DO ANTICRISTO MISTO (OU MISTURADO), 1411-1412 | SERMÃO DE S. VICENTE FERRER

Primeira Parte

A destruição e a perda da vida espiritual

Estas palavras são escritas no segundo capítulo de São Lucas, para falar do fim do mundo e diz duas coisas. A primeira é que não quero louvar nem repreender aos que pregam o fim do mundo e dizem que será daqui a pouco tempo. A segunda é dos que pregam, ou dizem que o fim do mundo não está tão próximo como alguns dizem. A estes não os quero louvar, nem refutar; no entanto agora, para mostrar a quais deles há de dar mais créditos, quero declarar três profecias que estão escritas nos capítulos segundo, terceiro e quarto do livro de Daniel, das quais, a primeira fala do declínio da vida espiritual, a segunda fala do declínio da dignidade eclesiástica e a terceira, do declínio da fé católica. E isto digo, porque ao tempo que se veja cumprir todas estas três coisas, uma após outra, se possa conhecer qual dos pregadores é mais verídico.

E como todas as coisas do Antigo Testamento eram ditas em figura, trago aqui autoridades a respeito do fim do mundo, falando moralmente. Pois quando se veja cumprida a sentença, ou entendimento da primeira profecia, então se possa dizer: “Vede o estado da vida espiritual posto em ruína e destruição”. Isto mesmo se poderá dizer das outras duas. E naquele tempo se estará mui próximo do fim do mundo.

Digo primeiro então, que Daniel nos demonstra na primeira profecia a queda da vida espiritual, ao contar no segundo capítulo, que o Rei Nabucodonosor viu em sonhos uma estátua muito grande, a qual tinha a cabeça de ouro puro, o torso e braços de prata, o ventre e os músculos de bronze, as pernas de ferro, e os pés eram uma parte de barro e outra de ferro. Depois avistou uma pedra vindo do monte, cortada sem mãos de homens, a qual, caindo aos pés da estátua, a transformou toda em pó.

E o sentido alegórico de dita estátua nos demonstra o começo e o fim da Igreja.

1) A cabeça de ouro: a Igreja no tempo dos apóstolos e mártires

Sua cabeça de ouro puro é entendida pelo tempo dos apóstolos e dos mártires, que foi o princípio da Igreja: ela era então de ouro puro; quero dizer que a cristandade gozava de perfeita vida espiritual, e estava no ardor da devoção e da caridade soberana; porque assim como o ouro é mais excelente e excede a todos os outros metais, assim faz a vida espiritual em relação a todas as outras vidas. Naquele tempo dos Apóstolos e mártires, logo após se ensinar aos cristãos a falar, era-lhes ensinado também a fazer o sinal da Cruz. Abençoavam todos à mesa antes de comer e todos sabiam o Pater Noster, a Ave Maria e o Credo. Todos os dias oravam de manhã e de tarde, ouvindo missa antes que se fizesse algo do temporal ou dos negócios. Cada dia eram constantes, perseverando na fração do pão: quer dizer que tratavam do sacramento do altar. Todos os dias queriam ouvir sermões e nunca se enfadavam, nem cansavam por muitos que ouvissem. Sabiam todos a maneira de confessar seus pecados. Davam aos templos suas oferendas e de cada coisa davam a décima parte aos sacerdotes; e o que era melhor, que de seus próprios bens socorriam às igrejas.

Todos se dispensavam grande caridade e amor. Não eram aproveitadores, nem falsos mercadores, nem mentirosos compradores ou vendedores. Eram pacíficos uns com os outros, sem contendas, inveja, nem discórdia. Guardavam os matrimônios em grande honestidade. Eram esmoleiros, fiéis e sinceros. Sabiam as coisas altas, crendo aquelas com simplicidade e firmeza. Todos os senhores temporais eram muito retos na justiça e cheios de misericórdia.

Os senhores eclesiásticos e bispos eram piedosos. De todas suas rendas faziam três partes, das quais davam duas às igrejas, hospitais, viúvas, órfãos e pobres. A terceira parte, e menor de todas, retinham para manter sua vida; e ao cabo do ano o que disso havia sobrado o repartiam entre os pobres. Celebravam cada dia (os divinos mistérios). Casta e santamente viviam, pregando sempre a palavra divina, dando ao povo bons exemplos. Os sacerdotes eram santos, castos, devotos, discretos e de honesta conversação; sem avareza; muito dispostos ao bem, com mansidão e humanidade. Os religiosos eram honestos, pobres, obedientes, e de santa vida, tanto que de mil, um só apenas se encontrava que quebrasse sua regra. As igrejas eram honradas por seu povo, tanto na edificação como em seu cuidado e na devoção. Os oficiais e trabalhadores criam nos artigos da fé, guardavam os mandamentos assim como os religiosos guardavam suas regras. Tinham o nome de Deus em grande reverência e temor. E assim como verdadeira era a fé, era também a vida: com caridade e amor espiritual, e com grande devoção. De tal maneira se mantinha todo o dito, que a cabeça da Igreja era então de ouro puro. E este tempo durou mais de quatrocentos anos.

2) O torso de prata: o arianismo e as primeiras heresias

Depois, a cristandade descendeu de ouro em prata, que menos vale. Os arianos se levantaram então contra a igreja, dizendo, como hereges, grandes erros e falsas opiniões contra a fé. E de tal maneira foram acesos na heresia, que quase todo o mundo foi corrompido por suas falsidades, de forma que seus erros não se podem aqui explicar, ou dizer do todo, ainda que apareçam às claras na Escritura. Por causa desses hereges perderam os cristãos a forma de persignar-se e a maneira de fazer oração; deixaram assim mesmo de ouvir missa e de comungar. Deixaram de fazer todos os bens; pouco faltou para que não perecesse todo o estado da fé verdadeira, e da vida. Quis Deus, então, enviar os doutores da igreja, como foram: Santo Agostinho, São Jerônimo, Santo Ambrósio e São Gregório, e outros muitos homens de ciência e vida; e mui nobres varões, os quais mantiveram a fé católica e os mandamentos da lei, as virtudes, os sacramentos, a boa e santa vida. Estes declaravam e expunham a Sagrada Escritura, disputando contra os hereges; mas a Igreja não pode voltar ao estado primeiro de ouro, de onde era abençoada, mas baixou ao de prata porque se perdeu o gosto pela devoção. Este tempo prateado, ou idade de prata durou mais de quatrocentos anos.

3) O ventre de bronze: a idade obscura da Igreja e a heresia muçulmana

Até o presente momento, a grande estátua é, a saber, a Igreja e a cristandade, descendendo de prata, no torso, e pernas de bronze (que vale menos) porque este metal é muito leviano e fácil de levar a qualquer parte e tem má sonoridade. Assim estava a cristandade, ladeada de falsos erros e maus costumes, porque não se pregava a palavra divina.

Naquele tempo foi que Maomé se levantou e corrompeu todo o Barbarismo: já não se queria ouvir missa senão por força e ninguém procurava fazer oração; Deus era negado, e o mundo posto em grande maldade. Todos consentiam em cometer delitos e casos mui torpes: a humildade, justiça, misericórdia, já não existiam; não havia fé entre os homens. A piedade, a obediência dos mandamentos, não se conhecia já no mundo como tampouco a vida virtuosa.

Nosso redentor Jesus Cristo quis então destruir o mundo, como se encontra nas vidas dos bem-aventurados São Domingos e São Francisco, onde se escreve, que o onipotente Deus tinha três lanças contra o mundo, com grande ira por seus pecados e muitas maldades, lanças estas que demonstravam três coisas:

A primeira é a perseguição do Anticristo.

A segunda, o fim do mundo.

A terceira, o dia do juízo.

Nesta grande angústia alcançou a Virgem Maria, Nossa Senhora, um tempo de dilação, para que o mundo não se perdesse; e ganhou de seu Filho precioso que esperasse as pregações de ditos santos bem-aventurados, para que pregassem por todo o mundo e se convertessem os homens a Deus. Esse tempo durou tanto quanto os seus frades construíssem estas duas regras, isto é, uns cento e cinquenta anos. Tais regras morrem agora quanto à sua observância e cinquenta anos já passaram que os frades não caminham direito: o voto e as cerimônias não são guardados, porque são piores estes frades que os outros cristãos, vivendo intrinsecamente em meio à soberba, à ira, à preguiça e à simonia; tão cheios de vícios que são exemplo de toda má vida e feitos de todo caminho e carreira para a perdição, pelo que a Igreja tem baixado do ventre de bronze às pernas de ferro.

4) As pernas de ferro: a época de São Vicente Ferrer (1400)

E é o tempo em que estamos agora, porque o ferro é duro, e não se pode dobrar, e é tão frio de por si que não se pode jamais modificar, nem corrigir senão com o fogo, nem dando-lhe golpes com os martelos.

No presente é o que tem sucedido com a cristandade, ou seja, que não há nenhum que faça emenda de seus delitos. Nem os bispos nem os senhores temporais, nem os religiosos, nem os sacerdotes, nem os que estão em estado conjugal. Não há emenda no ermitão, nem no mercador, nem nas virgens nem nas viúvas. Tampouco se encontra no lavrador, ou no oficial ou no escudeiro; pois não se encontra a correção dos costumes em nenhum servo, escolar, mestre, discípulo, doutor, legista, bacharel ou artista.

Não se convertem por pregações, nem por exemplos, nem por milagres. Nem têm medo, nem se espantam dos tormentos, enfermidades, guerras, fomes, nem mortandade. Não fazem emenda por inundações, ou dilúvios de águas, nem por eclipses, obscuridades do Sol e da Lua ou dos outros Planetas; tudo nos parece como escárnio e burla. Estão já tão aborrecidos os cristãos, que não parecem ser já homens, mas demônios.

Todos são muito ásperos uns com os outros, sem piedade; sem bondade, cruéis, aproveitadores, raivosos sem lugar a bem algum; muito endurecidos, sem devoção, e amadores do mundo, sem temor de Deus; são escarnecedores do Rei do céu, sem amor algum, pelo que já são os cristãos mais duros e ásperos que o ferro mesmo.

Ó, como há descendido já a estátua e a cristandade ao ferro em grande perdição, do qual Davi profetizou no salmo CIV: “Humiliaverunt in compedibus pedes eius”, que quer dizer: “humilharam os pés nas prisões, ou grilhões, o ferro passou à sua alma”; porque assim como os grilhões impedem o andar dos pés corporais, assim os pecados impedem a alma espiritual andar direita com Deus, como diz Davi: “Ibunt de virtute in virtutem videbitur Deus deorum in Sion”, que quer dizer: “irão de virtude em virtude, e será visto o Deus dos deuses em Sião”. Porque a alma de qualquer discreto cristão deve andar com os dois pés, muito arquejada de virtude em virtude. O pé direito é o amor celestial; e o esquerdo é o temor infernal. E quando o diabo tenta de algum pecado, deve pensar o homem como as penas do inferno são aparelhadas para o pobre que consente na má tentação, e põe em obra o delito. E assim pensando resistirá e lhe defenderá das tentações.

O segundo é quando o diabo tenta o homem que deixa de fazer algum bem começado, e, se aquele costumava fazer algum ato muito virtuoso, lhe incita agora a que não o faça mais. Então deve pensar o cristão que se seguisse tão mau conselho erraria e perderia toda a graça e o amor de Deus. Com este pensamento poderá acabar com todo o bem que já tenha começado.

E pelos dois pés, de amor e de temor, poderá sempre andar de virtude em virtude neste mundo, e depois, no outro, chegar ao Deus dos deuses em Sião, onde estão os anjos naquela glória da visão bem-aventurada.

Não obstante, está o que diz Davi falando acima do tempo moderno, ou presente: “Humilharam seus pés nos ferros ou grilhões”, quer dizer: em ociosidade ou preguiça, porque comumente os grilhões têm dois olhos onde os pés costumam aprisionar-se de tal maneira, que não pode o homem andar livre devido aquele embaraço ou impedimento. Assim estes dois pés, o amor de Deus e temor do inferno, estão já cativos na preguiça e ociosidade, e por esse impedimento a alma não pode ir de virtude em virtude. E tão apartados vão dela os homens que de mil, apenas um já se encontrará que ame a Deus, ou tema o inferno, como se nunca tivesse de morrer. Por isto diz Davi: “O ferro passa à sua alma”, que quer dizer, a obstinação, porque nenhum cristão se corrige.

Ó, quanta dureza! Ó, quanta dureza há agora na Igreja de Deus e na cristandade! Porque agora apenas sabem se resignar, e se o fazem, não como deveria, e mal. E menos sabem fazer oração, e confessar muito pouco, e tarde e mal. Muito poucos ouvem missa e pregação. Comungar? Nem há memória. Os artigos da fé, pouquíssimos os sabem, e, os que o sabem, os sabem mal; e muito pior os mandamentos da lei. Muito mal dão suas oblações e sacrifícios ao templo; pior os dízimos. E muito pior se inclinam a perdoar suas injúrias, nem a restituir o mal ganhado. Estão todos cheios de muita pompa, mentirosos, ladrões, cobiçosos, viciosos, avarentos, enganadores e ambiciosos. Os mandamentos da lei não os guardam. São blasfemadores; servem a Deus sem acatamento, com menosprezo, e sem firmeza. Trazem mais escândalo que bom fruto.

Os Prelados são vãos, pomposos, simoníacos, avarentos, e luxuriosos: os quais puseram já toda sua fé na medida e coisas terrenas, a qual contrapesam com o que recebem; onde não há rendimentos, da fé se esquecem, e quando os têm, menos se lembram. Não se preocupam da Igreja; bem se lembram e têm cuidado daqueles que mais lhes dão, e daqueles que mais lhes prometem. Assim estão todos corrompidos. Estão estes mesmos sem caridade, cheios de gula e muito preguiçosos: que nem celebram, nem ainda pregam, senão que escandalizam. Os senhores temporais estão desnudos de caridade, sem misericórdia, não piedosos, nem mantêm paz.

Brevemente falando aqui dos religiosos, há poucos neste mundo que guardem sua regra, nem a conservem como deveriam: são muito corruptos e escandalosos; descortinam às nossas almas a via e o caminho da perdição.

Os sacerdotes? Que fazem agora? Mais valem as honras e dignidades que os bons costumes; porque se tornaram muito ignorantes, presunçosos, insultadores, idiotas, falsos, hipócritas, desprezadores dos que sabem. Estão cheios de simonia, muito avarentos, cheios de muita inveja, e luxuriosos, muito dissolutos. Estão muito endurecidos e são muito tardios à oração, contudo, velozes e muito ligeiros para a luxúria. Correm e vão ligeiros atrás do dinheiro: são cruéis e sem misericórdia. Continuamente vão carregados de armas, mas não levam os breviários.

São pertinazes e muito faladores, mas não verdadeiros. Seria de muito proveito à cristandade, se entre cem se encontrasse um devoto nos sacerdotes; e se o acharem, devem guardá-lo como uma joia preciosa e tanto mais, que não lhe deixem ser muito visitado, e em especial pelas mulheres. Pois já podemos dizer, com dor, que é verdadeira esta profecia que diz: “Como se tem obscurecido já o ouro, e há mudado já a cor excelente: por todas as partes já se têm derrubado as pedras do Santuário”. Porque a boa vida, que é o ouro, é já tão obscura que nem parece ouro; há mudado de cor, quer dizer: a santa palavra do Evangelho, a qual sempre pinta as nossas almas de excelentes cores, que são as virtudes. Já a cor preciosa e boa, que é sentença de teologia, se tem mudado em cores filosóficas, e ainda poéticas, porque os pregadores, salvo alguns poucos, já não pregam a Bíblia.

Assim que, prosseguindo com nosso tema, têm-se derrubado as pedras do Santuário, as quais se tomam pelos religiosos sábios, e de ciência, que devem defender muito as cidades e a cristandade com as pedras, quer dizer, com as autoridades da Sagrada e Santa Escritura. Isto o farão pregando sempre contra os vícios que muito se têm derramado e estendido por todas as partes dos senhores temporais, para que não percam as dignidades. Porque já mal se encontram doutores, nem mestres nos monastérios, porém nas cortes de grandes estados existem confessores de Reis e Rainhas, de Duques e Condes, e outras dignidades. Pois assim se vão todas as pedras do Santuário muito derramadas pelas cabeças de ditas partes.

Bem podemos dizer aquelas palavras de Jeremias, no capítulo quarto: “Somos feitos pupilos sem pai, e nossas mães são como viúvas. A nossa água, por dinheiro a bebemos, e nossa lenha por preço a compramos”. “Pupilos sem pais”, quer dizer, sem pastor eclesiástico, e “nossas almas estão feitas sem pais”, porque mui difícil é de encontrá-los. Pois uma mulher que bem quiser servir a Deus, não encontrará entre mil um firme, constante e verdadeiro pai espiritual. “Nossas mães são viúvas”, significa as dignidades da Igreja; porque não há bispo que já se preocupe das ovelhas, que são as almas de seu bispado, nem reitor das almas que, de sua reitoria menos se lembre. Tanto pior que se ausente e deem vicariatos anuais a quem sejam ignorantes, e não se condoem se os lobos tomam suas almas.

Diz mais ainda: “a nossa água por dinheiro a bebemos”. Esta água é a virtude, ou graça do Espírito Santo, a qual é dada nos sacramentos pelos ministros da Igreja que são os sacerdotes. “Se vende por dinheiro”, porque não se acha já administrador, um de mil, que queira dá-la livremente, os quais não tomam por escondido ou descoberto preço algum: e corporalmente, ou de pensamento, são simoníacos, de tal maneira que se dedicam à avareza desde o maior até o menor. Assim o mundo se acha livre à negligência e obstinação ao ponto de nenhum querer emendar-se de seus delitos, senão, ao revés, se tornam todos cada dia piores em suas maldades. Pois bem, podemos dizer agora que o ferro duro da obstinação de nosso pecado atravessou todas nossas almas. Porém, este ferro será humilhado e abrandado por muitos golpes de martelos. Estes golpes ou perseguição virão por Deus muito rápido na cristandade, o qual disse no salmo LXXIV: “Quando eu tome o tempo, julgarei as justiças”. E assim em breve será enviada a nós esta ira de Deus, ao ponto de que, se os cristãos soubessem a décima parte de sua tribulação, muitos morreriam da grande dor que sentiriam. E assim conhecerão, forçados, a seu Criador.

Pois se bem queremos considerar as coisas ditas, bem podemos dizer que a estátua, que é a Igreja, descende desde o ouro puro às pernas de ferro, em cujo tempo estamos agora, e assim diremos: “Vede o estado da vida espiritual posto na ruína e destruição”, que quer dizer, que tem baixado de ouro puro em péssimo ferro, e do ardor da caridade à dureza e obstinação, sempre pecando, e não se fazendo emenda alguma.

5) O tempo do Anticristo

Pois que nos resta já da estátua? Só os pés, dos quais uma parte é de barro e outra de ferro. E este será o triste tempo do Anticristo, quando nasça, no qual a gente começará a ser de ferro: muito obstinados nos pecados, e mais ainda do que se tem dito. Não se amarão, serão muito duros sem submissão, e muito ásperos e sem misericórdia uns com os outros.

Serão muito frios em amar a Deus e prontos em amar ao mundo. Se estão duros hoje para crer nos artigos da fé católica, ó, quão duro será aquele ferro da última parte da estátua! Refiro-me a quando os cristãos neguem a Deus e sua fé e apartem de si os tormentos dos tristes corpos. Bem será, por certo, a última parte de todas, na que nascerá o Anticristo e junto com ele se contará o fim do número [dos eleitos].

A parte dos pés da estátua será de lodo, e isto se entende pela cristandade, pois então serão os homens carnais: não manterão a lei do matrimônio, nem ainda os graus de consanguinidade ao enlutado. Não haverá jejuns, nem abstinência. Todos serão luxuriosos, cheios de gula, sem lei nem conserto; não se absterão de carnalidade, mas nela serão muito envoltos e sem temperança, avaros, pomposos, sem humildade, cheios de preguiça, dados ao ócio, sem diligência de boa saúde. De maneira que estarão todos os cristãos cheios de ferro e de triste lodo, diferente do que Davi pedia a Deus que lhe guardasse, em sua oração, dizendo: “Livra-me, Senhor, do lodo para que não seja infeccionado. Livra-me daqueles que me aborreceram, e do profundo das águas”. O latim diz no salmo LXVIII: “Eripe me de luto: ut non infigar. Libera me ab his qui oderunt me: et de profundis aquarumi”.

Naquele tempo se dará que aquela estátua será abaixada de ouro em prata, e assim mesmo, de grau em grau, até chegar ao tempo de ferro duro, o qual será o tempo da tribulação do Anticristo. Então se poderá muito bem dizer: “Vede o estado da vida espiritual posto na ruína e destruição”. Pois este é o tempo que poderá restar por cumprir para que venha a pedra do monte, cortada sem mãos de homem, que ferirá os pés da estátua, e a levará a ser nada.

A dita pedra é o redentor Cristo Jesus, o qual vem por si mesmo, não enviado por outro homem, porque ele está acima de tudo, e ferirá a grande estátua, quero dizer o mundo, pela combustão do fogo que o queimará, e se tornará cinza porque regressando aos elementos se purgará em um momento, de tal maneira que, todo o mundo ficará feito uma simples cinza redonda.

Esta é a primeira parte do sermão, a saber, da destruição e perda da vida espiritual e a primeira profecia das três elegidas por nós.

Segunda parte

A perda e decadência da dignidade eclesiástica

A segunda parte da profecia de Daniel, a declara o senhor São Vicente desta maneira:

Pois digo que a segunda profecia mostra a queda da dignidade da Igreja, e por ela se abre e manifesta o mistério do fim da Igreja. E quem ler entenda, porque brevemente quero expor o que a mim me foi declarado debaixo deste entendimento e sentença.

Alguns dizem que o Anticristo se manifestará muito rapidamente ao mundo e outros dizem que ainda está muito longe de nós e que tardará. E para compreender melhor sobre a sua vinda, é necessário saber que virão dois Anticristos, um depois do outro, antes que venha a destruição pelo fogo do fim do mundo. Dos quais um há de ser misturado e virá primeiro, e o outro depois que ser puro.

O misturado virá sob uma espécie de santidade: o qual há de ter vida cristã por fora e em seu coração será arraigado o espírito maligno, o qual inspirará que faça muitas maldades na Igreja sob capa de bem. Este não quererá conselho de ninguém, mas antes, tudo aquilo que lhe pareça executará, seja mau ou seja bom, pela instigação e conselho do diabo. Enganará a muitos Príncipes e poderosos com sua santidade fingida e má, de tal maneira que os levará a grandes erros e escândalos. Desviará pela lei a muitos varões doutos e sábios, porque o diabo trabalhará para que cumpra seus pensamentos, dando-lhe a entender que vêm de parte de Deus; muitos homens famosos em santidade serão enganados pelo diabo, por meio do Anticristo misturado.

E para que mais e melhor possamos entender o erro deste maldito, segundo que temos declarado e se permite aqui dizê-lo, é conveniente ver o que se diz na profecia de Daniel, no capítulo III, onde explica que Nabucodonosor mandou fazer uma estátua de ouro a qual tinha de altura sessenta côvados, e de largura seis, e a mandou pôr em um grande campo da província de Babilônia. Depois mandou chamar a todos os filósofos, astrólogos, sábios, duques, condes, juízes, varões e príncipes, para que levantassem e tornassem público a dito ídolo, ao qual mandou sob pena de morte que fosse adorado por todos quando fizessem soar as trombetas e outros instrumentos, pelo que todos, seja por força ou de bom grado, a adoraram.

E entre tanta companhia de gente, não se encontraram senão três varões fiéis e bons, Sidrac, Misac e Abdênago. Estes três preferiram, em troca, entrar no forno de fogo, pela lealdade a seu Senhor, que adorar o ídolo. Por isso baixou o Anjo do céu que os guardou sem queimar um cabelo de sua cabeça.

Tudo isso o mesmo texto da Bíblia o declara, mas a partir desta declaração eu aproveito para expressar o seguinte: Nabucodonosor se entende pelo Anticristo misturado, o qual se encontrará na dignidade papal tão grande(mente), que nenhum o foi desde o princípio, nem será depois até o fim do mundo, e será o último em dita dignidade.

Não digo eu que será feito papa, senão, ídolo levantado contra o Papa verdadeiro. Esta será a quarta besta que sairá do mar.

E quando se veja todo o dito, morrendo este Anticristo misturado, virá o Anticristo puro, ou perverso, do qual se fala em dito capítulo segundo o diremos abaixo, e nesta parte se manifestará um mistério.

Nabucodonosor se interpreta em notória angústia, pois ele angustiará mundo, atribulando os corações com esta dor, e se conhecerá que Deus lhe matará de má morte com sua dor. Então serão conhecidas suas más obras por todo o mundo, e muito manifesta sua grande maldade de coração, e corrompida sua santidade muito simulada.

Mas digo ainda que se intitula profético o sinal deste mundo porque mundo mesmo profetizará seu fim; e qual será este sinal? Certamente não se pode dizer que foi o do Sol nos tempos do grande Josué, quando retornou três linhas ao Oriente, isto foi só sinal da vitória contra os Amalecitas.

Tampouco se pode dizer que foi este sinal: quando no tempo do Rei Ezequias tornou três horas atrás o relógio do tempo.

Ainda o dilúvio não foi sinal do fim do mundo porque então foram guardados na arca de Noé homens e mulheres para multiplicar o mundo. Nem muitos outros sinais que se têm mostrado nos Planetas não foram sinal do fim do mundo, senão de alguma província, príncipe, ou reino; ou por destruição, ou perdição; por morte ou vida; ou por vitória ou vaidade.

Então qual será o sinal do fim do mundo? Certamente a serpente, porque o anjo Lúcifer tomou sua forma, deixando o sinal de sua própria imagem, quando corrompeu a nossa natureza humana, tanto corporal como espiritual; e então teve seu fim: porque se Adão não tivesse pecado, o homem seria eterno e não teria sido expulso do paraíso possuído, de tal modo que a serpente foi sinal para o homem, e ainda para o mundo. E ainda mais, pois a serpente foi o ídolo, porque nossos pais Adão e Eva lhe adoraram quando lhe creram, fazendo a vontade do demônio (que estava dentro dela), e deixaram a seu criador e foram idólatras.

Por onde se interpreta a Nabucodonosor como sinal profético deste mundo com seu ídolo, o qual foi figura do Anticristo misturado. Pois se levantará um príncipe, segundo já se disse, o qual fará um ídolo, o último na Igreja de Deus; morto aquele (o Anticristo misturado) não se levantará outro até o fim do mundo em dignidade papal. E este príncipe será o Anticristo misturado; e o sinal será que, o ídolo que ele fizer, trará por armas uma serpente que terá na boca o sinal do mundo. Sem embargo, suas armas não serão como as da serpente, [posto] que de Lúcifer não foi sua arma, mas a imagem da Trindade, a qual perdeu por sua grande soberba, por querer ser igual a Deus no céu.

Por isso este Príncipe mundano com as armas, assim o digo, trará (uma) serpente, a qual nos mostrará o fim do mundo e a destruição da natureza humana, porque naquela figura enganou o diabo ao mundo. Pois o dito Príncipe fará um ídolo, segundo está dito, e este será um papa mau contra Deus, segundo fez Nabucodonosor, e porá àquele no meio do campo da província de Babilônia, que quer dizer confusão, como não haverá outra em todo o mundo. Este chegará a todos os filósofos, astrólogos, príncipes etc., para que proclamem a dito papa, isto é, para que publiquem seus atos, segundo o que mandou fazer Nabucodonosor de sua estátua. E quando já tiver sido publicado por toda a Igreja, então mandará que se lhe adore ao som dos ruídos e pregoeiros, a saber, que o aceitem sob pena de morte. Quando então a cristandade o adorará, alguns de bom grado, alguns por força, salvo os três fiéis Sidrac, Misac e Abdênago, que quer dizer, alguns poucos escolhidos.

E nesta parte nascem duas questões.

A primeira que alguns dizem que isto já se cumpriu naquele ídolo que foi feito em Pisa: porque àquele adoraram os da cristandade, tirando os três: Sidrac, que é o reino de Castela, que são homens belos; Misac, que se entende pelo reino de Escócia, porque estes são varões alegres de rosto, e Abdênago, que se toma pelo reino de Aragão, que são calados, não alegres de rosto, antes parecem gente inflamada como quem tem a maldade no corpo, e não a ousam manifestar, mas que, com tristeza, calam.

Os referidos reinos não adoraram o ídolo feito em Pisa. E quanto a isto digo que se cumpriu a profecia, porque então aos que não adoraram não lhes foi imposta pena de morte, como foi feito por Nabucodonosor. E estes sinais foram [dados] pelo Anticristo puro.

A segunda questão é que, muitos pensam que aquela figura se cumprirá no Anticristo puro, o qual se fará adorar a si mesmo como a Deus. A isto digo que não se entenda de tal maneira, porque o Anticristo puro não terá feitores, nem eleitores, que sejam homens como o ídolo de Nabucodonosor, mas por instigação diabólica se fará adorar como a Deus; e este será tão terrível em gesto e aspecto que vendo-o, e ouvindo sua fama, todos os príncipes do mundo lhe darão obediência, e lhe estarão submetidos, porque quando este se faça público neste mundo, não haverá outro monarca maior; e Deus permitirá, pelos pecados do povo, que tenha poderio sobre todos os reis do mundo que existam então.

Mas não se entende isto do Anticristo puro, porque assim como o ídolo de Nabucodonosor foi feito por outro, e teve eleitores, assim este ídolo último, antes do Anticristo, há de ter feitor, que será o dito príncipe acima e seus eleitores que chegam ao campo de Babilônia, que é o da confusão. Porque Deus incitará o príncipe e a serpente, e ficará o mundo por alguns anos confundido e envergonhado, mais inclusive que o que fez aquele outro com os pisanos, os quais andaram na confusão daqueles que o elevaram.

Este ídolo terá de altura sessenta côvados, ou seja, tantos como o anterior.

Bispos que o elevarão ao papado pela força ou de bom grado, e ainda por alguns outros ignorantes, que serão recebidos pela santidade fingida do dito Anticristo misturado. Ainda o dito ídolo terá de largura sete côvados, que quer dizer, sete poderosos príncipes que lhe darão obediência sendo senhores em toda a Igreja. Estes estarão em seu lugar contra o Papa verdadeiro. E se não fosse desta maneira, não se publicaria a pena de morte aos que não lhe quisessem obedecer, porque onde há verdadeiro Papa, a fé, e a cristandade, tudo é um, sendo então a pena desnecessária. Porém, contra este ídolo mau haverá outro Santo Padre verdadeiro, no qual crerão os cristãos.

Para enganar e apartar todos os Cristãos deste verdadeiro Papa, lhes farão três enganos, que acarretarão pena de morte quando não se queira dar obediência ao mal contrário.

O primeiro engano será por dentro, no coração. O segundo será no corpo. E o outro à vida e às coisas temporais.

Serão apartados todos os corações do verdadeiro Papa. Isto será por temor. Segundo os corpos, por espanto e grande terror. Terceiro, pelos bens temporais, mas não gozarão muitos deles.

Estes hão de ser eclesiásticos, que serão despojados depois de seus benefícios, segundo o que direi mais adiante. Pois ao [fim e ao] cabo restarão da cristandade muito poucos que não adorem o dito ídolo pelas muitas perseguições e tormentos que serão dados pelos seis príncipes, e um será Nabucodonosor, posto na cadeira, e os outros executarão [a perseguição] primeiro na Igreja contra os bispos, segundo contra os religiosos e sacerdotes, e por fim contra os leigos que são Sidrac, Misac e Abdênago, os quais não adorarão o ídolo.

E estes serão entendidos por três condições de pessoas, segundo a interpretação supradita, porque Sidrac é interpretado “belo”, e estes serão os verdadeiros religiosos iluminados por Deus para conhecer a verdade certa da Igreja, porque morrerão pelo Papa bom, ou se apartarão aos desertos por amor seu, onde estarão por três anos, e ainda algo mais, porém, não chegarão ao quarto ano.

Misac é interpretado (como) “riso com gozo”, e estes serão todos aqueles que permitirá Nosso Senhor com gozo e satisfação não pelejar com o ídolo pela defesa da Igreja, os quais desejariam escolher primeiro o martírio com alegria que a vida corporal com tristeza.

Abdênago se interpreta como “servo calado”, e estes serão os ignorantes do bem e do mal, como mulheres e outras pessoas inocentes, os quais hão de ignorar e não conhecerão este erro, por onde o verdadeiro Papa os dispensará depois, e sua ignorância com isso os escusará e dispensará; pois se entendessem o mal enganoso, antes escolheriam a morte, que cair em tanto erro.

Tais serão os servos calados, como os religiosos anteditos. Alguns fugirão aos desertos muito apartados para onde não irá Nabucodonosor, o mau ídolo, e os sacerdotes sobreditos. Com as ordens religiosas, estarão no deserto com hábito dissimulado, sempre celebrando, mesmo que sem coroas, nem hábito sacerdotal; nem ainda demonstrarão saber letras, nem terão oratório, nem sequer altares. De manhã, celebrarão os que tiverem licença, porque o Papa verdadeiro os dispensará para que possam celebrar nos desertos, segundo o que de seu se fará menção naquela profecia que fala do dispensar. E quando

tiverem celebrado a missa, esconderão cálice e vestimenta, e o restante necessário para celebrar a missa. De tal maneira estarão no deserto que apenas poucos saberão então de sua condição sacerdotal, e estes serão os servos calados.

Naqueles anos, muitos haverá que sofrerão os ofícios divinos entre os cismáticos. Então serão também servos calados, ainda que sejam livrados dos fogos infernais pelo anjo escolhido para eles de antemão, como os três varões Sidrac etc.

Assim que quando virem isto os cristãos, poderão dizer com certeza: “Vede o estado da dignidade eclesiástica posto em ruína e destruição”. Entretanto, Deus não quererá ainda desamparar a Igreja, porque a nave de São Pedro pode perigar; mas não pode ser afundada. Por isso o vão papa será entronizado, ou posto na cadeira com o dito príncipe maior; de tal maneira que não ficará eclesiástico sem ser despojado de seu benefício. Isto quererá Deus permitir para que sejam purgados os filhos de Levi de sua maldade, os quais de bom grado e vontade nunca quiseram  fazer emenda de seus delitos.

E para melhor demonstrar o que se diz, quero abrir, ou declarar duas profecias, as quais foram escritas por Ezequiel no oitavo capítulo, onde declara como Deus mostra aquele ídolo feito no fim do mundo contra o seu verdadeiro vigário pelos idólatras, bem como pelos homens que acostumaram com as riquezas e dignidades a impor aos Papas a sua vontade; como no fim, estes mesmos farão outro [ídolo] assim tão grande, que antes não foi, nem depois será.

E será todo este mal estendido da parte do Aquilão, quer dizer Alemanha, como se mostra em Jeremias, capítulo primeiro, por estas palavras: “Ab Aquilone pendentur omme malumi” etc. Por isso, a razão e a ira de Deus ali descerá sobre a Igreja, [tanto] que as orações dos santos mais lhe provocarão a sanha que a misericórdia, segundo se demonstra no seguinte capítulo por estas palavras: “Cum clamaverint ad me voce magna non exaudiam eos” etc., que quer dizer: “quando com grande voz clamarem a mim, não os ouvirei”. De tal maneira que quantos santos forem no mundo não poderão desfazer uma só gota da ira de Deus, até que o Santuário seja purificado, como se demonstra no seguinte capítulo de Ezequiel por estas palavras: “Et clamavit in auribus meis voce magna, dicens: Appropinquaverunt visitationes urbis, et unusquisque vas interfectionis habet in manu. Et ecce sex viri veniebant de via portae quae respicit ad Aquilonem”. É a sentença de dita autoridade: “E chegou aos meus ouvidos o clamor, dizendo: chegaram as visitas da cidade, e cada qual tinha um vaso de morte em sua mão. E cada seis varões vinham do caminho da porta superior que dá para o Aquilão”. Quer dizer, da parte da Alemanha, porque todos trarão em suas mãos o vaso da morte.

Mais diz ainda Ezequiel: que vinha no meio dos seis ditos homens um varão vestido de panos brancos de lenço, o qual tinha um [pequeno] saco de escriba preso ao cinto. E diz que Deus havia mandado a dito varão que andasse pela cidade pondo o signo do Tau, em meio às frentes dos que chorassem, ao mesmo tempo que, aos cheios de risos e danças, não os marcassem. Depois enviou o Senhor aos ditos seis varões pela cidade, e mandou matar a quantos encontrassem sem o dito sinal do Tau. E ainda lhes disse mais: “Começai a morte desde o Meu santuário”. Cuja profecia é entendida desta maneira: as tribulações que enviará Nosso Senhor ao fim do mundo haverão de começar primeiro por meio do Anticristo misturado, porque estes seis varões armados que perseguirão a cidade, quer dizer a cristandade, serão os seis Príncipes que terão o mando sobre os cristãos, os quais obedecerão ao dito Anticristo. Não obstante, fiz agora [pouco] menção de sete Príncipes, quando disse que a estátua de Nabucodonosor tinha de largura sete côvados, porque neles havia um principal a quem os seis hão de obedecer. E nesta profecia não se faz menção senão daqueles seis varões que andaram por toda a cidade matando a quantos não tinham o signo do Tau nas frontes, os quais têm que começar pelo santuário, quer dizer, pelos eclesiásticos, e não matarão a todos, mas a alguns deles sim; a uns no corpo e a outros na alma.

Oh, se soubessem os eclesiásticos [o tanto] que Deus permitirá que sejam perseguidos naquele tempo por seus pecados, creio que comeriam fel misturado com vinho!

Como a Igreja deve ser purgada pelo Anticristo misturado, primeiro já o demonstrou Nosso Senhor Deus, quando na pessoa de toda a Igreja disse a todos os Apóstolos, segundo parece por São Mateus: “Vós sois o sal da terra,se este sal perder o sabor, com que salgarão? Para nada mais vale, se não para ser calcado pelos homens”. Este sal necessário, que as almas conserva, é a doutrina dos eclesiásticos, que por ela conservam as almas do povo nas virtudes. E quando este perder o sabor, ou faltar, para nada mais vale. E é necessário que sejam despojados pelos príncipes de seus benefícios, riquezas, e dignidades que receberam da Igreja, pois ao estar enlaçados pelo diabo, já são lobos devoradores mais que pastores, não guardando nem a Igreja nem a seu gado.

De forma ser forçoso que sejam encontrados pelos homens maus que provoquem assim ao clérigo e lhe sejam contrários, como se fossem infiéis, e cachorros raivosos. Da mesma forma os leigos estarão contra eles tão indignados, que pensarão servir a Deus em sacrificar aos sacerdotes. Nesta parte, digo que será para os maus purificação e para os bons aumento de virtude.

Não obstante, aqui se move uma questão. Se Nosso Senhor permitirá que venham todas estas tribulações somente pelos pecados da Igreja. Ao que digo, que por certo não, mas também pelos delitos do povo.

E para que isto se declare melhor, trago um exemplo de uma cidade muito bem revestida com suas muralhas e torres fortes para sua defesa, a qual se levanta e se faz rebelde contra seu Rei, ao ponto que este lhe sitia pondo em ordem sua artilharia. Dizei-me agora de onde começam a combater e saraivar os tiros ou os bombardeios? Nas torres, ou próximo, no povo? Por certo primeiro ferem as torres. Por que razão se faz isto? Por que elas recebem primeiro os golpes? Digo que os sofrem porque elas guardam dentro o povo rebelde contra seu senhor. Pois para assaltar a cidade, é necessário que se derrubem primeiro as torres, e então castigar o povo. Da mesma maneira fará Deus poderoso, sob a justiça de todo o mundo com o Anticristo misturado, por último, o fogo e o juízo: porque ninguém quererá então se emendar. E começarão por lançar os tiros e a artilharia contra os eclesiásticos, que são as trincheiras fortificadas da cristandade, que devem guardá-la pela doutrina e os bons exemplos. De cuja defesa dizia Davi: “Cerca-nos, Senhor, com o teu muro inexpugnável, e com as armas de tua potência sempre defende-nos”. E em latim diz: “Muro tuo inexpugnabili circuncinge nos, domine” etc. As coisas da Igreja são torres muito fortes para pelear contra os inimigos em defesa da cidade, isto é, os sacramentos e as pregações. Davi diz destas torres: “Fiat pax in virtute tua, et abundantia in turribus tuis”. Isto é, “Seja feita a paz em tua virtude, e abundância em tuas torres”, a saber, na Igreja. Pois [assim] como o mundo estará em rebeldia contra seu Deus, do mesmo modo se combaterá contra as muralhas e as torres eclesiásticas.

Por esta razão disse acima, que Deus mandou os seis varões começar primeiro por seu santuário, e isto era pela grande culpa do povo, por tornarem maus os bispos e religiosos. Porque os senhores temporais e leigos começaram por usurpar e ter para si as rendas e bens da Igreja, sendo avaros. E pelas honras e vaidades deste mundo mau, passaram a ser muito contrários à Igreja, e os eclesiásticos também [passaram a ser] contra eles pela sentença de excomunhão, pois assim dão motivos para que a Igreja esteja cheia de males; e [assim] a perseguição lhe virá pelos pecados do povo.

Tudo isso será motivo de aumento de virtude e purificação dos vícios para esses eclesiásticos, como se fez no martírio dos inocentes que foram mortos pelos pecados dos pais, quando não quiseram que Nossa Senhora desse a luz ao chegar de Nazaré a Belém, pelo que foi necessário que desse a luz ao Redentor em um estábulo, entre animais; foi por isso que Deus permitiu então que fossem castigados os pais em seus filhos. No entanto, aquela purificação foi pena espiritual nos pais e corporal só nos filhos, e glória para as almas.

Com relação aos sacerdotes, a perseguição e a pena do povo, é que não terá os sacramentos, nem ouvirá missas, nem pregações por seus pecados. E para os sacerdotes será uma grande dor e tristeza quanto aos corpos, ao mesmo tempo que glória e descanso para suas almas. E isto se entende se, com paciência, sofrerem as tribulações acusando-se a si mesmos.

Resta-nos por ver quem é aquele varão vestido de panos brancos que tinha um saco de escriba preso nas cinturas ou no cinto, o qual assinalou com o sinal [do] Tau a quantos choravam e estavam tristes. Este varão será o verdadeiro Papa, quem perseguirá o Anticristo; e estará vestido de branco por dois motivos, pois, por um lado, a brancura significa sua velhice, pois será muito ancião, sendo seus cabelos e sua carne dessa cor. Por outro lado terá grande castidade, pois será virgem, já que a cor branca se compara a esta virtude. Assim pois, por ser ancião e casto, estará vestido com telas brancas, e trará seu saco de escriba que significa o poder eclesiástico, poder que terá dito Papa e não outro, enquanto viver. O saco de escriba estará preso à sua cintura ou ao seu cinto, pois isto significa sua boa consciência, ao ser elegido como Papa verdadeiro. E para que se entenda melhor como seu saco de escriba significa o poder eclesiástico, ali, em seu surrão, se encerra também quatro coisas: tesouras, faca, buril, e plumas; e no tinteiro se põem duas coisas: algodão e tintas.

Pelo que, são seis coisas que trazem as almas às seis ordens do paraíso. Porque primeiro, no meio do saco do escriba estão as tesouras para cortar o papel e qualquer coisa que esteja junta e não partida. Estas demonstram o poder maior da Igreja. Primeiro, porque livram as almas do inferno com absolvição e a indulgência plenária da pena e da culpa. E segundo, condena e retira a graça do paraíso com a sentença de excomunhão. Há mais no saco, que é a faca para temperar muito bem as plumas, e para raspar o falso e mal escrito, para que se entenda. Esta faca demonstra o poder da Igreja na absolvição dos casos: porque no momento em que o cristão comete o pecado, logo Deus o escreve no livro de sua presença, segundo reza o profeta Davi: “Imperfectum meum viderunt oculi tui, et in livro tuo omnes scribentur”, que quer dizer: “Viram teus olhos minhas imperfeições: e foram escritos todos em teu livro”. Assim que quando deseje confessar-se o pecador, o sacerdote raspe o pecado daquele livro da presença, com a faca da confissão, isto é, que emende o falso com a penitência que manda fazer melhorando a vida.

Há mais no saco: uma seção, ou compartimento onde está o buril, ou agulha para coser e furar as cartas, e unir os cadernos em um livro, o qual demonstra o poder da Igreja, para dar indulgências, e distribuir de seus tesouros. Elas atravessam o purgatório e o perfuram, porque a casa aberta não se chama cárcere ou prisão; e atam as almas e as colocam acima, junto à vivenda dos anjos, no livro da glória do paraíso.

Dito saco do escriba tem ainda outro aparato que são as plumas, que nos demonstram o poder da Igreja para transmitir, por meio dos verdadeiros sacerdotes e seus livros, as ciências que desde ali transmitem ao povo, ou seja, a doutrina. Há algodão, e tinta no tinteiro que se prende ao saco do escriba; esta demonstra o reto poder da Igreja em dar benefícios e bispados, onde são criados e mantidos, honrando muito a seus prelados e reitores.

Tudo isto [que foi] dito (o saco de escriba e os vestidos brancos) trará consigo este verdadeiro Papa, a quem perseguirão e quem dará o sinal do Tau a todos que estejam tristes e deem prantos e gemidos como signo do cativeiro nas almas dos cristãos. Porque este verdadeiro Papa perdoará inclusive àqueles seis príncipes perseguidores da Igreja. Porque este dito Papa será varão muito bom, que perdoará com doçura e misericórdia.

Então quando vejam as tribulações ditas acima, podereis muito bem dizer: “Vede o estado da dignidade da Igreja posto na ruína e destruição”. Porém, este varão muito santo, o Papa branco, verá a morte do Anticristo misturado, porque acabada a perseguição clamará ele a Deus, condoendo-se muito de tanto dano e do mal cometido na Igreja, porque ali ficarão então tão castigados, fracos, e como mortos, que apenas terão espírito de vida.

Então amarão a seu criador, pois o terão conhecido, servindo-lhe muito, de coração são, e castos de corpo. Serão despojados de benefícios, restando-lhes só a vida e a veste. Ó, quanto chorarão as riquezas perdidas, porque não as deram por amor de Deus quando tinham tudo nas mãos!

Desta forma a segunda profecia já está aqui declarada, a que trata toda [ela] da caída da dignidade eclesiástica. E quando virdes cumprir sua sentença, se poderá bem dizer que está já mui próximo o fim do mundo. Aqui pois, agora, quem tem ciência entenda que não ponho nem determino tempo algum, nem ainda nomeio príncipes, nem o ídolo, nem o verdadeiro Papa: contudo quem tem ouvidos para ouvir ouça e considere só as autoridades; porque a estas há de se crer e [elas] mandam escrever sobre aquele Anticristo misturado que nascerá da maneira que eu acima declararei.

Terceira Parte

A perda da fé católica

Todo o escrito foi dito da parte de Deus a São Vicente Ferrer e mais ainda lhe foi mostrado em espírito. Porque no ano de mil quatrocentos e dezesseis, aos 26 dias de setembro, feita sua oração viu, em seu espírito, aqueles seis Príncipes com aquele Papa mau, entrarem a cavalo em uma cidade por três vezes, bem acompanhados de grande número de gente. E viu ali mesmo como aquele Papa mau perseguia os eclesiásticos. No ano já próximo do fim, estando ali já adormecendo, já feita sua oração, e demandando sempre a Nosso Senhor que lhe deixasse sentir as tribulações da Igreja, viu duas mulheres mui belas que estavam em uma cidade, dentro de um grande palácio, armadas com toda sorte de armas, postas em cima de seus cavalos, com umas lanças nas mãos, e batalhavam com a concorrência de todo o povo. Tal batalha e grande contenda desta visão entendeu que fosse sinal da que será nos tempos da tribulação entre o verdadeiro Papa e o malvado ídolo.

Depois ainda viu na seguinte noite outra visão, deste modo: havia uma festa e o povo devia ir até a igreja, e ele devia celebrar missa; quando quis entrar para dizê-la, viu que todo o povo estava fora da igreja: de tal maneira estava unido e apertado que mal podia um homem passar por ele; e na igreja havia muito pouca gente: mil havia fora para cada um [que havia] dentro; e os que estavam fora não entravam; e os de dentro não saíam. Depois, conseguiu dizer a missa, e solicitou a hóstia para celebrar, e não foi encontrada em toda a igreja senão uma só: a qual era clara como um espelho e toda inteira. E quando começou a celebrar missa, encomendou a Deus a hóstia e o cálice; e tão somente com colocar dita hóstia sobre os corporais, e saltaram três mulheres em cima do altar e começaram a bailar juntas uma com a outra.

Ante isso, o sacerdote ficou muito turbado e começou a ameaçar as mulheres para que não fizessem tal desavergonhamento e desonra sobre o altar, especialmente quando se estava celebrando missa. Sem [nenhum] temor, as tais se mantiveram no altar, ao ponto de uma delas pondo a mão nos corporais começar a bailar e a agitar os panos sagrados desprezando aquele Sacrifício; tomou [finalmente] a hóstia e a quebrou fazendo-a pedaços.

O sacerdote cheio de ira pelo sucedido saiu à porta da igreja revestido como estava e começou a clamar ao povo de fora:

– “Justiça, justiça, justiça. Deus onipotente seja contra os governantes deste povo, se não fizerdes justiça destas coisas que eu lhes direi”.

Ao que os governantes lhe responderam:

– “Dizei, que passou?”.

E ele respondeu:

– “Haveis de saber que enquanto celebrava, chegaram três jovens mulheres, e bailaram sobre o altar, e revolvendo os corporais, despedaçaram a hóstia com a qual eu celebrava”.

Os governantes entraram na igreja buscando as mulheres que o sacerdote mencionara, não encontrando mais que uma, a qual se encontrava prostrada ao solo, ao lado do altar, como se estivesse fazendo sua oração; as outras duas haviam desaparecido. Os governantes perguntaram a dita mulher onde estavam as outras duas, ao que ela respondeu:

– “Já saíram da igreja, e não restou senão só esta que vês”.

À qual eles nada disseram. Depois, como o sacerdote quisesse proceder à missa, solicitou uma hóstia, e foram-lhe dadas cinco todas furadas, cheias de buracos, de tal maneira que não se podia consagrar. E como se pusesse triste ao não poder realizar o Sacrifício, chegou então um que lhe disse:

– “Eu tenho uma hóstia do tamanho de uma moeda; consagrai aquela, e elevareis uma das outras que não são sagradas, porque os buracos, ainda os maiores, não se conhecerão, nem se verão”.

O sacerdote que celebrava a missa respondeu:

– “Fora de mim tal engodo, que não convém levar à idolatria o povo!”.

E assim ficou o sacrifício público.

Este é o mistério que por agora não quero revelar, porque os espirituais falando estas coisas as entenderão por graça de Deus; porque ao fim e ao cabo trazem pranto, gemido e tristeza. No entanto, bem-aventurados sejam aqueles que se apartem das duas mulheres, renunciando a contenda do altar. Da terceira que ficou na igreja, que quereria morrer, outra coisa declarar não quero, porque acima se pode entender.

E quando virdes cumprir-se o dito, podereis dizer então: “Vede o estado, etc…”. Então só resta que se cumpra a terceira profecia seguinte a estas duas. Diz Salomão no capítulo quarto do Eclesiastes: “Vidi cunctos viventes qui ambulant sub sole cum adolescente secundo” etc., isto é: “vi os viventes que andam debaixo do sol com o segundo adolescente”. Infinito é o número do povo, de todos aqueles que foram antes dele; e os que depois virão, não terão com ele gozo. Acima onde diz que viu os que andam com o adolescente, se deve entender com o Anticristo puro, segundo alguns doutores. Contudo, o primeiro adolescente, segundo alguns doutores, se entende pelo Anticristo misturado, o qual com sua aparente e fingida santidade, enganará, mostrando riquezas e dignidades. E isto se declara naquela profecia de Daniel que se segue a de Nabucodonosor, demostrando a queda da fé católica.

Nesta parte muito esclarece São Vicente Ferrer a terceira profecia de Daniel, onde toca à vinda do Anticristo puro, e descoberto, que de muitas maneiras há de enganar os mundanos. Bem-aventurado o de pobre coração que não seja derrotado ante as tribulações, porque não renegará a fé; sem embargo, antes bem, será bem-aventurado o varão firme e constante, porque será purgado nas angústias e trabalhos, como o ouro se purifica e acrisola no fogo.

Portanto começa na mesma profecia: “Visio capitis mei in cubili meo videbam et ecce arbor in meio terrae et altitudo eius nimia magna arbor et fortis et proceritas eius contingens caelum aspectus illius erat usque ad terminos universae terrae” (Dan, 4, 7-8) etc., ou seja: “E ali se declarou a visão de minha cabeça: estando em meus aposentos, eu, Nabucodonosor, via uma árvore em meio à terra grande e forte, cuja altura era elevada até chegar ao céu, e era estendida até as extremidades de toda a terra”.

Quer dizer, que seus ramos ali sustentavam todo o mundo. Diz que estava cheio de folhas e frutos, em cujos ramos as aves do céu se deleitavam. E depois avistou vir um santo do céu que bradando dizia: “Corta a árvore por baixo, mas não de todo, para que as raízes fiquem sobre a terra”. E disse a todas as aves e bestas que estavam em dita árvore, para que se apartassem aquelas que quisessem.

O Anticristo puro é entendido por esta árvore, o qual por enganos, tormentos, dádivas, e carnais deleites tomará os cristãos do céu. Quer dizer, que os apartará da fé católica, a qual traz glória a nossas almas.

Os ramos estendidos serão uma monarquia que mandará por todo o mundo.

As folhas serão as vãs pompas.

O fruto será a riqueza, e as guloseimas.

Pelas aves se entendem os homens vãos, avaros, que serão aderentes a esta besta debaixo da sombra da luxúria e ociosidade, e lhe obedecerão em suas maldades.

O santo que chamou desde o céu, ordenando deixar as raízes da árvore em cima da terra, é São Miguel, que enviará fogo do céu, e matará o Anticristo e a todos seus sequazes e os cortará de cima da terra.

Diz que as raízes ficarão na terra; se entende devido a que as almas dessa serpente e inimigo de Deus e de seus sequazes serão condenadas no inferno.

As aves e bestas que se apartaram da árvore, serão os pecadores ditos acima, os quais naqueles poucos dias que durará o mundo, deixados os vícios e dignidades do Anticristo, farão penitência, pelo qual Nosso Senhor tendo-lhes misericórdia, os salvará; contudo, muito poucos serão os cristãos convertidos depois da tribulação, porque é quase impossível poder recobrar a graça do Espírito Santo a quem uma vez a perca. E isto se entende dos infiéis e heréticos [que contam] com [sua] própria virtude; que com a ajuda de Deus é coisa muito fácil.

Ó, como cairá a fé católica naquele tempo na qual muito poucos serão constantes! Pois, quando virdes cumprirem-se as coisas ditas, por certo, então, bem podereis dizer: “Ave”; e vereis o estado da fé posto em ruína e destruição; pois então digo que não haverá dúvida do fim do mundo.

Deo gratias.

Extraído de Sermões de São Vicente Ferrer: o Anticristo e o Juízo final – De sua pregação em Castela, entre 1411 e 1412, Martyra, 2018, pp. 12-33, edição em PDF.

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