TRATADO DA HUMILDADE E DA MANSIDÃO, século XVIII | por S. AFONSO DE LIGÓRIO

Na imagem, São Francisco de Sales, notável por sua mansidão apesar de seu temperamento colérico, e Santo Afonso de Ligório, o autor.

I. Da humildade 

§I. Da grande Importância da humildade

A humildade é chamada pelos santos o fundamento e a conservadora de todas as virtudes. Ainda que não seja a mais excelente de todas as virtudes, contudo, como fundamento das outras, ocupa, segundo S. Tomás (II.-II. q. 161, a. 5), o primeiro lugar. Como, na ereção de um edifício, o fundamento antecede as paredes e as colunas, ainda que sejam de ouro, assim a humildade, na vida espiritual, deve estar em primeiro lugar, para expelir a soberba, que repugna a Deus. Quem, pois, quiser adquirir as outras virtudes sem a humildade, segundo S. Gregório, espalha areia ao vento.

Essa bela virtude não era conhecida nem amada na terra, antes muito desprezada; por toda a parte reinava a soberba, que ocasionara a queda de Adão e de toda a sua posteridade. Por isso desceu do céu o Filho de Deus para nos ensinar a humildade, não só com palavras, mas também com seu exemplo; para esse fim foi tão longe na sua humildade, que ele “se aniquilou a si mesmo, tomou a forma de escravo, fazendo-se semelhante aos homens e sendo tido na condição como homem” (Filip 2, 7). Quis até aparecer entre os homens como um objeto de desprezo e como “o último de todos”, como Isaías (Is 53, 3) o chama.

E, na verdade, vemos nosso Salvador, em Belém, nascer em um estábulo; em Nazaré, trabalhar, pobre e desconhecido, como filho de um carpinteiro, em uma oficina; em Jerusalém, vemo-lo açoitado como um escravo, entregue à irrisão como um homem desprezível, coroado de espinhos como um rei de teatro, e, finalmente, morto na cruz como um malfeitor.

Ouçamos agora o que ele nos recomenda: “Eu vos dei um exemplo, para que façais como eu fiz” (Jo 13, 15). Com isso parece dizer: Meus filhos, suportei todos esses ultrajes para que sigais o meu exemplo. S. Agostinho diz, em relação à humildade de Jesus Cristo: “Se este remédio não cura a nossa soberba, não sei que meio nos poderá curar dela” (Sermo 77).

“Todo o arrogante é uma abominação para o Senhor” (Prov 16, 3), diz o Espírito Santo. Por que isso? Porque o soberbo é um ladrão, um cego e um mentiroso. E um ladrão, porque se apropria do que pertence a Deus, de quem ele recebeu tudo o que tem, segundo S. Paulo (1 Cor 4, 7). Se se colocasse sobre um cavalo uma manta bordada a ouro, poderia ele gloriar-se disso, se fosse racional, sabendo que, a um sinal de seu senhor, ser-lhe-á tirada?

O soberbo é, além disso, cego, como se diz no Apocalipse (Apoc 3, 17); pois o que podemos nos atribuir, fora do nada e do pecado? Segundo S. Bernardo (In fest. omn. Sanct., Sermo 1), nós mesmos, no pouco bem que fazemos, só encontramos pecados e faltas, caso o apreciemos segundo seu justo valor.

O soberbo é, finalmente, um mentiroso, visto que todos os bens que o homem possuì, tanto os da natureza, como saúde, inteligência, beleza, aptidões, como os da graça, bons desejos, um coração dócil, um espírito lúcido, são presentes de Deus. “Pela graça de Deus, diz o Apóstolo (1 Cor 15, 10), sou eu o que sou”, já que é certo, acrescenta ele, que nada podemos por nós mesmos, nem sequer ter um bom pensamento.

O Senhor deixa, às vezes, para preservar seus servos da soberba, que eles sejam atormentados por tentações vergonhosas, como as tentações contra a santa pureza; não obstante suas instantes súplicas, procede com eles como outrora com S. Paulo, que escreve: “Para que não me ensoberbecesse com as sublimes revelações, foi-me dado um aguilhão na minha carne, o anjo de satanás para me esbofetear. Por esse motivo roguei ao Senhor três vezes que ele se apartasse de mim; e então me disse: “Basta-te a minha graça” (2 Cor 12, 9). O Senhor não queria, pois, livrar o Apóstolo do tormento dessas tentações impuras para que permanecesse humilde. Às vezes chega Deus a permitir que se caia em um pecado para que se fique humilde. Isso se deu, entre outros, com David, que confessou que pecara porque não se humilhara (S1 118, 67).

“Humilha-te, que Deus descerá para se unir a ti”, diz S. Agostinho, “se porém, te ensoberbeceres, fugirá de ti” (Sermo 179). No mesmo sentido diz o profeta (SI 137, 6): “O Senhor olha com complacência para os humildes, e só de, longe para os orgulhosos”, e como não se conhecem os que se vêem de longe, parece que Deus aqui quer dizer dos orgulhosos que ele não os conhece.

Os orgulhosos são mui desagradáveis a Deus; ele não os pode suportar. Apenas se tornaram os anjos do céu orgulhosos, e o senhor já os expeliu para longe de si, no inferno. Precisa-se cumprir a palavra de Deus: “Quem se exalta será humilhado” (Mt 23, 12). Como narra S. Pedro Damião (Op. 34, De ver, mir. narr, c. 4), um homem orgulhoso ouviu ler uma vez as sobreditas palavras no Evangelho da Santa Missa, na ocasião que se preparava para um duelo, para defender uma sua possessão. Ouvindo isso, teve a ousadia de dizer: Isso não é verdade, pois se eu me humilhasse, perderia meus haveres e a consideração dos homens. Mas que aconteceu? Ao travar o duelo com seu adversário, este, com seu punhal, atravessou-lhe a boca, rasgou-lhe a língua blasfema e prostrou-o morto por terra.

O Senhor prometeu atender a todo aquele que o invocar: “Quem pede, recebe” (Le 11, 10). Deus, porém, não ouve os soberbos: “Deus resiste aos orgulhosos, diz S. Tiago (Tg 4, 6), mas aos humildes dá sua graça”. A estes apressa-se Deus em abrir sua mão e conceder-Ihe tudo que desejam. Daí a advertência do Espírito Santo: “Humilha-te diante de Deus, e espera na sua mão benéfica” (Ecli 13, 2).

“Senhor, dá-me o tesouro da humildade”, suplicava S. Agostinho. A humildade é chamada um tesouro, porque o Senhor cuida que os humildes abundem em todos os bens. Se o coração do homem está cheio de si mesmo, não tem lugar para os dons de Deus; o homem deve, pois, pelo conhecimento de si mesmo, como que despojar-se de si. “Vós fazeis nascer fontes nos vales, diz David (SI 103, 10), e as águas passarão no meio dos montes”. Deus inunda os vales, isto é, as almas humildes, com graças, não, porém, os montes ou os espíritos soberbos, por sobre os quais correm as águas, sem se deter neles. E, por essa razão, diz a SS. Virgem no seu cântico: “Grandes coisas operou em mim o Poderoso, pois ele olhou para a humildade de sua serva”, isto é, ele viu o conhecimento que tenho do meu nada.

S. Teresa conta de si mesma que recebia as maiores graças de Deus quando mais se humilhava diante dele no coração: “A oração do homem que se humilha, diz o Sábio (Ecli 35, 21), atravessa as nuvens, e não pára até chegar, e de lá não volta sem que o Altíssimo a ouça”. Os humildes alcançam de Deus tudo o que desejam: não precisam temer, segundo o real Profeta (S1 73, 21), que fiquem confundidos e desconsolados. Isso levava S. João Calazans a dizer: “Se queres tornar-te santo, sê humilde”. O mesmo aconselhara um homem devoto a S. Francisco de Borja, quando se achava ainda no mundo: disse-lhe que, se queria tornar-se santo, deveria todos os dias pensar na sua miséria. Fiel a esse conselho, o Santo empregava todos os dias as duas primeiras horas de sua oração no conhecimento e desprezo de si mesmo.

Como o orgulho é o mais evidente sinal de reprovação, escreve S. Gregório (Mor., I. 34, c. 32), é a humildade o mais claro indício da predestinação. Quando S. Antão Abade viu o mundo cheio de ciladas do demônio, exclamou, suspirando: “Quem poderá jamais escapar a tantos perigos?” Ouviu, porém, uma voz que dizia: “Só a humildade anda segura: quem andar com a cabeça baixa, não precisa temer cair em uma emboscada” (Vita Pat., 1. 3, n. 120). Numa palavra: Se não nos tornarmos crianças, não na idade, mas na humildade, como diz o Salvador (Mt 13, 3), não poderemos entrar no reino dos céus.

Na vida de S. Palemon se conta que um monge andou sobre carvões acesos, do que ele se gabara diante de seus confrades, dizendo: Dizei-me quem de vós poderá andar sobre carvões acesos sem se queimar? S. Palemon repreendeu-o de sua vaidade; o infeliz não entrou em si, permaneceu na sua presunção, caiu em pecados mortais terminou sua vida com uma morte triste.

Os humildes são felizes não só na outra vida, mas também nesta, conforme as palavras de nosso divino Salvador: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis paz para vossas almas” (Mt 11, 29). O orgulhoso nunca encontra paz, desde que nunca chega a ser tratado de tal modo que corresponda à alta ideia que faz de si. Se é honrado, está descontente por ver que outros o são ainda mais. Sempre lhe faltará ao menos uma honra que ele deseja e sua falta o atormenta mais do que o satisfazem as honras que se lhe prestam. Que honras não recebia Amã na corte de Assuero! Podia até assentar-se à mesa real! Mas, apesar disso, se julgava infeliz, porque Mardoqueu não o queria saudar: “Ainda que tenha tudo isso, julgo nada ter, vendo Mardoqueu, o judeu, assentado à porta do rei” (Est 5, 13).

E quais são as honras que recebem os soberbos? São honras com as quais não se podem contentar, porque são prestadas com constrangimento e por respeito humano. S. Jerônimo (Ep. 22 ad Eust.) diz que a verdadeira honra, foge daquele que a busca e corre atrás daquele que a despreza, como a sombra segue aquele que dela foge e foge daquele que a quer apanhar.

O humilde, porém, está sempre satisfeito, pois se se lhe presta uma honra, parece-lhe ela mui grande para seu merecimento; faz-se-lhe uma injúria, julga que, por seus pecados, mereceu coisa muito pior, e diz, com Job: “Pequei, verdadeiramente delinqui e não recebi o que merecia” (Job 33, 27). A esse respeito S. Francisco de Borja nos dá um belo ensino. Empreendendo ele uma vez uma longa viagem, aconselharam-no a mandar alguém adiante para tratar

do alojamento, a fim de evitar as dificuldades que uma chegada inesperada ocasiona. O Santo respondeu: “Oh! quanto a isso, sempre mando adiante um mestre de quartel. É o pensamento do inferno que eu mereci e, assim, me parece um palácio real qualquer albergue, em comparação do lugar em que merecia estar”.

§ II. Da humildade do entendimento

Depois de conhecer os grandes bens que a humildade traz consigo, consideremos a prática da mesma e vejamos o que devemos fazer para alcançar essa santa virtude.

A humildade se divide em humildade do entendimento e humildade da vontade. Falemos primeiro da humildade do entendimento, sem a qual não chegaremos à da vontade.

A humildade do entendimento, segundo S. Bernardo (De grad. hum, c.1), consiste em que tenhamos uma baixa idéia de nos mesmos e nos tenhamos em conta de desprezíveis, como, na realidade, o somos. Humildade é verdade, escreve S. Teresa (Cant. dalm. Hab. 6, c.10), e o Senhor ama tanto os humildes porque eles amam a verdade. E pura verdade que nada somos, que somos ignorantes, cegos e incapazes de praticar qualquer bem. De um lado, nada temos de nós mesmos, a não ser o pecado, que nos torna ainda mais desprezíveis que o nada; doutro lado, por nós mesmos só podemos praticar o mal. Todo o bem que temos ou fazemos vem de Deus e pertence a Deus. Porque o humilde tem sempre diante dos olhos essa verdade, nada se atribui senão o mal, e julga-se digno de todo o desprezo; em vista disso, não suporta que se lhe atribuam merecimentos que ele não tem; ao contrário, alegra-se, vendo-se desprezado e tratado como merece, e quanto mais desprezível se julga a seus olhos, tanto mais agradável se torna a Deus, diz S. Gregório (Mor., 1. 18, c. 22).

Por isso, devemos pedir incessantemente, com S. Agostinho: “Senhor, fazei que eu me conheça a mim e conheça a vós (Sol., l. 2, c. 17). Vós sois a fonte de todo o bem, e eu nada sou senão miséria, já que de mim nada possuo, nada sei, nada posso e para nada sirvo senão para praticar o mal”. “Só pelos humildes é Deus honrado”, diz o Sábio (Ecli 3, 21). Na verdade, só os humildes têm Deus em conta do que ele é, a saber, o único e sumo Bem.

Se, pois, queres honrar a Deus, alma cristã, deves ter sempre tua miséria diante dos olhos; reconhece humildemente que nada podes atribuir, a não ser o nada e o pecado, e que Deus, de seu lado, é tudo. Deves estar persuadida que nada mereces senão desprezo e castigo e mostra-te pronta a abraçar todos os castigos que Deus quiser te enviar. Em conformidade com esses princípios, deves observar o seguinte:

Primeiro: Nunca te glories de tuas boas obras; os santos praticaram coisas mui diversas das tuas e nunca se vangloriam; por isso sempre aconselho que se faça a miúdo a leitura espiritual sobre a vida dos santos, pois, à vista das grandes coisas que os santos fizeram por Deus, ao menos perderemos o orgulho e nos envergonharemos de ter feito tão pouco até agora e de ainda fazermos pouco.

Como poderemos nos gloriar de alguma coisa, sabendo que é um puro dom de Deus se temos algum bem? “Quem deixaria de rir, diz S. Bernardo (In Ct, sermo 13), se as nuvens se gloriassem de ser a causa da chuva?” Mereceríamos o mesmo escárnio se nos gloriássemos do pequeno bem que fazemos.

O Beato João d’Ávila narra que um senhor de categoria, que se casara com uma pobre camponesa, ordenou-lhe que guardasse seus humildes trajes para que não se ensoberbecesse, vendo-se cercada de criados e trajando lindos vestidos. Deves proceder do mesmo modo, alma cristã. Se achas algum bem em ti, retoma teus antigos trajes: lembra-te daquilo que eras antes e deduze daí que todo o bem que possuis é uma esmola de Deus. “Senhor, diz S. Agostinho (Conf., l. 9, c. 13), se alguém vos enumerar seus merecimentos, que enumera ele senão vossas dádivas?” Quando S. Teresa praticava ou via praticar uma boa obra, apressava-se em louvar a Deus por isso, por que pensava que esse bem vinha de Deus. Com toda a razão nota ela que a humildade de forma alguma impede que se reconheçam As asas especiais que Deus, talvez mais liberalmente, nos concedeu que outros. Isso não é orgulho, diz ela, um tal reconhecimento favorece que a nossa humildade e gratidão, ‘fazendo-nos ver que somos mais favorecidos que outros, apesar de sermos mais indignos que eles. “Uma alma que não reconhece que recebeu grandes coisas de Deus, acrescenta a santa (Vid, c. 10), não fará também grandes coisas por Deus”.

Tudo depende disso, que distingamos sempre o que temos de nos mesmos. S. Paulo não hesitou em dizer que ele trabalhou mais por Jesus Cristo que todos os outros apóstolos (1 Cor 15, 10), mas declarou também, logo depois, que tudo o que ele fez não era obra sua, mas da graça divina, que o auxiliara.

Segundo: Já que sabes que sem Deus nada podes, nunca confies em tuas próprias forças, mas imita a S. Filipe Néri, que sempre desconfiava de si mesmo. O soberbo contia em sua própria força e por isso tomba, como aconteceu com S. Pedro. “Se tiver de morrer convosco, protestava ele ao Salvador, não vos negarei” (Mt 26, 33); mas porque ele dizia isso confiado em suas próprias forças, apenas chegado à casa do sumo sacerdote, já negou seu divino Mestre.

Não confies, portanto, em teus propósitos e em tua atual boa vontade; põe toda a tua confiança em Deus e dize sempre: “Tudo posso naquele que me conforta” (Filip 4, 13). Então podes esperar fazer grandes coisas, pois os humildes, “que esperam em Deus”, diz Isaías (Is 40, 31), “terão sempre novas forças”. Porque sempre desconfiam de si, deixam de ser fracos e adquirem a força de Deus. Dizia S. José Calazans: “Quem deseja que Deus dele se sirva para grandes coisas, deve se esforçar para tornar-se o mais humilde de todos”.

Deves fazer, alma cristã, como S. Catarina de Sena, que se humilhava, se era tentada pela vã glória, e punha toda a sua confiança em Deus, se era tentada de desconfiança. Um dia lhe disse o demônio, no auge do furor: “Amaldiçoada sejas e amaldiçoado seja aquele que te ensinou esse meio de me venceres, pois já não sei mais como te hei de atacar”. Se, portanto, o demônio se chega a ti com a sugestão de que não precisas temer, que não cairás, deves tremer ao pensar que estarás perdida no momento que Deus te deixar; e se o demônio te tentar de desconfiança, deves dizer confiadamente com David: “Em vós, Senhor, pus minha confiança, espero firmemente que nunca serei confundido”, que nunca serei privado de vossa graça e um escravo do inferno.

Terceiro: Se tiveres a desgraça de cair em um pecado ou falta, não percas a coragem, mas humilha-te, arrepende-te e, porque ficaste conhecendo melhor a tua fraqueza, entrega-te ao Senhor com maior confiança ainda. Não é humildade, mas sim orgulho, ficar-se indignado depois de cometer uma falta. Porque se é orgulhoso, admira-se que se pode cometer tal falta. Esse desânimo é ao mesmo tempo uma mancha do demônio, que nos quer roubar a confiança, para nos afastar do caminho da perfeição e nos precipitar em maiores pecados.

Mas, longe de nos deixarmos enganar pelo inimigo, devemos, mais que nunca, confiar no Senhor. Assim se devem entender as palavras do Apóstolo: “Tudo serve para o bem daqueles que amam o Senhor” (Rom 8, 28), até o pecado, como ajunta a Glossa. Nesse sentido disse um dia o Senhor a S. Gertrudes: “Quando se suja a mão, lava-se e ela fica mais limpa que antes: assim a alma que se purifica de uma falta cometida, pelo arrependimento, torna-se-me muito mais agradável que antes”.

Deus permite, às vezes, que as almas que ainda não estão bem firmadas na humildade caiam em alguma falta para que aprendam a desconfiar de si e a pôr sua confiança em seu auxílio. Se, pois, caíste eu uma falta, alma cristã, não permaneças prostrada, mas levanta-te imediatamente por atos de amor e arrependimento, com o firme propósito de te emendar, e redobra de confiança em Deus. Deves entro dizer com S. Catarina de Gênova: “Vede, Senhor, esses são os frutos de meu jardim: se não estenderdes vossa mão auxiliadora sobre mim, farei coisa ainda pior; mas com vossa assistência espero não tornar a cair, como firmemente proponho”. Se, apesar disso, tornares a cair, levanta-te sempre de novo, da mesma forma, e não dês de mão à resolução de te tornares santa.

Quarto: Se souberes que alguém cometeu um pecado mortal, não deves te admirar muito disso, antes ter compaixão dessa alma e tremer por tua própria salvação, dizendo, com David: “Se o Senhor não me tivesse auxiliado, se acharia no inferno minha alma” (SI 93, 17). Nunca te glories, portanto, de não ter as faltas que notas nos outros; senão o Senhor deixará, para teu castigo, que caias nas mesmas (Collat. 2, c. 13).

Cassiano narra que um jovem religioso que, há tempo, era atormentado por uma forte tentação contra a santa pureza, foi buscar socorro com um velho monge; este, porém, em vez de o animar, só aumentou sua confusão e aflição, agravando-o com exprobrações. Como é possível, exclamou ele, que um religioso pense em tais imundícies? Mas que sucedeu? Por permissão de Deus, foi esse ancião atormentado pelo espírito imundo de um modo tão assombroso que ele corria, como um mentecapto, pelo mosteiro. Dirigiu-se então a ele o abade Apolo, que tivera notícia do seu imprudente procedimento, e disse-lhe: “Meu irmão, Deus permitiu que te sobreviesse essa tentação porque te mostraste tão admirado daquele pobre jovem que recorreu a ti”; ao mesmo tempo ele queria ensinar-te paciência com os outros em semelhantes casos. Também o Apóstolo nos exorta que não mostremos dureza ou desprezo nas repreensões: “Se alguém tiver de corrigir a qualquer um, considere então que ele próprio é tão pobre e frágil como o outro; senão permite Deus que ele seja atacado pela mesma tentação e, talvez, caia no mesmo pecado de que se admirou em seu irmão”. “Irmãos, se algum homem for surpreendido em algum delito… admoestai a um tal em espírito de mansidão e considerai a vós mesmos, para que não sejais também tentados” (Gál 6, 1).

Quinto: Deves também te considerar, alma cristã, como a maior pecadora do mundo. Como as almas verdadeiramente humildes, que são mais iluminadas pela luz celeste, melhor conhecem as perfeições de Deus, também melhor vem sua miséria e seus pecados. Daí provém que os santos, apesar de levarem uma vida tão exemplar e tão diferente dos outros, se julgavam os maiores pecadores do mundo, e isso não por exagero, mas por convicção íntima, como lemos, por exemplo, de S. Francisco de Assis. S. Tomás de Vilanova vivia em contínuo temor por causa das contas que uma vez havia de dar a Deus, de sua vida tão má, como ele dizia. S. Gertrudes considerava um milagre que a terra não se abrisse debaixo dos seus pés para tragá-la, por causa de seus pecados. “Ai de mim, pecador, exclamava, chorando, S. Paulo, o primeiro eremita, eu tenho injustamente o nome de um monge”. O Beato João d’Avila conta de uma pessoa virtuosa que ele alcançara de Deus a graça de conhecer o estado de sua alma e achou-a tão feia e hedionda, apesar de só ter cometido pecados veniais, que exclamou: “Ó Senhor, por vossa misericórdia, afastai para longe de meus olhos esse aspecto”. O mesmo João d’Ávila, que levou uma santa vida desde a sua mais tenra idade, não podia ouvir que o Padre que o assistia na morte o tratasse como um grande servo de Deus e sábio distinto. Ele o interrompeu com as palavras: “Eu vos suplico, meu Padre, recitai-me as orações dos agonizantes como se faz com um criminoso, condenado à morte, já que isso é o que eu sou”. Tal era a idéia que os santos tinham de si mesmos durante a vida e na morte.

Sexto: Quanto mais formos favorecidos por Deus, tanto mais nos devemos humilhar. Quando S. Teresa recebia uma graça especial, procurava pôr diante dos olhos todos os pecados que tinha cometido e então o Senhor a unia mais estreitamente consigo. Quanto mais uma alma reconhece sua indignidade, tanto mais Deus a enriquece com suas graças. Thais, que era, ao princípio, uma grande pecadora e, mais tarde, uma grande santa, se humilhava tanto diante de Deus que até se julgava indigna de pronunciar seu nome; não ousava dizer: Meu Deus, mas unicamente: Meu Criador, compadecei-vos de mim!

A respeito das graças especiais que o Senhor concedeu a S. Teresa, diz ela: “Deus procede comigo como se faz com uma casa pobre, que ameaça ruína: põem-se-lhe esteios de todos os lados”. Se uma alma for agraciada por Deus com muitas consolações e com inflamado amor, acompanhado de lágrimas e grande ternura de coração, não pense ela que Deus a quer recompensar por alguma boa obra que praticou. Em tal caso a alma nada pode fazer de melhor que se humilhar e se persuadir que Deus a trata tão bondosamente só para que ela não o abandone; se ela, porém, em vista dessas graças, se entregasse à vã presunção de que é preferida porque serve melhor a Deus que outros, este a privará de tais favores em razão desse orgulho.

Por isso, alma cristã, nunca te julgues mais que os outros. “Basta que te julgues melhor que os outros, diz S. Tritêmio, para te tornares pior que todos”. Do mesmo modo, basta acreditar que se têm maiores merecimentos, para se perder o que já se possui.

O humilde adquire o maior merecimento quando se compenetra da verdade de que não possui nenhum merecimento e que até merece censura e castigo. Os dons e graças que Deus te concedeu só te acarretarão uma sentença mais rigorosa no dia do juízo, se abusares delas para te elevares acima dos outros.

Não basta, porém, que não te anteponhas aos outros: deves também te considerar como o último e o pior de todos. E por que isso? Porque, de um lado, sabes com certeza que cometeste muitos pecados e, de outro lado, que os pecados do próximo e as virtudes que possui talvez aquele a quem menos consideras, de são inteiramente desconhecidas. Além disso, deves considerar que já devias ter atire sido a santidade com as inspirações e braças que o Senhor te concedeu tão liberalmente. Se Deus tivesse concedido a um infiel as graças que recebeste, talvez se teria tornado um serafim em santidade, enquanto que permaneces tão pobre e cheio de imperfeições. Esse pensamento de tua infidelidade devia te levar a te humilhares continuamente diante dos outros, porque, segundo S. Tomás, o pecado é tanto maior, quanto maior é a infidelidade daquele que o comete. Conforme isso, um só de teus pecados pode pesar mais diante de Deus que cem pecados de um outro que recebeu menos graças. Ora, tu sabes muito bem que cometeste muitos pecados e mesmo que tua vida inteira foi uma série de faltas voluntárias; as boas obras, porém, que praticaste, estavam tão cheias de imperfeições e amor-próprio, que mereceriam antes castigo que recompensa.

Depois de tudo isso, alma cristã, deves te julgar indigna até de beijar o chão que é calcado pelos outros, e, se te ultrajarem de todo o modo que imaginar se possa, e se, até, fosses lançada no inferno, debaixo de todos os condenados, deverias pensar que tudo isso ainda era pouco em vista do que merecias. Dize, portanto, sem interrupção, do fundo de tua miséria: Ó meu Deus, apressai-vos em socorrer-me! Senhor, atendei em meu socorro! senão estarei perdido e vos ofenderei mais gravemente que antes e mais que todos os outros.

Essa oração deves repetir sempre e mesmo a todo o momento, quer trabalhes, quer andes, quer comas, quando te levantares ou deitares, dize sempre: Senhor, ajudai-me; Senhor, assisti-me; Senhor, tende compaixão de mim! Se deixares um só dia de te recomendares a Deus, poderás tornar-te o homem mais infeliz do mundo. Deves igualmente te precaver mais contra o orgulho, antes de cada ação, cada pensamento, do que contra a morte.

Concluo com o significativo dito de S. Bernardo: Não temos de temer que de uma humilhação se siga um mal qualquer; mas devemos temer o menor movimento da soberba, porque ele pode nos precipitar em todos os males.

§ III. Da humildade da vontade

Como vimos, a humildade do entendimento consiste na convicção de que nós não merecemos senão desprezo; a humildade da vontade, porém, consiste no desejo sincero de sermos realmente desprezados pelos outros e alegrarmo-nos quando desprezados. Justamente nisso está o mérito principal da humildade, pois se merece muito mais pelo ato da vontade que pelo do entendimento.

A humildade da vontade tinha principalmente em vista Jesus Cristo, quando disse: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt 11, 29). Muitos são humildes de boca, não, porém, de coração; confessam que são maus e merecem todos os castigos; quando, porém, os admoestamos, se enfurecem e negam ter defeito que se lhes imputa.

Eis, por exemplo, uma pessoa que protesta ser a maior pecadora do mundo e merecer mil vezes o inferno; quando, porém, seus superiores ou seus semelhantes, com palavras brandas, a admoestam de uma falta ou só lhe tocam em sua tibieza ou em seu procedimento pouco edificante, ela se defende imediatamente e responde em tom arrogante: Que mal fiz eu? Que escândalo o senhor me viu dar? Vá corrigir antes a outros, que cometem faltas que eu nunca tive! Mas que é isso, alma cristã, há pouco disseste que, por causa de teus pecados, mereceste mil infernos, e agora não podes suportar uma palavra sequer de censura? Tua humildade, portanto, é só uma humildade de boca e não aquela humildade de coração, recomendada por Jesus Cristo.

“Alguns se humilham maliciosamente”, diz o Espírito Santo (Ecli 19, 23), não para serem repreendidos e humilhados, mas sim tidos em conta de humildes e louvados. Mas humilhar-se para ser louvado, diz S. Bernardo (In Cant., s. 16), não é humildade, mas antes destrói toda a humildade, pois, assim, a própria humildade torna-se objeto de orgulho. S. Vicente de Paulo dizia que a humildade é atraente na sua aparência, mas espantosa na prática; pois a verdadeira humildade consiste em se amar o desdém e o desprezo. Segundo S. João Clímaco, para se ser humilde não basta apelar-se um miserável pecador, mas deve-se também desejar ser tido por tal e desprezado: “É bom que fales mal de ti, diz ele, mas é melhor que aproves sem descontentamento e até te alegres quando outros falam mal de ti” (Scal. par. gr. 21). O mesmo já tinha dito, antes dele, S, Gregório: “O verdadeiro humilde reconhece que ele é um pecador e não o nega mesmo quando lhe lançam em rosto seus defeitos” (Mor., l. 22, c.14). S. Bernardo exprime o mesmo pensamento da seguinte maneira (In Cant., s. 16): “O verdadeiro humilde não quer ser louvado por isso, mas passar por um homem miserável, cheio de defeitos e desprezível; alegra-se se é humilhado e tratado como julga merecer, e, assim, a humilhação torna-o mais humilde”. Por isso dizia S. José de Calazans: “Quem ama a Deus não quer parecer santo, mas ser santo”. Se queres, pois, alma cristã, ser humilde de coração e vontade, então deves observar o seguinte:

Primeiro: Nunca deves dizer coisa alguma em teu louvor, quer em relação ao teu proceder, teus talentos, tuas boas obras, quer em relação à tua família, falando de sua nobreza, riqueza ou parentesco. Ouve o que te diz o Sábio: “Louve-te um outro e não a tua própria boca” (Prov 27, 2). De mais, cada um sabe que louvor próprio não traz honra, mas desonra. Quando, pois, deves falar de ti mesmo ou daquilo que te respeita, procura humilhar-te sempre e não te exaltar; se te humilhares nada terás a temer; mas se, à custa da verdade, te exaltares um pouquinho só, diz S. Bernardo (In Cant., s. 37), poderás causar-te um grande mal. Quem atravessa uma porta e abaixa a cabeça mais do que preciso, não se causará nenhum mal; mas quem a ergue, ainda que só um dedo mais alto, dará com a fronte na porta e se ferirá.

Se, pois, falas de ti, procura dizer antes mal que bem, antes descobrir teus defeitos que aquilo que te fará parecer virtuoso. O melhor, porém, é nunca falar de si mesmo, nem bem, nem mal. Deves te considerar tão desprezível, que nem sequer mereças ser nomeado pelos outros. Mesmo quando falamos de coisas que servem para nossa vergonha, se imiscui, muitas vezes, um orgulho sutil e encoberto: a humilhação voluntária, que sofremos pela revelação de nossas faltas desperta em nós um desejo de sermos louvados pelos outros ou, no menos, de sermos tidos no número dos humildes.

Isso, porém, nada vale em relação ao confessor: a ele deves revelar as tuas faltas, tuas más inclinações e, geralmente, até os maus pensamentos que te sobrevêm. Pode também algumas vezes acontecer que devas revelar outras coisas que te causam confusão; faze-o então de boa vontade, seguindo o exemplo do Pe. Vilanova, da Companhia de Jesus, que não se envergonhava de dizer a todo o mundo que seu irmão era um pobre operário. De semelhante modo procedia o Pe. Sacchini, igualmente jesuíta, encontrando-se uma vez com seu pai, que era um pobre tropeiro, abraçou-o em plena rua, dizendo: Eis aqui meu pai.

Se fores louvada contra tua vontade, alma cristã, procura humilhar-te ao menos interiormente, recordando-te de teus muitos defeitos. Os muitos orgulhosos alegram-se do louvor, ainda quando não o merecem, diz S. Gregório (Mor., 1. 22, c. 9; 1. 26, c. 30), enquanto que os humildes coram e se entristecem, quando os louvamos, ainda que justamente. O humilde se entristece quando ouve seu louvor, acrescenta S. Gregório; pois ele sabe que não possui as qualidades que se lhe atribuem e teme perder, pela complacência em tais louvores, algum merecimento que talvez tenha diante de Deus; poderá uma vez ser-lhe dito: Não te esqueças que já recebeste tua recompensa em vida, ouvindo com prazer aqueles louvores. “Como o ouro é provado na fornalha, diz o Sábio, assim o homem pela boca do que o louva” (Prov 27, 21), isto é, o homem mostra sabedoria se ele, em vez de dar ouvidos e se vangloriar dos louvores recebidos, se confundir e entristecer por isso, como se dava com S. Francisco de Borja, com S. Luís Gonzaga e outros santos.

Se, pois, te louvam e honram, deves te humilhar profundamente e temer que essas honras não te sejam causa de quedas e ruína. Não te esqueças que a consideração por parte dos homens talvez seja a maior desgraça que te possa acontecer, visto que essa estima alimenta o teu orgulho e pode perverter teu coração e, assim, levar-te à condenação eterna. Deves ter sempre diante dos olhos as palavras de S. Francisco de Assis: “Eu sou unicamente aquilo que sou diante de Deus”. Julgas talvez ser alguma coisa mais diante de Deus se valeres alguma coisa mais diante dos olhos dos homens? Se te comprazes no louvor dos homens e te ensoberbeces por isso e te julgas melhor que outros, podes estar certo que no mesmo tempo que os homens te louvam, Nosso Senhor te repele para longe de si. Persuade-te, portanto, que não te tornas melhor pelo louvor dos outros. “Como as ofensas e injúrias não nos roubam o merecimento das virtudes, diz S. Agostinho (Cat. Petit, L. 3, C. 7) assim os louvores dos outros não nos fazem melhores”. Quantas vezes pois, fores louvado, dize, com o mesmo santo: “Eu me conheço melhor do que esses que dizem De de mim”;  sei que não mereço esse louvor, e “Deus sabe melhor que eu”, desde que ele sabe que não mereço honras, mas desprezo, na terra e no inferno.

Por isso não tenhas inveja dos que têm mais talentos e aptidões, ou que são mais estimados que tu; deves antes invejar os que te superam em amor de Deus e humildade. Melhor que todas as honras e todo o aplauso do mundo é a humilhação. A ciência mais bela para ti consiste em aprenderes a te humilhar, te desprezar e a te alegrar quando não fazem nenhum caso de ti. Deus não te concedeu maiores alentos porque eles, talvez, trariam a tua ruína. Por isso, contenta-te com os poucos dotes que tens; eles te dão ocasião de exercer a humildade, que é o caminho mais seguro, ou, antes, o único para a felicidade e santidade.

Se outros sabem melhor que tu conquistar a estima geral, deves, conforme o conselho do Apóstolo (Filip 2, 3), procurar sobrepujá-los na humildade. Quem é honrado corre perigo de deixar-se arrastar pelo orgulho e perder as inspirações de Deus e, como diz David (SI 48, 13), assemelhar-se aos animais irracionais, que só buscam os míseros bens desta terra e não podem pensar nos bens eternos.

Segundo: Se queres conservar a humildade, não deves te irritar nas repreensões; se, quando repreendido, te inquietas, ainda não alcançaste a humildade, e deves pedir a Deus que te conceda essa virtude tão necessária para a salvação.

Como observa o Pe. Rodríguez, alguns cristãos imitam o ouriço; mal se lhes toca, já apontam seus espinhos, isto é, irrompem logo em palavras impacientes, em invectivas e em queixas. “Muitos se dão voluntariamente por pecadores, se ninguém os censura, diz S. Gregório (Mor., 1. 22, c. 14); mas se forem censurados por causa de alguma falta, defendem-se com toda a veemência para não parecerem repreensíveis”. Assim também procedem alguns que se obrigaram a tender à perfeição; que esses tomem a peito o que diz o Espírito Santo: “Quem aborrece a repreensão, não trilha o caminho do justo, mas o do pecador” (Ecli 21, 7), isto é, o caminho do inferno. S. Bernardo dizia: “Alguns se irritam contra quem os procura curar com uma repreensão, e não se agastam com aquele que os fere com adulações” (In Cant., s. 42). E, contudo, deveria cada um tremer ao ouvir o que diz o Sábio (Prov 1, 25-32), àqueles que não querem aceitar uma correção: “Porque eles aborreceram as instruções, a prosperidade dos insensatos virá a perdê-los”. O aparente bem-estar dos insensatos consiste nisso, que não encontram ninguém que os repreenda ou que se importe com isso; dessa maneira se perdem miseravelmente.

S. João Crisóstomo diz que o justo se entristece quando se nota nele um defeito. O pecador também se entristece se se descobre nele uma falta, não porque ele pecou, mas porque sua falta ficou notória; ele nem pensa em se arrepender, mas só em se defender, e se agasta com aquele que o repreende.

Dize-me, alma cristã, procedeste também tu de semelhante modo com aqueles que foram tão caridosos em te corrigir, e queres ainda fazer o mesmo no futuro?

Não, não procedas assim, te admoesta S. Bernardo; agradece antes a quem te avisou de uma falta; seria grande injustiça se te irritares com aquele que te mostra o caminho da salvação. Farias até um grande bem se, como costumava aconselhar S; Maria Madalena Pazzi,de procurasses um amigo que te admoestasse de todas as faltas que cometeste, talvez sem o saber.

Sabes que estás cheia de miséria e defeitos: o único meio contra isso consiste em te humilhares quando os descobrires ou os outros te apontarem. “Na nossa humildade, diz S. Agostinho (In ps. 130), consiste nossa perfeição”. Desde que tão imperfeitamente praticamos a virtude, sejamos ao menos perfeitos na prática da humildade, e alegremo-nos se os outros, por meio de suas censuras, nos dão ocasião de exercê-la.

Devemos também notar que nosso orgulho suporta mais facilmente as correções imerecidas que as merecidas, porque o amor-próprio acha uma certa satisfação nas repreensões imerecidas. Se fores censurado com razão, apressa-te em oferecer a Deus, quanto antes a tua confusão, e em te emendar; esmaga o escorpião na própria ferida que ele te fez, isto é, utiliza-te dessa confusão para reparar a falta cometida, e podes ficar persuadido que Deus se mostrará tanto mais pronto a te perdoar as tuas faltas quanto maior for a humildade com que receberes a correção.

Resolve-te, pois, àquele grande ato de humildade, tão agradável a Deus, que consiste em não se defender nem se desculpar nas repreensões. S. Teresa diz que uma pessoa que não se defender nem se desculpar quando é repreendida por causa de alguma falta, ganha muito mais com isso do que ouvindo dez sermões. Se, pois, te reprenderem, ainda que injustamente, por amor da santa humildade, renuncia a te justificar, exceto o caso que isso fosse necessário para evitar um escândalo.

Terceiro. Se quiseres alcançar uma humildade perfeita, alma cristã, deves te esforçar a receber com serenidade toda sorte de desprezo e maus tratos. Poderás praticar isso se creres sinceramente que em vista de teus pecados mereces todo o desprezo possível. A humilhação é a pedra de toque da santidade. O meio mais seguro para se conhecer se uma alma possui virtude, segundo S. João Crisóstomo (In Gen. hom., 34), consiste em observar se ela recebe tranquilamente as humilhações. O Pe. Crasset narra, na sua história da Igreja do Japão, que um missionário agostiniano que, por causa da perseguição, trajava à secular, recebeu, uma vez, uma bofetada sem se irritar nem por um só instante; disso concluíram os pagãos que ele era um cristão e meteram-no na prisão, convencidos de que só um cristão pode praticar uma tal virtude.

Alguns colocam a santidade na recitação de muitas orações, prática de penitências, diz S. Francisco de Sales, e não podem suportar uma palavra ofensiva. Esses não têm idéia do grande valor das humilhações. Mais se ganha suportando uma ofensa, que jejuando dez dias a pão e água.

Vês, por exemplo, que se permite a outros o que se nega a ti; que os outros dizem è ouvido com atenção, enquanto que as tuas observações são tomadas em ridículo; outros são louvados em tudo que fazem, são elevados a cargos honrosos, enquanto que não se tem a mínima consideração para contigo e se zomba de tudo o que fazes. Em tais ocasiões, diz S. Doroteu, deves mostrar se és verdadeiramente humilde. Se de boa mente recebes todos esses desprezos e recomendas a Deus com tanto maior amor aqueles que mais te maltratam, porque te curam do orgulho, dessa doença perigosa, então és verdadeiramente humilde, segundo o pensamento de S. Doroteu. Porque os orgulhosos se julgam dignos de toda a espécie de honras, abusam das humilhações que encontram, para aumento de sua soberba, enquanto que os humildes, que se julgam dignos de todo o desprezo, se utilizar das humilhações que lhes sucedem para aumento de sua humildade.

Humilhações que nos impomos a nós mesmos são boas, porém muito melhores são as que nos advêm de outros; por exemplo, repreensões, acusações, injúrias e zombarias, contanto que as aceitemos a boa mente, por amor de Jesus Cristo.

O Espírito Santo diz: “O ouro é provado no fogo, e os homens que Deus quer receber, na fornalha da humilhação” (Ecli 2, 5); como o ouro é experimentado no fogo, assim a perfeição dos homens é provada nas humilhações. “Uma virtude sem provação, diz S. Maria Madalena de Pazzi, não é verdadeira virtude”. Quem não suporta tranquilamente o desprezo, nunca poderá alcançar a santidade. “Meu nardo espalhou o seu cheiro” (Cânt 1, 11), diz-se no Cântico dos Cânticos. O nardo é uma planta odorífera, mas que só espalha o seu cheiro agradável, quando é fendida ou moída. Oh! que cheiro agradável não difunde diante de Deus uma alma que recebe tranquilamente qualquer ultraje e se alegra vendo-se desprezada e tratada por todos como se fosse a última.

Alguns julgam-se humildes por estarem convencidos de sua miséria e se arrependerem de ter vivido mal; não querem, porém, ser humilhados e não suportam que se lhes falte com a atenção e respeito e, por isso, evitam todas as ocupações menos honrosas tudo o que não é compatível com sua soberba.

Mas que humildade é essa? Confessam que são dignos de toda a ignomínia e não podem suportar uma falta sequer de atenção, até procuram honras e distinções. O Espírito Santo os caracteriza com as palavras: “Alguns se humilham maliciosamente”, isto é, dizem de boca que são os piores de todos, mas no coração desejam ser estimados e honrados mais que os outros “e o seu interior está cheio de dolo” (Ecli 19, 23).

Espero, alma cristã, que não pertenças a essa classe. Se, pois, te julgas pior que todos os outros, deves ficar contente se te tratam pior que aos outros; deves até amar como teus maiores amigos aqueles que te auxiliam por seu trato desdenhoso à humildade e ao desprezo das honras mundanas e que contribuem para que te unas mais intimamente com Deus e nada mais busques nesta vida que seu santo amor.

Considera-te a ti mesmo como um cadáver em putrefação que, com razão, é abominado por todos, e mostra-te pronta a suportar, por amor de Deus, e em satisfação de teus pecados, todas as injúrias, sem nunca permitires uma queixa a teu amor-próprio. Pensa que quem teve a ousadia de desprezar a Deus, merece um tratamento muito pior, a saber, ser calcado pelo demônio no inferno. “Não conheço melhor remédio para curar as chagas do meu espírito, diz S. Bernardo, do que injúria e desprezo” (Ep. 280).

Alegra-te, pois, alma cristã, se fores desprezada, escarnecida e tida pela pessoa mais tola e desprezível de todas. Crê no que diz o Pe. Alvarez: “O tempo da humilhação a o mais próprio para ficarmos livres de nossa miséria e de ajuntarmos merecimentos”. Segundo S. Maria Madalena de Pazzi, as maiores graças o divino Esposo a Seus privilegiados consiste nisso, Que ele lhes envia humilhações e cruzes; afirmava também que encontrava uma consolação especial podendo tratar com pessoas que eram desprezadas, por serem mui caras à Jesus Cristo. Por isso dizia a suas irmãs: “Não procureis em outra coisa vosso gosto e satisfação senão no desprezo”.

Devemos, antes de tudo, ter sempre diante dos olhos as palavras do divino Mestre: “Bem-aventurados sois, se os homens vos odiarem e vos excluírem e carregarem de injúrias e rejeitarem o vosso nome como mau por causa do Filho do Homem” (Lc 6, 22). O apóstolo S. Pedro acrescenta: “Bem-aventurados sois, se por causa do nome de Cristo vos insultarem, porque o que há de honra, de glória e de virtude de Deus e o espírito que é dele, repousa então sobre vós” (1 Ped 4, 14).

Os santos não atingiram a santidade debaixo dos aplausos, mas sob injúrias e desprezo. S. Inácio Mártir que, como Bispo, gozava de consideração e veneração, foi arrastado como um malfeitor para Roma, para ser lançado às feras. Os guardas, durante a viagem, o cobriram de injúrias e maus tratos de toda a espécie; ele, porém, cheio de júbilo, exclamava: Agora é que começo a tornar-me um discípulo de Cristo, que foi tão desprezado por amor de mim (Ep. ad Rm).

Os mundanos sentem menor alegria nas homenagens, que os santos nos desprezos. Quando se fazia uma injúria ao Irmão Junipero, franciscano, ele suspendia o seu hábito e estendia-o no alto, como se quisesse aparar pérolas.

Meu Deus, o que entende aquele que não sabe suportar uma ofensa por Jesus Cristo! Quem não é capaz de suportar uma injúria prova que perdeu de vista a Jesus Cristo Crucificado. A venerável Maria da Encarnação disse um dia, à vista de um crucifixo, às suas irmãs: “Será possível, queridas Irmãs, que nós recusemos sofrer desprezos, quando vemos a Jesus Cristo tão desprezado? Nosso Senhor apareceu uma vez a S. João da Cruz com a cruz às costas e a coroa de espinhos na cabeça e disse-lhe: João, exige de mim o que quiseres. Ao que o Santo respondeu: Senhor, desejo padecer e ser desprezado por amor de vós. Com isso queria dizer: Ó meu Salvador, vendo-vos por meu amor tão atormentado e desprezado, que outra coisa posso desejar que padecer e ser desprezado?

Uma outra pessoa piedosa, quando recebia uma injúria, dirigia-se ao altar do SS. Sacramento e dizia: “Ó meu Deus, sou muito pobre para oferecer alguma coisa de preço; por isso vos ofereço estas pequeninas dádivas que acabo de receber. Oh! com que amor não abraça Jesus Cristo uma alma que suportou com paciência um desprezo! Como se apressa ele em consolá-la e enriquecê-la de graças!” O Pe. Antônio Torres foi acusado como propagador de falsas doutrinas e, em consequência disso, privado por vários anos a jurisdição de ouvir confissões. Ele escreveu mais tarde a respeito desse tempo: Enquanto duraram as calúnias, tornam tão grandes as consolações, que posso afirmar nunca ter experimentado semelhantes consolações.

Ouem suportar com coração alegre as injúrias, não só alcança grandes merecimentos para si mesmo, mas ganha também o próximo para Deus Nosso Senhor. S. João Crisóstomo diz: “O manso de coração, que suporta tranquilamente as ofensas, aproveita a si e a todos que o observam; pois nada é mais próprio para edificar próximo do que a mansidão de um homem que com rosto sereno suporta ultrajes”. O Pe. Maffei conta de um padre jesuíta do Japão que, estando ele a pregar, um homem vil lhe escarrou no rosto; ele, tomando o lenço com toda a tranquilidade, limpou e continuou a sua pregação, como se nada tivesse acontecido. Isso impressionou tanto a um dos ouvintes, que se converteu à fé cristã, “pois a religião que ensina uma tal humildade, dizia ele, deve ser verdadeira e divina”. Assim também converteu S. Francisco de Sales a muitos hereges pela mansidão com que suportava todos os insultos da parte deles.

De resto, quem quiser trilhar o caminho da perfeição deve estar pronto a ser escarnecido, caluniado, injuriado, perseguido e odiado. Isso é inevitável. “Os ímpios abominam aqueles que se acham no caminho direito” (Prov 29, 27).

A vida dos bons é, de fato, uma contínua exprobração para os pecadores; pois seu desejo é que todos vivam como eles. A fugida do mundo, o desapego dos vãos prazeres, numa palavra, todos os atos piedosos de um cristão fervoroso, eles qualificam de singularidade, beatice e até hipocrisia, visto que se pratica tudo isso para se passar por santo. E se uma vez tem um bom cristão a infelicidade de cair numa falta (pois não deixou de ser frágil); gritam logo: Vede o santo: isso faz aquele que comunga todos os dias e passa o dia inteiro na igreja, para enganar os homens. Muitas vezes se acrescentam ainda mentiras.

Quem quer se santificar, deve estar resolvido a receber serenamente todas essas humilhações e oferecê-las a Deus, porque, se não quiser suportá-las, não poderá permanecer por muito tempo no caminho encetado; dentro em pouco deixará tudo e procederá do mesmo modo como a grande maioria.

Tratei a fundo deste assunto, porque me parece impossível que um cristão faça progresso na perfeição se não se sujeita de boa vontade ao desprezo, e porque tenho por certo que, em caso contrário, não se santificará.

Se queres, pois, atingir a santidade, deves ser muito humilhado e desprezado. Se estas palavras te assustarem, reanima-te pela promessa de Jesus Cristo: “Bem-aventurados sois quando vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por causa de mim: folgai e exultai, porque vossa recompensa é copiosa nos céus” (Mt 5, 12).

II. Da Mansidão

§ I. Da grande Importância da mansidão

A humildade e a mansidão formam as virtudes de Jesus Cristo e, por isso, inculcou-as de um modo especial a seus discípulos, dizendo-lhes: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt 11, 29). O Salvador foi chamado “Cordeiro de Deus” não só pelo sacrifício devia oferecer na cruz em satisfação dos nossos pecados, mas também por causa da mansidão que mostrou durante sua vida inteira e, em especial, durante a sua paixão. Ao receber uma bofelada diante de Caifás e ao ser acusado de desrespeito para com o sumo pontífice, nada mais disse, senão: “Se respondi mal, dá testemunho do mal; mas se falei bem, por que me feres?” (Jo 18, 23).

Essa mansidão praticou-a Jesus até sua morte. Estando pendente da cruz e sendo carregado de injúrias e sarcasmos por seus inimigos, orava por eles: “Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34).

Oh! como são caras a Jesus aquelas almas verdadeiramente mansas, que sabem suportar zombarias, calúnias, perseguições e até pancadas e maus tratos, sem se irritarem contra aqueles que as ofendem e ferem. “Sua oração é sempre agradavel a Deus” (Jdt 8, 16), isto é, sempre será atendida.

O céu é mui especialmente a pátria daqueles que aqui são desprezados e calcados aos pés, diz o Pe. Álvarez. E, de fato, a estes é prometido o céu, e não aos soberbos, que são honrados e estimados pelo mundo (Mt 5, 4).

O salmista chega até a afirmar que os mansos não só alcançarão a felicidade na outra vida, mas mesmo nesta eles deleitar-se-ão na abundância da paz (SI 36, 11); pois, longe de alimentarem ódio contra os que os maltratam, prezam-nos mais que antes e, em recompensa de sua mansidão, o Senhor aumenta-lhes a paz interior. “Quanto aos que falam mal de mim, diz S. Teresa, parece-me que, justamente por isso, sinto mais amor por eles”. Lemos nos Atos de sua beatificação que justamente com ofensas se ganhava em grau especial o seu amor.

Não se pode, porém, ganhar uma tal mansidão, sem uma humildade profunda, sem uma baixa idéia de si mesmo e sem se julgar, digno de todo o desprezo. O orgulhoso está sempre irado e planejando vinganças, porque tem uma grande idéia de si mesmo e se julga digno de todas as honras.

O Espírito Santo diz: “Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor” (Apoc 14, 13). Deves, pois, morrer no Senhor se quiseres ser feliz e começar já aqui a gozar daquela verdadeira bem-aventurança que é possível obter-se na terra. se ela fica aquém da bem-aventurança do céu, contudo sobrepassa, segundo o Apóstolo, todos os deleites dos sentidos: “A paz do Senhor sobrepuja todo o entendimento” (Filip 4, 7).

Repito, porém, que, para se alcançar e conservar essa paz no meio das injúrias e calúnias, teve-se estar morto no Senhor. O morto não sente nenhum agravo, nenhum mau trato; igualmente o manso, como um morto, que nada mais vê e nada mais ouve, está pronto a suportar todas as humilhações sem se opor a isso. Quem ama sinceramente Jesus Cristo chega a esse feliz estado; porque, dirigindo-se em tudo segundo a vontade de Deus, recebe com a mesma paz d’alma e resignação a felicidade e infelicidade, consolação e aflição, injúrias e benefícios. Isso se dava com o Apóstolo, que disse: “Estou cheio de consolação, exubero de gozo em toda a minha tribulação” (2 Cor 7, 4). Feliz daquele que atinge uma virtude tão alta! Ele possui uma paz contínua, um bem acima de todos os bens. “Que são todos os bens desta vida, em comparação com a paz do coração?” (Carta 580), exclamava S. Francisco de Sales. Na realidade, que te aproveitam todos os tesouros do mundo, se não possuis a paz e a tranquilidade?

§ II. Do exercício da mansidão

O Espírito de Deus é um Espírito de mansidão. “Meu Espírito é mais doce que o mel” (Ecli 24, 27). S. Francisco de Sales, modelo e mestre da mansidão, diz: “A humilde mansidão é a virtude das virtudes, que nos foi recomendada instantissimamente pelo divino Salvador; por isso deves praticá-la sempre e por toda a parte” (Carta 853). Achas que se pode fazer alguma coisa com amor, faze-o então; o que, porém, não pode ser feito sem altercação, deves deixar (Carta 786). Isso deve-se entender daquilo que se pode deixar sem pecado, pois, se teu dever exige que impeças uma ofensa de Deus, deres então fazê-lo sem escrúpulo.

Deve-se praticar a mansidão particularmente com os doentes e pobres; com os pobres, porque eles, em vista de sua pobreza, são tratados muitas vezes com dureza; com os doentes, porque eles sofrem com sua enfermidade e, além disso, muitas vezes não acham auxilio junto aos outros.

Com mansidão devem os superiores tratar seus súditos, e, se lhes têm de dar uma ordem, devem antes pedir que mandar. Não há melhor meio de os superiores se fazerem obedecer, diz S. Vicente de Paulo, do que a mansidão. Era esse também o parecer de S. Chantal. “Experimentei todos os modos de proceder, dizia ela; o melhor é o manso e paciente” (Mem. de la M. Chaugny, p. 3, c. 19).

De um modo especial deve-se observar a mansidão com os inimigos: “Vence o mal com o bem” (Rom 12, 21), o ódio com o amor, a hostilidade com a mansidão. Assim praticaram os santos todos e dessa maneira alcançaram a simpatia de seus mais assanhados inimigos.

“Nada causa tanta edificação como a amorosa mansidão”, diz S. Francisco de Sales (Carta 605). Nos lábios desse santo pairava continuamente um amável sorriso; seus gestos, suas palavras, loda a sua pessoa respirava mansidão. S. Vicente de Paulo afirmava que nunca conhecera homem mais manso do que esse santo Bispo; julgava até ver nele uma imagem viva da bondade de Jesus Cristo. Mesmo quando devia recusar algum pedido para não ofender sua consciência, revestia sua recusa com tão grande amor; que ganhava a afeição do requerente, que se ia satisfeito, apesar da resposta negativa. Era manso com todos, com os seus superiores, com os seus iguais, com os seus inferiores, com os seus domésticos como com os estranhos. Nunca se queixava de seus criados: raramente os repreendia e então sempre com grande mansidão. Que diferença não existe entre esse santo e aqueles que, como ele se exprimia, “na rua parecem anjos e em casa demônios” (Filotéia, 3 p., c. 8).

Também tu, alma cristä, se tiveres de repreender, deves fazê-lo  sempre como o sobredito santo, com toda a mansidão. Uma coisa é falar com energia, outra coisa é falar com dureza. Algumas vezes a repreensão deve ser feita com energia, principalmente se a falta é importante se se repetiu depois de admoestado. Mas, mesmo assim, deves te precaver para que não repreendas em tom áspero e irritado, pois, dessa forma, causarás maior mal que bem. Esse seria aquele zelo áspero que S. Tiago tanto reprova.

Alguns gabam-se por inspirarem um grande respeito a seus súditos por seu duro modo de proceder e pensam que essa deve ser a maneira de agir dos superiores. O Apóstolo, porém, pensa mui diversamente: “Se tendes um zelo amargo… não vos glorieis” (Tgo 3, 14).

Se a necessidade às vezes te obriga a falar com rigor para fazer sentir a grandeza da falta, assim mesmo deves terminar com mansidão a repreensão, empregando então palavras afáveis. Como o samaritano, deves curar as feridas com azeite; mas, como o azeite, misturado com outros líquidos, permanece em cima, assim também deve a bondade predominar em todas as nossas ações, diz S. Francisco de Sales. Se aquele a quem tens de repreender estiver irado, espera até que ele se acalme, do contrário mais o irritas. Se uma casa está a arder, não se deve lançar-lhe lenha.

“Vós não sabeis de que espírito sois” (Lc 9, 55). Assim respondeu o divino Salvador a S. João e S. Tiago, quando lhe rogavam que castigasse os samaritanos, de cujo país tinham sido expulsos. Ah! que espírito é esse? queria o Salvador dizer; não é esse o meu espírito: o meu é clemência e bondade; o Filho do Homem não veio para perder as almas, mas para salvá-las (Lc 9, 56), e vós quereis induzir-me a lançá-las na perdição! Calai-vos e não desejeis mais isso: que não é conforme o meu espírito.

E, de fato, com que indulgência não tratou Jesus Cristo a adúltera: “Mulher, disse-lhe Jesus, ninguém te condenou? Ela respondeu: Ninguém, Senhor. Então lhe disse Jesus: Também eu não te condeno: vai e não peques mais” (Jo 8, 11). Com a mesma mansidão empreendeu a conversão da samaritana e conseguiu-a. Primeiramente pediu-lhe de beber e em seguida lhe disse; “Oh! se soubesses quem é que te diz: Dá-me de beber; finalmente descobre-Ihe que ele era o Messias prometido (Jo 4, 7).

Com que atenciosa delicadeza não procedeu Jesus para com o traidor Judas, a fim de comovê-lo! Permitiu-lhe comer do mesmo prato de que comia; lavou-lhe os pés; admoestou-o no momento mesmo em que o desgraçado consumava seu crime com as enternecedoras palavras: “Judas, com um ósculo atraiçoas o Filho do Homem?” (Lc 22, 48). Como converteu Jesus a Pedro, depois de este o renegar? (Lc 22, 26). Ele não lhe fez nenhuma exprobração, mas unicamente, ao sair da casa do sumo sacerdote, virou-se, lançando-lhe um meigo olhar (Lc 22, 61), e com isso converteu-o tão perfeitamente que ele, durante sua vida inteira, não deixou mais de chorar a ofensa feita a seu divino Mestre.

Com mansidão se consegue muito mais que com aspereza. S. Francisco de Sales dizia que nada há mais amargo que uma noz verde: sendo, porém, preparada, torna-se agradável e doce. Do mesmo modo as repreensões, por mais desagradáveis que sejam, serão recebidas de bom grado e produzirão ùnicamente o bem se forem administradas com amor e mansidão. Com sua mansidão S. Francisco de Sales alcançava quase tudo o que queria e conduzia para Deus até os pecadores mais endurecidos. S. Vicente de Paulo era animado do mesmo espírito e dava a seus missionários as seguintes recomendações : “Afabilidade, amor e humildade possuem uma força prodigiosa para atrair os corações dos homens e para facilitar-lhes coisas que são inteiramente contrárias à natureza”.

Em todas as circunstâncias e em todo o tempo deves ser indulgente e amável para com todos. Alguns são mansos enquanto tudo corre segundo seus desejos, diz S. Bernardo, mas se uma contrariedade lhes advém ou lhes acontece alguma coisa desagradável, pegar fogo e deitam fumo como o Vesúvio. Devem ser comparados com os carvões que ardem debaixo da cinza.

Quem quiser santificar-se, deve viver como um lírio entre os espinhos, porque, por mais que seja perfurado pelos espinhos, permanece sempre lírio; com outras palavras, deve ser sempre. manso e carinhoso, Uma alma que ama a Deus conserva sempre a paz e ostenta-a também externamente no seu rosto, que permanece sempre igual tanto na felicidade como na desgraça.

Se temos de dar resposta a alguém que nos maltrata, façamo-lo sempre com mansidão: “Uma resposta branda quebra a ira”, diz Salomão (Prov 15, 1). Se nos sentimos irritados, é melhor calar-nos, pois, no calor da paixão, nos parece muitas vezes que devemos dizer tudo que nos vem à boca; passada, porém, a exaltação, vemos que cometemos tantas faltas quantas foram as palavras proferidas.

Se cairmos em alguma falta, devemos usar de mansidão conosco mesmos. Quem se exaspera contra si mesmo, depois de cometer uma falta, prova com isso que não tem humildade, mas um secreto orgulho: mostra que não se tem por uma criatura fraca e miserável, como todos nós o somos.

A humildade que causa desassossego não provém de Deus, mas do demônio, diz S. Teresa (Vid. c.30). Quem perde a paciência consigo mesmo, depois de uma falta, comete uma segunda, a qual traz consigo, quase sempre, muitas outras; ela é a causa de se deixar os exercícios de piedade, a oração, a santa comunhão, etc., ou então de praticá-los com muita negligência. S. Luís dizia que o demônio gosta de pescar em água turva, na qual não se pode distinguir mais nada. Se a alma está perturbada, torna-se muito difícil conhecer a Deus e os seus deveres. Depois de uma falta devemos voltar para Deus com humildade e confiança, pedir-lhe perdão e dizer-lhe com S. Catarina de Gênova: “Senhor, eis um fruto do meu jardim! Perdoai-me, porém, porque me arrependo de coração de vos haver ofendido; no futuro não o farei mais; dai-me para isso a vossa graça”.

§ III. Meios contra a raiva

Para viveres continuamente unida a Jesus Cristo, deves guardar, em tudo, a paz do coração e nunca te deixares levar a ira pelas contrariedades que te sucedem. “O Senhor não está na agitação” (3 Rs 10, 11); ele não mora em um coração onde reina a perturbação.

Ouçamos os belos ensinamentos que nos da S. Francisco de Sales, esse modelo de mansidão: “Não nos deixemos arrastar nunca pela ira; não permitamos jamais a essa impetuosa paixão entrada em nosso coração, por melhor pretexto que tenhamos, pois, tendo entrado uma vez no nosso coração a raiva, não estará mais em nosso poder o expulsá-la ou refreá-la”.

Para isso sirvamo-nos dos seguintes meios: 1° Procuremos abafar os movimentos da ira logo ao nascerem, pensando em qualquer outra coisa ou calando-nos. 2° Recorramos a Deus, como os Apóstolos, ao verem o mar encapelado, porque só a ele compete apaziguar os corações. 3° Se, em consequência de nossa fraqueza, a ira se apoderou de nosso coração, façamos todo o possível para recuperar a nossa tranquilidade e nos mostrar humildes e mansos com aqueles que foram causa de nossa excitação. Tudo isso deve ser feito com discrição e não com ímpetos, pois é de suma importância não rasgar mais ainda a ferida.

O mesmo Santo dizia que lhe havia custado muito vencer suas duas paixões predominantes: a ira e o amor. Quanto à primeira, confessou ele que teve de combater durante doze anos para superá-la. Quanto à segunda, trocou o seu objeto, desprendendo-se das criaturas para consagrar a Deus todo o seu amor. Dessa maneira atingiu o Santo uma tão profunda paz interior, que ela se refletia mesmo no seu exterior na contínua alegria de seu rosto.

Alguns há que, quando excitados pela raiva, procuram desabafar-se e tranquilizar-se, expandindo-se em palavras ásperas; isso, porém, é engano; sua excitação só se tornará maior. Se quiseres conservar continuamente a paz, deves evitar cuidadosamente o mau humor, e quando notares que te deixaste levar por ele, esforça-te por voltares à tua paz habitual. Toma especial cuidado em não passares a noite em tal estado; procura distrair-te com um bom livro, com um cântico devoto ou com uma agradável palestra, com um amigo. O Espírito Santo diz: “A ira descansa no seio do insensato” (Ecli 7, 10), que ama pouco a Deus; se ela acha entrada no coração de um verdadeiro sábio, será logo expelida, antes de se poder firmar ai.

Uma alma que ama verdadeiramente a Deus nunca está de mau humor, pois, querendo só o que Deus quer, se realiza sempre sua vontade, permanece sempre tranquila e igual a si mesma, sua sujeição à vontade de Deus assegura-lhe a paz em todas as contrariedades que lhe advêm e, assim, é sempre amável e mansa para com todos.

Sem um grande amor a Jesus Cristo, porém, nunca poderás alcançar um tal espírito de mansidão. A experiência mostra que, quanto mais terno é nosso amor para com Jesus Cristo, tanto mais mansos e afáveis somos para com os outros.

Como, porém, nem sempre sentimos ei nós esse terno amor, devemos nos preparar na meditação para todas as contrariedades que nos sucederem e fazer o propósito de suportá-las com toda a paciência. Dessa maneira acharam os Santos fácil conservar a paciência e mansidão em todas as contrariedades e agravos. Se não nos prepararmos de antemão às injúrias, no momento decisivo dificilmente saberemos o que devemos fazer para não sermos arrastados pela ira. À nossa natureza excitada pela paixão parecerá justo que nos oponhamos com violência à ousadia daqueles que nos ofendem; como, porém, nota S. João Crisóstomo, o fogo não é próprio para extinguir o fogo, em vez de acalmar a raiva do próximo, isso só provocará uma resposta mais violenta ainda.

A esse respeito diz S. Francisco de Sales: “Combate tua impaciência e pratica a afabilidade e mansidão, não só quando ela é expressamente imposta, mas também quando a impaciência parece justificada” (Carta 231). Em tais casos deves responder afavelmente, pois “uma resposta branda quebra a ira” (Prov 15, 1). Se estiveres, porém, excitado, é melhor que te cales, pois que “o olho ofuscado pela ira, diz S. Bernardo (De Cons., 1. 2, c. 11), não pode mais distinguir o que é justo e o que é injusto”. Por isso, devemos imitar S. Francisco de Sales, que se propusera firmemente nunca falar enquanto seu coração estivesse agitado.

Extraído de Pe. SAINT-OMER, C.Ss.R (org.); Escola da Perfeição Cristã, 1955, pp. 212-233.

2 comentários em “TRATADO DA HUMILDADE E DA MANSIDÃO, século XVIII | por S. AFONSO DE LIGÓRIO

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  1. Ótima lição. De fato, a mansidão e a humildade são talvez as qualidades mais ausentes em nossa sociedade, na qual a vaidade torna-se objetivo de vida de muitos. Para assegurar a própria vanglória, muitas pessoas não se importam com a verdadeira imitação de Cristo. No entanto, como o Mestre bem alertou, tais indivíduos nada terão a receber de Deus, porque já receberam seu galardão tendo tocado trombeta diante de si para serem vistos. As almas humildes, ao contrário, são ouvidas pelos céus, porque estão em sintonia com Jesus Cristo.

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