ALGUNS LUCIFERINOS OU ADVOGADOS DE LÚCIFER, 1960 | Mons. LEÓN CRISTIANI

Monsenhor Léon CRISTIANI, Prelado de S.S. o Papa Pio XII.

Boullan e os Mariavitas.

No presente capítulo, gostaríamos de dar alguns exemplos recentes de luciferismo. O primeiro será o do Pe. Boullan. [1. Seguimos aqui à risca as páginas que lhe foram dedicadas no Satan de Études Carmélitaines, completando-as com alguns dados tirados da Enciclopedia Cattolica.] Jean-Antoine Boullan nasceu a 18 de fevereiro de 1824, em Saint-Porchaire (Charente-Maritime), e morreu em Lyon, a 4 de janeiro de 1893. Pouco se sabe de sua carreira, exceto que ele se tornou sacerdote em torno e 1848. Frequentou escritores ocultistas e viveu num meio que ele próprio definiu, na sua “Confissão”, como de mulheres “loucas e demoníacas, segundo o juízo que delas podemos fazer”. Uma dessas mulheres é, além disso, epilética. Ora, na mesma Confissão, ele reconhece que “não tinha aptidão” para a direção de mulheres. Parece bem mais provável que ele tenha sido “dirigido” por elas. Ele é, porém, inteligente. Mas é atormentado ao mesmo tempo por uma curiosidade malsã e por inclinações sensuais chegando até à obsessão. Ele próprio explica suas faltas da maneira seguinte: Meus “pecados, escreve ele, têm uma tríplice fonte, origem e princípio: em primeiro lugar, a fraqueza e a fragilidade da minha natureza corrompida; as ilusões do demônio, próprias a me enganar e extraviar meu espírito; por fim, minha maneira de perceber as coisas, que me conduziu a diversas coisas dignas de censura e de reprimenda”. Uma confissão dessas apresenta as notas da sinceridade. O Pe. Boullan reconhece então seus erros e seus pecados. Nele há uma mescla de boas intenções, em meio às quais ele se obstina até à cegueira, e de ações culpáveis, sobre as quais ele procura iludir-se. Ele pretende ter querido curar as possessas. Para tanto, ele tentou estudar os efeitos do pecado e os limites da ação do diabo, no decurso de suas “experiências” feitas com mulheres perversas. Ele se deixa, é crível, impressionar por Satanás, ao ponto de acreditar ser “João Batista que desceu de novo à terra”. Ele assume a sucessão do herege Vintras, que, por sua vez, se considerava “reencarnação do profeta Elias”.

— Sabe-se que, no Evangelho, João Batista é apresentado como um novo Elias. Um sucessor de Vintras não podia ser, portanto, senão João Batista. A partir do momento em que ele é isso, ele tem uma missão. Nasce o reformador nele. É mister que ele agrupem torno de si discípulos, para erguer a “espada de Deus” contra a Igreja Romana. A crer nele, a Igreja Romana foi entregue a Satanás. Os sacerdotes católicos são, segundo a expressão dele, “os chifrudos do sacerdócio”. A questão do dinheiro tem com ele parte muito grande. Sua Confissão no-lo mostra “ganhando muito dinheiro” em Paris, antes de fundar a sua obra. Ele não diz de onde vem esse dinheiro. Mas este lhe sobe à cabeça. Ele compra um castelo e nele gasta somas consideráveis. O bem e o mal se tornaram, no espírito dele, coisa tão confusa, que que ele comete uma fraude, que o conduz em 1861 perante os tribunais e lhe vale três anos de prisão (1861-1864). O inquérito judicial conclui que ele se servia de seus pretensos conhecimentos sobrenaturais para explorar as almas crédulas e extorquir o dinheiro delas. Esse dinheiro, de resto, ele não o conservava. Ele tinha um prazer estranho em recebê-lo de uns para distribuí-lo aos outros. Sua Confissão pronuncia anátemas fulgurantes contra os “chifrudos do sacerdócio”, que o denunciaram a Roma para conseguir que ele fosse condenado junto de sua amiga, a ex-religiosa Adèle Chevalier, miraculada de La Salette, caída em seguida no vício, arrastando o Pe. Boullan em sua queda. Ele será de fato trazido diante dos tribunais eclesiásticos romanos e encarcerado nas prisões do Santo Ofício, donde será libertado pela invasão dos piemonteses, em 1870.

Todos os que o perseguiram, o Pe. Boullan encomenda-os às penas do inferno, eternas ou temporárias, e também, ao aprisionamento na torre de Babel, e ao pagamento de todas as dívidas consigo. Ele é tão extravagante, que os discípulos do próprio Vintras excluem-no de seu círculo. A história desse pobre padre desviado, e que foi vítima do ocultismo e do erotismo, seria simplesmente lamentável e banal, se ele não tivesse pertencido a uma corrente e deixado uma sequela. Ele pertenceu a uma corrente, e seu caso projeta um clarão aflitivo em todo um universo de manifestações e intrigas tenebrosas. O ocultismo de Eliphas Levi, o iluminismo de Vintras, esta reencarnação de Elias, o teosofismo de Madame Blavatsky, as criações de Guaïta, hauridas no sâr Péladan, sob o título de Rosa-Cruz, e talvez também, num plano ainda mais amplo, os ritos misteriosos da franco-maçonaria iniciática – condenando o ateísmo do Grande Oriente de França, – aí não há mais do que um certo número daquelas doutrinas e práticas esotéricas que se agitam nos subterrâneos de nossas sociedades modernas. E em tudo isso, sem dúvida, não é injusto ver formas do satanismo atual.

Mas o Pe. Boullan deixou também uma descendência: o cisma dos Mariavitas.

Quem são os Mariavitas?

Os Mariavitas são uma seita pseudomística, fundada na Polônia, em 1906, por um padre excomungado, Jan Kowalski, e por uma visionária, Felícia Kozlowska (1862-1922). Ora, os fundadores estão diretamente ligados ao Pe. Boullan. Pertenceram às obras dele, participaram de sua ação, partilharam de seu iluminismo. Kowalski e seu colega Procnievski eram, tanto um como o outro, franciscanos. Maria-Felícia Kozlowska era uma religiosa franciscana. Eles haviam sido da clientela do Pe. Boullan e de sua profetisa, a ex-religiosa Adèle Chevalier, a miraculada de La Salette. Encontram-se nesse meio suspeito entre 1888 e 1893. Nessa data, morre o Pe. Boullan. Os poloneses retornam então ao seu país. Em 1894, começam os vaticínios de Maria Felícia, que logo será chamada de Matouchka: a mamãe. O novo movimento professa uma devoção particular pela Virgem Maria. Eles não falam, piedosissimamente, senão de “imitar a vida da Virgem Maria” – Mariae vitam imitari–, daí seu nome de Mariavitas. Maria Felícia Kozlowska não hesita em atribuir-se, nela própria, “a inabitação da Virgem”. Em 1903, o santo Papa Pio X condena-os. Longe de se submeterem, os Mariavitas abandonam a Igreja em massa. Foi estimado em quase um milhão o número de seus aderentes e em trezentos o de sacerdotes e religiosas que os dirigem ou fanatizam, quando da fundação oficial do cisma, em 1906. Kowalski torna-se patriarca da seita. Ele obtém, para si e para alguns colegas, a consagração episcopal – válida – da parte do episcopado veterocatólico e jansenista de Utrecht, em 1909. Em dezembro de 1910, a condenação com que o Papa Pio X fulminou-os é confirmada e publicada nos Acta Sanctae Sedis. Mas logo irrompe o escândalo. Na seita, tem-se a pretensão de autorizar e de louvar a prática dos “matrimônios místicos”, emprestados, como o restante, ao Pe. Boullan. Esses matrimônios são destinados, se nos garante, a obter “a procriação sem concupiscência de filhos que, desse modo, não terão o pecado original”. Do “matrimônio místico” passa-se bem depressa à “poligamia mística” ou “poligamia espiritual”. Os veterocatólicos então protestam e se zangam. No congresso internacional da sua seita, em 1924 em Berna, eles excomungam toda a Igreja Mariavita, que conta ainda, nessa data, 600.000 fiéis. Desde essa época, o patriarca e vários de seus bispos tiveram de responder, em seu país, a pesadas acusações por questões de costumes, e os tribunais criminais atingem-nos com condenações retumbantes. Segundo a Enciclopedia Cattolica, no verbete Mariaviti, tomo VIII, de 1952, o número deles não ultrapassava então os 50.000, com um arcebispo, três bispos, trinta sacerdotes e quinhentas irmãs. Os Mariavitas vivem segundo a Regra de S. Francisco, segundo dizem eles: os padres obedecendo à primeira Regra, as religiosas à segunda, e os fiéis à ordem terceira. Também aí, o satanismo se cinge a “macaquear” organizações ortodoxas. Ele desonra o franciscanismo, na impossibilidade de fazer melhor!

O caso perturbador de Léon Bloy.

Haverá que agrupar ao caso do ex-padre Boullan e dos exaltados do mariavitismo o do célebre escritor Léon Bloy? Formular a pergunta, ainda há pouco tempo, teria parecido uma espécie de sacrilégio, em todo o caso uma afronta insuportável.

Mas eis que foi publicada, em 1957, uma obra estupefaciente assinada por R. Barbeau, e trazendo este título um tanto espalhafatoso: Um Profeta Luciferino, Léon Bloy (Paris, Éd. Montaigne, Aubier). Nada mais justo que dar a palavra ao autor, para que ele nos diga suas intenções e nos comunique suas descobertas. Ele conta que, durante mais de trinta anos, fez parte de um “Círculo Léon Bloy” dirigido em Montreal pelo Rev. Pe. Guy Courteau, S.J., que via em Bloy o homem mais próprio a atiçar a apatia dos “burgueses” e abrir aos intelectuais as veredas da Igreja. Sabe-se, com efeito, que a influência de Léon Bloy foi considerável, no início deste século [séc. XX], e que homens tão penetrantes e também consideráveis como Jacques Maritain (e sua esposa), Pierre van der Meer de Walcheren, Léopold Levaux, etc., proclamaram em alta voz que deviam a ele sua conversão ao catolicismo. Ele teve como amigos – generosíssimos – Pierre Termier, René Martineau, Jacques Debout e ainda outros. Seus admiradores são homens do quilate de Hubert Colleye, que escreveu em 1930 A Alma de Léon Bloy; M. J. Lory, O Pensamento Religioso de Léon Bloy, 1951; Stanislas Fumet, Missão de Léon Bloy, 1935; Albert Béguin, Bloy, místico da dor, 1948; etc. Recordemos sumariamente que Léon Bloy, nascido em Périgueux de pai ateu e mãe piedosíssima, foi desde a infância de um temperamento violento, intransigente, inadaptado. Foi Barbey d’Aurevilly que lhe restituiu a fé em Paris e que o formou nesta busca de um estilo suntuoso e impactante, sortido de palavras raras e expressivas, que são os traços principais de seu gênero. É incontestável que Léon Bloy foi um mestre da escrita, que ele tem um sentido do ritmo e da música da frase que o colocam no primeiro escalão. Ele travou relações estreitas com Ernest Hello e com o Pe. Tardif de Moidrey. Teve a mais viva admiração pelo escritor lionês Blanc de Saint-Bonnet. Mas é seguro, doravante, pelo livro de R. Barbeau, que ele frequentou bastante os ocultistas, que ele viveu na expectativa de revelações grandiosas, de catástrofes surpreendentes, e com o pensamento de que tinha uma missão capital a cumprir.

Com seu caráter absoluto, ele se encontra em conflito acirrado com o seu tempo. “Tenho a sensação nítida, escreverá ele em 29 de maio de 1892, de que todo o mundo se engana, de que todo o mundo é enganado, de que o espírito humano caiu nas mais espessas trevas”. E donde lhe vem, então, a sua luz? Não da Igreja Católica como tal, mas de uma pobre mulher, uma prostituída chamada Anne-Marie Roulé, a Verônica de seu romance O Desesperado. Ele ligou-se a ela e garante que a converteu. Ela tem visões sobrenaturais, antes de cair na loucura e terminar os seus dias num asilo de alienados. Com base na fé dessa mulher e nas revelações que ele crê estarem contidas no Segredo de Melânia Calvat, a vidente de La Salette, ele se diz certo da iminência da “parusia”, ou seja, do fim do mundo. E essa “parusia” consistirá no advento do Paráclito, que não será outro que não Lúcifer em pessoa! Uma tal extravagância desemboca na blasfêmia mais inadmissível. O livro inteiro de R. Barbeau tende a demonstrar que foi esta a ideia essencial e dominante de Léon Bloy, ideia que ele considerava como o seu “segredo” exclusivo, que ele dissimulava, por conseguinte, mas que inspirava secretamente tudo o que ele escrevia! Constantemente frustrado em suas esperanças de assistir ao advento que ele tinha por missão preparar, ele escreverá na sua Biografia (publicada por Joseph Bollery, pela [editora] Albin-Michel, em 1947):

“Não pude encontrar em mim nada além do ressentimento mais amargo e mais feroz contra um Deus tão duro e tão ingrato… Eu teria vergonha de tratar um cão sarnento como Deus me trata” (I., 428-429).

Ele crê, efetivamente, que Deus Pai foi um mestre imperioso e impiedoso, que Deus Filho nada mais fez que reparar a obra do Pai que fora tão malsucedida, mas que somente o Espírito Santo será o reino universal do Amor. Léon Bloy renovava assim, à sua maneira, os delírios de Joaquim de Flora (aprox. 1145-1202). Mas é sobretudo a identidade que ele estabelece entre Satanás e o Espírito Santo que é monstruosa!

O Satã de Léon Bloy.

E, contudo, Léon Bloy gloria-se de ser o único – ele é frequentemente: o único! – a ter compreendido o que é Satanás. A partir do momento em que ele viu neste último a terceira pessoa da Santíssima Trindade, não podemos nos surpreender com a enormidade dos poderes que ele lhe atribui. Em seu livro sobre Cristóvão Colombo, intitulado O Revelador do Globo (1884), lê-se:

“A noção do Diabo é, de todas as coisas modernas, aquela que mais carece de profundidade, em virtude de se ter tornado literária. Com certeza, o Demônio da maioria dos poetas não amedrontaria nem mesmo crianças. Conheço apenas um único Satanás poético que é verdadeiramente terrível. É o de Baudelaire, porque ele é sacrílego. Todos os outros, inclusive o de Dante, deixam nossas almas bem sossegadas, e suas ameaças fariam encolher os ombros quase nada literários das raparigas do catecismo de perseverança. Mas o verdadeiro Satanás, que não mais é conhecido, o Satanás da Mulher e o Tentador de Jesus Cristo, – já este é tão monstruoso que, se fosse permitido a este Escravo mostrar-se tal como é – na nudez sobrenatural do Não-Amor –, a raça humana e a animalidade inteira daria apenas um grito e cairia morta…”

Até aqui estamos completamente de acordo com Léon Bloy. Nós o estaríamos um pouco menos no que segue, pois ele exagera:

“Ele (Satanás) está entre todos os lábios e todas as taças; ele se assenta em todos os festins e regala de horrores em meio aos triunfos; ele está deitado no fundo mais obscuro do leito nupcial; ele corrói e macula todos os sentimentos, todas as esperanças, todas as brancuras, todas as virgindades e todas as glórias! Seu trono predileto é o cálice de ouro do amor em flor e seu banho mais suave é lareira de púrpura do amor em chamas. Quando não falamos a Deus ou por Deus, é ao Diabo que falamos, e ele nos escuta… num formidável silêncio. Ele envenena os percursos da vida e as fontes da morte, ele cava precipícios no meio de todos os nossos caminhos, ele arma contra nós a natureza inteira, a tal ponto que Deus teve de confiar a guarda de cada um de nós a um espírito celeste, para que não perecêssemos já em nosso primeiro instante de nascença. Enfim, Satanás se assenta no alto da terra, com os pés sobre as cinco partes do mundo, e nada de humano se realiza sem que ele intervenha, sem que ele tenha intervindo e sem que ele deva intervir.”

E conclui:

“Aí está o império ilimitado de Satanás. Ele reina como patriarca sobre a multidão dos hediondos filhos da liberdade humana.”

Muitas vezes, Léon Bloy retorna a estas mesmas ideias, que poderiam ser assinadas por Lutero, o teólogo pessimista do pecado original indelével e indestrutível. Ele retornou a elas em seus livros: Beluários e Porqueiros (1905), A Alma de Napoleão (1912) e alhures. Ele escreveu a Pierre Termier, um dia: “Tudo o que é moderno é do Demônio. Esta é a chave dos meus livros e de seu autor”. E, em O Invendável (1909), lê-se (p. 219): “Podemos nos encontrar, num futuro próximo, em presença de um caso de possessão universal”. Mas, justamente, como é que Léon Bloy, depois de ter exagerado tão violentamente o poder maléfico de Satanás, pode identificá-lo ao Paráclito? Como é que aquele que, segundo ele, é o Não-Amor, e segundo nós também, pode tornar-se o Amor personificado? É este o segredo mais profundo de Léon Bloy. Ele se perde nos simbolismos mais impenetráveis e desfruta aqui de êxtases só dele conhecidos. Escrevendo à sua noiva, a filha do escritor dinamarquês Molbech, ele diz a ela em 24 de outubro de 1889:

“Recorda-te… desta coisa que me foi outrora revelada e que sou o único no mundo a poder dizer, a saber: que este Sinal de dor e de ignomínia – a Cruz – é a figura mais expressiva do Espírito Santo. Jesus, que é o filho de Deus, o Verbo feito carne, e que representa toda a humanidade, carrega, pois, esta Cruz, que é maior do que ele e que o oprime. É preciso que Simão de Cirene ajude-o a carregá-la. Quando penso neste grande personagem misterioso, escolhido desde toda a eternidade, dentre milhares de criaturas, para ajudar um dia a Segunda Pessoa divina a carregar a imagem da Terceira, sou penetrado de um respeito infinito, que se assemelha ao terror.

“O nome de Simão quer dizer: Obediente, e foi a Desobediência que impôs a Cruz, isto é: o Espírito Santo, nas costas deste outro obediente que é Jesus Cristo. Observa bem, Jeanne, que assim ficam três: dois obedientes para carregar o fardo terrível da Desobediência, e que esse trio lamentável está a caminho para vencer a morte. Que abismo!” Noutra carta, data da de 2 de dezembro de 1889, ele deixa entrever um raio de luz tênue sobre seu modo de conceber tanto a queda original quanto a restauração final:

“Eis, diz ele, de que maneira eu concebo neste instante o grande drama da Queda. A Serpente, figura sombria do Espírito Santo, engana a mulher, que dele é a figura radiante. A mulher aceita e come a morte. Até aí, o gênero humano não caiu, pois se a mulher trocou sua maravilhosa inocência pelo pudor que não passa do lamentável reflexo daquela, o homem, figura brilhante da Segunda Pessoa divina, ainda não alterou essa mesma inocência fazendo uso de sua liberdade. Esta é a situação inaudita, quase inconcebível. Peço toda a tua atenção. O homem e a mulher estão em presença um do outro, em conflito e sozinhos, pois a Serpente passou para a mulher, amalgamou-se nela; a sombra e a luz fundiram-se uma na outra pela duração dos séculos. O homem e a mulher, isto é, Jesus e o Espírito Santo, estão um diante do outro, sob a mão terrível do Pai.

“A mulher, figura do Espírito Santo, representa tudo o que caiu, tudo o que cairá. O homem, figura de Jesus, representa a salvação universal, pela aceitação, pela assunção livre de todas as quedas, de todo o mal possível, e, por milagre de uma ternura infinita, ele consente em perder a luz de sua inocência, para partilhar do fruto da morte, com vistas a triunfar um dia da morte mesma, quando a dor tiver prodigiosamente alargado sua liberdade. Então ambos percebem que estão nus, porque, a Redenção – já começada – devendo um dia rematar-se numa árvore da qual a do Éden nada mais era que prefiguração, era preciso neste dia que a vítima, que o holocausto universal da Liberdade e do Pudor fosse contemplado inteiramente nu na Cruz da universal expiação. Haveria cinquenta outras coisas a dizer, se eu não morresse de frio!

“Não importa: o Amor, num movimento inefável e incompreensível, cai na terra; o Verbo, do qual ele é inseparável, cai depois dele, e o Pai os ergue um pelo outro sucessivamente, o homem devendo primeiro dar sua liberdade de um modo terrível para salvar a mulher, e a mulher devendo em seguida entregar seu pudor de um modo ainda mais terrível para libertar seu esposo. Quando tu me escreves que talvez a mulher seja a única rica, e o homem o único pobre, tu exprimes – será sem querer? – uma das mais adoráveis fórmulas da exegese transcendente. Mas essa fórmula só é perfeitamente verdadeira no sentido da exegese, e isso me traz de volta ao objeto de minha carta.”

Se compreendemos bem essa linguagem anfigurítica e pretensiosa, a Serpente, ou seja, Satanás, figura sombria do Paráclito, engana a Mulher, e não somente Eva, mas a Mulher que se tornará a Virgem Maria, figura radiante do mesmo Paráclito. A Serpente “amalgamou-se nela”, o que significa que Satanás, a Luz e a Mulher “fundiram-se numa coisa só pela duração dos séculos”. A Serpente e a Mulher não formam mais senão um único ser, que é o Paráclito. Mas, após a queda, há o restabelecimento. “O Amor, num movimento inefável e incompreensível, cai na terra. O Verbo, do qual ele é inseparável, cai depois dele, e o Pai os ergue um pelo outro, sucessivamente.” Paráclito é sinônimo de Lúcifer. Sua imagem mais surpreendente é o Filho pródigo. O Pai aguarda ansiosamente o seu retorno. Lúcifer retornará. Ele será acolhido com enlevo pelo Pai. Seu irmão mais velho não ficará contente. Ou seja, a Igreja perseguirá o Paráclito-Libertador, que deve descravar Cristo, no fim dos tempos. Será o inconcebível Advento futuro, o triunfo da Sinagoga e a Glória de Satanás. Paremos aqui essa exposição de insanidades. O mínimo que se pode fazer, quando se leu o requisitório de R. Barbeau contra L. Bloy, é classificar a este último no número dos neognósticos, que pulularam nos últimos dois séculos. O que queremos dizer com isto? Os gnósticos foram, há mil e oitocentos anos, hereges que se pretendiam superiores aos simples fiéis, que escrutavam as Escrituras com a pretensão de encontrar ali sentidos misteriosos e inacessíveis ao comum dos mortais, e que construíam sistemas inverossímeis sobre os “éons” que fazem a ponte entre a matéria, identificada com o mal, e Deus, situado numa lonjura quase impossível de alcançar. Como os gnósticos, Léon Bloy crê-se detentor de um segredo que só pertence a ele e a alguns iniciados cujas revelações ele é o único que compreende. Esse segredo, ele pretende encontrar-lhe respaldo nas Escrituras, mas de acordo com interpretações que só ele dá. Ele vive na expectativa insensata de uma catástrofe, da qual ele será não só a testemunha, mas o agente mais ativo. Ele terá sido, pensa ele, o profeta, o anunciador privilegiado da parusia, que nada mais será que a subida ao céu de Lúcifer, que deve ali recuperar seu título e sua glória de Paráclito, terceira pessoa da Santíssima Trindade. Para essa restauração de Satanás, será suficiente que aquele que era o Não-Amor volte a ser o que ele foi primitivamente: o Amor, e que ele suplique ao Pai, dizendo: “Apelo da tua Justiça à tua Glória!”. Traduzamos: se Deus mantém Satanás no inferno, com os outros condenados arrastados por ele, Ele bem pode fazer ato de justiça, mas é em detrimento de sua glória. A criação que é obra sua está incompleta. Digamos a palavra: se o inferno for eterno, a criação está falhada! Malograda! Há uma mácula. Há uma nódoa intolerável. “Para sua glória”, Deus é obrigado a perdoar Satanás e todos os réprobos. Ele e não pode deixar subsistir esse horror que se chama o inferno! Realmente parece ter sido este o “segredo” de Léon Bloy. O autor do livro que acabamos de analisar, R. Barbeau, nos faz a grave declaração que vamos ler agora:

“A publicação atual não constitui senão parte do texto apresentado na Sorbonne em 1º de junho de 1955. Toda uma série de questões importantes, como a reencarnação na “Mulher pobre”, a crença de Léon Bloy na reencarnação de vários de seus amigos, a pretensão inabalável de ser ele próprio um reencarnado, a inexistência do tempo, a angelidade antes da queda, a autodivinização do homem, os temas do Paraíso terrestre, da Atlântida, o Sexo da Mulher, o incesto, o Paraíso celeste gnóstico, a língua oculta, a arte luciferina, o Septenário, o ano climatérico, o Santo Graal, a necessidade e a liberdade, os dois Abismos, o anagramatismo e diversas outras alusões ocultistas, assim como as duas exposições completas do luciferismo magnético de Eliphas Levi e do luciferismo mitológico de H.P. Blavatsky, que estabelecem o elo entre Léon Bloy e os iniciados, serão publicados em estudo a ser publicado ulteriormente, acompanhados de cartas e textos inéditos.”

Estamos de fato em plena fantasmagoria com Léon Bloy. Permaneceremos nela, passando alguns instantes com Giovanni Papini.

O Diabo de Papini.

O que permite fazer uma aproximação entre Léon Bloy e Papini é que esses dois autores, nos quais se discerne igual pendor ao iluminismo, são um como outro partidários resolutos da reabilitação final de Satanás. Trata-se sempre de apelar “da justiça à glória” de Deus. Se em Papini há menos construções neognósticas, há nele contudo a renovação bizarra de uma velhíssima heresia, a dos teopasquitas, que atribuíam o sofrimento a Deus mesmo! Mas, enquanto os teopasquitas da antiguidade pretendiam explicar esse “sofrimento de Deus” pela morte do Filho de Deus na cruz, o que comporta certas interpretações legítimas e outras claramente heréticas, Papini atribui o sofrimento de Deus a um dos traços mais essenciais da natureza divina. Ele não teme escrever, de fato:

“Se Deus é amor, ele deve, necessariamente, ser também dor. Se o amor é uma comunhão perfeita entre o que ama e o que é amado, segue-se daí que toda pena, toda provação do ser amado abate e faz sofrer a alma daquele que ama. Se Deus ama suas criaturas como um pai ama seus filhos, – ele ama-as infinitamente mais do que um pai terrestre os filhos da sua carne –, Deus deve sofrer, e ele sofre certamente, com o sofrimento dos seres que seu poder tirou do nada. E se Deus, por natureza, é infinito em tudo, pode-se crer que sua dor é infinita, como é infinito o seu amor.” [1. Papini, Le Diable, p. 74.]

Não há nada de mais aflitivo do que a ignorância teológica de que essas linhas são prova. É preciso nada saber de Deus, para dele falar em termos tão impróprios, e é incorrer no antropocentrismo em grau insuportável atribuir a Deus as deficiências do amor tal como nós o concebemos e o praticamos. Deus está além de nossas categorias e de nossas concepções. Seu amor infinito tem seu princípio e seu termo nele mesmo, e nele somente. O ato criador que tem como resultado a disposição dos seres finitos, tais como os anjos e os homens, não pode ser senão um ato de amor, pois Deus não pode fazer outra coisa que não atos tais. Mas o amor das criaturas que exige a liberdade delas não pode exercer na essência divina nenhuma influência, não pode causar nessa essência imutável nenhuma alteração. Pensar de outro modo é confundir o finito com o infinito, a criatura com o Criador, os entes com o SER! O Amor tal como é em Deus é Deus mesmo. Nós o personificamos no Paráclito ou Espírito Santo, assim como personificamos a Sabedoria que é Deus em seu Verbo. Mas esse amor substancial e infinito não pode ser senão a bem-aventurança infinita e ele exclui infinitamente todo sofrimento e toda dor. Estamos, pois, com Papini em pleno absurdo teológico, quando ele prossegue:

“Não pensamos o bastante nesse infinito sofrimento de Deus. Não temos compaixão nenhuma desse tormento de Deus. A maioria daqueles mesmos que se reconhecem seus filhos não tem o cuidado de compreender nem de consolar a aflição de Deus, que é desmesurada. Rogamos ao Pai por dons, intervenções, perdões, mas não há ninguém que participe, com a ternura de um afeto filial esclarecido, na eterna angústia de Deus.”

Ele reconhece que os santos meditaram muito sobre a cruz de Cristo, que eles quiseram associar-se aos sofrimentos de Cristo, enquanto homem. Mas ele repreende aos santos o terem-se atido a uma “epifania física” – a palavra é dele – do sofrimento de Deus! A crer nele, “a Cruz não passa do símbolo finito, tangível, de uma Crucifixão que a precede e que a ela se segue”. Falando dessa maneira, Papini não tem dúvidas de que ele vai muito mais longe que os teopasquitas antigos, que foram condenados como hereges. Eles eram antes de tudo monofisitas ou eutiquianos e, a partir do momento em que admitiam que em Jesus Cristo a natureza humana está imersa e perdida na natureza divina, ao ponto de com esta não ser mais senão uma única natureza, eles se criam autorizados a dizer que é a natureza divina que sofreu na cruz. Mas Papini atribui o sofrimento à essência mesma de Deus. Com a heresia dos Teopasquitas, ele renova a dos Patripassianos ou Sabelianos que, em nome da unicidade da substância divina, ensinavam que o Pai havia morrido na cruz assim como o Filho! Com Papini, se está em plena imaginação romântica. Ele não quer somente que acreditemos em Deus, ele quer que tenhamos pena de Deus! É estranhamente, e por uma blasfêmia inopinada, inverter os papéis. Deus, bem-aventurança infinita, por ser amor infinito, não tem o que fazer com nossa compaixão. Ele a quer, da nossa parte, por seu Filho morto em cruz. Ele a quer não vã e estéril, mas acompanhada do arrependimento que nossas faltas exigem, pois são estas faltas, e não somente a fúria de Satanás, nem a traição de Judas, nem o ódio dos fariseus, que são causa de seus sofrimentos. Mas tudo isso se passa no domínio do finito, no domínio do criado. Nada do que é finito e criado pode alterar o que é infinito e incriado. Papini pede-nos, portanto, uma coisa absurda quando nos convida a ter pena de Deus!

Papini e Lúcifer.

Ele não nos pede menor absurdo ao fazer com que nos seja uma espécie de dever rogar por Satanás, implorar seu perdão perante Deus, recordar que Satanás não é somente um grande culpado, mas um grande miserável! Papini, com efeito, admite que Satanás é um grande culpado. Mas ainda assim é preciso, segundo Papini, procurar compreendê-lo. E assim que nos esforçamos nesse sentido, é impossível de não ficar atônito com o fato de que esse grande culpado é também um grande miserável! Ora, só esse pensamento já basta para virar do avesso o problema, para mudar toda a situação. Satanás culpado! É nosso direito e nosso dever incriminá-lo. Mas Satanás miserável, é nosso dever lastimá-lo e rogar a Deus que o perdoe!

Com efeito, segundo Papini, se Deus amava imensamente a Satanás antes da queda deste, – coisa que deve ser considerada evidente, pois ele era sua mais bela criatura, – “não o amará mais ainda agora que ele se tornou, entre os miseráveis, desesperadamente miserável”? Vê-se o sofisma. Deus ama os miseráveis. Lúcifer é o mais miserável, logo Deus o ama mais que todos os outros! Ao que responderá o simples bom senso: Deus ama os desafortunados que não mereceram seu infortúnio, que não quiseram eles próprios sua desgraça, que sabem fazer de seu infortúnio um ato de amor, e de amor supremo, como fez Cristo na sua cruz! Sim! Deus ama infinitamente o seu Cristo na cruz! Mas que Deus possa amar aquele que escolheu o ódio em lugar do amor, a revolta em lugar da obediência, o orgulho em lugar da humildade, é coisa impossível e impensável.

A miséria de Satanás é curável?

Papini nos pede que tenhamos pena de Satanás, em razão do castigo que ele padece. Ele supõe que nós, os filhos da ortodoxia teológica, ensinemos que em face de um Deus inaplacável e irritado, um Deus intratável em sua justiça, há um pobre Lúcifer muito miserável que bem queria ser perdoado, mas a quem Deus recusa o perdão, a menos que nós intercedamos em seu favor. Digamos novamente a palavra: é, como em Léon Bloy, com menos fantasia neognóstica, uma fantasmagoria. Tudo é bem mais simples. E o próprio Papini sabe disso, pois ele assim descreve a miséria de Satanás:

“O castigo de Lúcifer é o mais horrível que um espírito divino e humano pode conceber: ele deixou de amar, ele deixou de ser capaz de amar, ele está submerso e confinado nas trevas sem fim da ausência e do ódio… Não existe na terra nenhum malfeitor a tal ponto maldito que não possa ter, por um instante, um acesso de sentimento, um clarão confuso de esperança. Esses lampejos tão pobres, mas inestimáveis são recusados a Lúcifer.” [1. Op.cit., p. 77. As passagens sublinhadas foram-no por nós.]

Papini, pois, acertou na razão essencial da eternidade do inferno. Por vezes se diz: “Como admitir que um pecado de um instante possa ser punido com um castigo sem fim?” Mas isso é nada compreender da doutrina da Igreja sobre o inferno. O pecado de um instante nunca é punido com um inferno eterno, pois é pecado imediatamente deplorado e apagado pela própria contrição de quem o cometeu, ou antes pela infinita misericórdia de Deus. É o pecado eterno que é causa da condenação eterna. Lúcifer não pode mais fazer outra coisa que não seja odiar, tu dizes? Não somente ele não pode mais, como ele não quer mais senão odiar. Ora, é este ódio que é o seu pecado sem fim e a causa de sua danação sem fim. Mais ainda, é o ódio sem fim que é, ele próprio, danação sem fim. O inferno não é sobreposto, por assim dizer, ao pecado, ele está ligado a este intrinsecamente, e pela força das coisas. É tão impossível para Lúcifer não ser “miserável” como não odiar. E, não mais podendo amar, ele fechou para si, para sempre, o caminho de retorno. Em Léon Bloy, encontramos o mesmo erro. Pergunta-se-nos: Como aquele que é, segundo vós, o Não-Amor, pode voltar a ser o Amor essencial, o Paráclito, que não é outro que não o Espírito Santo? É esta uma inversão das coisas, que somente uma imaginação desequilibrada pode admitir. Com Papini, a monstruosidade é menor. Ele não chega ao ponto de identificar Lúcifer e o Paráclito, blasfêmia abominável, mas ele pretende que o castigo do ódio, em Lúcifer, seja ressentido tanto pelo Amor infinito quanto pelo próprio culpado. Por onde, ele nos intima a ter pena de Deus, tendo pena de Lúcifer. Dentre os demônios que nossos exorcistas interrogaram, há pelo menos um que gritou: “Acima de tudo, não quero que se me lastime!” Não, Satanás não quer saber de nossa piedade. Papini, com seu livro, lhe infligiu o pior dos tormentos: o de ser objeto de compaixão por parte de mortais como nós, tão inferiores a ele! A solução proposta por Papini é, pois, sem o menor fundamento. Ela repousa tão somente numa ideia falsa da natureza angélica. Assim como Papini tem uma ideia radicalmente errônea da natureza divina, pois ele não hesita em dizê-la acessível ao sofrimento, assim também ele se engana de todo sobre a natureza angélica, e por conseguinte a diabólica, pois ele supõe-na, tal como a natureza humana, sujeita à mudança, à variação em seus juízos e escolhas! Para terminar com essa questão da apocatástase ou restauração final dos condenados, que é tão frequentemente agitada em nossos dias, e na qual os teólogos protestantes em sua maioria se pronunciaram pela duração limitada do inferno, citaremos uma página muito justa e recentíssima de Jean Guitton:

“A ideia que inspira e que dá razão à fé cristã na eternidade do castigo, escreve ele, é que o fracasso do malvado deve ser total. Chamo aqui de malvado o homem que escolheu lucidamente e livremente o mal radical, com perseverança e até o último momento. Ora, toda desonra e todo castigo, por maiores que sejam, quando são temporários, se extinguem. Se o homem do mal não se eternizasse no mal que ele escolheu, seria ele o verdadeiro triunfador. Finalmente, ele estaria no direito de dizer a Deus:‘Tu vês que me saí bem. Sou eu o mais corajoso, o mais paciente. A grandiosidade, a poesia da ;dor, sou eu, eu somente, que as apresentei em minha longa Paixão, que não foi a de um só dia. No fundo, tive razão de escolher o mal, que me trouxe tantos instantes de infinitude. Sou eu o mais hábil e sou eu o mais elevado. Minha expiação chegou ao fim. Logo, tive razão quanto à eternidade, que nos iguala a todos diante de Ti!” [1. Na Revue de Paris, dezembro de 1958: Jean Guitton, A vida eterna.]

Tudo o que está dito aqui do “homem do mal” é, com mais forte razão, aplicável a Satanás!

N.B. – As páginas consagradas acima a Léon Bloy suscitaram os mais vivos protestos do Sr. Van der Meer de Walcheren (presentemente Rev. Pe. Dom Pierre Matthias) e do Sr. Bisson, pintor religioso estimado, um e outro convertidos por Léon Bloy. Estimam eles que as passagens incriminadas de Léon Bloy foram mal interpretadas pelo Sr. R. Barbeau, no livro que citamos. É verdade que temos de fonte romana altamente autorizada que as obras de Léon Bloy foram deferidas ao Santo Ofício e que o Cardeal Billot conseguiu que não fossem condenadas, pela seguinte razão: poetice loquitur – ele fala como poeta. Sabe-se que, por essa mesma razão, o livro de Papini sobre O Diabo não foi condenado. Não sejamos mais severos do que o Santo Ofício! [N. doT. – Sem embargo, três coisas parecem ainda dignas de nota suplementar, após este Nota Bene do Autor:

Antes de tudo, é claro que a não condenação, pelo Sto. Ofício, das obras heterodoxas desses dois autores malsãos, por estarem mais para romances imperitos que para exposições doutrinárias e por provirem antes da licença poética que do método teológico as lucubrações aí contidas (terá ocorrido aos consultores aquilo de Horácio: “poetis omnia licet” – “aos poetas tudo é permitido”?), em nada enfraquece – nem poderia – o nono e último dos célebres nove anatematismos contra o origenismo, publicados no Sínodo de Constantinopla do ano 543 e confirmados pelo Papa Vigílio: “Se alguém disser ou sustentar que o castigo dos demônios e dos homens ímpios é temporário e terá fim depois de certo tempo, isto é, que haverá uma restauração dos demônios ou dos homens ímpios, seja anátema.”

A conclusão do A. (“Não sejamos mais severos etc.”) parece demasiado rápida em seu desejo de apaziguar os defensores de Bloy,a ponto de cair em flagrante anacronismo: pois como poderia encerrar a controvérsia sobre as obras do escritor francês uma mera não condenação pelo Santo Ofício em tempos de Billot (1846-1931), quando a chave interpretativa delas teria sido trazida, segundo atesta o próprio Mons. Cristiani, por um livro, o de R. Barbeau, publicado somente décadas depois, em 1957?

O próprio fato de o A. escolher o acréscimo discreto deste Nota Bene, em lugar de revisar ou omitir todo o capítulo sobre Bloy e Papini, só faz reforçar a hipótese de haver aqui mais diplomacia deslocada que esforço convicto em absolver aqueles dois literatos delirantes da gravíssima – e, como se viu, bastante embasada – acusação de defenderem heresias, e das mais blasfemas, como pilares de toda a sua obra péssima.]

Trad. por Felipe Coelho, do Cap. XI (pp. 283-304) do livro de Mons. Léon Cristiani (1879-1971), Prelado do Papa Pio XII, Présence de Satan dans le monde moderne [Presença de Satanás no mundo moderno], Coleção dirigida por Michel de Saint-Pierre, Paris: Éditions France-Empire, 1960, 320p.

2 comentários em “ALGUNS LUCIFERINOS OU ADVOGADOS DE LÚCIFER, 1960 | Mons. LEÓN CRISTIANI

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  1. Grata por compartilhar este post que me esclareceu sobre o satanismo na obra de Léon Bloy.
    Eu estava querendo entender porque o chamavam de satanista e não esava encontrando informações a respeito. Fiquei de queixo caído após ler este artigo.
    Li o livro chamado ” Aquela que Chora” publicado pela Ecclesiae e não conseguia entender porque seu autor era satânico.
    Agora entendi! Livro vai para o lixo junto com o outro chamado ” Nas Trevas”. Que homem perverso!

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