente por ocultismo, por ciências ocultas?

Em todos os tratados de ocultismo, escritos por especialistas, domina uma lei: “O que está no alto é como o que está embaixo.” Nessa lei se inspiram todas as práticas admitidas como autenticamente ocultistas. Encontramo-la formulada na famosa Tábua de Esmeralda, documento misterioso que, no dizer dos ocultistas, remonta às origens da humanidade, e que contém como que a carta constitucional e a fórmula derradeira da ciência deles e da arte deles. Os dois maiores magistas modernos, Éliphas Lévi e Stanislas de Guaita, em seus escritos, nada mais fazem do que comentá-la. O Sr. Fernando Divoire diz, de sua parte: “O que está no alto é como o que está embaixo. Essa frase assenta uma das maiores leis do hermetismo.” Ele ajunta: “É a lei da analogia entre o macrocosmo e o microcosmo, entre Deus e o Homem, entre o universo e o átomo.” 

Aqui, precisamos nos entender.

É uma doutrina antiga, tão antiga sem dúvida quanto o pensamento reflexo, que há analogia, ou seja uma certa semelhança e afinidade, entre o espiritual e o material. Todas as línguas exprimem noções espirituais em termos emprestados do mundo dos corpos. As próprias palavras espírito e alma significam originariamente sopro, movimento do ar. A analogia entre Deus e o homem está formulada nos primeiros versículos do Gênesis: “Deus fez o homem à sua imagem e semelhança”: ser dotado de inteligência e vontade; e a filosofia cristã empenhou-se com acuidade em definir a natureza dessa analogia.

Entre o macrocosmo e o microcosmo a analogia foi apresentada de diversas maneiras. Ora se considerou o universo inteiro como um grande animal exercendo suas diferentes operações vitais, sujeito ao crescimento e ao definhamento; ora se dotou de alma a cada um dos astros. Os físicos modernos creem ter reconhecido no seio de todo átomo uma miniatura do sistema do universo, com sua lei da gravitação. Todo átomo seria um mundo em miniatura, comparação pressentida por Pascal ao fazer um paralelo entre o infinitamente grande e o infinitamente pequeno.

Há aí analogias de espécies muito diferentes, que não é permitido confundir. Elas condizem, se se quiser, com o espírito do hermetismo. Exprimem elas, exprime alguma delas, a concepção de analogia segundo o ocultismo autêntico?

Essa concepção, tal como a encontramos nos documentos e nas práticas do ocultismo tradicional, entre os comentadores reconhecidos da Tábua de Esmeralda até ao último magista Éliphas Lévi, é que o invisível é propriamente o direito do visível, e o visível, o avesso do invisível. Nesse sentido, o que está no alto é como o que está embaixo. O visível é manifestação do invisível. Mas não o manifesta à maneira de um sinal alheio ou de uma imagem exterior. O visível não passa do reflexo do invisível, e reflexo de mesma natureza. O visível, para o ocultismo estrito, é o invisível mesmo, mas de outro modo, ou seja noutras condições para nós. Em suma, visível e invisível, material e espiritual, — e, se formos espremer os princípios apresentados, o homem e Deus, — é tudo o mesmo ser, aclarado aqui pela luz física, ali pela luz intelectual ou pela luz astral, aqui captado pela faculdade física, ali pela faculdade espiritual ou pela faculdade astral. Uma mesma realidade é espírito para o sentido espiritual, matéria para o sentido físico! [2. Au Pays de l’Occultisme. Paris, Beauchesne, p. 18-19.]

É assim mesmo que é entendida a analogia na doutrina e na prática ocultistas. As palavras, por exemplo, as letras e números têm mais que valor de sinais exteriores. Estudando a posição e o número das letras de uma palavra, adicionando os números pelos quais as letras de uma palavra foram trocadas, juntando à soma obtida um número igual ao número de letras, penetra-se na natureza da ideia exprimida. Os grimórios dos bruxos possuem por si mesmos seu poder de agir. Valem menos pelo sentido expressado que pela contextura, pela disposição das sílabas, onde se condensam e se materializam forças invisíveis.

“Esta ou aquela palavra, — diz o Sr. Fernando Divoire, — que toda a gente pronuncia, detém talvez a chave do mundo. Tal ou qual sucessão de números quiçá explique Deus e a ação de Deus.” O feitiço é, a seu ver, uma operação propriamente ocultista. Mas o feitiço parte do princípio de que há identidade entre uma pessoa e determinada representação da pessoa, por consequência o tratamento ao qual é sujeitada essa representação — estatueta de cera, por exemplo — atinge a pessoa mesma.

A analogia ocultista sendo isso, o Sr. Fernando Divoire consegue dizer: “A lei da analogia não se aplica somente ao infinitamente grande comparado com o infinitamente pequeno. Ela é uma chave universal. É por causa dela que todo livro oculto autêntico pode ser lido em três níveis; em sete níveis no Oriente. Ela pode demonstrar tudo, desde que se atribua a ela poder de demonstração.” E ainda: “Repitamo-lo: se o ocultismo é verdadeiro, ele deve Tudo demonstrar.”

Quem sabe, se analogia só pudesse significar identidade essencial, se houvesse entre todos os seres identidade radical. E é, sim, a esta afirmação que vai dar, queira ele ou não, a doutrina do Sr. Fernando Divoire, a se supor que ele tenha uma doutrina. E assim se vê quão grave coisa é interpretar, como ele faz, no sentido da analogia ocultista, todo o simbolismo cristão:

“A missa, católica ou ortodoxa, é uma cerimônia mágica. Magia também, e magia branca, as cerimônias fúnebres católicas nas quais, por meio do aspersório e do incenso, o sacerdote traça ao redor do morto círculos de água e círculos de fogo. Não pretendo que todo bispo, ou todo pároco de aldeia, saiba que faz magia. Seria lindo demais. Para ele, às vezes, são cerimônias mortas que ele executa à letra, e o mais das vezes escrupulosamente. O principal é que ele as execute. Que a letra, ao menos, sobreviva, e nos deixe a esperança de vê-la um dia revivificada.” (P. 100.)

Reencontramos aqui, no Sr. Fernando Divoire, o pensamento caro aos ocultistas. Nos ritos católicos, com os gestos e ornamentos do sacerdote oficiante, assim como na estrutura de nossos velhos edifícios religiosos, na sua orientação, no jogo da luz através dos vitrais, nas figuras esculpidas nos tímpanos, nos capitéis, nas estalas, se escondem sinais cuja significação perdeu-se para nós e que ocultam forças espirituais que não sabemos mais pôr em liberdade. Mas uma coisa, diremos nós, é elevar-se do sinal à coisa significada, é impregnar-se, se se quiser, da manifestação sensível para apreciar, para saborear progressivamente sua realidade espiritual: tal é a finalidade do simbolismo cristão; outra coisa é procurar no sinal encarnação propriamente dita do espiritual e lhe pedir que opere o espiritual: concepção ocultista. 

Essa confusão entre os diversos planos ou ordens de valor e a maneira como uma [ordem] manifesta a outra traduz-se, no autor, de diversas maneiras. Assim, ele faz da telepatia e da fisiognomonia coisas ocultas. Sem dúvida: que um homem, que um cérebro entre em comunicação com outro homem, ou outro cérebro, à distância, com ou sem combinação prévia, parece algo desconcertante. Mas, se a força que serve de intermediário continua mal conhecida ou “desconhecida”, o fenômeno não pode achar explicação a não ser num sistema que faz do corpóreo o avesso do espiritual? E se os traços, a configuração do semblante, descortinam a personalidade, as tendências de uma pessoa, é necessariamente porque nela a matéria é, no sentido ocultista estrito, o lado de fora, o avesso da alma?

“Astrologia, alquimia”, acrescenta ele, “aí estão ciências evidentemente ocultas.” Aqui mais de um leitor talvez estará disposto a aquiescer. Contudo, novamente seria oportuno considerar a coisa mais de perto. Qual fosse, para os antigos, o fundamento último da astrologia, ninguém pode dizer exatamente. Sem dúvida, depois de terem notado a correspondência, por um lado, entre a situação do sol, da lua, talvez de outros astros, o estado do céu e, por outro lado, os fenômenos de vegetação, assim como diversos fenômenos atmosféricos, eles se perguntaram se essa correspondência não existiria também entre o estado do céu sob o qual um homem nasce e vive e as suas tendências, fraquezas, aptidões, toda a sua atividade. Da correspondência, passou-se à influência. A astrologia tornou-se expressão da crença numa interdependência de todas as formas cósmicas. Até aqui, nada de oculto no sentido magista. Não nos esqueçamos de que Santo Tomás, na esteira de muitos homens da Igreja, de santos e doutos personagens, admitia a astrologia. Aqueles que simplesmente tenham folheado a obra dele sabem com que vigor ele combate o panteísmo dos filósofos árabes e tudo o que se inspire no panteísmo. Ora, o ocultismo propriamente dito é completamente panteístico ou monista: existiria, em última análise, uma realidade única que, conforme os aspectos dela, seria espiritual ou corporal; é porque ela seria idêntica na sua essência profunda que se poderia passar seguramente de um a outro aspecto. Dá para crer que a astrologia admitida por Santo Tomás fosse essa astrologia panteística? Ou então ele, tão precavido e tão prudente, teria descurado da verdadeira natureza dela? Seria ele, assim, herege sem saber, dado que a astrologia panteística é heresia?

Felizmente, o Sr. Fernando Divoire faz o favor de admitir que ele não é astrólogo. Seguindo um amigo, ele traça para nós um esboço da astrologia: “Em si, cada um dos signos do Zodíaco revela um dos estados da criação — revelação figurativa —, e a totalidade dos signos é a imagem do Mundo criado…” Está aí um tipo de astrologia. Mas, quando se fala em astrologia, não é permitido ignorar que existem outras. Na França, na Bélgica, na Alemanha, formaram-se na sequela do Sr. Paul Choisnard agrupamentos que estudam as correspondências entre tal estado do céu e as aptidões ou a atividade de tal indivíduo; essas conexões foram determinadas após milhares de observações, que serviram para preparar “tabelas de frequência”; ainda que nos inclinando a ver nessas correspondências uma manifestação da interdependência geral das forças, nos abstemos de investigar sua natureza: contentamo-nos com declarar salva a liberdade. Nessa astrologia científica, quer a adotemos ou a combatamos, onde encontrar a parte do ocultismo? Há tão pouco ocultismo ali, que as revistas propriamente ocultistas atacam-na ou afetam ignorá-la.

Igualmente quanto à alquimia: é ir meio depressa relegá-la toda, em bloco, para dentro do ocultismo. Em nossos dias, faz-se maior justiça aos dilatados esforços dos alquimistas. A transmutação de metais uns nos outros, graças a uma certa identidade de seus elementos, não parece mais simples sonho. Submeter ao fogo do Athénor o mercúrio ou azougue dos sábios, para obter daí a pedra filosofal, não se torna ocultismo a não ser que, como parece aliás ter ocorrido frequentemente, o operador atribua, por exemplo, um poder direto e como físico ao grimório cujas prescrições ele executa, às palavras que ele recita, ao espírito do mercúrio filosofal ou da marcassita que ele invoca, confundindo assim os planos reais.

Em contrapartida, se comumente se admite que a varinha de aveleira obedece a forças mal definidas, mas naturais, nós diremos, com o risco de pasmar a entusiastas da varinha, que um início de ocultismo pode se infiltrar nas suas operações. É o caso, por exemplo, quando se experimenta sobre um mapa como [se fosse] sobre o próprio terreno. Que o aspecto de um mapa revele a um olhar experimentado a presença de algum veio de água ou jazida mineral: nada mais que natural. Mas pedir às linhas do mapa que ponham a varinha em movimento tal como faria o solo, aí já é entrar na via do ocultismo, é solicitar a uma ordem de coisas aquilo que é da alçada de outra ordem de coisas, é atribuir ao próprio mapa as virtudes atrativas dos terrenos representados… E se a varinha se põe em movimento? Direi que isso se deve não aos contornos traçados no papel, mas apenas aos movimentos, conscientes ou inconscientes, do operador que divisou ali, num determinado local figurado no mapa, a presença de água ou de metal. 

Quais relações unem o ocultismo e a magia, no pensamento do Sr. Fernand Divoire? Talvez encontremos aí alguma luz sobre o que o autor e os ocultistas declarados entendem por ocultismo. “Na magia — diz ele — existe de tudo: do pior, certamente; e do melhor, pode ser… O estudo desinteressado da magia pode… conduzir ao coração do ocultismo. A magia toca, aliás, em todas as ciências ocultas.” (P. 46.) Há uma magia negra, magia de maldição. “O pecado contra o Espírito, que os catecismos não sabem definir (tem certeza mesmo?), é o pecado de magia negra, o pecado de ocultismo transviado.” Ela põe em jogo entidades malignas ou malfazejas, em maior ou menor medida cúmplices do Inimigo [3].

[3. Eis o que é dito do espiritismo. O espiritismo é explicado mediante uma dupla hipótese: ou “força inconsciente dos vivos, que desperta sob a forma de movimentos de mesas ou de respostas às perguntas apresentadas”, ou “força exterior”. Mas quem maneja o espelho, indaga o Sr. Fernand Divoire, que reproduz ao experimentador o seu pensamento refletido? “Eu penso invencivelmente no espelho dos pantáculos, naquele em que o Bode faz careta.” Entidades baixas ou maléficas do além. — Aí está, diremos nós, uma resposta que merece ser considerada.]

Há a magia branca, magia de bênção. Qual agente ela põe em jogo? Não se nos diz. Tudo o que ficamos sabendo é que ela passou “certamente para as religiões”, em particular para o catolicismo. Essa magia, dá para se dedicar a ela impunemente? É preciso para tanto, nos é dito, o desinteresse, não buscar nela vantagens materiais, menos ainda satisfações carnais. O que é preciso primeiro que tudo é de munir-se da crença em Deus, em um Deus distinto do homem. Excelente viático. E aí então, se poderá meter mãos à obra? Há duas etapas na magia, nos é respondido: saber, agir. Não ultrapasseis a primeira. De toda operação mágica, pode-se dizer o mesmo que do feitiço: “Mais vale brincar de outro jogo.” A magia vos coloca em mãos um poder: não vos sirvais desse poder. Arrisca-se nela a perdição ou a loucura. “Perdição para gente inteligente, loucura para os imbecis.” (P. 120.)

E eis o que é grave acerca do ocultismo, no sentido dos mestres ocultistas. A magia nada mais é que esse ocultismo aplicado. É mágica toda operação de ordem material que pretenda obrigar as potestades espirituais. Deixa-se entender que é a última palavra do ocultismo. E essa operação, está julgada como sumamente perigosa: é que ela arrisca a todo instante pôr-nos em contato com entidades maléficas. Mas, dirá alguém, que nos contentemos em saber e nos abstenhamos de agir. E, antes de tudo, como é que saberseria inofensivo, não perturbador, quando agir é tão nocivo e tão sedutor? E o próprio autor inverte essa distinção. É tanto ao saber quanto ao agir que se aplica “o mesquinho amor-próprio de heresia, — que ele menciona, — a soberbinha de ter para todos os problemas soluções excepcionais, de flertar com os malditos só o necessário para se perfumar um pouco com um cheirinho de chamuscado, assim como se põe no músculo da perna de carneiro uma pontinha de alho… Mas o oculto mal se contenta com flerte e com o elegante perfume de satanismo mundano. É algo de áspero, de violento, de ardente.” (P. 84.) É-nos dito, de resto, que “há somente um oculto”.

E aí está por que todo homem sensato, com maioria de razão todo cristão se recusa a ser ocultista.

O cristão sabe tão bem quanto qualquer outro que há nele, que há na natureza forças mal definidas, “desconhecidas”, de ordem psíquica ou de ordem física. Nada em sua fé o proíbe de investigá-las. Não lhe foi dito que “Deus entregou o mundo às inquisições do homem”? Mas ele as investiga conforme meios apropriados, ou seja, da mesma ordem, e em vista de um fim benéfico.

Seus livros sagrados, o ensinamento de seus mestres, sua liturgia, se ele prestar atenção neles, abrem seu espírito à consciência de uma concordância, de uma relação entre todos os seres, de uma analogia entre as diversas ordens de criaturas, sendo o material à imagem do espiritual. Mas ele se acautela de fazer dessa afinidade, desse reflexo, desse eco uma identidade de natureza, ainda mais uma identidade de existência. Do visível, ele passa como sem sobressaltos para o invisível, mas, distintamente ou não, ele se dá conta de que ele entra em outra ordem, um pouco como o banhista que passa da areia para dentro de uma água na temperatura da areia.

Para o ocultista, toda a criação forma uma massa homogênea da qual o material é o avesso, o espiritual o direito. Assim, pelo material ele se acha capaz de atingir diretamente o espiritual, e de sujeitar a si o espiritual. Esperança, aliás, frustra. Qual verdade, qual benefício o ocultismo trouxe à humanidade? Para captar o mistério que se desnuda, o ocultista aceita se avizinhar bem de perto ou manter transações com poderes que ele cheira maus. Ele se apercebe de que talvez vá estabelecer contato com aquele que é o Inimigo e o Mentiroso, e não tem coragem de se libertar do compromisso.

Não, “mais vale brincar de outro jogo”.

Lucien ROURE.

Trad. por Felipe Coelho, de: “Pourquoi je ne suis pas occultiste”, rev. Études, ano 66, tomo 200, fasc. de 20 set. 1929, p. 673-682.

Um comentário em “POR QUE NÃO SOU OCULTISTA, 1929 | por Pe. LUCIEN ROURE, S.J.

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