O ATEÍSMO E A MATÉRIA, 1960 | por GUSTAVO CORÇÃO

O ATEÍSMO CONTEMPORÂNEO

Se quisermos achar as raízes mais importantes do ateísmo contemporâneo – refiro-me ao ateísmo prático e vivido, que é a coisa mais abundante do século, e não ao ateísmo especulativo e pensado, que talvez não exista – devemos procurá-las na filosofia da natureza, na concepção que tinham do mundo físico os fundadores desta civilização, e não nas dúvidas teológicas e nos conflitos religiosos. A meu ver, como creio que já disse, é na própria visão do mundo físico que começa o drama da desespiritualização do homem, e conseguintemente o drama deste estilo de vida em que o mundo inteiro faz de conta que Deus não existe.

Em estudos anteriores assistimos ao desenrolar de uma espécie de conspiração contra um venerável patrimônio intelectual, que a humanidade tinha alcançado num estatuto cultural anterior. Pela história dos fatos e das doutrinas sabemos que havia, a partir do século XV, e cada vez mais acentuada, uma má vontade, um ressentimento misterioso contra a escolástica, e particularmente contra a linhagem aristotélico-tomista. Homens como Erasmo, que foram amigos de homens como Tomás Morus, se equivocaram gravemente sobre o de que deviam rir-se, e riram-se da escolástica. A filosofia tinha recuado, por assim dizer, mil anos, com a diferença trágica de ter mágoa e ressentimento onde outrora existia inocência e candura.

Vimos no problema das qualidades sensíveis a sem-cerimônia com que foi tratada a distinção entre uma e outra espécie; e vimos também a brutal simplicidade com que a categoria quantidade, a partir do século XVI e mais particularmente de Descartes, passou a absorver todas as outras categorias. Vimos também como o problema da matéria, com esquecimento e desprezo total pela solução do hilemorfismo aristotélico, cai naqueles extremos em que ora é a extensão substancializada e atualizada, ora não existe. E veríamos sinais do mesmo drama do pensamento se considerássemos o problema da mudança ou do movimento, um dos mais importantes da antigüidade, de onde Aristóteles tirou a genial solução que apresenta todos os seres criados com a composição de potência e ato. O movimento, em sentido amplo, ou mudança, seria uma atualização das potências do ser. Mais precisamente, movimento (em sentido amplo) é para Aristóteles a atualização daquilo que é potencial, num sentido em que ainda é potencial em certo grau. E isto só se realiza se houver uma causa já em ato. É preciso, evidentemente, ter algum hábito do vocabulário, das noções e das ideias envolvidas nestas fórmulas para tirar delas um proveito intelectual. Admite-se perfeitamente que alguém jamais tenha lido Aristóteles ou Santo Tomás, nem jamais tenha perdido meia hora com o problema do ser e do vir a ser; o que não se admite nesse caso é que a dita pessoa se julgue autorizada a rir do que não entendeu, e se creia superior a um filósofo pelo simples fato de ter data mais avançada na certidão de idade.

O fato é que os séculos XVII e XVIII se acharam perfeitamente equipados, filosoficamente, para ridicularizar o Estagirita, e para dizer, como Locke, que se alguém perguntasse o que queria dizer beweeginge poderíamos responder que queria dizer: actus entis in potentia quatenus in potentia.

O século XIX continuou a rir e o XX proclamou, pela voz do neopositivismo e dos campeões da lógica simbólica, que não somente a metafísica como também a lógica aristotélica estava superada. Lembro-me de ter folheado um desses livros, há tempos, e de ter lido numa das páginas mais modernistas a afirmação de que Aristóteles estava definitivamente morto e enterrado. Digo eu então, que jamais se viu enterro tão longo e tão falado. Estranho enterro! Estranhíssimo defunto!

Voltando ao problema do movimento ou da mudança, como o trataram os fundadores dos tempos modernos, assistimos ao mesmo processo de retração e de simplificação, segundo as normas nominalistas: todas as mudanças se reduzem, em última análise, ao movimento local. Triunfa a mecânica sobre a metafísica, e o problema da inércia e do movimento uniforme é apresentado como tiro de misericórdia na doutrina que apresenta o movimento como atualização de uma potência, causada sempre por algo que esteja em ato. O caso é o seguinte: a partir de Galileu e de Newton apresenta-se o problema do movimento uniforme sob um aspecto que parece desafiar a metafísica clássica. Um corpo posto em movimento por uma força e depois abandonado a si mesmo, permanecerá em movimento uniforme e retilíneo, perpetuamente, desde que não encontre alguma resistência pelo caminho. Aí temos um movimento sem causa, e um movimento inteiramente atualizado.

Newton dizia que todos os corpos permanecem em estado de repouso ou de movimento retilíneo uniforme até que uma força os tire dessas condições. Nesse enunciado de Newton já se vê uma coisa singular que escapou à filosofia do tempo: o estado de repouso e o de movimento retilíneo uniforme tinham exatamente a mesma propriedade fundamental. Que concluiremos daí? Concluiremos que movimento retilíneo uniforme e repouso, sob o ponto de vista físico, são a mesma coisa. Einstein prestou ao mundo científico o enorme favor de purificar a física empírica de certas noções que tinham dois graus de abstração, e que portanto pertenciam aos entes de razão matemáticos: a simultaneidade em lugares diferentes, por exemplo. Dizia ele que aquilo era meaningless, para ele, como físico. Ora, nós podemos dizer o mesmo do movimento retilíneo uniforme. Trata-se de um ente de razão matemático em que se incorpora numa determinada massa uma determinada força viva que permanece constante. Fisicamente não posso, nem em princípio, realizar tal entidade. A simples presença do observador bastará para criar um campo de gravidade e para introduzir uma força modificadora do movimento. Surgirá uma aceleração e o móvel passará a ser satélite do observador. Se imaginarmos um espaço infinitamente distante de qualquer influência e infinitamente vazio, então torna-se meaningless a própria ideia de local, quanto mais a de movimento local. E assim, aos empiristas ingleses que consideravam meaningless a definição de Aristóteles, podemos mostrar que a objeção é que não tem sentido. Não há, em física, o movimento com que se pretende desmentir Aristóteles. Há no segundo grau de abstração, na cinemática puramente matemática, essa entidade, mas aí, nesse domínio, não precisamos cuidar das causas eficientes porque as causas formais explicam cabalmente tudo. Tudo isto leva longe e exige um estudo pausado que mal podemos fazer nestes tempos de agitação infecunda. Não pretendemos aqui, neste espaço oferecido a uma leitura dominical, levar a maiores minúcias, se assim posso exprimir-me, os problemas do movimento local e da filosofia da natureza. O ponto onde quero chegar, com os exemplos que já dei, e com outros que o leitor sem dúvida achará, é aquele por onde comecei este artigo. Houve um movimento, ou até uma convergência de movimentos tendentes a apresentar o mundo físico numa espécie de radiografia em que se veem os ossos que, para o técnico, condensam a máxima realidade. Nós outros, que não praticamos tal tipo de técnica, reclamamos as carnes e os nervos do mundo. Queremos um mundo físico mas não sub-físico, não infra-físico, não menor do que é, e sobretudo, sobretudo!, queremos, reclamamos que nos deixem ver nos mais humildes seres, na pedra, na face lívida da lua, na flor colorida apesar de dizerem que não é colorida, no livro com sua existência dupla, a de coisa natural e a de artifício, na mosca, e até no corpo do próximo e no meu próprio, uma riqueza maior do que os esquemas sinistros ditados pelos espíritos geométricos, e uma orientação geral, e por cima e dentro de tudo, no mais íntimo dos dentros, aquela Causa Primeira sustentadora do ser, que está em toda parte, numa presença que os teólogos chamam presença de imensidade.

É um erro pensar que nos basta uma doutrina espiritual sobre Deus para termos o grau de piedade necessária para manter razoavelmente cristã a sociedade e a civilização, e ao mesmo tempo pensar que podemos desligar as coisas físicas e tratá-las à parte, num esquema em que tudo se reduz ao quantitativo e ao mecânico. Nossas exigências são muito maiores. Ou melhor, maiores são as exigências de uma civilização sadia e bem orientada. Não bastam o catecismo e os sacramentos, para a cristianização de uma cultura. Fazemos questão de inserir no plano do governo divino, não só entre as nações, mas tudo, absolutamente tudo, desde a alma do santo até a poeira que o vento levanta. Por isso defendemos a filosofia da natureza como defendemos a lei natural e os direitos da inteligência em todos os contatos com o ser.

Diário de Notícias, 7 de fevereiro de 1960.

A MATÉRIA, ESSA DESCONHECIDA

Na base da Filosofia da Natureza da tradição aristotélico-tomista está o hilemorfismo, doutrina que afirma a necessidade de dois princípios, a matéria e a forma, para explicar os seres do mundo físico. À primeira vista, como costuma acontecer com as noções ao mesmo tempo simples e fecundas, a teoria aristotélica parece um puro verbalismo que não explica coisa nenhuma, ou que explica claramente demais, como quiseram fazer Descartes e seus descendentes. Na verdade, a noção aristotélica de matéria é uma noção obscura, uma vez que é sempre pela forma e pelo seu fulgor que a inteligência apreende o segredo das coisas. A matéria é uma espécie de não-ser, obscuramente subjacente a todo o mundo físico, e por si mesma ininteligível. Por forma, na teoria aristotélica, entende-se não somente a forma superficial, o contorno, a forma geométrica, mas qualquer determinação que faz uma coisa ser o que ela é. Num pedaço de mármore, por exemplo, não é o mármore a matéria e o feitio a forma. O fato de ser marmóreo o objeto já é uma determinação e uma forma. Por degradação semântica, a expressão matéria costuma ser aplicada em qualquer substância que sirva para receber uma outra forma determinante: nesse sentido, o feitio da estátua está para o mármore como a forma está para a matéria. Essa matéria referida a uma forma determinante suplementar, como o mármore da estátua, a madeira dos móveis, o ferro das grades, etc. não é a matéria-prima aristotélica. Os filósofos a chamam de matéria segunda. A matéria prima aristotélica não é também evidentemente a matéria prima da linguagem industrial. É um princípio de ser, um substratum, um ininteligível. Ser em pura potência, em pura capacidade de ser, só se atualiza quando recebe uma forma determinante. Há na matéria algo que poderíamos chamar de máxima passividade, de máxima indeterminação, se é razoável usar tais superlativos em coisa tão subjacente.

Um bom professor de filosofia jamais aconselhará seu aluno a fazer um esforço para compreender o que seja matéria. Mais depressa ele o aconselhará a se esforçar por compreender o que ela não é, ou o que ela fica sendo em conúbio com a forma que a fecunda. Creio que é do próprio Aristóteles uma comparação que trata a matéria como coisa feminina e a forma como coisa masculina. Claro é que tal comparação só serve para assinalar o aspecto de princípio passivo que recebe de outro a determinação da forma. Podemos ainda, numa comparação teológica, dizer que os atributos da matéria (se até essa expressão podemos usar) são os opostos dos atributos de Deus. Onde em Deus formulamos o Ato-puro e a plenitude de ser, na matéria, ao contrário, formulamos algo que seria uma pura potência. Os dois extremos são inacessíveis à visão direta da nossa inteligência: a matéria por ser completamente destituída de luz própria (de forma); Deus por ser luminoso e inteligível demais para nossos olhos de coruja. A suma inteligibilidade de Deus é qualquer coisa como o excesso de luz que não nos deixa ver o sol; ao contrário disto, a ininteligibilidade da matéria vem de sua indeterminação, de seu não-ser. Em ambos os lados há para nós dificuldade e mistério. Dificuldade de conceituar, mas ao mesmo tempo necessidade intelectual de firmar a existência daquele obscuro princípio sem o qual os seres físicos seriam absurdos. Um dos erros mais curiosos, e até diria mais divertidos dos tempos em que triunfa a ciência empírica é o de pensar que a matéria é mais inteligível do que os anjos e Deus. Não é. O que é inteligível é a forma de que se reveste a matéria. A matéria é um pouco como aquele Homem Invisível de H. G. Wells que, farto da invisibilidade, e com nostalgias do comportamento normal, cobria-se de esparadrapos para se tornar visível. O que é visível para a inteligência é o que os filósofos chamam “a quididade do ser sensível ou material”. É verdade que para a faixa de nossa ótica intelectual a máxima visibilidade está nos seres corpóreos; e é verdade que neles é que firmamos o pé da razão para os saltos analógicos que nos levam a outros seres. De certo modo pode-se dizer que a matéria, trazendo um abaixamento de nível, realizando uma espécie de diafragmação, torna o ser corpóreo dotado de uma luminosidade máxima para o olho humano, embora não máxima em si mesma. Outro erro, não menos curioso, da cultura imbuída de nominalismo é aquele que vê na matéria a explicação máxima das coisas. Essa hipertrofia da causa material – causa que, sem dúvida, merece o devido respeito se não sai de seus limites – é uma das características dos novos bárbaros, e é sem dúvida um dos parâmetros principais desse fenômeno que chamaríamos de impotência filosófica, para não usarmos nomes mais grosseiros.

A epistemologia de nosso tempo está impregnada de materialismo, no sentido de supervalorizar a causa material e até de colocar nela a chave que abre os sete selos dos enigmas do mundo. Uma prova cabal deste fato está, por exemplo, na seguinte passagem que encontramos num livro de R. A. Millikan, prêmio Nobel de Física, mundialmente conhecido e respeitado. Eu também respeito profundamente a sua Física, mas já não posso dizer o mesmo de sua Filosofia. Eis a passagem:

“Pode ser mera coincidência que o homem que pela primeira vez observou que o frotamento do âmbar provocava nele um novo estado, agora conhecido com o nome de eletrificação, fosse também o que, pela primeira vez, expressou a convicção de que deve existir um grande princípio de unidade que estabeleça um vínculo entre todos os fenômenos, tornando-os racionalmente inteligíveis; por detrás de toda a aparente diversidade e mudança das coisas, existe um elemento primordial que compõe todas as coisas, e cuja procura deve ser o objetivo último de toda ciência natural. Mesmo sendo uma simples coincidência, de qualquer modo corresponde a Tales de Mileto a dupla honra” [Electrones (+ y –), Protones, Fotones Neutrones y Rayos Cosmicos. Espasa – Calpe Argentina S. A., 1952 pág. 13].

A seguir, o ilustre autor diz que a Física Moderna tem seguido o caminho preconizado por Tales de Mileto. Ora, apesar de todas as aparências de imodéstia, sou forçado a dizer que nem o grego nem o físico moderno têm razão. O grande físico e geômetra da antigüidade não tinha vocação filosófica e todas as vezes que um grande cientista se põe a fazer filosofia o resultado é triste. É claro que o tal elemento primordial a que se refere Tales de Mileto, se existe como massa de que tudo é feito, já existe com tais e quais propriedades e determinações. E se assim é, já é composto de matéria e forma, e por conseguinte, não é um elemento primordial. Se por outro lado existe como queria Aristóteles, isto é, como princípio de ser, então não será ele o objetivo último de toda a ciência natural, pela excelente razão de que tal princípio jamais pode ser objeto de ciência alguma. Também não é verdade que a Física moderna, com suas investigações intra-atômicas, esteja seguindo a linha anunciada por Tales de Mileto. Ninguém, que me conste, está procurando o elemento primordial de que todas as coisas são compostas. Pode-se dizer, com razão, que a ciência física moderna está tirando uma desforra do excesso de formalismo que tinha nos tempos comandados por Galileu e Newton. A física moderna é mais Física, e conseguintemente mais material. A análise das substâncias e as descobertas sensacionais da microfísica, de certo modo, seguem um trajeto contrário àquele preconizado pelo grego: em vez de se encontrar uma substância, de cujos grãos tudo fosse composto, o que se vê é uma complexidade tremenda de seres batizados com nomes que no mundo inteiro despertam ressonâncias de prestígio e de terror. Elétrons, prótons, nêutrons, fótons, pósitrons… e cada um desses seres, mergulhado numa obscuridade e numa irracionalidade que dá vertigem, propõe à imaginação as mais desconcertantes figuras. Chamam-se corpúsculos, mas logo o físico nos diz severamente que não devemos, sequer um instante, pensar que corpúsculo quer dizer corpo pequenino. O que é um elétron? Como entidade do mundo físico será alguma coisa material, e sendo um elétron e não um próton ou um méson, tem uma forma, no sentido aristotélico, da mesma maneira que um burro, uma girafa, uma árvore, uma montanha. Nesse sentido podemos dizer que o físico da microfísica não está mais perto da matéria prima do que um de nós que trabalha com o mundo de nossa estatura. Os conhecimentos trazidos pela física moderna podem armar problemas interessantes e novos para o filósofo, mas é errôneo pensar que estamos mais próximos, por este caminho da ciência empírica, da descoberta da tal substância de que tudo é feito. E não podemos conseguir este resultado por uma razão simples. Com instrumentos ou a olho nu, a inteligência do homem só apreende o ser pela sua forma atualizada. A matéria prima de Aristóteles, por sua própria definição, escapa à análise empírica. A outra matéria a que se referia Tales e atrás da qual parece andar o sábio Millikan, jamais será encontrada, porque não existe.

Diário de Notícias, – 14 de fevereiro de 1960

Extraído de GUSTAVO CORÇÃO; Gustavo Corção Tomista, Editora Permanência, 2012, Edição Kindle.

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