SUMMA THEOLOGICA, Parte III, Q. 78, Art. 1 (comentário), 1997 | por PATRICK HENRY OMLOR

Seu sentido autêntico, exposto pelos Salmanticenses,
e lugares paralelos do Doutor Angélico

PATRICK HENRY OMLOR
(13 de junho de 1931 – 2 de maio de 2013)

Aqueles ilustres teólogos carmelitas descalços de Salamanca, na Espanha dos séculos XVI-XVII, conhecidos como Salmanticenses, foram enquanto grupo os mais doutos seguidores de todos os tempos da mente de Sto. Tomás. “Consequentemente, fizeram eles da estrita adesão ao tomismo o seu princípio fundamental, e executaram-no com maior consistência do que provavelmente quaisquer outros comentadores do período neo-escolástico. …[F]oram tais a uniformidade e consistência obtidas, que se pôde alegar não ter havido uma única contradição em qualquer uma dessas obras imensas, muito embora quase um século tenha se passado entre a publicação do primeiro e a aparição do último volume. …Os Salmanticenses sempre foram tidos na mais elevada estima, especialmente em Roma, onde são considerados a obra padrão sobre a escolástica tomista.” (The Catholic Encyclopedia, Vol. XIII, p. 402, 1912.)

Um obscuro dominicano do século XVII chamado Martinho Serra alegou que Sto. Tomás sustentasse que as meras palavras “Este é o Cálice do Meu Sangue” fossem suficientes para a válida consagração do vinho, e o restante da forma sacramental, a saber: “do novo e eterno testamento: mistério da fé, que será derramado por vós e por muitos para remissão dos pecados”, não fosse necessário para a validade. Serra baseou seu argumento no Artigo 1 da Questão 78 na Parte III da Summa Theologica, que ele (Serra) entendeu de modo completamente errado.

Infelizmente, existem hoje em dia aqueles que cultivam a mesma noção infundada sobre o significado de III, Q. 78, Art. 1. Não sendo eles bons e experientes estudiosos de Sto. Tomás, leram APENAS SUAS PALAVRAS sem nenhum entendimento de seu contexto e de como se relacionam com a finalidade geral das explicações do Doutor Angélico. Por isso, faz-se necessário reproduzir a brilhante refutação de Martinho Serra pelos Salmanticenses.

O que segue foi extraído de: De Eucharistiae Sacramento, Q. LXXVIII, Disp. IX, Dub. III, Sec. 2, par. 26, publicado nas páginas 573-574 do Vol. XVIII da edição de Paris (1882) do Cursus Theologicus dos Salmanticenses:

“Tendo em vista que os opostos ficam mais manifestos quando colocados lado a lado, e a fim de evitar a possibilidade de sermos confrontados mais uma vez com a questão de qual o pensamento do Santo Doutor, vamos expor os argumentos aduzidos por vários tomistas contra a nossa opinião. Sto. Tomás, dizem eles, observa na Summa, III, Q. 78, Art. 1, Resposta à Objeção 4, que ‘Se um sacerdote pronunciasse somente as palavras supramencionadas com a intenção de confeccionar o sacramento, etc.’ Ora, por ‘palavras supramencionadas’ devemos entender que ele quer dizer as palavras da consagração por ele apresentadas no título do artigo. Mas no título se lê: ‘Se esta é a forma do sacramento: Isto É o Meu Corpo, e Este É o Cálice do Meu Sangue.’ Logo, é opinião do Santo Doutor que somente as seguintes palavras são essenciais, ou necessárias, para a consagração do cálice: ‘Este É o Cálice do Meu Sangue.’ Serra aposta tanto nesse argumento e nessa linha de raciocínio, que segundo ele Sto. Tomás ensinaria que a mudança do vinho em sangue ocorre por força destas palavras somente.” …

“A isto, podemos responder como segue. Na passagem em exame, a única preocupação do Santo Doutor era de tal modo determinar o mero mínimo de palavras universalmente recebidas como essenciais para a consagração, a ponto de pô-las além de todo questionamento. Se outras palavras além destas são ou não são necessárias para a consagração do cálice, ele não se incomodou de afirmar nesta passagem, a saber, o Art. 1, mas reservou o tratamento dessa questão ao Art. 3, no qual ele considerou plenamente a questão. Logo, devemos entendê-lo exatamente como ele explicou o Mestre das Sentenças [Pedro Lombardo] (In IV, d. 8), em seu comentário literal, onde ele disse: ‘Não é a intenção do Mestre, nesta passagem, determinar definitivamente as palavras precisas que efetuam a consagração, mas apenas explicar que a consagração é efetuada pelas palavras do Senhor.’

“A própria resposta dada no texto corrobora isto: pois, quando o Santo Doutor diz: ‘Se um sacerdote pronunciasse apenas as palavras supramencionadas com a intenção de confeccionar este sacramento, este sacramento seria válido’, o que ele quer dizer não é, de maneira alguma, aquilo que favoreceria nossos adversários, ou seja, que somente as seguintes palavras sejam necessárias para a validade sacramental [da consagração do vinho]:  ‘Este É o Cálice do Meu Sangue’. O que ele quer dizer é muito diferente e de nenhum modo semelhante a isso: isto é, que são as palavras precedentes: ‘Qui pridie quam pateretur, etc.’ [i.e., os preâmbulos narrativos ‘O qual, no dia anterior à Sua Paixão, etc.’ para o pão; e ‘De igual modo, depois de Ele cear, também tomou em Suas santas e veneráveis mãos este precioso Cálice, etc.’ para o vinho] as que não são necessárias. Isso é evidente tanto a partir da Objeção mesma, como pela resposta dada por ele.” …

“Era esta a dificuldade de que Sto. Tomás estava tratando, que colocava assim uma questão muito diferente daquela que [nossos adversários supõem] …, e que levava à demonstração de um assunto inteiramente diferente. Além disso, a ‘Objeção’ refere-se a ambos os elementos da forma sacramental, a ambos o pão e o vinho.

“Assim, tanto na Objeção quanto na Resposta, é manifesto que ele não está tratando destas palavras: ‘do novo e eterno testamento, o mistério da fé, que será derramado por vós e por muitos para remissão dos pecados’, mas de outras, a saber: daquelas que precedem e como que introduzem a forma consecratória: ‘Qui pridie quam pateretur, etc.’ … e são estas últimas palavras somente que Sto. Tomás declara desnecessárias… Mas em parte alguma deste Artigo 1 toca ele na presente controvérsia. Consequentemente, é evidente que o autor de que falamos acima [Martinho Serra] errou em sua afirmação de que o ensinamento de Sto. Tomás nesta passagem seja contrário ao nosso: na realidade, nem explicitamente nem implicitamente ensinou ele aquilo que Serra o faz ensinar, pois naquela ocasião ele nem sequer estava tratando da matéria da forma essencial, já que não era relevante para a questão que estava sendo considerada no Artigo 1.”

Ocasionalmente, em suas homilias sobre a transubstanciação ou sobre a verdade da Presença Real, os Padres (por ex., São Justino, São João Damasceno) dizem que as palavras da consagração são: “Isto É o Meu Sangue, Este É o Cálice do Meu Sangue’. Ora, ninguém citaria seriamente estas passagens para demonstrar que eles considerem que somente estas palavras sejam essenciais para a validade. Facilmente se veria que a finalidade da homilia era a de ensinar a transubstanciação, etc., e não a de ensinar a exata forma de palavras necessárias para a validade. Em sua obra clássica, O Mistério da Fé, o eminente estudioso Pe. Maurice de la Taille, S.J., trata desse ponto:

“Nem faço caso de uma objeção tirada da autoridade patrística na qual se presume que: quando os Padres dizem, como fazem com frequência, que a consagração é efetuada com as palavras ‘Isto é o meu corpo, isto é o meu sangue’, eles devem ser entendidos por conseguinte como determinando a precisa série de palavras formais que é necessária. Mas o que esses Padres de fato querem comunicar é que: à enunciação da obra que se faz, essa obra enunciada é feita (como os Salmanticenses observam com justiça…). Na mesma linha, Sto. Tomás, tendo dito brevemente no art. 1, ad. 4m da mesma questão 78, que, se o sacerdote empregasse somente estas palavras: ‘Este é o meu corpo, Este é o cálice do meu sangue’, sem nenhum preâmbulo narrativo, consagraria, ele prossegue dizendo, sem embargo, no artigo 3, que as palavras: ‘Este é o cálice do meu sangue’ não seriam suficientes sem as palavras que a elas se seguem.”
(The Mystery of Faith, Sheed and Ward, Londres e Nova Iorque, 1950, Tese XXXV, Livro II, p. 441, nota 2).

O parecer de Sto. Tomás sobre as palavras essenciais da forma de consagração do vinho é afirmada em três lugares diferentes: (1) Scriptum Super Lib. IV Sententiarum; (2) In 1 Cor. XI, (lect. 6); (3) Summa Theologica.

[1] In Scriptum Super Lib. IV Sententiarum (dist. 8, Q.2, a.2, q.1, ad 3), lemos:

“E, portanto, aquelas palavras que vêm em seguida [ou seja, que em seguida a: ‘Este é o cálice do Meu Sangue’] são essenciais para o sangue, em vista de ser ele consagrado neste sacramento; e, portanto, devem elas ser da substância da forma.”

[2] In 1 Cor. XI, (lect. 6) tem o seguinte:

“Com relação a estas palavras que a Igreja utiliza na consagração do Sangue, alguns pensam que nem todas elas são NECESSÁRIAS [grifo adicionado] para a forma, mas somente as palavras ‘Este é o cálice do Meu Sangue’, e não o restante que vem em seguida: ‘do novo e eterno testamento, o mistério da fé, que será derramado por vós e por muitos para remissão dos pecados.’

“Mas isso parece estar errado, porque tudo o que vem a seguir é uma determinação do predicado [o predicado sendo ‘Este é o cálice do Meu Sangue’]: portanto, aquelas palavras subsequentes também pertencem ao sentido ou intenção do mesmo pronunciamento. E porque, como já se disse muitas vezes, é significando que as formas dos sacramentos surtem efeito, LOGO TODAS ESTAS PALAVRAS PERTENCEM AO PODER EFETUANTE DA FORMA.” [Destaque acrescentado].

[3] Na Summa Theologica (III, Q. 78, A. 3), Sto. Tomás expõe lucidamente o seu parecer:

“Respondo que: Há duas opiniões acerca desta forma. Mantiveram alguns que unicamente as palavras ‘Este é o cálice do Meu sangue’ pertencem à substância desta forma, mas não aquelas palavras que vêm a seguir. Ora, isso parece incorreto, pois as palavras que se seguem a elas são determinações do predicado, ou seja, do sangue de Cristo; consequentemente, elas pertencem à integridade da recitação dela [i.e., da recitação da forma].

“E por isso dizem outros, de modo mais preciso, que todas as palavras que se seguem são da substância da forma até às palavras: ‘Todas as vezes que fizerdes isto’, as quais pertencem ao uso do sacramento, e consequentemente não pertencem à substância da forma. É assim que o sacerdote pronuncia todas estas palavras na mesma ação do rito, a saber, segurando o cálice em suas mãos.”

Na primeira destas obras que acabam de ser mencionadas (Script. Sup. Lib. IV Sent.), Sto. Tomás afirma que a inteira forma sacramental é essencial (essentialia) e também, na mesmíssima sentença, ele usa a fraseologia equivalente ‘da substância’ (de substantia) da forma.

Na segunda fonte citada (In 1 Cor. XI), Sto. Tomás usa fraseado diferente, a saber: “necessário” (de necessitate), referindo-se, é claro, à forma inteira.

Finalmente, na Summa ele retorna à palavra substantia (a substância da forma). E anteriormente NESTA MESMÍSSIMA Summa Theologica, Sto. Tomás de fato define EXATAMENTE O QUE ELE QUER DIZER quando diz “a substância da forma sacramental”. Em sua seção sobre os Sacramentos em Geral (III, Q.60, Art. 8), ele estipula princípios que se aplicam a todos os sacramentos, de cada um dos quais trata ele posteriormente na Summa:

“Ora, está claro que, se fosse suprimida alguma coisa que é DA SUBSTÂNCIA DA FORMA SACRAMENTAL, aí então isso destruiria o sentido essencial das palavras; E, CONSEQUENTEMENTE, O SACRAMENTO NÃO SERIA REALIZADO.” [Destaque acrescentado].

Portanto, dado que o Doutor Angélico, nas palavras supracitadas em [3], afirma que: “E por isso dizem outros, de modo mais preciso, que todas as palavras que se seguem [i.e., que se seguem a ‘Este É o Cálice do Meu Sangue’] são da substância da forma…”; e além disso, nas palavras que acabam de ser citadas da Q. 60, Art. 8, que: “se fosse suprimida alguma coisa que é da substância da forma…o sacramento não seria realizado”, fica evidente que ele ensina que a inteira forma sacramental para a consagração do vinho é essencial para a validade do Sacramento, e por força disso, para a validade da Missa.

Patrick Henry Omlor
11 de abril de 1997
São Leão I; Santa Gemma Galgani

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SOBRE O AUTOR

“Na caridade, por favor rogai pelo repouso da alma de:

+ Patrick Henry Omlor +

Mr. Omlor foi um dos primeiros católicos a soar o alarme a respeito das consequências do Vaticano II, de modo que foi apropriado ele ter falecido na Festa de Sto. Atanásio.

Sua obra de março de 1968 Questioning the Validity of Masses Using the New, All-English Canon [Questionando a Validade das Missas Que Usam o Novo Cânon Todo em Inglês] alertou inúmeros católicos por todo o mundo anglófono para os perigos das mudanças litúrgicas, antes mesmo da aparição do Novus Ordo Missae em 1969. O livro tornou-se com plena justiça um ‘clássico tradicionalista’.

Mr. Omlor combateu incansavelmente contra a falsificada tradução do ‘pro multis’ como ‘por todos’ na fórmula de consagração, suscitando uma controvérsia com que o próprio Bugnini acabou tendo de lidar.

Quarenta anos depois, todavia, a fraude modernista foi implicitamente reconhecida quando o próprio Vaticano decretou que ‘pro multis’ devia doravante ser traduzido como ‘por muitos’. E assim, até mesmo por aquilo que ele corretamente chamava de ‘A Igreja Latrocida’, Patrick Henry Omlor foi finalmente vindicado.

Que esse grande defensor da Fé Católica descanse em paz!”
— Padre Anthony Cekada
(In: http://www.sgg.org/2013/05/05/easter-v-8/).

“[…] Ele criou dez filhos, todos os quais têm a fé e a praticam, durante a maior apostasia na história.

Patrick Omlor nunca assistiu ao Novus Ordo Missae. Quando a nova tradução em inglês do Cânon da Missa foi introduzida publicamente nos EUA em outubro de 1967, ele levou a família à paróquia local, como de costume, e ao ouvir o padre pronunciar mutiladas as palavras de Nosso Senhor na consagração do vinho, Patrick Omlor pensou: ‘Eles mudaram as palavras do próprio Nosso Senhor!’, levantou-se e saiu, levando toda a família consigo.

Com os seus escritos contra as novidades dos modernistas, ele ajudou grande número de outros católicos, inclusive muitos sacerdotes. […]”
— John F. Lane

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