A MISSA SACRIFICADA, 2011 | por Pe. HERVÉ BELMONT

Eis um texto de juventude publicado sob o título L’éternel Sacrifice et la Messe sacrifiée [O eterno Sacrifício e a Missa sacrificada], composto faz mais de trinta anos, que nada mais era que transcrição de cursos de catecismo dados aqui e ali. Se bem que hoje eu escreveria diferentemente, com algumas precisões, ele permanece atual, pois o novus ordo missæpermanece presente, permanece protestante, permanece equívoco, permanece provavelmente inválido.

I. O eterno Sacrifício

O homem é criatura de Deus, e criatura racional. Por essa razão, ele deve reconhecer espontaneamente, pela oração e pelo sacrifício, sua condição de criatura. Oferecer sacrifício é, pois, natural ao homem, é uma exigência de sua natureza.

Sacrifício é a oblação de uma coisa sensível, feita unicamente a Deus, para reconhecer Seu soberano domínio e nossa sujeição. O aspecto exterior do sacrifício existe somente para significar e rematar a oblação interior. [1. Lev XI, 1. “Quando a alma for apresentar a sua oferenda em sacrifício ao Senhor, ela se identificará com a sua oferenda”.]

Ora, pelo pecado original, o homem voluntariamente separou-se e afastou-se de Deus, e o sacrifício que ele oferece não é mais aprovado por Deus, ou ao menos não é mais aprovado por direito. Aí está uma consequência gravíssima do pecado original: o homem deve oferecer, por necessidade natural, um sacrifício, e no entanto esse sacrifício não é mais, por direito, aprovado por Deus. A gravidade desse efeito do pecado original é tamanha, que provocará o primeiro assassinato: Caim mata Abel porque o sacrifício deste é aprovado por Deus, e não o seu. [2. Gên IV, 3-8. Inspiramo-nos em um estudo do Rev. Pe. Guérard des Lauriers, O.P., L’offertoire de la Messe et le Nouvel Ordo Missæ (O ofertório da Missa e o n.o.m.) publicado em Itinéraires n.º 158 de dezembro de 1971.].

Nosso Senhor Jesus Cristo veio à terra para resgatar-nos do pecado. O aspecto primordial da Redenção que Ele realizou na Cruz é o que se refere à relação do homem com Deus. Consiste nisto: Deus restitui ao homem, gratuitamente e de maneira mais admirável ainda, a possibilidade de oferecer um sacrifício que seja agradável. É o sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Tudo isso é, da parte de Deus, puramente gratuito. Deus não estava obrigado, nem a criar-nos, nem obrigado a resgatar-nos, nem obrigado a resgatar-nos com Seu próprio Sangue. É, de Sua parte, pura misericórdia, mas em harmonia com toda a Sua obra.

Ninguém é resgatado sem cooperar de modo inteiramente pessoal com o que o resgata, ou seja sem cooperar com a comunicação que lhe é feita do ato no qual se consuma a sua redenção, o ato de Nosso Senhor Jesus Cristo oferecendo-se a si mesmo.

Dado que não se coopera num ato a não ser exercendo-o, segue-se que para ser resgatado é preciso oferecer, a título de sacrifício pessoal, o sacrifício que o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo oferece.

Voltaremos a isto mais adiante. Eis, porém, a razão da instituição do Santo Sacrifício da Missa: é preciso que nos seja comunicado o Ato de nossa Redenção, e que nós participemos nele.

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O Santo Sacrifício da Missa é o Sacrifício da Cruz consumado no Calvário na Sexta-Feira Santa, onde Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus, sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque e vítima sem mácula, ofereceu-se, por sua morte, a Deus seu Pai, pela redenção do gênero humano. O Santo Sacrifício da Missa é esse mesmo sacrifício perpetuado e tornado presente sacramentalmente sobre o altar, em virtude da dupla consagração do pão e do vinho transubstanciados no Corpo e no Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo pelo ministério do sacerdote.

Retenhamos os pontos principais do ensinamento da Igreja:
– O Santo Sacrifício da Missa é um sacrifício.
– É o sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo na Cruz.
– É o mesmo sacerdote: Nosso Senhor Jesus Cristo.
– É a mesma vítima: Nosso Senhor Jesus Cristo.
– Enquanto que, no Calvário, Nosso Senhor foi imolado de forma cruenta, Ele é imolado no altar de forma sacramental, incruenta.
– A Missa ocorre pelo ministério – instrumental – do sacerdote.
– Há sacrifício porque há transubstanciação e presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Na Sexta-Feira Santa, Nosso Senhor Jesus Cristo ofereceu-se a si mesmo na Cruz por nossa redenção. Desse sacrifício, Ele foi não somente a vítima, mas também o sacerdote: ele morreu voluntariamente [3. Jo X, 18.]. Por esse sacrifício oferecido de uma vez por todas, Ele resgata todos os homens de todos os pecados passados, presentes e futuros, e isso de maneira definitiva e superabundante. Mas Nosso Senhor quis que esse sacrifício chegasse até nós, a fim de podermos participar nele e de que, assim, ele nos fosse aplicado. É por isso que na véspera, na Quinta-Feira Santa, Ele instituiu o Santo Sacrifício da Missa.

O Santo Sacrifício da Missa é o Sacrifício da Cruz. É o mesmo sacrifício. Tomemos cuidado, pois a palavra mesmo tem dois sentidos em vulgar: ela exprime uma similitude (nós temos o mesmo casaco) ou então a unidade (nós estamos no mesmo lugar). São o mesmo no sentido de que não são senão um só sacrifício.

Nosso Senhor imolou-se uma vez por todas. Os protestantes e modernistas deduzem disso que a Santa Missa não seja um sacrifício. Isso seria verdadeiro se ela fosse um outro sacrifício. Mas o Santo Sacrifício da Missa não “faz número” com o Sacrifício da Cruz. Eles são um só. E, no entanto, cada Missa, considerada em si mesma, é um verdadeiro sacrifício; mas é o sacrifício da Cruz.

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Para haver sacrifício, é preciso que haja sacerdote, vítima e imolação. Assim, por exemplo, no primeiro sacrifício oferecido pelo pecado do povo [4. Lev IX, 15], o sacerdote foi Arão; a vítima, um bode; e a imolação, a destruição pelo fogo, pois era um holocausto [5. Lev VI, 9.]. Ora, como a Santa Missa é um sacrifício? Como esse sacrifício se realiza? Aí, mais do que nunca, é preciso não se deixar levar pela imaginação. É a fé que deve procurar entender, perscrutar o mistério: Fides quærens intellectum.

No altar, há um sacerdote: Nosso Senhor Jesus Cristo agindo através de Seu ministro. Há uma vítima: Nosso Senhor Jesus Cristo verdadeiramente, realmente e substancialmente presente sob as aparências do pão e do vinho. E quanto à imolação? Não vamos imaginar, como alguns, uma punhalada mística, ou então a destruição pela fração da hóstia ou comunhão! Não. É suficiente recordar-se de que o Santo Sacrifício da Missa é um sacramento, e o maior de todos os sacramentos.

Um sacramento é um sinal sensível instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo para santificar os homens comunicando-lhes a graça que ele significa. Um sacramento é um sinal que realiza aquilo que ele significa. No Santo Sacrifício da Missa, a imolação é sacramental; isso quer dizer que ela é significada. E é por ser significada que ela é realizada.

Após a consagração do pão, o Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo está realmente presente sobre o altar. É o Corpo de Nosso Senhor que está diretamente (ex vi verborum: pela eficácia das palavras) presente, e estão presentes também, por concomitância[6], seu Sangue, sua Alma e sua Divindade. [6. O termo em que se remata a transubstanciação é, segundo a significação das palavras, só o Corpo (ou só o Sangue) de Nosso Senhor. Mas tudo o que está atualmente unido ao Corpo (ou ao Sangue) de Nosso Senhor está também realmente presente. Essa presença é dita presença por concomitância.]Quando da consagração do vinho, o Sangue de Nosso Senhor, que estava presente por concomitância sob as aparências do pão, torna-se presente diretamente (ex vi verborum) sob as aparências do vinho. Sob essas mesmas espécies do vinho estão também presentes por concomitância o Corpo, a Alma e a Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Assim a consagração do vinho traz uma mudança no modo de presença real do Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo: ele estava presente (realmente) por concomitância, ele se torna presente diretamente (ex vi verborum). Essa mudança significa a separação do Corpo e do Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou seja Sua imolação na Cruz, e portanto a realiza.

Dito de outro modo: no Altar, pelas duas consagrações, são separados (em sentido ativo, transitivo) o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, não realmente mas em sinal, pela separação das espécies do pão e do vinho. A imolação de Nosso Senhor assim significada é verdadeiramente realizada. O Santo Sacrifício da Missa é o Sacrifício da Cruz porque é sinal sacramental deste. E um sinal sacramental realiza aquilo que ele significa. O Santo Sacrifício da Missa é o Sacrifício da Cruz tão realmente quanto a criança é purificada pela água do Batismo. O Santo Sacrifício da Missa é um sacrifício sacramental, verdadeiramente realizado por um sinal instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Por isso, se uma única consagração é suficiente para haver presença de Nosso Senhor Jesus Cristo inteiro, as duas são necessárias para haver o sinal, e portanto para que seja realizado o sacrifício. O sacrifício ocorre, pois, no momento da consagração do vinho, e nesse momento somente. É por isso que se faz menção do sacrifício (quod pro vobis effundetur) unicamente quando da segunda consagração [7. Cf. Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, IIIa, q.78, a.3 ad 2um.]. Se um sacerdote viesse a morrer entre as duas consagrações, haveria, sim, presença real, mas não sacrifício.

Como o Santo Sacrifício da Missa é o Sacrifício da Cruz, tudo o que vamos dizer da Missa é verdadeiro da Cruz, e reciprocamente. A única diferença entre os dois está no modo de imolação: cruento na Cruz, sacramental na Santa Missa.

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O oferecimento do sacrifício tem quatro fins principais: a adoração, a impetração (pedir a Deus novas graças), a propiciação ou expiação ou reparação ou satisfação pelos pecados, a ação de graças.

É de fé católica que a Santa Missa não é simplesmente um sacrifício de louvor ou de ação de graças: “Se alguém disser que o sacrifício da Missa é somente de louvor ou de ação de graças, ou mera comemoração do sacrifício consumado na Cruz, mas que não é propiciatório; ou que só aproveita aos que nele comungam; ou que não se deve oferecê-lo pelos vivos e defuntos, pelos pecados, penas, satisfações e outras necessidades: seja anátema.” [8. Concílio de Trento, sessão XXII, Cânon 3. Denzinger 950.]

O sacrifício é, pois, oferecido pelos pecados, para satisfazer perante Deus, para reparar a ofensa feita a Deus por todos os pecados do mundo, para quitar em nós a dívida devida em razão de nossos próprios pecados.

O Santo Sacrifício da Missa tem valor infinito, por causa da infinita dignidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é o oferente principal e a vítima oferecida. Ó mistério: por Nosso Senhor ser homem, ele pôde oferecer um sacrifício morrendo na Cruz, e por ele ser Deus, seu sacrifício é perfeito e de valor infinito. Nós, nós recebemos daí frutos limitados, porque nós somos limitados. Assim, todos os frutos do Sacrifício da Missa que não dependem de nós são infinitos: adoração reparadora, ação de graças, satisfação suficiente para expiar todos os pecados, e impetração suficiente para obter todas as graças necessárias à salvação.

Em nós esses efeitos não são infinitos, mas à medida de nossas disposições e de nossa devoção. [9. A devoção não é a “piedade” mas a prontidão e generosidade da vontade em pôr-se ao serviço de Deus, a se lhe devotar. A devoção não é, pois, sensível por natureza.] É por isso que a multiplicidade de Missas é necessária, pois a cada vez nos é aplicada a Paixão de Nosso Senhor. Senão, estaríamos em situação análoga à de um homem que tivesse à sua disposição uma quantidade de alimento suficiente para subsistir até ao fim de seus dias, mas sem poder fazer mais do que uma refeição: após a indigestão, seria a inanição.

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Como dissemos, é uma exigência natural para o homem a de oferecer a Deus um sacrifício. O pecado original destruiu para o homem a possibilidade de oferecer um sacrifício aprovado por direito. Nosso Senhor veio para nos resgatar oferecendo seu sacrifício perfeito e de agradável odor, aprovado de pleno direito por Deus, pois ele procede dele próprio. De resto, os sacrifícios do Antigo Testamento não foram agradáveis a Deus senão como prefigurações (imperfeitíssimas) do Eterno Sacrifício.

Não há mais do que um único sacrifício aprovado por Deus, é o da Cruz. Todavia, devemos por natureza oferecer a Deus um sacrifício. Para que o nosso sacrifício pessoal seja aprovado por Deus, é preciso, então, que ele e o da Cruz sejam um só, é preciso que ele se torne o Sacrifício da Cruz. Eis por que nós participamos no Santo Sacrifício da Missa.

A participação na Santa Missa consiste, pois, na imolação interior, em espírito e em verdade. Cumpre nos entregarmos de corpo e alma a Nosso Senhor Jesus Cristo, a fim de que Ele próprio nos integre em Seu próprio sacrifício. Aí então nosso sacrifício pessoal torna-se uma coisa só com o de Nosso Senhor; ele é, pois, aprovado por Deus. Nosso sacrifício pessoal é de certa maneira “transubstanciado” no de Nosso Senhor.

Aí está a razão de ser e o sentido do ofertório. Isso é manifestado especialmente pelo fato de que a mesma expressão (hostia immaculata) é empregada no ofertório para designar o pão (no Suscipe Sancte Pater) e após a consagração para designar o Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo (no Unde et memores); assim também, nosso próprio sacrifício, significado no ofertório em referência ao sacrifício de Nosso Senhor, é esse mesmo sacrifício de Nosso Senhor realizado na dupla consagração: o sacrifício de Nosso Senhor e o nosso são um só, assim como é una a hostia immaculata [10. Cf. o Rev. Pe. Guérard des Lauriers, artigo citado, pp. 56 sqq.].

O Santo Sacrifício da Missa é, portanto, o ápice e a unidade de nossa vida sobrenatural e de nossa vida natural: sendo resgatados na graça, nós realizamos nossa natureza.

É o Papa Pio XII mesmo quem ensina que a participação na Santa Missa consiste na imolação interior [11. Radiomensagem de 31 de outubro de 1948]:

“É ali, na contemplação do Modelo perfeitíssimo de toda a santidade e ao Seu misterioso contato, que se aprendem as virtudes que formam o verdadeiro cristão e se haurem energias para praticá-las. É ali, ao pé do santo altar, onde se renova o único sacrifício que apaga os pecados do mundo, que se vê como a genuína liturgia da Igreja é a que faz dos fiéis, em união com a Vítima imaculada, uma hóstia viva, santa e agradável a Deus, na imolação generosa dos vícios e das más concupiscências, e na imitação d’Aquele que fez, do trono da Cruz na terra, degrau obrigatório para o trono eterno da Sua glória.”

A participação interior e exterior no Santo Sacrifício da Missa é ofício do batizado, pois pelo Batismo somos feitos membros de Nosso Senhor Jesus Cristo, somos uma só coisa com Ele, particularmente na ação redentora. É por causa disso que São Pedro Apóstolo fala de um “sacerdócio real” [12. I Pdr II, 9.], que não é o sacerdócio ministerial dos padres.

Os sacramentos têm a sua fonte e o seu centro no Santíssimo Sacrifício da Missa; é assim que os três sacramentos maiores – os que imprimem caráter – se diversificam segundo sua relação com o Santo Sacrifício: o Batismo dá o poder de unir-se ao Santo Sacrifício; a Confirmação, de defendê-lo, de dar testemunho dele e de receber seus frutos com plenitude; a Ordem, o poder de oferecê-lo, o poder de ser Jesus Cristo renovando Seu sacrifício sobre o altar.

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O Santo Sacrifício da Missa é o Calvário no dia de Sexta-Feira Santa: nele tudo é recapitulado, sobre-elevado, rematado. É por isso que se pôde dizer com muita justiça que a Missa é o Catolicismo. É ela que é o Mistério da Fé, a fonte de todos os sacramentos e de todas as graças. Seus efeitos se irradiam, desde o íntimo da Santíssima Trindade, até aos fundamentos da sociedade humana [13. Pio XII, Alocução aos novos cardeais, 20 de fevereiro de 1946: “Veneráveis Irmãos, na Santa Missa a Igreja fornece o seu maior apoio ao fundamento da sociedade humana.” (N. do T. – Trad. br. em: PIO XII, Discurso “La elevatezza”, Sobre a função da Igreja na restauração do mundo, Coleção Documentos Pontifícios – n.º 75, 3ª ed., Petrópolis: Vozes, 1963, 16 pp., cit. à p. 15.)].

Ela é, ao mesmo tempo, o Sagrado Coração fonte de misericórdia e o Cristo Rei reinando pela Cruz; ela é Nosso Senhor Jesus Cristo crucificado, de que São Paulo dizia: “Não julguei saber entre vós coisa alguma senão a Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado” [14. I Cor II, 2.].

II. A Missa sacrificada

O que precede mostra-nos, de antemão, a gravidade de tudo o que toca ao Santo Sacrifício da Missa, coração da Igreja. Até ao início do pontificado de Paulo VI, a Santa Igreja desfrutava em paz do Santíssimo Sacrifício da Missa, segundo um rito que remonta aos tempos apostólicos. Em paz não quer dizer sem dificuldade; mas a preocupação da Santa Sé, dos Papas sucessivos, sempre havia sido a de conservar o depósito a eles confiado; a fé e os sacramentos da fé [15] cujo ápice é o Santo Sacrifício. [15. Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, IIIa, q. 64, a. 2 ad 3um: a Igreja é constituída pela fé e pelos sacramentos da fé.]

E eis que em 1969, após vários anos de rápida degradação, um novo ordo, um novo rito da Missa é imposto à Igreja inteira. E, desde então, vemos os frutos…

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Na contramão do amor e da solicitude da Igreja Católica pela Santa Missa, sempre houve o ódio dos hereges, de muitos deles ao menos. Escutemos Lutero: “É ela (a Santa Missa) que é preciso demolir para atingir no coração a Igreja Católica.” [16. Werke, t. x, p. 220. A maioria das citações de Lutero são extraídas da brochura de Belleval: La nouvelle messe (ce que nous devons savoir), 1971 (A nova missa – o que devemos saber).] E ainda: “Quando a Missa for subvertida, acho que teremos subvertido todo o papado. Pois é sobre a Missa, como sobre uma rocha, que se apoia inteiramente o papado com seus mosteiros, seus colégios, seus altares, seus ministérios e doutrinas, ou seja com todo o seu ventre. Tudo isso desabará necessariamente quando desabar a sua Missa sacrílega e abominável.” [17. Ibid.]

“Eu afirmo – disse ele alhures – que todos os lupanários, todos os homicídios, todos os estupros, todos os assassínios, todos os adultérios, são menos malignos do que essa abominação da missa papística.” [18. Werke, t. iv, p.774.]

Quando nos recordamos de que filhos de Lutero colaboraram na redação do novus ordo missæ (n.o.m.), e de que eles declararam poder aceitá-lo e o “utilizar”, pomo-nos a temer… aquilo que a análise vai nos demonstrar.

No início do pontificado de Paulo VI, então, a Santa Missa estava intacta. Com o Vaticano II o prurido de reformas capturou o mundo eclesiástico, e a Santa Missa foi especialmente destroçada: numerosas supressões foram feitas pouco a pouco, enquanto aparecia a língua vulgar.

Em 1964-1965:
– supressão do Judica me, do último evangelho e das orações de Leão XIII.
– as secretas, o Per Ipsum e Libera são ditos em voz alta.
– o Pater é recitado por todo o mundo.
– introdução da “oração universal”.
– língua vulgar para o kyriale, os Dominus vobiscum.
– altar face ao povo.
– dupla comunhão permitida no Natal.
– Corpus Christi substitui, na Santa Comunhão, Corpus Domini nostri Jesu Christi custodiat animam tuam in vitam æternam.
– jejum eucarístico reduzido a uma hora (ou seja, suprimido).
– supressão de numerosíssimos sinais da Cruz.
– introdução e extensão da comunhão sob as duas espécies.

Em 1967:
– supressão da quase totalidade das genuflexões.
– Cânon recitado em voz alta, em língua vulgar.
– a comunhão do sacerdote e dos fiéis torna-se comum.
– abolição da obrigação que tinha o padre de manter os polegares colados aos indicadores após a consagração.
– abolição da obrigação de usar o manípulo.
– Ite missa est e bênção final intervertidos. Etc.

Até aí a Santa Missa permanecia quanto ao essencial, embora desfigurada por essas reformas que manifestam um claríssimo enfraquecimento da fé.

Em 15 de agosto de 1968 são autorizadas na França três novas “orações eucarísticas” podendo substituir, ao bel-prazer do celebrante, o Cânon Romano. Essas três novas orações modificam as palavras da consagração; é a ruptura mais grave: entramos assim totalmente na protestantização.

Em 3 de abril de 1969, Quinta-Feira Santa, aparece o n.o.m. (novus ordo missæ), que se caracteriza por uma longa apresentação geral positivamente e diretamente contrária ao Concílio de Trento, mediante a invasão da palavra, a supressão do ofertório, a modificação das palavras da consagração transformadas em “narrativa da instituição”, a introdução (praticamente simultânea) da comunhão na mão, etc. Encontramo-nos então perante um rito que é como um corpo estranho à Santa Igreja Católica.

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É esse rito aí, tal como foi publicado em Roma, que queremos estudar. Não falaremos dos abusos, pois, na realidade, não os há. O Rev. Pe. Calmel, O.P., declarou em 1969 [19. Declaração publicada em Itinéraires n.º 139 de janeiro de 1970]:

“Eu fico com a Missa tradicional, aquela que foi codificada, mas não fabricada, por São Pio V no século XVI, em conformidade com um costume multissecular. Eu recuso, portanto, o ordo missæ de Paulo VI. Por quê? Porque, na realidade, este ordo missæ não existe. O que existe é uma revolução litúrgica universal e permanente, patrocinada ou desejada pelo papa atual, e que se reveste, momentaneamente, da máscara do ordo missæde 1969.”

O que foi promulgado é a revolução litúrgica; não há então, falando propriamente, abuso: tudo está em germe no ato de Paulo VI. O que foi promulgado é um rito que tende fortemente ao protestantismo. Para provar isso, basta mostrar que o n.o.m. é a realização de numerosos desígnios e anseios de Lutero.

A. A definição da Missa

Lutero: “A Missa não é sacrifício ou ação do sacrificador. Chamemo-la de bênção, de eucaristia, ou mesa do Senhor, ou ceia do Senhor, ou memória do Senhor. Que se lhe dê qualquer outro título que se quiser, contanto que ela não seja manchada pelo título de sacrifício ou de ação.” [20. Belleval, op. cit., p. 7.]

N.o.m.: o artigo 7 da apresentação geral assim define: “A ceia dominical é a sinaxe sagrada ou congregação do povo de Deus que se reúne sob a presidência do padre para celebrar o memorial do Senhor. É por isso que vale eminentemente para a assembleia local da santa Igreja a promessa de Cristo: Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou no meio deles.”

Eis aí, pois, a definição que o n.o.m. dá de si mesmo. Não há mais questão de presença real, nem de realidade do sacrifício, nem do caráter sacerdotal do padre que consagra, nem do valor intrínseco do santo sacrifício independentemente da assembleia. [21. Cf. o Breve exame crítico, ed. Itinéraires, p. 9. Esse estudo, apresentado a Paulo VI pelos Cardeais Ottaviani e Bacci, permanece um documento fundamental para o estudo teológico do n.o.m., assim como o artigo do Rev. Pe. Guérard des Lauriers já citado, e o estudo assinado “um grupo de teólogos” em La Pensée catholique n.º 122.] Lutero deve estar satisfeito.

É verdade que esse artigo 7 foi modificado em 1970, e alguns outros com ele, em face das reações (demasiado fracas) que ele provocou. Mas, além do fato de a segunda redação não ser sem reparos, o n.o.m. nem por isso foi mudado. É a história do arquiteto a quem se faz notar que, conforme a planta, a casa que ele construiu é torta e que, para remediar isso, modifica a planta mas não a casa.

Por outro lado, esse artigo 7 foi uma “bênção”, pois revelou de imediato, e sem equívoco, a verdadeira natureza do n.o.m.

B. A missa dos catecúmenos

…que é chamada agora de “liturgia da palavra”. Lutero dizia: “Muitas outras coisas serão feitas com o tempo e quando o momento oportuno tiver chegado; o que importa, antes de tudo, é que a palavra adquira a proeminência”. [22. Ordnung Gottesdienst. Belleval, op. cit. p. 9.] Quem poderá negar que isso se realizou no n.o.m.?

C. O ofertório

Lutero fala de “essa abominação à qual se submete tudo o que vem antes. Chamam-no de ofertório e tudo nele sabe à oblação”. [23. Belleval, op. cit., p. 7.] Suprimiu-se, então, o ofertório no n.o.m., pois esse é o desejo do Sr. Lutero; ou antes se o substituiu por uma fórmula de “apresentação” que o desnatura. Não é mais, de maneira nenhuma, a expressão do nosso próprio sacrifício significado em referência ao de Nosso Senhor e oferecido à Santíssima Trindade. Segundo o texto de Pio XII citado mais acima, visto que o n.o.m. não faz mais dos fiéis uma hóstia viva, ele não tem como ser a liturgia autêntica da Igreja.

D. O Cânon da Missa

Lutero falava do “abominável cânon” [24. Belleval, ibid.]. Foi suprimido, pois isso se chama no n.o.m. “oração de ação de graças e de santificação”. As palavras da consagração, que se chamam no n.o.m. “narrativa da instituição”, sofreram a mesma transformação, exatamente a mesma, que aquela que Lutero nelas havia feito. [25. Cf. La messe de Luther (A missa de Lutero), por Dom Lefebvre, 1975, p. 7. Lutero adicionara quod pro vobis tradetur(que será entregue por vós) nas palavras da consagração do pão, e suprimira mysterium fidei nas palavras da consagração do vinho. Ele fazia questão dessas modificações, acima de tudo o mais.]

Há uma prova clara e irrecusável de que a natureza do Cânon da Missa foi alterada no n.o.m. O n.º 10 da apresentação geral do n.o.m. chama de “orações presidenciais” certas orações entre as quais se encontra em primeiríssimo lugar a “oração eucarística”. O n.º 12 dessa mesma apresentação geral diz: “A natureza das partes ‘presidenciais’ exige que elas sejam pronunciadas claramente e em voz alta”. É, portanto, por naturezaque a “oração eucarística” deve ser pronunciada em voz alta. Ao contrário, o Concílio de Trento, no nono cânon sobre o Santo Sacrifício da Missa [26. Denzinger 956.], ensina: “Se alguém disser que o rito da Igreja Romana, que prescreve que parte do Cânon e as palavras da consagração se profiram em voz baixa, deve ser condenado, seja anátema”; isto é, o Concílio de Trento ensina que é conforme à natureza do Cânon (de uma parte) e das palavras da consagração que sejam pronunciados em voz baixa. Se a “oração eucarística” deve, por natureza, ser pronunciada em voz alta, e se é conforme à natureza do Cânon da Missa que ele não seja pronunciado em voz alta, é que o Cânon da Missa e a “oração eucarística” não têm a mesma natureza. Logo, o n.o.m. alterou a natureza do Cânon da Missa católica transformando-o em oração eucarística.

E. A comunhão

Lutero afirmava: “São ímpios aqueles que recusam a comunhão sob as duas espécies aos leigos.” [27. De la captivité de Babylone (Sobre o cativeiro da Babilônia), i, p. 87.] Por conseguinte, é prática corrente no n.o.m.

E todo o restante vai na mesma linha. O n.o.m. promulgado por Paulo VI corresponde às concepções de Lutero, que agia, como vimos, por ódio ao Santo Sacrifício. Porém, Lutero acrescentava: “Todavia, a fim de alcançar seguramente e de modo bem-sucedido o objetivo, haverá que conservar certas cerimônias da antiga Missa para os débeis, que poderiam ficar escandalizados com a mudança excessivamente brusca.” [28. Werke, xii, p. 212.] Aí está a explicação de por que católicos numerosíssimos foram enganados pelo n.o.m., ao menos num primeiro momento. Se em 1960 tivessem sido introduzidas sem transição as cerimônias tais como são praticadas em 1980, todos se acreditariam estar num templo protestante. Isso permite medir o caminho percorrido em vinte anos…

Para resumir e confirmar o que acabamos de discernir, cumpre citar esta carta de um pastor luterano, datada de 1971 [29. Boletim Una voce n.º 37-38, pp. 26-28.]: “Quanto a isso, há uma obra que eu vos recomendo: a Histoire des anciennes formes de la messe dans l’église protestante d’Allemagne de la réforme à nos jours (História das antigas formas da missa na igreja protestante da Alemanha desde a reforma até nossos dias), de Graff. Se lerdes esse livro, constatareis, para vosso grande espanto, que o vosso novo ordo existia já praticamente inteiro no século das luzes, salvo poucas expressões ligadas à época.”

Aí está o testemunho desse pastor: o n.o.m. foi copiado do protestantismo. Ele terminava, ademais, de um jeito que deve fazer-nos refletir sobre a mentira do ecumenismo: “É lamentável: eu começo a descobrir as maravilhas da Missa romana, e muitos outros junto comigo, na hora em que os católicos parecem abandoná-las. E agora? Tornei-me um estrangeiro na minha igreja e não conseguirei encontrar morada na vossa.”

É, pois, uma verdade que não se pode negar: o n.o.m. se inspira no protestantismo, fundado no ódio ao Santo Sacrifício, à Presença real, ao sacerdócio católico.

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Um segundo aspecto deve ser levado em consideração: a intenção da “autoridade” que promulgou o n.o.m., a intenção do legislador.

O n.o.m. foi fabricado e publicado para destruir o Santo Sacrifício, para suprimi-lo. Não vale a pena aqui nos alongarmos sobre o rebentamento de extravagâncias, de paródias, de sacrilégios e negações que se seguiu ou acompanhou a adoção do n.o.m. Esses fatos são conhecidos e tão numerosos, que alguns fizeram livros inteiros com eles. O que observamos é que jamais a “autoridade” pontifical ou episcopal interveio seriamente para impedir ou reparar (a não ser quando o escândalo era verdadeiramente demasiado gritante – e olhe lá! – ou talvez por necessidade de falsa simetria); jamais os autores ou os fautores de tais ações foram sancionados, interditos ou suspensos a divinis.

A “autoridade” não se manifestou senão para tentar impedir a Santa Missa segundo o rito tradicional, para desqualificá-la ou acossá-la [30. Cf. por exemplo Paulo VI, discurso ao consistório, 24 de maio de 1976.].

Numa palavra, o legislador mostrou que, de fato, ele permitia tudo salvo a Missa tradicional; e isso não por acidente: já fazia doze anos que os frutos se manifestavam, frutos de morte, e nada foi mudado.

E, portanto, a destruição universal do Santo Sacrifício e do sacerdócio à qual assistimos foi, de fato, querida pelo legislador que estabeleceu o n.o.m. De resto, a existência do n.o.m., de um “texto oficial”, não é invocada senão contra aqueles que permanecem fiéis à Santa Missa católica.

*

O n.o.m. é protestante.

O n.o.m. foi estabelecido para eliminar a Santa Missa.

Consequentemente, não vemos como se possa celebrar validamente o Santo Sacrifício com o n.o.m. Como dizer a Missa com um rito feito para destruir a Missa? Como celebrar o mistério da fé com um rito que não é conforme à fé católica? Fazer essas perguntas já é respondê-las.

O n.o.m. não é novo: ele existia no século XVIII entre os protestantes; o n.o.m. não é a Missa; não se pode, pois, falar de “missa nova” a não ser por impropriedade de termo e abuso de linguagem.

Objeções

A. Mas… e se for um padre santo quem celebra, que tem a fé e que conserva a intenção que ele tinha antes?

No que se refere à questão que nos ocupa, afastemos de imediato a santidade do celebrante; seria odioso ter de julgar a santidade do ministro. A ordem dos sacramentos é uma ordem objetiva.

Igualmente, a fé do ministro não intervém: um médico infiel pode batizar validamente.

Quanto à intenção, é preciso lembrar-se de que, na administração dos sacramentos, o ministro não passa de instrumento. É assim que as coisas são, em se tratando do Santo Sacrifício da Missa, que é realizado na ordem sacramental. O ministro deve se conformar àquilo que foi querido por Nosso Senhor Jesus Cristo em pensamento e em ato se ele quer ser instrumento. E é pela Igreja, à qual estão confiados os sacramentos, que nós somos religados a Nosso Senhor.

É de fé que, para administrar um sacramento, é preciso ter a intenção de fazer aquilo que a Igreja faz, no mínimo.

O que a Igreja faz, é o rito da Igreja. Ter a intenção (real, eficaz) de fazer aquilo que a Igreja faz, é utilizar o rito da Igreja. Um padre que tem verdadeiramente a intenção de fazer aquilo que a Igreja faz, faz realmente e efetivamente o que a Igreja faz, o que é dizer que ele utiliza o rito da Santa Igreja.

Pretender pôr uma “boa intenção” ao adotar um rito mau, é não fazer absolutamente nada; pois não somente a suposta boa intenção não modifica o rito, mas ainda por cima querer pôr nele a “sua” intenção é deixar de ser instrumento. Cumpre ater-se a isso com muita firmeza, caso contrário, não se pode mais estar seguro de nada. A garantia da intenção necessária ao sacramento, é o rito da Igreja. O n.o.m. não é o rito da Igreja, é o rito que almejava Lutero.

B. Mas… as palavras essenciais permanecem!

Não, e por três razões. Primeiro, porque elas foram modificadas, do mesmo jeito que o fizera Lutero. Depois, porque, como mostramos mais acima, o n.o.m. mudou a natureza do Cânon e as palavras da consagração. Por fim, porque mudou-se o sentido das palavras essenciais. Não se fala mais de consagração mas de narrativa da instituição (narratio institutionis) [31. É verdade que se acrescentou em 1970: “…e consagração”. Après coup (N. do T. – Tradução machadiana: “depois do gato morto”.]. Não basta que as palavras que poderiam ser essenciais estejam presentes; é preciso também que elas sejam entendidas em sentido católico, e, mais precisamente, em sentido intimativo, sacramental, ativo, eficaz. Ora, fazer uma narrativa não é fazer uma ação. Assim, por exemplo, quando na Missa do Santíssimo Sacramento o celebrante lê a passagem da Epístola aos Coríntios em que São Paulo faz a narrativa da instituição da Santa Eucaristia, a hóstia que se encontra nesse momento sobre a patena ao lado do padre nem por isso é consagrada. Por quê? Porque, precisamente, o padre não faz senão uma narrativa.

No n.o.m., não há nada além de uma narrativa. Uma brochura, editada em 1969 pelo Centro Nacional de Pastoral Litúrgica, intitulada La célébration de la Messe [A celebração da Missa] e munida do imprimatur de René Boudon, bispo de Mende, de 14 de outubro de 1969, insiste particularmente. Assim, pode-se ler na página 58:

“A oração eucarística tem assim um dinamismo interno que a celebração deveria exprimir e tornar perceptível. Nesse dinamismo as narrativas da instituição (notar a expressão) aparecem ligadas ao todo. Na celebração elas devem ser ditas com simplicidade, como narrativas que tomam aqui uma significação particular por todo o seu contexto (epiclese, anamnese).”

Como narrativas, fomos nós que sublinhamos. Isso é público, oficial, aprovado.

Essa exclusão do sentido intimativo (ativo) é confirmada pela adjunção do quod pro vobis tradetur à “consagração” do pão. Como Santo Tomás de Aquino o explica, é unicamente na segunda consagração que se faz menção do sacrifício, porque é nesse momento somente que ocorre o sacrifício. Acrescentar a menção na primeira é parecer querer substituir pela exatidão histórica a expressão do sacrifício tal como este se realiza atualmente sobre o altar. Essa nova forma do n.o.m., em razão das alterações introduzidas e do contexto, se entende pois em sentido narrativo, histórico, recitativo, e não como uma ação que realiza atualmente o eterno Sacrifício.

C. Mas… esse n.o.m. foi promulgado pelo Papa, que não é capaz de dar à Igreja um rito perigoso para a fé, não conforme à fé, e menos ainda inválido!

É essa objeção que nos esforçamos em resolver (entre outras) em nossa brochura La crise de l’Église et la question du Siège apostolique [A crise da Igreja e a questão da Sé Apostólica]. Remetemos a ele. O que essa objeção salienta é aquilo que Lutero discernia muito bem em seu ódio, é que há na Santa Igreja um elo particularíssimo entre a Santa Missa e a Autoridade: elas são, praticamente, indissociáveis.

*

Cumpre ainda falar da assistência ao n.o.m., brevemente. Vai de si que não entramos na consciência das pessoas; não é esse o nosso papel e não temos poder para tanto.

Permanece o fato de que, o n.o.m. não sendo nem fruto nem expressão da Fé Católica, assistir a ele constitui um contra-testemunho da fé. Querer assistir ao n.o.m. para prestar a Deus o culto que nós devemos a Ele, é claudicar no testemunho da fé, sem a qual é impossível agradar a Deus [32. Hebr XI, 6.]. Isso dito objetivamente. E os pecados contra a fé são, de si, graves.

Para quem compreendeu que o n.o.m. não é católico, no sentido em que acabamos de dizê-lo, isso vale também subjetivamente. Para todos, é Deus que julga; nosso dever, que cabe a nós, é de instruir.

*

O n.o.m. semeia, pois, suas devastações entre os católicos tornando-os, como que malgrado seu, protestantes. Não recebendo mais as graças do Santo Sacrifício e da Santa Comunhão, participando de cerimônias alheias à fé católica, sua fé, precisamente, se obscurece, se afrouxa e, muito frequentemente, se perde. As exceções que cada um de nós conhece são tais malgrado o n.o.m. e por misericórdia de Deus.

Mas as maiores vítimas desse desastre são as crianças. Considerai que filhos de famílias católicas, que têm agora 18 ou 20 anos, nunca conheceram a Santa Missa católica. Foram batizados, são considerados como tendo aprendido o catecismo (?) e faz doze anos que são enganados – os mais enganados, pois nunca conheceram nada de diferente. Essas crianças, às quais por vezes se ensinou o respeito e a adoração devidos à Santa Eucaristia, que creem encontrar-se face a Nosso Senhor Jesus Cristo realmente presente, e que veem comungar com a mão, que são obrigadas a comungar na mão, que restará da fé delas?

Uma tal destruição da infância, universal, pela ação conjunta do n.o.m., da nova “religião”, da pornografia, da iniciação professoral e escolar ao pecado da carne, da televisão destruidora da inteligência, uma tal destruição é o maior infortúnio que pode suceder a uma sociedade: é a barbárie. E porque é a fé que não é mais transmitida, que é negada ou deturpada, é pior do que a pior das barbáries, é a apostasia.

O n.o.m. é o escândalo dessa infância tão amada por Nosso Senhor: “Mas aquele que escandalizar um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço a mó dum moinho, e que o lançassem ao fundo do mar.” [33. Mt XVIII, 6.] “Não temais os que matam o corpo, e não podem matar a alma; mas temei antes aquele que pode lançar na geena a alma e o corpo.” [34. Mt X, 28.]

*

“Estas palavras são duras, e quem as pode ouvir?” [35. Jo VI, 61.] Não fizemos mais do que esforçar-nos em dizer a verdade. É agora, e cada dia mais, o grande combate pela santíssima fé. Nós devemos ser, Deus faça em nós essa graça, as testemunhas – os mártires – da Santa Missa por uma fidelidade total, integral, exclusiva ao Santíssimo Sacrifício intacto e imaculado.

Veni Domine Jesu

Apêndice I: A fé da Igreja e os sacramentos

Nos sacramentos, o papel próprio da fé da Igreja é o de religar e reunir determinado gesto ritual realizado pelo ministro à instituição de Cristo que dá a tal gesto seu sentido e à Redenção realizada por Cristo que dá a ele sua eficácia. O gesto ritual torna-se sacramento de Cristo, eficaz por Sua graça, por ser assumido pela fé da Igreja e realizado nela. Ele é sacramento de Cristo e de Sua Paixão na medida mesma em que ele é sacramento da fé da Igreja.

Os sacramentos, afirma Santo Tomás, devem sua eficácia de graça à significação deles e à fé (não do ministro nem da assembleia, mas da Igreja): “Os sacramentos correspondem à fé; eles são protestações dela, e é dela que eles derivam sua força” (IV Sent. d. i, q. i, a. 2, sol. 5). O papel da fé da Igreja é o de constituir os sacramentos como sinais da Paixão de Nosso Senhor, e como causas do dom da graça.

“O instrumento não recebe sua força a não ser na medida em que é posto em continuidade com o agente principal, de sorte que a virtude deste seja nele de algum modo transfundida. O agente principal e per se (por si) da justificação é Deus como causa eficiente e a Paixão de Cristo como causa meritória. O sacramento é posto em continuidade com essa causa pela fé da Igreja, que liga o instrumento à causa principal e o sinal ao significado. E, portanto, a eficácia ou virtude dos instrumentos (ou sacramentos) vem de três fatores: da instituição divina como causa principal, da Paixão de Cristo como causa primeira meritória, e da fé da Igreja que põe o instrumento em continuidade com o agente principal” (IV Sent. d. i, q. i, a. 4, sol.3).

A fé da Igreja, recebendo a instituição de Cristo e aderindo à Paixão de Cristo, constitui o sinal sacramental; ela faz do sacramento que é celebrado um sinal eficaz da Redenção. “A fé dá eficácia aos sacramentos na medida em que ela os reúne à causa principal, como acabamos de dizer. E, portanto, a fé na Paixão, pela qual os sacramentos recebem imediatamente e diretamente a significação deles, prodigaliza aos sacramentos a eficácia que eles têm” (Ibid.). “Os sacramentos da Nova Lei derivam a eficácia causal deles da fé e da significação” (Ibid. a. 5, sol. 1).

(Cf. Louis Villette, La Maison-Dieu n.º 89, pp.59-61).

O n.o.m., não sendo nem fruto nem expressão da fé da Igreja, não tem como ser um sacramento.

Apêndice II: Um texto de Pio XII

Na Constituição Sacramentum Ordinis de 30 de novembro de 1947, o Papa Pio XII decide a questão da matéria e da forma do sacramento da Ordem. Após haver determinado a matéria (a imposição das mãos), ele ensina: “Assim também, a forma unicamente são as palavras que determinam a aplicação dessa matéria, palavras significando de maneira unívoca os efeitos sacramentais (…)” (Denzinger 2301.4). De maneira unívoca.

Ora, a característica do n.o.m. que mais salta aos olhos é a equivocidade, e quanto a isso todos os analistas estão de acordo. Citemos simplesmente alguns testemunhos:

“Estimo que é meu dever de sacerdote recusar-me a celebrar a missa num rito equívoco”. Rev. Pe. Calmel, O.P., Itinéraires de janeiro de 1970.

“Nunca dissemos que a missa nova fosse ‘herética’. Lamentavelmente ela é, poder-se-ia dizer, pior do que isso: ela é equívoca”. Abbé Raymond Dulac, Itinéraires de janeiro de 1971.

“A nova missa é, ao mesmo tempo, objetivamente equívoca e equívoca na intenção de seus autores, como o exame da questão revela sem nenhuma contestação possível (…). Negar que a nova missa seja equívoca é negar a evidência”. Louis Salleron, em Itinéraires de abril de 1975, citava para confirmar essa afirmação diversos textos de “teólogos” protestantes reconhecendo que o n.o.m. era conforme ou no mínimo se aproximava singularmente das negações protestantes.

Poderíamos continuar a transcrição desses testemunhos; eles não faltaram em seu tempo, graças a Deus.

Mas equívoco exclui unívoco.

O n.o.m. é privado de validade porque ele é equívoco. A obra de Nosso Senhor Jesus Cristo não é equívoca; a fé da Igreja não é equívoca.

O n.o.m. é privado de validade porque ele não é da Igreja.

Trad. por Felipe Coelho, de: “La Messe sacrifiée”, blogue Quicumque.

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