BRUMAS DO “REVELACIONISMO”  E LUZ DA FÉ, 1974 | por Pe. ROGER-THOMAS CALMEL, O.P.

Itinéraires, n.º 181 (março de 1974), pp. 177-187

Chamo de “revelacionismo” uma confiança desordenada em revelações privadas; confiança que não é suficientemente esclarecida e retificada pela razão e pela fé. A experiência mostra que os cristãos aflitos seja por “aparicionismo” ou por “revelacionismo” são gente difícil de curar. Eu gostaria ao menos que a enfermidade deles não fosse demasiado contagiosa e é por isso que redijo esta nota. Seguramente que não repreendo a estes irmãos na fé por acreditarem no maravilhoso de ordem privada, nem em seu papel indispensável na Igreja, mas, sim, por situarem-no praticamente acima da Escritura e da Tradição; depois, por equipararem os fatos maravilhosos mais diferentes; por fim, por deixarem que sua própria vida interior seja desorbitada pelo maravilhoso, em lugar de colocá-la sob o império das virtudes teologais que são o centro verdadeiro de toda a vida em Cristo.

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Encontram-se, então, certos cristãos que atribuem a revelações pueris e bizarras, recebidas supostamente por almas privilegiadas, exatamente o mesmo crédito que às mensagens de Lourdes tão límpidas, tão sóbrias, tão consonantes com o dogma católico. E o que dizer daqueles cristãos que, valendo-se das visões dessas famosas almas privilegiadas, estão mais bem informados sobre a Paixão do Senhor do que os Evangelistas mesmos. Um autor cumulava-nos há pouco com tratados de devoção sobre as dores secretas de Nosso Senhor. Esses tratados denotam, na visionária, aliás impossível de identificar, uma imaginação perturbada, malsã e, paradizer tudo: desequilibrada. Ora, o mesmo autor põe-se agora a difundir uma copiosa compilação, que nos é apresentada alternadamente como uma “enciclopédia do profetismo cristão” e como “o livro do século”. – “Apressai-vos, diz o anúncio desdobrável de seis páginas, apressai-vos em adquiri-lo em Saint-Germain-en-Laye, França”. Apressai-vos, tanto mais que são cinco para o meio-dia. São cinco para o meio-dia, esse é o título da obra profética e enciclopédica que nos anuncia que “Paris logo queimará como Sodoma e Gomorra, que três dias de trevas vão terminar as calamidades anunciadas e que, após catástrofes de todos os tipos, não restará senão um quarto da humanidade e até menos, talvez”. Esses castigos nada têm de impossível, mas querer-se-ia que profetas e profetisas produzissem títulos suficientes para lhes dar credibilidade. Para dar crédito à sua própria mensagem, santas tão eminentes quanto Joana ou Bernadete não se dispensaram disso. – E depois, será realmente conveniente misturar num prospeto interesses comerciais e o sentido religioso; fazer apelo ao temor de Deus e, ao mesmo tempo, pôr em prática as astúcias da publicidade, pois se vos diz inconsideradamente que este livro é “o livro do século… tem-se necessidade de tê-lo à mão a todo o instante… ele exerce no leitor uma influência calmante”? Tudo isso não parece muito sério.

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Mas combater os mercadores de revelações não me anima nem um pouco. Afastar os alimentos avariados não é suficiente para nutrir as almas. Busquemos antes o alimento vivificante das divinas Escrituras. E, dado que os revelacionistas nos falam tanto dos juízos do Senhor sobre a história dos homens, recordemo-nos dos ensinamentos da Revelação tais como no-los relatam os textos inspirados. Recordemo-nos também, sobre o mesmo tema, da doutrina sólida dos Padres e dos doutores. – Cremos no retorno do Senhor: “Credo… in unum Dominum Jesum Christum… et iterum, venturus est cum gloria judicare vivos et mortuos, cujus regni non erit finis.” Contudo, não ficamos petrificados com o dia e a hora, pois não está na missão do Senhor no-los dar a conhecer (Mt. XXIV, 36). – Sabemos que não somente virá, no fim, um supremo anticristo como também que, no curso da história, haverá prefigurações do anticristo. – Não somente haverá a última apostasia geral predita na segunda epístola aos Tessalonicenses (2Ts. II, 3-12), como, antes disso, serão conhecidas prefigurações da apostasia. – Não somente no fim dos fins a fé estará quase extinta e a caridade não será viva senão num pequeno número, de tanto que a frieza e o egoísmo terão disseminado a morte na alma dos homens, não somente, portanto, no fim da história, a humanidade estará quase inteira sem fé e sem amor, mas também haverá no curso da história prefigurações desse entenebrecimento e dessa espécie de extinção da vida espiritual. – Nós sabemos, os cristãos sempre souberam, especialmente o Apóstolo São João e desde SantoAgostinho, que virá um último anticristo, bem como que ele teve precursores desde os tempos apostólicos (1Jo. II, 18). – Sabemos que o Apocalipse não é uma cronologia antecipada, mas uma teologia da história sob forma de símbolos que se repetem, se recapitulam, se precisam mutuamente. – Sabemos que o capítulo XXIV de São Mateus, os capítulos XVII (última parte) e XXI de São Lucas não dizem respeito apenas e exclusivamente a duas gerações: à geração contemporânea da primeira vinda do Senhor, aquela que viu a ruína do templo, e a última geração, aquela que verá o retorno glorioso de Jesus Cristo; mas estes capítulos se dirigem também, sob muitíssimos aspectos, às gerações que se situam entre as duas. O Senhor julgou dignas de Seu ensinamento infalível, acerca dos juízos que Ele lavra sobre o desenrolar da história, as numerosas gerações intermediárias que viriam a ser, de longe, as que contariam o maior número de fiéis, as que formariam a parte mais considerável de Sua Igreja. – Há um sinal do fim que não terá repetição anterior: é a conversão do povo judeu a título de povo. Mas esse sinal mesmo, ninguém está em condições de mensurar em que lugar exatamente cumpre situá-lo antes do fim do mundo. Quanto aos outros sinais: apostasia, anticristo, expansão do Evangelho, morte espiritual, guerras e cataclismas, nós sabemos que, se bem que eles vão se desdobrando segundo uma espécie de progresso linear, eles procedem também por repetições como que cíclicas. Rumo a qual das repetições estamos marchando: só Deus sabe.

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Portanto, às gerações intermediárias entre aquela que conheceu a ruína de Jerusalém e aquela que verá o fim do mundo, o Senhor deu uma revelação dupla: ao mesmo tempo em que Ele anunciava as torrentes da iniquidade e os castigos prodigiosos, Ele nos garantia a permanência das fontes da coragem e da consolação. Quaisquer que sejam, com efeito, os progressos históricos da iniquidade, todavia esses dias de provação, por mais perigosos que sejam, serão abreviados por causa dos escolhidos (Mt. XXIV, 22); por outro lado, ninguém poderá arrebatar as ovelhas da mão do Bom Pastor (Jo. X, 28-29); em terceiro lugar, a Redenção não cessará de estar próxima e será preciso erguer a cabeça, levate capita vestra (Lc. XXI, 34) na direção d’Aquele cujo Coração está aberto para nós (Jo. XIX, 37); em quarto lugar, o Espírito Santo não cessará de dar testemunho de Cristo (Jo. XVI, 1-15), mesmo quando a apostasia vier a parecer tudo submergir. Para tudo resumir: as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja (Mt. XVI, 18), contra Pedro e contra a fé; contra a Missa [1] e contra os sacramentos, mesmo quando o homem da iniquidade se assentar no lugar santo (2Ts. II, 4 e Mt. XXIV, 15). – É, pois, uma dupla revelação acerca dos juízos e dos castigos divinos. Os aspectos contrastantes não devem ser isolados e separados. Quando revelações privadas dizem respeito a intervenções da justiça divina, elas devem inscrever-se fielmente nesta perspectiva da revelação canônica.

[1. Sobre este tema preciso (permanência da Missa), ver Malvenda, o. p., na Dissertation sur l’Antéchrist [Dissertação sobre oAnticristo], n.º 22, que vem na sequência da segunda epístola aos Tessalonicenses na Bíblia de Vence, t. 16, Paris 1773. A Bíblia dita de Vence retoma e completa a Bíblia de Dom Calmet.]

Ora, não é isso que se encontra nas publicações diversas dos revelacionistas. Esses escritos estão feitos sob medida para pôr as almas em pânico e para aterrorizá-las. Não somente eles pretendem assinalar o dia e a hora em que estamos, das preparações e prefigurações do fim, o que já não carece de audácia; mas, em sua pretensão simplista de prognosticar o dia e a hora, eles habituam aqueles que lhes dão ouvidos a viver no irracional, a preferir, às luzes do bom senso e da reflexão sabiamente conduzida, bisbilhotices sem garantia. – Eles não têm solicitude verdadeira e realista em precisar os remédios que sempre estão em nosso poder aplicar, seja qual for o estado em que estivermos da repetição do fim. De resto, eles estão muito mais preocupados em procurar curiosamente qual intervalo de tempo nos separa do fim que em se firmarem na fé, a fé na graça da Redenção, que é sempre suficiente sejam quais forem o afastamento ou a proximidade da Parusia. É cinco para o meio-dia, nos tagarelam os fabricantes da enciclopédia profética; mas eles não saberão dizer-nos isto: cinco para o meio-dia ou dez horas e meia, de todo o modo é hora de fazer aquilo que está ao nosso alcance para assistir à boa Missa com boas disposições; é hora de meditar e de recitar o terço; é hora de servir ao nosso próximo sem cumplicidade com suas fraquezas assim como sem enervamento com suas misérias; é hora de fazer sacrifícios excepcionais, para preservar as crianças da corrupção e para assegurar a existência de verdadeiras escolas cristãs; é hora enfim, para os clérigos, de viver mais ainda conforme a dignidade de seu estado e de aprofundar as ciências eclesiásticas, em lugar de perder seu tempo decifrando as patranhas com que nos submerge a publicidade indiscreta dos aparicionistas de todo jaez.

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Evidentemente que não rejeitamos as profecias privadas sob o pretexto de elas anunciarem castigos divinos: a peste e o fogo, a guerra e a fome, e catástrofes de todo tipo. Muito menos as rejeitamos sob um tal pretexto, quando previsões tremendas fazem parte integrante do Evangelho de Jesus Cristo. Nosso misericordioso Salvador apresentou-se como rei e como juiz; juiz não somente no fim do mundo, como também juiz sobre o curso da história. Ipsius sunt tempora et sæcula [2]. As previsões sobre a ruína de Jerusalém, sobre o terrível fim do mundo, sobre as perseguições, não podem ser removidas dos Evangelhos e das Epístolas. É reiteradas vezes que Jesus falou como profeta de desgraças. Mas Ele é profeta de desgraças num clima de Evangelho e é isso que muda tudo, que faz de Sua profecia um alimento para viver da graça divina, uma fonte de paz interior e de bem-aventurança. Beatiqui lugent quoniam ipsi consolabuntur [3].

[2. Bênção do Círio Pascal na Vigília da Páscoa.]

[3. Notar esta ad 2 na IIa-IIæ, q. 174, art. 6: “Deus é mais inclinado a afastar os flagelos com que Ele nos ameaça, do que a retirar os benefícios que Ele nos promete.”]

Assim, cuidaremos de não menosprezar as profecias privadas quando forem profecias de desgraças e precisamente por esta razão; mas pedimos duas coisas: primeiro, títulos suficientes para admitir que o mensageiro ou visionária nos fala da parte de Deus, em nome de Deus, e não de sua própria lavra; o que supõe esta segunda condição: de que a sua profecia se situe nesta linha de paz, de conversão, de equilíbrio sobrenatural que é a linha do Evangelho. Numa palavra, que as profecias privadas, mesmo cominatórias, se mantenham neste nível de elevação, de sobriedade, de pureza que é o do Evangelho.

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O Grande Monarca e o grande Papa é um dos capítulos da famosa enciclopédia. É bem bonito, mas de todo modo se o Senhor, em Sua misericórdia, quiser uma vez mais dar à França um chefe que seja sábio e santo, dócil à Sé de Pedro mas isento de [montinismo (*)], se o Senhor dignar-Se conceder à nossa pátria essa misericórdia totalmente extraordinária, pois bem!, uma preparação é indispensável. Ora, esta preparação não se fará se cristãos demais se deixarem arrastar pela epidemia do revelacionismo.

[(*) N. do T. – No original, a meu ver um tanto malsonante embora, provavelmente, compreensível no contexto do início da década de 1970: “docile au siège de Pierre mais exempt de papisme…”]

Pode ser bom de recordar por vezes “a profecia de São Pio X”: “Que direi agora, a vós, filhos da França, que gemeis sob o fardo da perseguição? O povo que fez aliança com Deus nas fontes batismais de Reims arrepender-se-á e retornará à sua primeira vocação… Os pecados não permanecerão impunes, mas ela não perecerá jamais, a filha de tantos méritos, de tantos suspiros e de tantas lágrimas. Um dia virá, e esperamos que não esteja longe, em que a França, como Saulo no caminho de Damasco, será envolvida por uma luz celeste e ouvirá uma Voz que lhe repetirá: ‘Minha filha, por que me persegues?’ E, à resposta dela: ‘Quem sois vós, Senhor?’, a Voz responderá: ‘Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Dura coisa é para ti recalcitrar contra o aguilhão, pois em tua obstinação, tu te arruínas a ti mesma. ’E ela, tremendo e atônita, dirá: ‘Senhor, o que quereis que eu faça?’ E Ele: ‘Levanta-te, lava-te das máculas que te desfiguraram, desperta em teu seio os sentimentos meio adormecidos e o pacto da nossa aliança, e vai, Filha primogênita da Igreja, nação predestinada, vaso de eleição, vai, como no passado, levar Meu Nome perante todos os povos e todos os reis da terra’.” [4]

[4. Consistório de 29 de novembro de 1911.

Nota dos DSB (Dossiês São Bernardo): o Padre Calmel escreve “a profecia de São Pio X” entre aspas, e faz bem, pois haveria um certo abuso em afirmar que São Pio X tenha profetizado. São Pio X exprime aí um anseio, um desejo de seu coração paternal, e para tanto ele tomou emprestado esse texto de um de seus mestres: o Cardeal Pie. Pois esse texto “profético” é, na realidade, uma citação da Oração Fúnebre do General De Lamoricière pronunciada por Mons. Pie a 5 de dezembro de 1865 (Œuvres, V, 506-507). Ainda simples sacerdote, em 1846, ele já havia manifestado essa esperança de conversão (Œuvres sacerdotales, II, 332-333). Em 28 de setembro de 1879, no seu Discurso do ato de posse do título presbiteral de Nossa Senhora da Vitória, o Cardeal Pie se exprimirá nos mesmos termos  (Œuvres, X, 63-64).]

A recordação de uma tal profecia pode ser útil. Haveria ainda que fazê-lo com lógica e honestidade, pois é desonesto, assim como ilógico, dar azo a esperar a misericórdia de Deus pelo futuro da pátria e não fazer o pouco que está ao nosso alcance na hora presente. A hora presente é aquela em que, estando a celebração da Missa terrivelmente ameaçada, cumpre mais ainda conservá-la, logo dizê-la e assistir a ela com as disposições exigidas. É a hora em que, estando difícil de assegurar o verdadeiro catecismo, é mais uma razão para dedicar-se a ele. É a hora em que a legislação familiar (se é que pode ser chamada assim) torna-se criminosa e monstruosa, cumpre, pois, combatê-la com todas as nossas forças. É a hora em que as inovações de Paulo VI são atingidas pela suspeita mais legítima, como o prova a lista esmagadora estabelecida pelo Libellus do Padre de Nantes; tenhamos, pois, a coragem de enxergar que, pelas novidades desse tal pontífice, nós não estamos vinculados. É a hora em que os bispos amassados e manobrados pela colegialidade tentam fazer prevalecer um sincretismo religioso simultaneamente maçônico, comunista e cristão; não temos de seguir a semelhantes bispos. É a hora, enfim, na qual devemos testemunhar a fé de sempre com as disposições de força e de humildade que devem ser renovadas incessantemente, pois nosso testemunho não se defronta com uma perseguição violenta, o que precipitaria e simplificaria muitas coisas, mas está em face de uma revolução modernista inspirada por demônios das piores embrulhadas. Esta é a hora presente. Ora, esse diagnóstico, mesmo incompleto, não é o que encontramos nas coscuvilhices confusas e irracionais dos revelacionistas; é o diagnóstico que fazemos, servindo-nos da razão que Deus nos deu, esclarecida pelas luzes da fé e da reflexão teológica. É, portanto, na hora presente, que é tal, que temos de nos santificar e de dar testemunho; e isso tanto mais ao pedirmos a Deus, para os anos vindouros, que se realize de algum modo a profecia de São Pio X. O período presente, tanto e mais ainda que os períodos anteriores, requer do cristão uma atitude espiritual de lucidez, de realismo, de fé, de caridade, de esperança. Ora, não são estas as atitudes reconhecíveis e teologais que favorecem, nas almas de boa vontade, os produtores e os varejistas de papeladas revelacionistas.

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Os revelacionistas nos entopem os ouvidos com mensagens nebulosas, febricitantes, sentimentais, mas eles não se interessam verdadeiramente pelas mensagens de santidade dos místicos mais autorizados: o autor da Imitação, São João da Cruz, Santa Teresinha… Da profecia privada no seio da Igreja, eles não parecem conhecer senão um único aspecto: o anúncio dos castigos divinos. Ora, existem outros aspectos: não opostos ao primeiro, sem dúvida, mas muito superiores: são os carismas de ordem doutrinal, como o ensinamento da sabedoria, o sermo scientiæ que é concedido a alguns grandes santos para edificação das almas. – Esse sermo sapientiæ não é, falando propriamente, um carisma concedido às mulheres [5]; deve-se dizer, contudo, que uma mensagem como aquela da via da infância, de Santa Teresinha, deriva de um verdadeiro carisma. É restringir em demasia os favores que o Espírito de Cristo outorga à Igreja não enxergar carismas a não ser nas mensagens cominatórias dadas em aparições, ainda que a mensagem seja ortodoxa, e o vidente, digno de crédito.

[5. Ver, a esse respeito, a IIa IIæ, no tratado sobre os estados (como é chamado), a questão 177. –O fim da IIa IIæ contém, na realidade, três tratados maiores: o dos estados de perfeição, que conclui tudo, vem após o tratado dos carismas (graças gratisdatæ) e o das formas de vida (ativa ou contemplativa).]

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Uma das fraquezas mais graves dos revelacionistas é esta: eles não meditaram seriamente na vida e na morte dos santos e santas que foram mais longe na profecia privada, nas aparições, no maravilhoso e no milagre: uma Joana d’Arc, uma Margarida Maria, uma Catharina Labouré, uma Bernadete, as crianças de Fátima. Na vida e na morte desses privilegiados autênticos, não há nada que não seja simples, calmo, límpido; nem pânico, nem exaltação. A mensagem deles foi o que há de menos enredado, de menos complicado. Por esta mensagem, eles estavam prontos a dar a vida e, de fato, Santa Joana d’Arc foi mártir. Sem embargo, não é num maravilhoso separado e como que exorbitado que Joana e os demais haviam situado e fixado suas almas; é, como todos os cristãos, como todos os santos, na fé, na esperança, na caridade. Eles só se ocupavam da mensagem deles porque esta fazia parte do dever excepcional que Deus lhes ordenava cumprir – assim como Ele ordena à maioria um dever ordinário; dever ordinário o que é preciso cumprir com amor perfeito. Esses mensageiros se agarravam à mensagem deles unicamente porque esta fidelidade primeira era, para eles, condição para viver das virtudes teologais e dons do Espírito Santo; aqui se situava a alma da vida espiritual deles. Sua vida não se concebe sem a intervenção do maravilhoso assim como, tampouco, sem a fidelidade em dar testemunho desse maravilhoso, mas a alma da vida deles é a caridade, e não o maravilhoso. – O maravilhoso, revelações e profecias, de que eles foram mensageiros fiéis, é indispensável à existência e santidade da Igreja, à conversão e sobrevivência da França. O Corpo Místico não prescinde aqui embaixo das graças gratis datæ. Mas é a graça gratum faciens, a graça das virtudes e dos dons, que é sua alma viva. – Joana, Margarida Maria, Catharina Labouré, Bernadete, as crianças de Fátima, esses mensageiros do maravilhoso mais excepcional não cessaram, ao comunicarem e defenderem sua mensagem, de se firmar na graça santificante, no amor mais humilde e mais realista. Compreende-se então que a mensagem deles, não somente pelo equilíbrio de seu conteúdo, mas pela forma de transmiti-lo, não foi provocadora de pânico mas pacificante, tanto para o próximo deles como para eles próprios. A Igreja não rejeita nem pode rejeitar o maravilhoso, as revelações e os milagres; mas a Igreja coloca acima destes, e sem comparação, a vida teologal e a santidade. Fiéis a esta doutrina, precavendo-nos devidamente contrafazer pouco, por princípio, das manifestações do maravilhoso, mas sem ser tolamente crédulos ou levados a um pânico vão, tendo situado em seu devido posto as revelações privadas que merecem confiança (sobretudo, as revelações privadas de alcance universal), nós as utilizaremos o melhor possível na luz da fé, – a fé que é operante pela caridade (Gál. V, 6).

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Para viver retamente na Igreja, não basta ao cristão dizer com seus botões: o ensinamento do magistério hierárquico basta; se há outra coisa, não quero saber. Pois esse magistério mesmo está obrigado a saber que há outra coisa; claro que não um outro ensinamento que não aquele do qual a hierarquia tem o depósito e a guarda vigilante, mas outras vozes milagrosas de mensageiros fiéis, que têm missão de falar para atrair a atenção para este mesmo ensinamento que o magistério administra. Não há outro magistério que não seja o da hierarquia, algum magistério inspirado que fosse superior ao dela e perante o qual o dela seja obrigado a dar a mão à palmatória; mas há outros mensageiros além dos da hierarquia, mensageiros inspirados, milagrosos, que os dignitários hierárquicos devem aceitar ouvir, se bem que caiba à hierarquia concluir e decidir. A noção católica de Igreja certamente não exclui os carismas [6], mas ela os subordina à hierarquia. Ela não exclui as revelações privadas, ela requer somente que não sejam ilusões privadas, em seguida que essas revelações estejam de acordo com a Revelação.

[6. Reler Rom. XII; 1Cor. XII; Ef. IV; 1Ts. V, 16-22.]

Em tempo algum da história da Igreja a voz da hierarquia verdadeira, não as insinuações da hierarquia modernista, logo, em tempo algum a verdadeira hierarquia que garante de modo ordinário e oficial o carisma da verdade (Santo Ireneu) pretendeu sufocar as vozes inspiradas e milagrosas, pois essas vozes, se vêm de Deus, longe de contradizerem à Revelação, repetem-na, fazem compreendê-la, persuadindo os corações com uma entoação mais penetrante e como que num tom mais apropriado às situações novas. É assim que as palavras do magistério hierárquico sobre o Sagrado Coração de Jesus não foram alteradas pelas revelações privadas de Santa Margarida Maria, mas, após essas revelações, as mesmas palavras foram ditas com mais veemência e repercutidas com maior entusiasmo. Em 1854 ressoara a grande voz do Romano Pontífice na definição infalível da Imaculada Concepção, mas essa voz não pôs em marcha as multidões e mobilizou as nações para a oração e penitência senão na sequência das aparições da Imaculada a Santa Bernadete. Faremos observações semelhantes quanto à devoção do Rosário e quanto à consagração ao Coração Imaculado de Maria: sem a voz inspirada dos videntes de Fátima, a voz do magistério ordinário não se teria imposto tão profundamente às almas cristãs. E que dizer das revelações privadas cominatórias? As advertências do capítulo XXIV de São Mateus continuam sempre presentes, e a Igreja sempre as faz ouvir no último domingo depois de Pentecostes; só uma liturgia de inspiração e fabricação modernistas tenta fazê-las olvidar. Logo, a Igreja faz sempre ressoar nos ouvidos dos fiéis os oráculos do capítulo XXIV de São Mateus; mas, para que essas advertências sejam levadas a sério por tantos cristãos modernos que ficam girando em torno de seus pecados, com um embrutecimento tão denso como os contemporâneos de Noé às vésperas do próprio dilúvio, para despertar os que dormem é necessário que, segundo as circunstâncias históricas, o ensinamento do magistério hierárquico sobre os juízos divinos seja, não modificado, não torcido em sentido milenarista, mas repercutido fielmente por mensageiros detentores do encargo de transmitir revelações cominatórias. Só se pede a esses mensageiros que se apresentem com garantias suficientes, bem como se espera da mensagem que ela seja consentânea com o Evangelho. Tudo isso para dizer que as revelações privadas e, de maneira geral, todos os carismas têm um lugar na vida Igreja, um papel não desprezível, não supererrogatório mas necessário; cumpre, pois, atribuir-lhes seu devido lugar: subordinando-os à autoridade do magistério verdadeiro (completamente diferente do falso magistério modernista), situando-os na linha da Revelação divina, permitindo-nos despertar, comover, converter, edificar pela tônica milagrosa com que eles nos repetem as palavras de vida eterna.

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