O PANTEÍSMO CRISTÃO, 1841 | Cardeal LOUIS-ÉDOUARD PIE


Mas o que é afinal, dir-me-eis, o que é então este grande ato da Encarnação, no qual São Paulo enxergava toda a potência de Deus exaurida, no qual Davi e Maria enxergavam (perdoai-me esta tradução da palavra deles, não encontro outra mais verdadeira) como que o tour de force da onipotência divina? Que é a Encarnação? Esforcemo-nos, meus irmãos, com a Escritura e a tradição, por defini-la bem, introduzindo-vos assim na realidade mais profunda do poder do Senhor.

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus, e o Verbo era Deus. Depois, no tempo, Deus criou o universo e o homem, ou seja, Ele deu o ser ao que não era. E o homem, mal saíra do nada, recaiu abaixo do nada até, pelo pecado. Ora, estando o homem assim caído e degradado, Deus quer reerguê-lo e reabilitá-lo; e, para tanto, o Verbo, que está eternamente no seio do Pai, descerá ao seio de uma mulher; o Verbo, que é consubstancial a Deus, desposará a natureza humana e assumi-la-á na unidade de Sua Pessoa divina. Aquele que era Deus será, ao mesmo tempo, homem, et habitu inventus ut homo; excetuando o pecado, Ele terá toda a realidade humana. Deus e o homem, sem se confundir, serão n’Ele, contudo, tão intimamente e hipostaticamente unidos, que o que se diz de Deus se poderá dizer do homem, e o que se diz do homem se poderá dizer de Deus.

Eis aí, meus irmãos, o que é a Encarnação, eis o que é o mistério de Cristo. Cristo é Aquele que, tocando com uma das mãos as profundezas infinitas da glória, com a outra vai mergulhar nas profundezas infinitas do nada, e mais baixo ainda, in inferno inferiori, nas profundezas infinitas do pecado, a fine ad finem, e congraçando esses dois abismos, entre os quais Ele está posto, Ele eleva o nada até o nível do Ser Supremo, e inclina o Céu até o nível da terra: Consocians ima summis, caelestia terrenis. Cristo é Aquele que, sendo Deus, Se fez homem, para fazer do homem Deus: Deus factus est homo, ut hominem Deum faceret.

Ora, meus irmãos, compreendeis agora o que eu disse, no seguimento de Davi, de Maria, do grande Apóstolo, a saber: que a Encarnação é o esforço supremo da onipotência divina, que ela é o maior de todos os mistérios que Deus operou? Mas observai ainda até onde se prolonga este imenso mistério. Pela Encarnação, a humanidade foi unida hipostaticamente à divindade; em Jesus Cristo, Deus Se fez homem. Mas admirai também outros três efeitos infinitos: pela Encarnação, uma mulher foi mãe de Deus; pela Encarnação, todo homem se tornou irmão de um Deus; pela Encarnação, a criação inteira foi divinizada. Uma palavra de explicação sobre estes dois últimos efeitos.

Pela Encarnação, o homem tornou-se irmão de um Deus: primeiro, porque tem com Ele uma mesma natureza; depois, porque o cristão se une a Cristo pela graça, pelos sacramentos, pela Eucaristia principalmente, Eucaristia que continua e prolonga a Encarnação até nós: Eucaristia que, incorporando-nos a carne e o sangue de um Deus ao fazê-lo passar de certo modo para dentro de nossas veias, leva até o fundo mais íntimo de nosso ser a presença e graça desse Deus, de sorte que nós somos mesmo deuses; isto é, nós participamos verdadeiramente da natureza divina, divinae consortes naturae, e até nossa personalidade parece ficar absorvida na personalidade divina de Jesus Cristo: Vivo, jam non ego, vivit vero in me Christus. Portanto, filhos de Maria, bendizei a Jesus, o Deus Encarnado, que fez de vós deuses: Benedicite filii hominum Domino. Mas não é unicamente Maria, é a criação inteira que foi divinizada pela Encarnação. Pois, meus irmãos, esta terra não é mais uma terra comum, depois que ela susteve um Deus, que foi santificada pelos passos de um Deus. Esta luz não é mais uma luz comum, depois que ela tocou a pálpebra de um Deus. Os alimentos não são mais alimentos comuns, depois que foram alimentação de um Deus. Mas vou ainda mais longe.

O Verbo Encarnado, Jesus Cristo, ao instituir Sua religião, fez Seus dons sobrenaturais assumirem a mesma forma que Ele próprio assumira. A Encarnação de Sua Pessoa divina foi seguida da encarnação de Sua graça divina, que Ele, pelos sacramentos, uniu a sinais sensíveis e materiais… Então, rios e fontes, bendizei a Jesus, o Deus Encarnado, pois a vossa água, utilizada pela mão do sacerdote de Jesus, verte a graça divina e sobrenatural da regeneração: Benedicite, fontes et flumina, Domino! Árvores do pomar, da floresta e do deserto, vibrai à vista de Jesus, o Deus Encarnado, pois o sumo da azeitona e o perfume do balsameiro, sob o dedo do pontífice de Jesus, produzirão a graça divina da força cristã e da virtude sacerdotal: Exultabunt omnia ligna sylvarum a facie Domini, quoniam venit.

Mas meu espírito se enleva, meus sentidos se toldam; não sei em que devaneio sublime eu me sinto submerso, à visão desse prado de espigas amarelecidas e cachos de uvas já ruborizadas. Sim, esse fruto do trigo, esse sangue da vinha, como fala a Escritura, por um dos mistérios que são consequência da Encarnação, amanhã mesmo me prosternarei em adoração diante deles, que estarão mudados, transubstanciados no corpo e sangue do meu Deus. Terra pois, que os nutristes com vosso suco, sol que os amadurecestes com vossos raios, e vós todas, plantas que germinais sobre o solo, bendizei a Jesus, o Deus Encarnado, que honrou o fruto da matéria vegetal a ponto de transformá-lo na Sua própria substância: Benedicite, sol et luna, Domino. Benedicite universa germinantia in terra Domino. Laetentur caeli et exultet terra ; gaudebunt campi et omnia quae in eis sunt… a facie Domini quoniam venit. Assim, meus irmãos, por diversas vias (que não esgotei, que não vos mostrei todas), a Encarnação se prolonga a todos os homens, a toda a natureza. É assim que no Cristianismo, a religião do Deus Encarnado, não há outro Deus além de Deus, mas tudo nela é divino. E aí está aquele Panteísmo cristão de que já vos falei e que resulta da Encarnação; tão sublime, tão verdadeiro, tão profundo quanto o outro é repulsivo, absurdo e quimérico.

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SOBRE O AUTOR

« O Papa São Pio X nunca escondeu sua admiração pelo Cardeal Pie, que foi provavelmente o maior Bispo francês do século XIX. A influência póstuma que ele viria a exercer em Pio X traz ainda maior crédito ao seu ensinamento. Em 1.º de março de 1912, o Papa concedeu à Catedral de Poitiers o título honorífico de Basílica menor, tributo este que revelou o que ele trazia no coração, como observa o Cônego Estêvão Catta em seu livro A Doutrina Social e Política do Cardeal Pie [Paris: Nouvelles Éditions Latines, 1959, p. 362]. Ao Cardeal Pie, o Papa São Pio X prestou homenagem naquele dia, ao referir-se a Santo Hilário, Doutor da Igreja,

“o intrépido campeão da divindade de Cristo contra os arianos, e ao seu lado é suave recordar Louis-Édouard Pie, Cardeal da Santa Igreja Romana, que como um segundo Hilário – alter Hilarius – vingou a integridade da Fé contra os arianos modernos por meio de sua vitoriosa eloquência.”
[Actes de S.S. Pie X (Bonne Presse), VII, 188.]

O Cônego Vigué relata, na introdução de seus Escritos Seletos do Cardeal Pie, que um dia um sacerdote da diocese de Poitiers teve a honra de ser recebido no escritório do Papa Pio X.

“‘Ah, a diocese do Cardeal Pie!’, disse o Santo Padre, erguendo os braços tão logo ouviu o nome de Poitiers. ‘Tenho as obras de vosso cardeal bem aqui, e durante anos mal se passou um dia sem que eu tivesse lido algumas páginas’. Enquanto ele falava, tirou um dos volumes e colocou-o nas mãos de seus visitantes. Puderam notar, pela encadernação gasta, que devem ter pertencido ao pároco de Salzano ou ao diretor espiritual do seminário de Treviso muito tempo antes de ele vir para o Vaticano. ‘Sempre que consigo tirar alguns momentos livres’, admitiu Pio X noutra ocasião, ‘eu leio algo de vosso grande cardeal, o Cardeal Pie. Ele é meu mentor.’”
[Pages choisies du cardinal Pie (Paris-Poitiers: Oudin, 1916) 2 vol., Introdução, p. XI; vide também René Bazin, St. Pie X, edição de 1928, pp. 57-58.]

São Pio X estava imbuído dos escritos do Bispo de Poitiers e muitas vezes, em seus atos pontifícios, o Papa viria a citá-lo sem mencionar seu nome. »
(Abbé Nicolas PINAUD, Saint Pie X et le cardinal Pie, in: rev. Sel de la Terre, n.º 42, outono de 2002, pp. 206-21; trad. ing.: Pius X and Cardinal Pie, rev. The Angelus, maio de 2004).

« O Cardeal Pie foi uma grande personalidade. Agora mais do que nunca, nesta batalha travada entre a Igreja e a Revolução, ele permanece o homem que domina a situação. Ele é uma luz, um porta-estandarte, um líder digno de um posto de honra entre aqueles pais de nossa geração que devíamos louvar, cujos conselhos devíamos seguir, cujo exemplo devíamos imitar e em cujos ensinamentos devíamos meditar. Se a ambição de nosso coração é servir à sagrada causa de Deus e Sua Santa Igreja nos tempos conturbados em que estamos vivendo, podemos tirar proveito de nos colocarmos na escola desse mestre. »
(Cardeal Louis BILLOT, Elogio do Cardeal Pie proferido no centésimo aniversário de seu nascimento, 26 de setembro de 1915; publicado nos n.ºs 40 e 41 do Bulletin Catholique da diocese de Montauban, de 2 e 9 de outubro de 1915, pp. 339, 342; apud PINAUD, op. cit.).

Tradução por Felipe Coelho.

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