UM CAPÍTULO ESQUECIDO DA NOSTRA ÆTATE, 2011 | por Pe. HERVÉ BELMONT

A declaração conciliar Nostra Ætate sobre as religiões não-cristãs permanece um “monumento” do Vaticano II: um monumento de crueldade com os católicos, cuja fé é dissolvida por uma tola benevolência com as religiões falsas; um monumento de crueldade também com as almas prisioneiras do erro e das trevas, que não são mais chamadas para Jesus Cristo, o único Salvador; para a Santa Igreja Católica, fora da qual não há Salvação; para a fé católica, sem a qual é impossível agradar a Deus; para a verdade, que liberta da cegueira das paixões; para a penitência, sem a qual está-se condenado a perecer. Em particular, essa declaração subverte por inteiro o ensinamento da Igreja sobre os judeus, especialmente apagando a diferença abissal que existe entre a religião judaica anterior a Jesus Cristo (que era a verdadeira e santa religião do verdadeiro Deus) e a religião judaica posterior (que é recusa blasfematória de Jesus Cristo, de Sua messianidade e de Sua divindade), negando a reprovação do povo judeu contraposta à eleição da Igreja Católica, passando em silêncio a misteriosa e providencial conservação desse povo em vista de sua conversão no fim dos tempos.

Nostra Ætate é uma porta do Inferno, mas uma porta cautelosa, hipócrita, insidiosa, sutilmente redigida para o veneno não aparecer à primeira leitura. Melhor que uma análise cerrada, melhor que um longo discurso, eis um pastiche, um breve texto que mostrará isso in vivo: trata-se de uma paródia que retoma a cautela do Vaticano II e que a leva só um pouquinho mais longe: o efeito é impressionante. Destarte é posto em relevo o fluido de numerosos textos conciliares: cada trecho de frase pode em algum sentido ser aceitável, cada trecho parece generoso e escriturístico. Nenhum trecho dá ocasião, verdadeiramente, à contradição direta.

E, no entanto, o conjunto é monstruoso.

Sexta parte da Nostra Ætate

(aquela que nos é ocultada)

Declaração sobre as relações entre a Igreja e Satanás.

Nesta era em que os homens se aproximam cada vez mais uns dos outros e em que os laços de amizade entre os povos diversos se reforçam, a Igreja examina com maior atenção sua relação com Satanás. Ao criar Deus os anjos, Ele estabeleceu Lúcifer como um “querubim protetor” (Ez 28,14) do paraíso. Como “os dons e a vocação de Deus não conhecem arrependimento” (Rm 11,29), decorre que, em virtude de seu ofício original, Satanás desfrutará sempre de posição e dignidade especiais perante Deus. Portanto, os homens deveriam mostrar-lhe respeito. Mesmo o arcanjo Miguel “não ousa condená-lo com palavras de maldição” (Jd 8-9). O apóstolo São Tiago recorda-nos que Satanás possui ainda o dom da fé, privilégio este que certos homens ainda não alcançaram (Tg 2,19; II Ts 3,2). Daí que nem Pedro nem qualquer outro de seus irmãos no colégio apostólico tenham sido os primeiros a proclamar a divindade de Jesus Cristo, mas Satanás e seus demônios (Mt 4,1ss.; Mc 1,24). A leitura do Evangelho testemunha a profundidade do sentido religioso conservado por aquele cujo primeiro nome foi “Lúcifer”. E, no plano prático, este sentimento é visto através dos esforços em prol do estabelecimento de numerosas instituições de caráter religioso, em todos os países, pelas quais os homens são convidados a explorar juntos o mistério divino d’Aquele que está “em meio a todas as coisas e em todos nós” (Ef 4,6). Sondando o mistério que é a Igreja, este Concílio sagrado recorda os vínculos espirituais que ligam a Satanás o povo da Nova Aliança. Esse vínculo observa-se de maneira pungente na natureza angélica daquele. A Igreja de Cristo reconhece que segundo o programa divino da salvação o início de sua fé e de sua eleição se encontra nos anjos, que foram as primeiras criaturas racionais de Deus (cf. Jó 38,7). Ela professa igualmente que, na ressurreição, todos os fiéis de Cristo tornar-se-ão “semelhantes aos anjos” (Mt 22,30) por um afastamento dos laços da carne o qual permanece comum a Satanás e seus demônios e aos anjos que a piedade cristã chama de “fiéis”. A esse respeito, convém recordar que esse apelativo “fiéis” aplicado a certos anjos (apelativo que o Concílio deseja manter) não deve ser entendido de forma negativa com relação a Satanás e aos outros anjos que a ele aderem, como se estes não tivessem também sua fidelidade própria, mas diferente. Antes que o termo “infiéis” ou “caídos”, será oportuno empregar doravante a expressão “anjos separados” para designar aqueles dentre os puros espíritos cuja fidelidade à sua consciência afastou – é pena! – da plena comunhão com a divindade. Vários dos primitivos padres, dentre os quais Orígenes, Dídimo o Cego e Evágrio Pôntico, se indagaram se Satanás não seria um dia restabelecido na sua dignidade primitiva quando daquela esperada restauração à qual foi atrelado o rico substantivo grego “apocatástase”. Se a Igreja, sempre a caminho rumo a uma mais justa penetração da verdade eterna, não pode ainda associar-se de maneira querigmática a essa esperança, seu coração de mãe não cessa de partilhar com simpatia, quiçá entusiasmo, do sentimento profundamente cristão de caridade universal que a inspirou e inspira ainda, pois ninguém ignora a renovação do interesse em nossos dias por esse objeto de especulação teológica.

Sem rejeitar nada em Satanás que seja verdadeiro e santo, a Igreja tem em alta estima sua natureza, seu ofício, sua dignidade e sua fé. Sem deter-se nos numerosos pontos de desacordo doutrinais e práticos que seria desonesto ocultar, ela prefere contemplar mesmo nele aquela irradiação da verdade divina que alumia todas as criaturas de Deus. Essa contemplação existencial inspira-a a recordar, sobretudo em nossos dias, a todos os seus filhos o dever de respeitar em Satanás e em todos os seus aliados a dignidade pessoal e a liberdade de consciência que eles têm. Que os cristãos se abstenham de todo o azedume estéril e olvidem os numerosos conflitos do passado que não trouxeram bom fruto algum. Embora testemunhando corajosamente os motivos “da esperança que está em vós” (I Pdr. 3,15), que eles progridam na estima mútua e no estudo sincero de Satanás, cuidando de não recusar as verdades espirituais e morais que nele se encontrem. Que conservem ciosamente todas as manifestações da vida social e cultural do grande chefe dos anjos imperfeitamente unidos à divindade. O concílio propõe-se na reforma litúrgica já posta em obra pela constituição Sacrosanctum Concilium a atenuar toda expressão eventualmente ofensiva a Satanás e aos seus, reconhecendo sua parte de culpa nas relações por vezes deterioradas entre eles e seus filhos pelos séculos passados. Que doravante todos os seus fiéis tenham a solicitude de imitar por atos e palavras a doçura divina, cuja imperfeita apreciação, no início dos tempos, esteve em grande medida na origem das tristes divisões entre os batalhões angélicos que não é necessário recordar aqui.

(Tradução por Felipe Coelho [do inglês para o francês – N. do T.], complementos e melhoramentos por John S. Daly)

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