NOTA SOBRE CATEGORIAS OU PREDICAMENTOS

Essa é uma anotação feita por mim em meus estudos. Aqui publico visando sua utilidade. Infelizmente a anotação sobre os predicáveis se perdeu.

Enquanto os predicáveis são puramente lógicos, pois ordenam a coisa a um universal, as categorias ou predicamentos já são metafísicos, porque são universais que se atribuem à coisa mesma. São de duas classes: a substância, gênero supremo, e nove acidentes. Podemos dizer que, enquanto os predicáveis tratam as coisas enquanto as são de segunda intenção, as categorias as tratam enquanto são de primeira intenção, isto é, enquanto são concebidas por nós. Exemplo, nos predicáveis podemos dizer que homem é espécie. Já as categorias tratarão o homem enquanto homem, como universal metafísico e elas atribuem ao homem as categorias que lhe cabem.

O que está nas categorias ou é em si (a substância) ou no sujeito (acidentes) e elas são exaustivas. Isto é, não pode acrescentar e nem suprimir. Aristóteles, em sua singular sabedoria listou dez:

Substância: (latim: substantia) Aristóteles mostra duas formas de se entender substânciasubstância primeira, enquanto suporte de acidentes; e substância segunda, que é o mesmo que quididade. Às categorias, interessa mais a primeira forma. Ela é a principal categoria porque é ela que recebe a predicação substancial. O próprio da substância é subsistir, isto é, sub-estar, do latim sub stat. Daí o nome. É a primeira categoria que identificamos. Exemplo: este homem é João.

Quantidade: (latim: quantitas) é a segunda categoria que percebemos, por ser o intermediário entre a substância e os demais acidentes, tanto que os demais acidentes podem supor quantidade e esta não supõe outros acidentes. Ela pode ser entendida como multidão (aqui tem muita gente, João tem muitas posses) ou magnitude (João é alto, Pedro é gordo, Maria é magra). Também pode ser entendida como quantidade discreta, que é próprio de multidão, um todo divisível em partes que não terminam uma na outra (três maçãs na fruteira, por exemplo); e quantidade contínua, que pode ser medida como linha (divisível apenas segundo o comprimento, ou seja, apenas uma dimensão), superfície (divisível segundo o comprimento e largura, ou em duas dimensões) e corpo (divisível em três dimensões). Como se vê, o termo de medida da linha é o ponto, da superfície é a linha e do corpo é a superfície. O tempo é uma quantidade apenas per accidens, que pressupõe movimento e se estuda na categoria quando.

Qualidade: (latim: qualitas) é aquilo que é determinativo na substância segundo o ser acidental; isto é, enquanto predicamento é o que modifica a substância ao modo de diferença, mas fazendo no acidental o que a diferença específica faz no essencial. Temos oito espécies de qualidade, que formam quatro pares: (1) Hábito disposição, que são qualidades em que na natureza da substância mostram a sua inclinação, que pode ser tanto boa como má. O hábito é uma inclinação mais duradoura e fixa do que a disposição, que pode inclusive ser temporária. (2) Potência e impotência são aquilo que é modificativo da substância como princípio do agir e resistir. Essas espécies se distinguem como o perfeito se distingue do imperfeito. (3) Paixão e passibilidade ou padecibilidade dizem daquilo que se produz ou resulta na substância quando esta sofre uma alteração. E não se deve confundir com o predicamento paixão, que se refere à substância sofrendo a ação. E ainda se distinguem: paixão refere-se à mudança temporária e de fácil realteração, ao contrário da padecibilidade, que implica uma alteração de difícil remoção ou alteração permanente. (4) Forma figura dizem do aspecto ou da configuração externa de algo, da determinação da substância enquanto quantidade. Não se deve confundir a forma aqui com a forma substância como é a alma para o corpo.

Relação: (latim: ad aliquid) a descrição de relação, apesar de ser de alguma forma facilmente dedutível, é de difícil explicação. É o que se diz respeito a algo que é de outro com respeito a outros. O relativo dá-se de duas maneiras: de outra coisa ou com respeito a outra coisa. E geralmente possui contrários, como preto e branco, e recíprocos, como conhecimento e cognoscível ou pai e filho.

Ubiquação: (latim: ubi) é a realidade acidental que afeta uma coisa pelo fato de ocupar determinado lugar, que é o termo imóvel continente primeiro. Isto é, o lugar é o limite do que está ocupado pela coisa; sempre imóvel, pois não pode ser movido; continente, porque algo sempre ocupará o lugar; e primeiro, porque não nos referimos a locais determinados, como sala, mas aquela parte de que a coisa ocupa. Logo, lugar, por ser extrínseco à substância, não é predicamento, mas sim a ubiquação, que é intrínseca à substância e trata dessa realidade dela ocupar tal lugar. E não confundir o espaço com lugar, visto que o espaço não é outra coisa senão um conjunto de todos os lugares.

Quando: (latim: quando) esse predicamento distingue-se do tempo assim como a ubiquação distingue-se do lugar. Quando é a realidade acidental que afeta uma coisa pelo fato de ocupar um instante determinado. Tempo é o número do movimento segundo um antes e um depois. O que implica uma divisão entre passado e o futuro. O que divide os dois é o instante, que não faz parte do tempo, senão que é o que termina o passado e começa o futuro. Nesse caso, o tempo é então uma sucessão numerada de todos os instantes do movimento local primeiro, que certamente decorre da criação.

Situação ou posição: (latim: situs) sobre esse predicamento pouco é tratado tanto pelo Aristóteles como por seus comentadores. Refere-se ao modo de estar da coisa como, por exemplo, alguém estar sentado ou deitado.

Posse ou hábito: (latim: habitus) também pouco comentado porque o nome é autoexplicativo ainda que não deva ser confundido com o hábito espécie de qualidade. Aqui é no sentido de posse de algo, como estar vestido (de roupa), coberto (cobertor), armado (de arma), etc.

Ação: (latim: actio) também não comentado devido ao nome autoexplicativo. Quando dizemos que alguém está correndo, já mostra ação. Com exceção, é claro, sobre estar deitado ou estar calçado, pois aí implica situação e posse ou hábito respectivamente.

Paixão: (latim: passio) não confundir também com a espécie de qualidade, que implica o padecimento da ação já concluído. Paixão enquanto predicamento implica a substância estar sob o efeito do padecimento, como a água sendo esquentada no fogo. Se o fogo for apagado e não mais tivermos a água sendo esquentada, mas a água já quente, aí teremos a paixão enquanto qualidade.

Assim conclui-se os predicamentos. E convém lembrar que cada um deles tem o seu lugar em uma certa ordem como se vê abaixo:

§ Gênero supremo

  • Substância

§ Modos de acidentes

  • Três intrínsecos:
    • Absolutamente intrínsecos: Quantidade e qualidade.
    • Relativamente intrínseco: Relação.
  • Seis extrínsecos:
    • Em razão da causa pelo agente: ação.
    • Em razão da causa pelo paciente: paixão.
    • Em razão da medida quanto ao lugar:
      • Se não considera a ordem do lugar: Ubiquação.
      • Se considera a ordem do lugar: Situação.
    • Em razão da medida quanto ao tempo: Quando.
    • Em razão da natureza do homem: Posse ou hábito.

Assim sendo, podemos usar as categorias com o exemplo a seguir. Substância: João é homemquantidade: João é altoqualidade: João é brancorelação: João é filho de Pedro; ação: João está trabalhandopaixão: João está sendo agredidoubiquação: João está em casasituação: João está sentadoquando: João foi ontem ao supermercado; posse ou hábito: João está armado.

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