COMENTÁRIO AO LIVRO ”MINHA LUTA”, DE ADOLF HITLER, 2008 | por BENJAMIN WIKER

Capítulo extraído do livro 10 Livros que Estragaram o Mundo - E Outros Cinco Que Não Ajudaram em Nada [10 Books That Screwed Up the World (And 5 Others That Didn't Help)], Vide Editorial, 2015, pp. 141-159. Apenas ressalvo que o autor não é católico tradicional e não é o objeto da postagem defender que as estatísticas do Holocausto são as mencionadas aqui sejam reais ou não (é irrelevante aqui se foram seis milhões de judeus mortos ou meia dúzia) e nem tampouco negar que há uma elite judaica conspirando contra a Igreja e qualquer vestígio de catolicidade, mas antes enfatizar a radical oposição entre o pensamento de Hitler e o pensamento católico.

“Neste nosso planeta, a cultura e a civilização humanas estão vinculadas indissociavelmente pela presença do Ariano. Se ele for exterminado ou subjugado, aí então o manto negro de uma nova era de barbárie cobrirá a Terra […]” – Adolf Hitler (1889-1945)

Muita gente já leu muitos livros sobre Adolf Hitler, mas pouquíssimas pessoas leram o livro do próprio Hitler, Minha luta, escrito antes que tomasse o poder, enquanto estava encarcerado por ter instigado a revolução. O perigo de se ler sobre Hitler, apenas, é que se pode facilmente criar uma imagem distorcida dele, como se ele fosse um louco maligno e não um gênio maligno. Um louco é movido pela fixação numa determinada idéia; um gênio é movido por uma visão grandiosa, toda uma visão viciada de mundo. Essa distinção é essencial para que se compreenda o ápice do mal causado por Hitler: sua aparente fixação pelo extermínio dos judeus. Podemos facilmente pensar que a ambição genocida de Hirler baseava-se inteiramente em seu virulento anti-semitismo. Mas o Minha luta revela que isso era apenas o efeito maléfico de um mal muito mais profundo, denso e perverso, uma Weltanschauung [visão de mundo] que já deve ter se tornado familiar para os leitores deste livro. O espírito maligno de Hitler era, em termos muito significativos, um espectro da tendência mais sombria de seu tempo, seu Zeitgeist, da alma penada que pairava sobre o caos da República de Weimar alemã.

“É um negócio extremamente barbárico – nem se deseja entrar muito em detalhes e não deve haver muitos judeus sobrando, eu imagino. Pode-se dizer que 60% deles foram liquidados e cerca de 40% está sob trabalhos forçados […]. Não se pode ser muito sentimental quanto a essas coisas […]. O Führer [líder, em alemão, mas usado para se eeferir ao Hitler] é o espírito movente por trás dessa solução radical, tanto em palavras quanto em atos”. Assim escreveu Dr. Paul Joseph Goebbels em seu diário, no registro que data de 27 de março de 1942. Goebbels foi o Ministro da Propaganda do Reich [Reino ou Império, em alemão] Nazista, um homem formado Doutor em Literatura pela Universidade de Heidelberg e cujo desenvolvimento intelectual foi bastante influenciado por Friedrich Nietzsche. “Eu espero que vocês façam atos sobre-humanos de desumanidade”, disse Heinrich Himmler, comandante da temível Schutzstaffel (a S.S. de Hitler), [*] aos seus esquadrões de força-tarefa [em alemão, Einsatzgruppen] encarregados de remover os judeus da Polônia. Mas é a vontade do Führer1.

A desumanidade não era algo fácil de se alcançar. Himmler logo descobriu que os membros da S.S. estavam sofrendo colapsos nervosos, imersos na bebida. Atencioso que era, ele decidiu testemunhar por si mesmo uma dessas atrocidades que faziam, e ordenou que um esquadrão específico atirasse em cem prisioneiros. Aterrado, enquanto assistia a duas mulheres se contorcerem no chão após serem apenas feridas pela primeira saraivada de balas, ele ordenou: “Não torturem essas mulheres!”, “acabem com isso, atirem logo!”. Mais tarde, ele reuniu aqueles homens para uma conversa motivacional, assegurando a eles que, como eram alemães dignos, não deveriam gostar dessa tarefa, mas, como soldados, deviam fazer suas obrigações, sabendo porém que ele e o próprio Hitler é que portariam toda a responsabilidade, em última instância. Suas consciências podiam descansar em paz2.  E também os corpos, amontoados em pilhas cada vez mais altas.

O regime nazista não só matou seis milhões de judeus, mas também milhões de outros “indesejáveis”: inimigos do Reich, de eslavos, ciganos e prisioneiros de guerra a mutilados, retardados e até os levemente “inaptos”. O programa Aktion T4, o plano-de-ação eugênico dos nazistas, resultou na execução (ordenada pelo Estado) de cerca de 200 mil pessoas inválidas, retardadas, delinqüentes juvenis, crianças de raça mista e até mesmo algumas contaminadas com acne, uma praga de adolescentes muitíssimo séria.

Dada a escala épica de sua desumanidade, devemos nos lembrar de que o regime nazista não se propunha a fazer o mal. Clamava ser científico, progressista, obediente à dura racionalização, que atuava para beneficiar a raça humana. Os atos sobre-humanos de desumanidade eram feitos pelo bem da humanidade. Não deveríamos nos preocupar quanto ao estado geral de saúde da nossa raça? Por que não deveria ser esse o bem maior? Por que não deveríamos exterminar brutalmente os inaptos, que são fardos para si mesmos e para os outros? Não é algo bom, buscar o avanço da medicina, os caminhos para salvar a humanidade do sofrimento?

Dura racionalidade, sim, mas sem um pingo de compaixão. E inevitável que se recorde do livro de Darwin, A descendência do homem. “O Nacional-Socialismo não é senão biologia aplicada”, disse o deputado Rudolf Hess, líder do Partido Nazista3. Repetindo o antagonismo maquiavélico e nietzschiano à religião, essa tal biologia aplicada colidia em cheio com a caridade: a aplicação brutal dos princípios biológicos darwinianos – a eliminação dos mais fracos e o aprimoramento dos mais fortes por todos os meios possíveis – demandava a rejeição explícita do cristianismo. Os nazistas eram bastante pró-saúde, e Himmler até coroou o médico grego Hipócrates como o paradigma da medicina nazista. Mas, como lembra o psiquiatra Robert Lifton:

Havia uma área na qual os nazistas insistiam por um rompimento explícito com a tradição médica (inaugurada por Hipócrates). Eles armaram um ataque consistente contra aquilo que viam como exagerada compaixão cristã pelos indivíduos fracos que se contrapunha à preocupação da saúde do grupo como um todo, do Volk [povo, em alemão]. Nesse posicionamento em parte nietzschiano […] incluía-se a rejeição do princípio cristão da caritas, ou caridade, e do mandamento da Igreja de “cuidar do doente terminal e dá-lo tratamento médico até a morte”4.

As últimas palavras, entre aspas, são do Dr. Rudolf Ramm, da faculdade de medicina da Universidade de Berlin. Dr. Ramm ajudou a conduzir os médicos alemães para longe da caridade com os inaptos, exortando-os a não pensarem sobre si mesmos como, antes de tudo, ajudantes dos doentes, e certamente também não como instrumentos da caridade. Todo médico alemão, dizia ele, deveria ser um “médico para o Volk”, um “soldado biológico”5. Ser um médico para o povo significava (nas palavras do Dr. Gerhard Wagner, chefe dos médicos do Reich) contribuir para a “promoção e o aperfeiçoamento da saúde do povo alemão […] para garantir que o povo tenha plena consciência de todo o potencial de sua raça e de sua herança genética”. E claro que, conforme tinha esclarecido Dr. Ramm, isso significava prevenir toda e qualquer “bastardização” da raça “através da propagação de elementos indignos e estranhos à raça […] e da manutenção e aumento daqueles com hereditariedade sadia”, pelo bem de “manter-se o sangue puro”6. Esse era o quadro maior do nazismo, o “ideal” para o qual cabia todo o extermínio dos judeus.

Voltemo-nos agora ao grande artista que pintou cores tão lúgubres. A primeira paixão de Hitler foi a pintura (sua primeira ambição era tornar-se um artista), mas ele logo viu que deveria imprimir na tela da história uma marca bem maior. Devemos, portanto, olhar primeiro para essa tela histórica precedente, do modo como ele a via em Minha luta. A julgar por seus efeitos falaciosos, trata-se de um dos livros mais malignos da história. Até o maior dos progressistas desejaria que esse livro jamais tivesse sido publicado e, caso publicado, que toda palavra impressa nele fosse queimada. Os alemães de hoje em dia ainda sentem acuradamente a dor de sua contínua existência, depois que acordaram de uma longa noite de barbárie e viram o próprio rosto refletido no espelho do demônio. Ao ler a tradução inglesa disponível, eu acabei tendo de consultar o original alemão e, quando fui checar o preço no site da distribuidora Amazon, dei de cara com um aviso medonho: “Este livro não pode ser enviado à Alemanha”.

Para se ter uma idéia completa do horror que é este livro de Hitler, devemos resistir à tentação de reduzir a medida real de seus crimes a apenas um de seus aspectos repugnantes – a destruição dos judeus. Eu temo que seja muito comum, infelizmente, que aqueles que de fato tentam ler o Minha luta pulem direto para as seções que contêm as passagens mais soturnas a respeito da superioridade racial dos arianos e a inferioridade racial dos judeus (expressamente, o capítulo XI do volume I). Tal impaciência para se chegar ao centro do coração corrupto de Hitler é compreensível, considerando-se a lugubridade das atrocidades cometidas pelos nazistas contra os judeus. Nós deveríamos lê-lo, no entanto, da capa à contracapa (ou, no mínimo, o volume 1). Aí então ele revelará aquilo que verdadeiramente é: um livro gigantescamente perverso que, tal como O Príncipe, é repleto de conselhos extremamente práticos e perspicazes para governantes cuja intenção suprema define-se pela glória terrena, e que estão dispostos a fazer da eficácia – indiferente de quão brutal ela tenha de ser – o seu princípio primeiro.

Por mais que Maquiavel tenha tido em mente a glória da Itália, evidentemente – e especialmente a de Florença –, seus conselhos oferecem-se a todos que desejarem prestar-lhe ouvidos. O aconselhamento de Hitler, em contrapartida, dirige-se unicamente à glorificação terrena da Alemanha. Mas isso não é tanto um desvio em relação ao filósofo político florentino quanto, ao contrário, uma solidificação do esquema maquiavélico.

Há, no entanto, uma diferença curiosa. Enquanto que Maquiavel era o príncipe da praticidade, distanciando-se de todo “idealismo” e tomando o rumo da realpolitik mundana, há algo de platônico em Hitler (subvertido o quanto for). Ele via-se como um visionário que contemplava um mundo ideal povoado por uma humanidade ideal, uma visão utópica que, mesmo irrealizável na prática, serviria como ideal para as ações políticas mais brutais.

Demoremo-nos com mais cuidado sobre este ponto, geralmente tão negligenciado. Hitler faz uma distinção importante – outra coisa que, de novo, reporta a Platão – entre o “filósofo político” (ou, em tradução mais literal, o “programador” [Programmatiker]) e o “líder político” na prática (Politiker)7. Segundo Hitler, a “tarefa” do filósofo político, enquanto “estrela-guia para todos aqueles que perseguem a luz”, é “formular os princípios de um programa politico”. Seu objetivo é “a afirmação da verdade absoluta”, ao invés de uma análise a respeito de se o que ele descreve é “conveniente e realizável”. Ele busca “somente o objetivo”, e aí “[c]abe ao líder político apontar qual é o caminho através do qual aquele objetivo pode ser alcançado”8.

A grandeza do primeiro [do filósofo político, ou do programador] dependerá da veracidade absoluta do seu ideal, considerado abstratamente; enquanto que a do outro [do líder político] dependerá de se ele julga corretamente ou não as realidades dadas e o modo como elas devem ser utilizadas de acordo com o guiamento das verdades estabelecidas pelo primeiro. O teste da grandeza aplicado ao líder político é o sucesso dos seus planos e de seus empreendimentos, que indicam a habilidade que ele tem de alcançar os objetivos para os quais ele se lança; enquanto que os objetivos aos quais o filósofo político se lança jamais poderão ser alcançados; porque o pensamento humano pode alcançar verdades e visualizar finalidades que ele vê como cristal puro, apesar do fato de que tais finalidades podem jamais ser concretizadas completamente uma vez que a natureza humana é fraca e imperfeita. Quanto mais uma idéia é correta enquanto abstração e, portanto, quanto mais ela é potente, menor é a possibilidade de se colocá-la em prática, ao menos enquanto isso depender dos seres humanos. A importância de um filósofo politico não depende do sucesso prático dos planos que ele formula, mas de sua veracidade absoluta e da influência que exercem para o progresso da humanidade. Se fosse diferente, os fundadores das religiões não poderiam ser considerados como os maiores homens que já viveram, porque suas intenções morais jamais serão completa ou satisfatoriamente colocadas em prática. Até aquela religião que é chamada de A Religião do Amor não é senão um reflexo fantasmagórico da vontade de seu Fundador sublime. Mas sua importância recai na orientação que se esforçou a dar à civilização humana, às suas virtudes e à sua moral9.

Hitler continua e faz outro apontamento completamente platônico, de que “as diferenças enormes entre as funções de um filósofo político e as de um líder político são o motivo pelo qual a qualificação necessária para ambas as funções raramente é encontrada numa mesma pessoa”10. A divergência de funções dá-se em parte pelas diferentes demandas de cada uma: para o filósofo político, há a demanda meditativa da vida intelectual e a sua necessidade pela abstração das várias particularidades para que se alcance o que é universal e eterno; para o líder político, há a demanda prática, agitada da vida ativa política, que deve necessariamente se focar quase que exclusivamente nas particularidades da vida diária. Mais ainda (conforme Platão deixa claro em A República), as diferenças entre o filósofo político e o político prático têm sua origem na natureza humana mesma. O filósofo olha para o que é “ideal”, para o que a natureza humana seria se sua fraqueza fosse removida e se fosse aperfeiçoada; o político prático deve sempre trabalhar de acordo com o que é prático, usando a “natureza humana”, que é “fraca e imperfeita”, como sua matéria.

Hitler pontua, porém, que “entre longos vácuos no progresso da humanidade pode ocasionalmente acontecer que o político prático e o filósofo político sejam uma pessoa só”. Quando isso ocorre – algo que Platão vislumbrava como a união altamente improvável do filósofo com o rei –, surge então “o filósofo político construtivo”, que adentra o ranking dos raros “estadistas genuinamente grandes”11. “Quanto mais intima for essa união” entre o político prático e o filósofo político, “maior serão os obstáculos que sua atividade de político terá de enfrentar”. Quanto “maior for o trabalho” desse homem raro, “menos ele será apreciado pelos seus contemporâneos. Sua luta [kampf] será proporcionalmente mais severa, e seu sucesso, do mais raro tipo”12.

Essa é a luta que está no título do livro de Hitler. Ele achou que era ele mesmo essa raridade, a união do rei e do filósofo, político prático e filósofo político, programador e político de uma só vez. Vendo por esse lado, Hitler quase parece nobre, mas só até darmo-nos conta de que a filosofia que ele sustentava era um amálgama de maquiavelismo e darwinismo, misturados com Schopenhauer e Nietzsche (ao que ainda se juntavam as teorias racistas do diplomata francês Joseph Arthur, conde de Gobineau). Podemos dizer que quaisquer hesitações para agir que podem ser observadas em Darwin, Schopenhauer ou até mesmo Nietzsche, Hitler joga de lado com o auxílio da brutalidade de Maquiavel.

Pode-se ainda dizer que, independentemente da profundidade maligna de seus ascendentes intelectuais, o talento filosófico de Hitler era bem modesto e deixava à mostra a marca inconfundível de um propagandista filosófico dos mais obtusos. Se formos caracterizá-lo como gênio maligno, temos de dizer que sua genialidade foi vastamente emprestada, enquanto que a maldade, sim, era tipicamente sua. Como vemos naqueles dos quais ele emprestou a genialidade, a filosofia de Hitler era uma culminação prática do ateísmo moderno investido de um fervor quase-religioso. Isto é o que, a meu ver, dá conta de explicar a postura ambígua de Hitler perante a religião: trio, anticlerical e mordaz, ao mesmo tempo que era de uma mornidão fanática e convidativa. Às vezes ele pronunciava-se contra o cristianismo, às vezes como um amigo (de modo bem parecido com o de Maquiavel, já que ambos viam a religião como uma ferramenta do político prático, a ser descartada e repudiada quando fosse inconveniente e abraçada quando fosse útil). Para que compreendamos sua postura derradeira perante a religião, ao invés de ficarmos empilhando citações pró ou contra para depois ver qual pilha é a mais alta, podemos examinar os argumentos que Hitler dá em Minha luta e fixar nosso julgamento de acordo com o que descobrirmos (eu ainda sugiro a leitura da análise astuta do historiador britânico Michael Burleigh a respeito de todas as ambigüidades de Hitler quanto à religião, que ele expõe em seu livro Causas sagradas [tradução livre de Sacred causes]13).

Como já foi dito, a intenção original de Hitler não era a de envolver-se diretamente com a política, mas sim de ser pintor e, mais tarde, arquiteto. Mas desde cedo, segundo relatos dele próprio, ele foi incendiado pelo nacionalismo. Na escola, além de Artes, sua “matéria favorita” era História. Instigado por seu professor, Leopold Poetsch, ele encheu-se de um “fervor nacionalista” e “aos poucos me tornei um jovem rebelde”14. Hitler passou a ser um jovem defensor do Império Germânico de Otto von Bismarck e eventualmente chegou até a lutar – e a se ferir – pelo Segundo Reich, durante a Primeira Guerra Mundial.

Depois da morte de seus pais, Hitler se mudou de sua casa de infância em Brunau am Inn, na Áustria, para Viena, para estudar arquitetura. Viena era a cidade do progresso, cosmopolita, a cidade de Sigmund Freud e de uma vasta população de judeus. Em Viena, vivendo na pobreza entre as classes mais baixas, Hitler teve seus “olhos […] abertos para dois perigos […] o marxismo e o judaísmo”15. Voltaremos a esses “dois perigos” em breve. Antes, nós temos de entender que essa sua experiência em primeira mão da pobreza acendeu nele uma grande compaixão pelos pobres, conforme ele deixa claro em seu relato sobre seus anos em Viena:

Os trabalhadores braçais de Viena viviam cercados por uma miséria espantosa. Ainda hoje eu estremeço quando me lembro dos barracos lastimáveis nos quais aquela gente morava, dos abrigos noturnos e das favelas, de todo o espetáculo tenebroso de perversidade, imundície repugnante e esterco.

O que acontecerá se, num dia, hordas de escravos [trabalhadores braçais] avançarem para fora desses becos da miséria para arrebatar os outros homens desavisados? Porque esse outro mundo [o da burguesia] não considera tal possibilidade. Eles permitiram que essas coisas acontecessem sem se importarem, nem ao menos suspeitarem do alto de sua incapacidade para o conhecimento instintivo – que, mais cedo ou mais tarde, o destino terá sua vingança, se não for acalmado a tempo16.

A experiência de Hitler com os efeitos nocivos do capitalismo o levou a focar suas energias no socialismo. Ele tornou-se membro do Partido dos Trabalhadores Alemães, tão logo renomeado para Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães – ou, para resumir, Partido Nazista.

Mas mesmo antes de se filiar ao Partido, Hitler acreditava que o problema social que ele tinha testemunhado em Viena precisava de uma solução radical, até brutal, para que se alcançasse algum efeito verdadeiro de mudança. Como ele mesmo diz, numa concisão estonteante, “adotar a atitude sentimentalista seria a pior decisão”:

Já naqueles dias eu via claramente que havia um método duplo exclusivamente pelo qual se poderia trazer à tona alguma melhoria para aquela situação. O método era: primeiro, criar melhores condições de base para o desenvolvimento social através do estabelecimento de um sentimento profundo de responsabilidade social entre o povo; e segundo, combinar esse sentimento de responsabilidade social com uma determinação violenta de se podar toda e qualquer excreção que fosse incapaz de ser aperfeiçoada.

Assim como a natureza concentra a maior parte da sua atenção não na manutenção daquilo que já existe, mas na criação seletiva das descendências, a fim de dar continuidade à espécie, assim também é com a vida humana, que é menos uma questão de melhorar artificialmente a geração que já existe – o que, devido às características intrínsecas a todo homem, é impossível em 99% dos casos – e mais uma questão de assegurar, desde o princípio, uma estrada melhor para o desenvolvimento futuro.

Durante a minha luta pela sobrevivência em Viena, eu percebi muito claramente que o fim de toda atividade social nunca deve ser a mera caridade sentimental, que é ridícula e inútil, mas deve sim ser o de encontrar os meios de se eliminar as deficiências fundamentais que necessariamente trazem à tona a degradação dos indivíduos, ou ao menos os guiam no caminho para essa degradação17.

Belos e humanitários objetivos; meios brutais de se atingi-los; rumando contra a humanidade para ajudar a humanidade. Hitler garante ao leitor que tais meios são necessários, porque enquanto as classes mais altas têm um “senso de culpa” por terem “permitido essa tragédia da degradação”, essa culpa lhes paralisa “todo esforço de se fazer uma decisão firme e séria de agir” e cria pessoas que são “tímidas e hesitantes”. Pelo bem de curar todos os problemas que afligem a sociedade, não pode haver soluções hesitantes. A culpa deve ser colocada de lado: “Quando o indivíduo não é mais esmagado por sua própria consciência culposa, aí – e somente então – ele terá a tranquilidade interior e a força exterior de talhar, drástica e cruelmente, todos os parasitas que se desenvolvem nele e de expurgar todas as ervas daninhas”18.

A culpa referente à degradação das classes mais baixas deve ser colocada em outro lugar. Agora sim, nós podemos voltar aos perigos-irmãos do judaísmo e do marxismo. Hitler castigava os industrialistas, a burguesia, por terem criado a pobreza massacrante das classes baixas e, depois, ignorado o assunto. Ele acreditava que, por serem os judeus o verdadeiro poder por trás do comércio, eles é que deviam, em última instância, ser culpados por oprimir os pobres. A burguesia, ao ignorar essas condições lamentáveis, estava despertando nos oprimidos a predisposição de se unirem aos marxistas, que estavam por toda a parte fomentando rebeliões movidas pelo descontentamento. É claro que o marxismo, Hitler garante ao leitor, era na verdade uma intriga dos judeus, carregada adiante pelos auspiciosos membros do Partido Social-Democrata Alemão. A situação como um todo, portanto, era uma conspiração duplamente conduzida pelos judeus19, cujo objetivo era a criação das condições nas quais eles quebrariam o poder nacional dos Estados e tomariam o mundo, substituindo o verdadeiro Volk por um Estado judaico.

Para compreender o antagonismo de Hitler em relação aos judeus, devemos também conhecer melhor o seu romantismo de raça (que é, acredito que se pode dizer, a fonte verdadeira do seu fervor religioso). Como ele mesmo deixou claro, “o fim mais alto da existência humana não é a manutenção do Estado ou do governo, mas a conservação da raça20. O maior problema do capitalismo judaico e do marxismo judaico, ele via, era o antagonismo unificado e conspiratório dos judeus frente a qualquer nacionalismo. Hitler considerava uma nação como uma entidade racial, uma sociedade constituída biologicamente. Por ser cada vez mais internacionalizante, o capitalismo trabalha contra o bem maior de uma nação, e ao criar também uma vasta classe descontente e opressora, ele faz com que cidadãos unidos pela mesma raça voltem-se um contra o outro21. O marxismo busca a destruição de todo Estado, e portanto ataca as nações como se fossem meras estruturas burguesas opressoras que deviam ser destruídas22. O capitalismo judaico e o marxismo judaico estavam, portanto, minando a grandeza racial da Alemanha pelos dois lados.

Tal grandeza racial deveria ter-se expressado em 1871, quando Otto von Bismarck formou o Segundo Reich, unindo pela primeira vez um amontoado de Estados separados debaixo de uma mesma nação alemã. Mas Hitler acreditava que a grandeza da Alemanha unificada foi apenas parcialmente expressada no Segundo Reich, porque as forças da “degradação interna já haviam se estabelecido […] quando o império unido se formou e a nação alemã começou a progredir externamente de modo acelerado”23. A degradação era resultado da presença dos judeus, dos de raça mista e do surgimento do capitalismo judaico e seu concomitante marxismo judaico. Uma das questões que assombrava Hitler – por que o Segundo Reich havia perdido a Primeira Guerra Mundial – ganhava finalmente uma resposta. A Alemanha não tinha perdido a guerra dentro do campo de batalha, mas “a causa mais profunda e decisiva [de sua derrota] deve ser atribuída à falta de consciência a respeito do problema racial e especialmente à falha de não se reconhecer o perigo judaico”24.

Os judeus podiam ser culpados por praticamente todos os males: desde a humilhante derrota do Segundo Reich na Primeira Guerra Mundial e as revoltas bolcheviques do pós-guerra à decadência da República de Weimar, e inclusive pela crise econômica da Grande Depressão. A única coisa a se fazer então era criar outro Reich, outro glorioso Império, um no qual o problema judaico, assim como todos os outros problemas sociais, seria resolvido.

Para assumir tal gigantesca tarefa, Hitler expõe seus primeiros princípios políticos em Minha luta. Ele rejeita a noção advinda da teoria do contrato liberal (encontrada em Thomas Hobbes e especialmente em John Locke), a idéia de que o Estado surge “de um pacto feito entre as partes contratantes, dentro de um território delimitado, no sentido de servir suas necessidades econômicas”25. O Estado é primordialmente uma unidade racial, argumentava Hitler, e não uma união econômica; é embasado na biologia, não na utilidade comercial. “O Estado é uma comunidade de seres viventes que têm naturezas física e espiritual aparentadas, organizada pelo propósito de garantir a conservação de sua espécie e de ajudar para que sejam alcançados os fins que a Providência designou para aquela raça em particular, ou ramo de raças unidas. É nisto e somente nisto que pode subjazer o propósito e o significado do Estado”26.

A rejeição que Hitler faz do Estado definido economicamente não era um mero resultado de seu romantismo de raça. Era um retorno, ele dizia, às bases verdadeiras do Estado, uma vez que “os Estados sempre surgiram do instinto de se preservar uma raça”27. Quando o comércio torna-se a principal preocupação de um Estado, isso cria cidadãos fracos para os quais os maiores bens são a prosperidade material e o prazer. Cidadãos assim são péssimos soldados: um homem “pode morrer por um ideal, mas não por um negócio”28. Porque “tão logo um homem é chamado a lutar puramente por causas materiais, ele irá evitar a morte de todas as formas que puder; já que a morte e o gozo dos frutos materiais de uma vitória são conceitos ligeiramente incompatíveis […]. E apenas a vontade de salvar a raça ou o Estado, que é o que oferece proteção à raça, vem sendo, por todas as épocas, o impulso que forçou o homem a encarar as armas de seus inimigos”29. O homem hobbesiano, utilitarista, o homem do liberalismo moderno que toma o prazer como o bem supremo e a dor como o maior mal possível, vive apenas pelo seu próprio prazer e por sua preservação. Mas o Reich precisa de homens dispostos a morrer em batalha. Sem tal coragem heróica, o novo Império Germânico não poderia ser construído.

A fim de excitar o povo alemão, Hitler percebeu que ele teria de colocá-lo diante de uma nova Weltanschauung, um novo ideal político-religioso, “uma ordem espiritual das coisas totalmente nova” capaz de derrotar a cosmovisão corrente comercial-cosmopolita do liberalismo, que minava a força da Alemanha30. Eram precisamente a “falta de uma Weltanschauung definida e uniformemente aceita e a consequente perspectiva incerta generalizada” as verdadeiras causas do “colapso final” do Segundo Reich31. A antiga Weltanschauung do liberalismo que destruiu o Segundo Reich “jamais pode ser desconstruída pelo uso da força [..] a não ser em uma condição, expressamente, a de que esse uso de força seja em serviço de um novo ideal, uma nova Weltanschauung, que queime novas chamas”. Essa nova Weltanschauung “deve receber a estampa de uma fé política definitiva”32.

Essa nova ordem espiritual das coisas que Hitler esperava pôr em chamas deveria (recordando Nietzsche) impor uma espiritualização da crueldade que, indo além das noções convencionais de bem e de mal, desse permissão para a brutalidade necessária para que fossem atingidas as soluções indispensáveis para a pobreza na Alemanha e também para os demais problemas sociais. Hitler resolve brilhantemente o problema da consciência pesada de se usar uma força brutal através da espiritualização da lei darwiniana da natureza, que a toma como se fosse “Providencial”:

O homem não deve cair no erro de pensar que ele foi feito para tornar-se senhor e mestre da natureza […]. O homem deve dar-se conta de que reina uma lei fundamental da necessidade na natureza e de que a sua existência está sujeita à lei do eterno conflito e da luta. E então ele irá sentir que não poderá nunca existir uma lei separada para a humanidade num mundo em que os planetas e sóis perfazem suas órbitas, onde luas e estrelas percorrem seus destinos traçados, onde os fortes são sempre os mestres dos fracos e onde aqueles que estão sujeitos a essa legislação devem ou obedecê-la ou sucumbirem diante dela. O homem deve também se submeter a esses princípios eternos da sabedoria suprema33.

Agora podemos ver por que Hitler vestia tão freqüentemente sua brutalidade com uma linguagem espiritualista; isto é, agora podemos ver por que Hitler freqüentemente parecia ser religioso (bem como Maquiavel recomendaria). Uma Weltanschauung é tanto política quanto religiosa34; é uma “fé política” que arrebata o uso de energias espirituais para fins políticos. Como vimos, a modernidade – de Maquiavel, Descartes e Hobbes em diante – lega à sua posteridade o homem puramente material. Mas um homem assim definido não sacrificará seu conforto material, e certamente sua vida também não, para o bem da nação. A religião torna-se necessária ao longo da histórica e generalizada secularização do Ocidente porque o materialismo, por si só, prova-se insatisfatório enquanto motivo para a ação política unificada. Daí o florescimento das fés políticas no século XX, da fé inteiramente definida pela instância do político.

A um nível mais profundo, a tomada da religião como algo necessário foi para Hitler um meio de controlar e dirigir as massas precisamente por elas serem incapazes da compreensão tipicamente filosófica. Hitler diz:

Este nosso mundo seria inconcebível sem a existência prática de uma crença religiosa. As grandes massas de uma nação não se compõem de filósofos. Especialmente para as massas de gente, a fé é absolutamente a única base para uma perspectiva moral da vida. Os muitos substitutos que foram sendo oferecidos jamais mostraram resultados que nos garantissem a segurança de que eles de fato substituiriam satisfatoriamente as diversas denominações (de cristianismo na Alemanha] […]. Antes que tal substituto (à religião) esteja disponível, somente tolos e criminosos pensariam em abolir a religião existente35.

Fica claro que a perspectiva moral de Hitler sobre a vida tinha a forma quase-nietzschiana de um darwinismo espiritualizado. O cristianismo era útil contanto que apoiasse o programa de Hitler. O cristianismo liberal, com sua frouxa doutrina, sua moralidade flácida e sua ênfase em curar os males sociais, poderia ser especificamente útil. Mas o cristianismo conservador – com suas afirmativas dogmáticas e mandamentos morais, expressados em ações como a oposição da Igreja Católica à eugenia – deveria ser atacado sempre que contrariasse o regime. A verdadeira religião do Reich não era o cristianismo, mas o místico germanismo wagneriano que tanto arrebatou Nietzsche.

Não devemos achar que um ateu como Nietzsche não encontraria uso algum para a religião. Conforme ele diz em Além do bem e do mal:

Do modo como nós vemos, o filósofo […] deve servir-se da religião como um meio de cultura e de educação, assim como se serve de quaisquer estados políticos e econômicos que estiverem à mão [..]. Para os fortes e independentes, preparados e predestinados a comandar, nos quais se incarnam a arte e o entendimento de governar uma raça, a religião é mais um meio para se superar resistências, para reinar – serve de vínculo para ligar governantes a súditos e é capaz de trair e entregar a consciência dos segundos, aquilo que tem de mais velado e íntimo e que tende a se esquivar da obediência, aos primeiros […].

Finalmente, aos homens vulgares – que são o maior número, e que existem unicamente para servir e para ser úteis à comunidade, e que só por isto têm direito à existência -, a religião lhes dá o valioso contentamento com sua condição e estado e lhes oferece a paz. múltipla de coração, um requinte de obediência […]. A religião e a importância religiosa da vida são o raio de sol que embeleza a existência daqueles homens atribulados e lhes torna suportável a visão de si mesmos36.

Esse princípio foi muito bem compreendido por Hitler. O Partido Nazista sairia vitorioso de sua “gigantesca batalha […] somente se prosperar desde o primeiro instante na tarefa de despertar uma convicção sacrossanta no coração de seus seguidores”, e para isso não seria necessário apenas “um novo slogan de campanha […], mas […] toda uma nova Weltanschauung37. Essa nova visão de mundo ou, como ele mesmo a chama, “fé política”38 – será uma união de Darwin com Nietzsche. Será baseada num tipo de religião popular, isto é, uma religião só daqueles que forem racialmente identificados como “povo” [Volk], cuja adoração será dirigida a uma raça germânica exclusivamente capaz de eliminar os mais fracos e de trazer o Übermensch à existência, em conformidade com as crueldades da natureza. As palavras de Hitler pressagiavam claramente as atrocidades que viriam com a tomada de poder pelos nazistas:

[A] concepção étnica [völkisch] do mundo reconhece que os elementos primordiais de raça são da maior importância para a humanidade. Em princípio, o Estado é visto apenas como um meio para um fim e este fim é a conservação das características raciais da humanidade. Portanto, pelo princípio étnico [völkisch], não podemos admitir que uma raça é igual a outra. Ao reconhecer que são diferentes, a concepção étnica separa os homens em raças de qualidade superior e inferior. Tomando esse reconhecimento como base, e em conformidade com a Vontade eterna que governa o universo, esse princípio necessariamente postula a vitória do melhor e mais forte e a subordinação do inferior e mais fraco. E assim presta homenagem à verdade de que o princípio subjacente a todas as operações da natureza é o princípio aristocrático, e também crê que essa lei se aplica até o último dos últimos organismos individuais [..]. A crença völkisch sustenta que a humanidade deve ter seus ideais, porque ter ideais é uma condição necessária da existência humana mesma. Mas, por outro lado, ela nega que um ideal ético tenha o direito de prevalecer caso ponha em risco a existência de uma raça que é portadora de um ideal ético maior. Porque, num mundo composto de mestiços e negróides, todos os ideais de beleza e nobreza humanos e todas as esperanças de um futuro ideal para a humanidade estariam perdidos para sempre.

Neste nosso planeta, a cultura e a civilização humanas estão vinculadas indissociavelmente pela presença do Ariano. Se ele for exterminado ou subjugado, aí então o manto negro de uma nova era de barbárie cobrirá a Terra […].

Portanto, a concepção étnica do mundo está em profundo acordo com a vontade da natureza; porque restaura o livre agir das forças que lideram uma raça pela educação recíproca e continuada em direção a tornar-se um tipo mais elevado, até que finalmente a melhor porção da humanidade possuirá a Terra e será livre para trabalhar em todos os seus domínios ao redor do mundo e até alcançar esferas que estão além da Terra39.

Como bem sabemos e já vimos claramente, ao ir além do bem e do mal e ao definir o bem e o mal conforme contribuem ou não para a produção do Übermensch ariano, Hitler foi quem lançou “o manto negro de uma nova era de barbárie [que] cobrirá a Terra”. Que ninguém nunca duvide do mal que o livro de um homem pode fazer. Mas qual é esse mal? Há em Hitler a culminação mórbida de uma desmedida essencialmente moderna: o desejo de se consertar tudo de uma vez por todas de acordo com algum plano utópico. Hitler começou com o desejo admirável de consertar o problema social da pobreza. Logo ele desenvolveu um plano para consertar todos os problemas sociais. Então ele terminou com a Solução Final: a eliminação de todos aqueles que ele achava que estavam causando os problemas. Ele é um caso típico para os estudos a respeito do fim infernal ao qual continuamente se direcionam as boas e desmedidas intenções.

Mas por quê? O que há de errado com a desmedida quando se quer o bem de uma boa causa? Bem, para começar, a desmedida rejeita a realidade do pecado. Se entendo que há algo profundamente distorcido em minha própria alma, tenho então de reconhecer que essa distorção se manifestará inevitavelmente na minha visão das coisas, não importa quão grandiosas ou humanitárias sejam. Eu não vou, portanto, impor a realidade do meu pecado sobre a realidade do mundo.

A visão grandiosa de Hitler, a Weltanschauung, não era uma visão de mundo – porque não correspondia com o mundo real –, mas a distorção de sua negra e pecadora alma em larga escala. Não à toa, a moderação é uma virtude clássica e cristã.

Um cristão ou um judeu ainda deve assumir o reconhecimento humilde de que ele não é Deus. O primeiro dos Dez Mandamentos – não terás outros deuses diante de Mim – é, antes de tudo, dirigido a nós. Hitler, junto de tantos outros ditadores modernos, coloca-se no lugar de Deus. Parte da deformidade na alma de Hitler deveu-se à crença de que ele já tinha conhecido toda a verdade a respeito dos judeus após viver sua experiência em Viena, após ler as teorias racistas, cientificamente desprezíveis, que vendiam as glórias dos arianos, e após absorver todo o darwinismo tão forçosamente despejado nas universidades alemãs e na imprensa popular. Ele quis acreditar que os judeus eram a causa de todo mal – não só porque ele tinha um ódio mortal dos judeus, mas porque ele precisava de algo bem simples sobre o que pudesse colocar a culpa de todo mal, real ou imaginário, e que ele, como uma divindade onisciente e onipotente, era capaz de remover. Ele queria ser o salvador da humanidade e terminou sendo sua mais infame excrescência de maldade.

Mas a influência altamente significativa que Hitler sofreu de pensadores como Darwin e Nietzsche deve levar-nos a reconhecer que não podemos como que alçá-lo ao patamar de um exemplo singular de maldade. Ele era um homem de seu tempo, um homem dos séculos XIX e XX, que devia o mesmo tanto às teorias darwinistas e eugênicas em circulação quanto Margaret Sanger, e que compartilhava da mesma reação de Nietzsche perante a diminuição epicúrea dos homens trazida à tona pelo liberalismo de Hobbes e de Mill. Se não fosse assim, ele jamais teria reunido tantos participantes voluntários da intelligentsia alemã na devassidão monumental que foi o Terceiro Reich. E o que é ainda mais notável: se nós tratarmos Hitler como um caso curioso de exceção da regra, embaçaremos a continuidade visível entre as fantasias eugênicas dos nazistas e as nossas próprias. O extermínio dos inaptos feito por Hitler não se limitou apenas aos judeus; o massacre anti-semita foi apenas um dos aspectos de sua visão global eugênica. Enquanto nos esquivamos de exterminar crianças e adultos inaptos em câmaras de gás, quase não hesitamos em eliminar o mesmo tipo de seres humanos menos-que-perteitos em clínicas de aborto.

_____________

*. Em português, algo como “Tropa de Proteção”; era a polícia nazista, que chegou a mais de um milhão de membros, englobou a Gestapo (que era o Serviço Secreto), o Sicherheitsdienst (Serviço de Inteligência) e os esquadrões de força-tarefa, chegando inclusive a possuir um exército próprio. Uma de suas inúmeras responsabilidades era o controle dos campos de
concentração – NT.

1. Ambas as citações são de Alan Bullock, Hitler and Stalin: Parallel Lives, New York: Vintage, 1993, p. 803.

2. Quanto a esse episódio, cf. John Toland, Adolf Hitler, New York: Doubleday, 1976, p. 676-677.

3. Hugh Gallagher, By Trust Betrayed: Patients, Physicians, and the License to Kill in the Third Reich, edição revista, Arlington, VA: Vandamere, 1995, p. 9 e 86.

4. Citação de Robert Litton, The Nazi Doctors, New York: Basic Books, 2000, P. 3I.

5. Ibid., P. 32.

6. Ibid., p. 30.

II. Ibid..

7. Adolf Hitler, Mein Kampf, Mumbai: Jaico Publishing House, 1988, vol. I, cap. 8, p. r95. A melhor tradução de Mein Kampf é a chamada “Reynal & Hitchcock” (R & H), edição de 1939 feita sob a tutela de Alvin Johnson e publicada pela Houghton Mifflin. Infelizmente, ela saiu de catálogo, portanto eu usei a edição da Jaico Publishing House. Na R & H, está o vocábulo “programador”, mais preciso, ao invés do vocábulo “filósofo político”, que consta na edição da Jaico, vol. I, cap. 8, p. 283-287. Mas essa distinção que Hitler faz é, sob sérios aspectos, a mesma que Platão faz. Mas Platão, é claro, era infinitamente mais sutil e trata da iluminação do bem verdadeiro, e não do mal caprichoso.

8. Hitler, op. cit., vol. I, cap. 8, P. 194.

9. Ibid., vol. I, cap. 8, p. 195. Os leitores mais interessados devem consultar a tradução de R & H, ao cap. 8, p. 283-284.

10. Ibid..

11. Ibid., P. 196-197.

12. Ibid., p. 196.

13. Michael Burleigh, Sacred Causes: The Clash of Religion and Politics, from the Great War to the War on Terror. New York: HarperCollins, 2007, p. 94-95 e 99-122.

14. Hitler, op. cit., vol. I, cap. I, p. 26.

15. Ibid., vol. I, cap. 2, p. 32.

I6. Ibid., P. 38.

17. Ibid., p. 39.

18. Ibid.

19. Ibid., vol. I, cap. II, p. 285.

20. Ibid., vol. I, cap. 3, P. 97.

21. Ibid., vol. I, cap. 2, p. 40-42.

22. Ibid., P. 48, 58, 62 e 66.

23. Ibid., vol. I, cap. II, p. 299.

24. Ibid., P. 297.

25. Ibid., vol. I, cap. 4, P. 146.

26. loid.

27. Ibid., p. 149.

28. Ibid.

29. Ibid.

30. Ibid., vol. I, cap. S, P. I64.

31. Ibid., vol. I, cap. IO, p. 24I-242.

32. Ibid., vol. II, cap. I, p. 346.

33. Ibid., P. 223-224.

34. Ibid., vol. I, cap. S, P. I64.

35. Ibid., vol. I, cap. I0, P. 242.

36. Friedrich Nietzsche, Beyond Good and Evil. Tradução de Walter Kaufmann, New York: Vintage, 1966, seção 61. [Friedrich Nietzsche, Além do bem e do mal: prelúdio de uma

filosofia do futuro. Tradução de Mário Ferreira dos Santos. Petrópolis, RJ, seção 61].

37. Hitler, op. cit., vol. II, cap. I, p. 339.

38. Ibid., p. 346.

39. Ibid., p. 348-349.

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