Mons. GHERARDINI, VATICANO II E HERMENÊUTICA DA CONTINUIDADE, 2010 | por Pe. FRANCESCO RICOSSA

Rev. Pe. Francesco Ricossa

A tese teológica do Padre M.-L. Guérard des Lauriers, dominicano, ex-docente na Pontifícia Universidade Lateranense, dita Tese de Cassicíaco, toma como ponto de partida um dado de fato: o ensinamento do Concílio Vaticano II, por exemplo a declaração Dignitatis humanae personæ, está em oposição de contradição com o Magistério infalível e irreformável da Igreja Católica Romana, e é essa a causa principal da “crise” que a Igreja mesma vem atravessando a partir daquele momento.

É evidente, então, que nossa revista, que desde 1985 adota e defende a Tese “guérardiana”, não pode deixar de se interessar por todo fato novo que se refira às relações existentes entre o ensinamento do Vaticano II e a Tradição da Igreja, seja na (vã) tentativa de encontrar conciliação entre eles (cf. comentário ao discurso de Bento XVI de 22/12/2005, em Sodalitium n.º 59, ou o comentário à declaração da Congregação da Doutrina da Fé sobre a fórmula subsistit in em Sodalitium n.º 62), seja quando, pelo contrário, se suscita o problema da contradição.

O ano findo não foi avaro deste último ponto de vista. Até o Osservatore Romano resenhou positivamente a reedição (ou melhor, as reedições, pois foram publicadas duas ao mesmo tempo) do volume de Romano Amerio Iota unum [1], cujo subtítulo – paráfrase de uma obra de Bossuet contra os protestantes – é significativo: “estudo das variações da Igreja Católica no século XX”. Poucas palavras, estas últimas, que exprimem ao mesmo tempo a força e a fraqueza do ensaio de Amerio: falando de variações, o filósofo de tendência rosminiana [2] admite e demonstra que o Vaticano II e o ensinamento pós-conciliar não estão em continuidade, mas, sim, em ruptura, com o ensinamento da Igreja Católica [3]; atribuindo, porém, essas variações à Igreja Católica, ofende sem se dar conta disso a Igreja mesma, pois assim estaria demonstrando que ela seria falsa, tudo isso para salvaguardar a legitimidade de Paulo VI e de seus sucessores. Não por acaso, na apologética de Bossuet, as variações das “igrejas” protestantes demonstram não serem elas a verdadeira Igreja de Cristo; falar de variações da Igreja Católica equivale implicitamente (e involuntariamente, penso eu, no caso de Amerio) a pôr no mesmo plano a Igreja Católica e as seitas protestantes.

A mesma nota positiva, e a mesma crítica radical, devemos fazer à última obra de Mons. Brunero Gherardini, que são ao menos três [4], muito embora só seja objeto desta resenha a primeira: Concilio Vaticano II. Un discorso da fare [Concílio Vaticano II. Um discurso a ser feito] (Casa Mariana Editrice, Frigento, março de 2009). Abordo “com temor e tremor” a figura de Mons. Gherardini, sobretudo nas críticas que não posso deixar de lhe fazer. Uma consequência deplorável, de fato, da atual crise de autoridade (na Igreja Católica, e mesmo fora dela) é a dispersão do rebanho cujo Pastor foi atingido, razão pela qual toda ovelhinha do rebanho se erige em Mestre na Igreja de Deus, mesmo sem ter para isso missão, autoridade e, frequentemente, capacidade. O último ignorante, como nos tempos da reforma luterana, hoje disserta sobre dogmas que ignora, interpreta a Escritura, crê-se teólogo, quer ensinar ao Padre a liturgia, não crê na infalibilidade do Papa mas na sua própria… Não queria, portanto, eu próprio, que não sou teólogo, cometer o mesmo erro ao criticar Mons. Gherardini, que é teólogo, e teólogo sério [5], daquela escola romana e tomista da gloriosa Pontifícia Universidade Lateranense dirigida por Mons. Piolanti, que contou entre seus docentes Padre Guérard des Lauriers e Mons. Spadafora. Sem a revolução do Vaticano II, os estudos teológicos de Mons. Gherardini teriam dado os seus frutos, amadurecendo sob o sol do Magistério pontifício e da Roma católica; assim não foi, e, depois de ter procurado justificar o Vaticano II por quarenta anos, “dando nós em pingo d’água”, segundo a expressão por ele mesmo utilizada (p. 163 [“arrampicandosi sugli specchi” – N. do T.]), Mons. Gherardini procura explicar aos leitores, e sobretudo a si mesmo, o inexplicável, ou seja a contradição em ato entre o ensinamento conciliar e pós-conciliar e o ensinamento da Igreja. Pois esse é o tema, o status quaestionis de seu livro: é necessário ler os documentos conciliares segundo a criteriologia clássica. As possíveis soluções são as seguintes:
ou a continuidade do Vaticano II com a linha do ensinamento católico tradicional,
ou sua dissociação dela,
ou a medida da continuidade e da eventual descontinuidade
” (p. 45).

Esse o problema. Trata-se de “verificar se e em que medida o Vaticano II se conecta, efetivamente e não só mediante suas declarações, com a doutrina exposta pelos Concílios ou por cada um dos Pontífices, ou pelo ministério episcopal, e transmitida pela Tradição à vida mesma da Igreja” (p. 57); “o Vaticano II se inscreve ou não na Tradição ininterrupta da Igreja, desde os seus primórdios até hoje?” (p. 84); “o problema é e permanece o de demonstrar que o Concílio não se pôs fora da trilha da Tradição” (p. 87), pois a continuidade não deve ser “declamada, mas, sim, demonstrada” (p. 255).

A questão posta por Mons. Gherardini é já em si mesma, in nuce, uma resposta

Vimos a pergunta que Mons. Gherardini se faz. Ele a faz a si próprio. Ele a faz aos leitores. Ele a faz aos teólogos. Ele a faz, sobretudo, a Bento XVI.

Mas fazer-se essa pergunta considerando-a aberta a uma das três soluções, ou seja considerando possível a solução que implica uma ruptura entre o ensinamento conciliar e o da Igreja, inclui já uma resposta negativa para o Vaticano II. De fato, Mons. Gherardini se faz e não ignora a pergunta decisiva: “alguns (…) se perguntaram se um Concílio Ecumênico pode incorrer em erros contra a Fé e a Moral. (…) O meu parecer é que isso pode verificar-se, mas, no preciso momento em que se verifica, o Concílio ecumênico cessa de ser tal” (pp. 22-23) e, acrescentamos logicamente nós, já cessou de ser tal, se é que jamais o foi, a autoridade que o promulgou “no Espírito Santo”!

Mas a essa conclusão o autor não quer chegar… Para tanto (isto é, para salvar a legitimidade dos “papas” conciliares), ele deveria fazer sua “a hermenêutica da continuidade” do próprio Concílio, o qual se declara em continuidade com a Tradição (pp. 53-57), de J. Ratzinger (do Informe sobre a fé, de 1985, ao Discurso à Cúria de 22 de dezembro de 2005, cf. p. 86) seguido por Marchetto (p. 13), Lamb e Levering (p. 26) etc., em oposição aos mantenedores da ruptura (sejam estes modernistas, como Alberigo (p. 15), Melloni etc., ou “tradicionalistas” como Amerio, Dörmann (p. 14), os autores da Fraternidade São Pio X, sendo totalmente ignorados a Lettre à quelques évêques ou Lucien).

Um católico que reconhece a autoridade do Concílio Vaticano II e dos Pontífices que o promulgaram e sustentaram – como Mons. Gherardini – não poderia nem sequer pôr em dúvida “a hermenêutica da continuidade”, dando-a por pressuposta a priori e a ser defendida sem mais a posterioricontra os adversários da Igreja, sejam estes modernistas ou tradicionalistas. Mas não é essa a solução que Gherardini adota, ao menos não em seu livro inteiro. Para ele, não basta sustentar a hermenêutica da continuidade, importa demonstrá-la: demonstração que é tudo menos evidente, e até o momento absolutamente faltante, exceto por palavras “ao vento” [“che lasciano il tempo che trovano” – N. do T.] (cf. pp. 26-27, p. 51, p. 52).

Qual é, então, a resposta de Mons. Gherardini: continuidade ou ruptura? Nem ele sabe…

As contradições de Mons. Gherardini, e suas dúvidas

A contradição é o sinal mais evidente do erro. Lendo Mons. Gherardini, é-se golpeado pelas contínuas contradições do seu pensamento a propósito do Vaticano II, acusado e defendido, declarado em continuidade ou em ruptura com a Tradição, às vezes na mesma página do livro dele, à distância de poucas linhas. Não penso que tais contradições sejam fruto de falta de rigor especulativo do autor, tanto quanto de confusão e temor em afrontar uma matéria tão grave em suas consequências.

Mons. Gherardini não silencia, mas sinceramente confessa, as dúvidas que o acometem e as transigências intelectuais às quais dedicou-se por 40 anos. Teólogo fiel à doutrina tradicional da Igreja, quis aceitar a nova doutrina do Vaticano II: teve então de convencer-se, para em seguida convencer os seus pupilos, ouvintes e leitores, de uma continuidade com a Tradição que não o convencia por completo: “dava nós em pingos d’água” (p. 163). “Falei – confessa – de continuidade evolutiva, para exconjurar uma tal suspeita (de ruptura entre Vaticano II e Tradição, n.d.a.) e encontrar, mediante essa fórmula, a possibilidade de ancorar o Vaticano II, com a sua originalidade e criatividade, na precedente Tradição. Confesso todavia que nunca cessei de me colocar o problema de se efetivamente a Tradição da Igreja foi totalmente [“in tutto e per tutto” – N. do T.] salvaguardada pelo último Concílio e se, por conseguinte, a hermenêutica da continuidade evolutiva é um seu inegável valor e se pode dar crédito a ela” (p. 87). Gherardini duvida de si mesmo, portanto. A autocrítica refere-se por exemplo à declaração sobre a liberdade religiosa Dignitatis humanae personae: “O Vaticano II terminara havia pouco quando, na minha qualidade de Professor de Eclesiologia e Decano da Pontifícia Universidade Lateranense, dirigi a elaboração de uma tese de láurea sobre ‘A Liberdade religiosa no Vaticano II’. O candidato era um jovem sacerdote, inteligente e dócil, hoje Bispo na Áustria. Por intermédio dele (…) foi-me possível pela primeira vez tentar a ligação da disruptiva declaração DH com o ensinamento tradicional da Igreja. Sim, era preciso dar nós em pingo d’água, mas a empresa não me pareceu impossível de tentar. Hoje, sobre o famoso decreto conciliar, eu teria algumas dúvidas a mais do que já tinha então” (p. 163). Não sabemos se o autor se dá conta de sua responsabilidade em ter calado por tantos anos suas dúvidas (e só agora, depois de 40 anos, “romper as pontes do silêncio” p. 25) e mesmo endossado essas doutrinas, como fez por exemplo com a Missa Nova, que hoje critica (p. 154-161) (ainda quando porventura celebra, malgrado os usuais “problemas” que lhe suscita) enquanto que “em outubro de 1984 o Pe. Piero Cantoni, que em 1981 deixara a Fraternidade São Pio X para aceitar o Vaticano II e a Missa Nova, obteve a licença em Sacra Teologia na Pontifícia Universidade Lateranense com uma investigação sobre ‘Novus Ordo Missae’ e Fé Católica, sob a direção do professor Brunero Gherardini” (A. Morselli).

O estudo do Pe. Cantoni, dirigido por Mons. Gherardini, e publicado antes na revista do card. Siri, Renovatio, e em seguida, em 1988, pelas edições Quadrivium, tinha o escopo de demonstrar a perfeita ortodoxia do novo missal, e serviu e serve ainda a esse escopo. Mons. Gherardini e seus apologistas na Fraternidade São Pio X talvez se tenham esquecido disso, mas nós não. Padre Guérard des Lauriers, por ter escrito o “Breve Exame Crítico do Novus Ordo Missae” em 1969 foi privado da cátedra na Lateranense, ao passo que em 1984 Mons. Gherardini patrocinava tese de láurea na Lateranense em defesa da Missa Nova, malgrado os “problemas” que esta lhe apresentava; mas “a carreira vale bem um incensamento” (p. 16). Não me queira mal Mons. Gherardini por esta crítica, voltada a certos seus interessados aduladores antes que a quem, como ele, manifesta com sinceridade os percalços de seu espírito.

Sic et non: o Vaticano II em ruptura com a Tradição

Falamos de contradições; com efeito, Mons. Gherardini afirma que o Vaticano II está, e não está, em ruptura com a Tradição da Igreja. Vejamos em primeiro lugar o “não está”. Gherardini critica sem dúvida “o espírito do Concílio”, o “pós-concílio”, os “teólogos pós-conciliares”: nisso a sua posição não discreparia da hermenêutica da continuidade de Ratzinger, da tentativa de jogar a cruz unicamente sobre Rahner, tentativa levada adiante por De Mattei (amigo de Gherardini), Padre Cavalcoli (Karl Rahner. Il Concilio tradito. [Karl Rahner. O Concílio traído.] Ed. Fede e cultura), McInerny (Vaticano II Che cosa è andato storto? [O que deu errado com o Vaticano II?] Ed. Fede e cultura) e similares [6]. Na realidade, Mons. Gherardini afirma muito mais. E não só porque acusa muitos teólogos recompensados após o Concílio com a Púrpura cardinalícia (de Lubac, Congar, von Balthasar, Danielou: por ex. p. 90) e recorda como Rahner foi recebido pelo “magistério” (p. 100). A crítica de Gherardini dirige-se explicitamente ao Vaticano II, ao “magistério” ou o governo conciliar e pós-conciliar, a Roncalli (por ex. pp. 31, 74, 149-151, 191), Montini (por ex. p. 131, 149, 150, 156-157), Wojtyla (p. 56, 73, 107, 156-157) e mesmo Ratzinger (ao qual alude na p. 98). “Como seja possível uma hermenêutica da continuidade conforme tais premissas (aquelas postas pelo próprio João XXIII, n.d.a.) não faço a mínima ideia” (p. 151). São os próprios textos do Vaticano II ou os documentos “oficiais” a serem criticados. Há um elenco impressionante: a constituição dogmática sobre a Igreja Lumen gentium (p. 98, p. 203 sobre o novo conceito de pertença à Igreja, em conflito aberto com a encíclica de Pio XII Mystici Corporis, pp. 204-205) inclusive as atuais tentativas de interpretá-la em conformidade com a Tradição (p. 21-22); a sobre a Revelação, Dei Verbum, acusada de falsear o conceito de Tradição (pp. 118, 120, 125-126, 128); contra a Reforma litúrgica, que reduz o Sacrifício da Missa a uma Ceia (p. 159), chegando a falar de um “erro gravíssimo” (p. 160); contra Gaudium et spes (pp. 36, 69, 190, com a acusação de “antropocentrismo idolátrico”; pp. 200-201 com as acusações de naturalismo e sincretismo, ao ponto de confundir a Igreja com a humanidade); contra uma série de textos e decisões oficiais acusados de relativismo (pp. 93-95), tais como a comunhão na mão, a permissão da communicatio in sacris, a eficácia salvífica das confissões acatólicas e do hebraísmo, a deriva judaico-cristã, a aceitação da anáfora de Addai e Mari que não tem consagração, a confusão do Deus trinitário com o dos hebreus e muçulmanos, o culto do homem; contra a declaração Dignitatis humanaesobre a liberdade religiosa, que falseia a ideia mesma da Fé (o assentimento pessoal previsto pela DH 3, cf. p. 97, crítica original e interessante), é causa primeira “do deplorado relativismo” (p. 170); contra o ecumenismo de Unitatis Redintegratio e de João Paulo II (pp. 106-107); Unitatis redintegratio, conexa com Lumen Gentium, é declarada contrária à doutrina de Pio XII: há, entre as duas doutrinas, “um abismo” e não existe “hermenêutica da continuidade” (p. 205). No “plano qualitativo” (não melhor definido) “nenhum vínculo existe” entre a doutrina católica e o ecumenismo de UR: “O diálogo, tal como é aí teorizado e se o põe em prática, é a negação de toda continuidade. Constitui um novo começo e é o instrumento de uma nova Igreja, não mais ‘católico-romana’, mas a do concílio Ecumênico Vaticano II. Uma unidade não mais ligada à mesma Fé, aos mesmos sacramentos e ao Sumo Pontífice na realidade de sua sucessão de Pedro, mas aquela alargada pelo Concílio Ecumênico Vaticano II. Uma nova regula fidei e um novo ipse dixit: o Concílio Ecumênico Vaticano II” (pp. 211-212).

Particularmente articulado e contraditório o pensamento de Gherardini sobre a liberdade religiosa (cap. VII, pp. 163-188), o qual conclui mesmo falando do fato inescapável de um “magistério bifurcado” (leia-se: contrário, senão contraditório) embora admitindo que isso não seria possível (“Dois magistérios então? A pergunta nem sequer deveria ser feita, pois o Magistério da Igreja é por sua própria natureza uno e indivisível, aquele que foi criado por Nosso Senhor Jesus Cristo”): o fato, porém, é que “a diversidade é substancial e, portanto, irredutível. Resultam diversos, pois, os respectivos conteúdos. Os do precedente Magistério não encontram nem continuidade nem desenvolvimento no da DH” (pp. 187-188). Incompatíveis com a doutrina são as teorias sobre a comunhão “plena e não plena” (pp. 205-214) e sobre a “hierarquia das verdades” (pp. 214-215). Lendo UR “tem-se a impressão, ou de que se queira conciliar o inconciliável – fés, ao menos no essencial, diversas e entre si irredutíveis –, ou de que se perdeu o contato com a verdade absoluta – a Palavra de Deus revelada, isto é, Deus mesmo na sua Revelação – e de que tudo seja verdade e toda verdade possa coexistir com as outras, sobre o pedestal de uma mesma dignidade e relatividade” (p. 215). O “estupefaciente consenso” com os luteranos sobre a doutrina da justificação, tão caro a Ratzinger, para Gherardini, pelo contrário, deu razão a Lutero sobre o ponto fundamental de sua heresia (p. 218). Pouco fala da relação com as religiões não cristãs, já que a esse tema, e ao do ecumenismo, foi inteiramente dedicado o livro Quale accordo fra Cristo e Beliar? [Que acordo entre Cristo e Belial?] O título já diz tudo…

Sic et non: o Vaticano II em continuidade com a Tradição

Uma leitura parcial de Un discorso da fare leva assim à conclusão: logo, o Vaticano II não está em continuidade, mas sim em conflito, com a Tradição e a doutrina da Igreja. Noutras passagens do mesmo livro, às vezes na mesma página, o Autor sustenta, porém, o exato oposto: “o cavalo de Troia não foi propriamente o conjunto dos documentos conciliares” (p. 19), assim, “sob múltiplos aspectos – reconheço-o também com firmeza e convicção – o Vaticano II foi realmente um grande Concílio. Não se está longe da realidade se se reconhecer nele o sinal, eloquente e paradoxal, do Espírito Criador que passa, irrigando-os, pelos sulcos da história e da Igreja” (p. 34-35). Desculpas são continuamente invocadas (por ex. pp. 73,75) e a continuidade é explicitamente afirmada: “Apelar ao Concilio, pois, para endossar a radical subversão das posições doutrinais, disciplinares, litúrgicas e pastorais da Igreja pré-conciliar é substancialmente infundado” ao menos diretamente (p. 74); isso vale inclusive para Dignitatis Humanae, a declaração sobre a liberdade religiosa [7], liberdade religiosa que Mons. Gherardini confunde erroneamente com a doutrina tradicional sobre a liberdade do ato de Fé (por ex. pp. 171-173) para lograr assim declarar DH em continuidade com o magistério precedente: “abstratamente falando, DH não faz nem uma ruga: repete um ensinamento que, em sua substância, foi sempre o da Igreja: crer ‘sponte libenterque fiat, cum nemo credat nisi volens’” [N. do T. – “espontânea e livremente, pois que ninguém crê, senão por vontade” (PIO XII, Enc. Mystici Corporis)] (p. 182; cf. p. 178). Até mesmo no tão deplorado decreto sobre o ecumenismo, UR, para Mons. Gherardini “tudo bem ponderado e só formalmente falando, dir-se-á então que o vínculo com o passado é inegável tanto quanto o seu caráter evolutivo…” (p. 211).

Os motivos do sic et non: de outro modo, cai-se no sedevacantismo

Como explicar tantas oscilantes contradições? O próprio autor oferece uma chave interpretativa: “um Vaticano II fora e contra a Igreja teria sido não somente um absurdo histórico-teológico, mas também um elemento a favor dos assim chamados sedevacantistas e de quantos – com argumentos diversos – seguem-lhes o incauto juízo sobre a não autenticidade eclesial do último Concílio e, portanto, sobre a sua falta de autoridade eclesial. Alguns não se eximem nem mesmo de falar de Papas ilegítimos e de usurpação da sé petrina. Com efeito, a hermenêutica da ruptura não punha somente algumas flechas a mais no arco do pós-concílio(isto é, dos ultraprogressistas, n.d.a.): afastava do Concílio mesmo. (…) Nem vale a pena, por isso, desperdiçar mais alguma palavra numa desnecessária demonstração do Vaticano II como verdadeiro e autêntico Concílio Ecumênico e, portanto, como um fato – e que fato! – inequivocamente eclesial, pertencente à vida, à Fé e à história da Igreja” (p. 80). Não há necessidade de demonstrar… Mons. Gherardini afirma mas não prova, exatamente como ele próprio repreende por fazerem os defensores da hermenêutica da continuidade! (a continuidade deve ser “não declamada, mas sim demonstrada”, p. 255). No entanto, vimos que o próprio Mons. Gherardini demonstrou a hermenêutica da ruptura (cf. o que foi dito acima) e afirmou que um Concílio pode falhar mas, nesse caso, “o Concílio ecumênico cessa de ser tal” (p. 22-23). Pode acontecer, depois assim aconteceu, mas Mons. Gherardini não pode admiti-lo, nem sequer a si mesmo: cumpre excluir a hermenêutica da ruptura “dentre as possibilidades interpretativas do Vaticano II. Assim como de todo e qualquer Concílio. E quem, de boa fé, insistisse em propô-la, sem se aperceber disso se colocaria ao menos materialmente fora da Igreja. Pois exatamente esta foi e continua sendo a posição não só dos ‘sedevacantistas’, mas também de outros opositores”, ou seja os lefebvrianos [8], para não falar dos ultramodernistas (p. 85). Como podem os “outros opositores” do Vaticano II, ou seja os lefebvrianos, colocados aí fora da Igreja, exultar com o livro que estamos resenhando, é um mistério! De fato, a recusa de toda a crítica “tradicionalista” (inclusa a da Fraternidade São Pio X) ao Vaticano II em Mons. Gherardini é clara (p. 22, 26, 33 etc.): os defensores da “tese de Cassicíaco – Papa formaliter/materialiter” se autojustificariam com suas contorções mentais, é verdade, mas também nos lefebvrianos Gherardini bate forte: “na realidade, a reiterada acusação de ilegitimidade a todo pontífice eleito depois de Pio XII não é outra coisa que puro delírio, carente de nexo histórico e de base teológica. E delira igualmente quem, embora reconhecendo legítimos todos os sucessores daquele imortal Pontífice, negue-lhes incondicional obediência pelos sucessos negativos para os quais os seus desvios e os do Vaticano II teriam conduzido e conduziriam a Igreja” (p. 33). Que, assim, escrever mais livros de crítica aos tão louvados “papas” conciliares e ao “magistério” do Vaticano II e do pós-concílio, como faz Mons. Gherardini, seja um ato de “incondicional obediência” e não o exponha ao delírio de que falou acima, haveria que demonstrar por completo.

O método para chegar ao sic et non: a falibilidade do magistério conciliar

Sim, lestes muito bem: não está escrito INFALIBILIDADE, como seria normal, mas FALIBILIDADE. Nisso, Mons. Gherardini é sem dúvida lefebvriano. Como conciliar, de fato, as críticas feitas ao “magistério” mesmo, por Mons. Gherardini, e sua tenaz obediência (pena o delírio) à “autoridade” que assim errou no seu ensinamento, e há mais de 40 anos erra? Os lefebvrianos responderam desde o princípio com a tese do magistério “pastoral não dogmático”. Os mais recentes teólogos da Fraternidade e das comunidades amigas vão além: uma verdadeira Autoridade (Papa, Bispos, Concílio) não mais ensina há mais de 40 anos pois, sendo liberal e modernista, não tenciona ensinar [9]. Não é essa a tese de Mons. Gherardini. Para ele, o Vaticano II é não apenas “magistério supremo ordinário”, tal como foi declarado oficialmente, mas inclusive – como normalmente para um Concílio – “magistério solene” (pp. 52, 85, para a DH p. 165), ou seja, a máxima expressão do magistério. Não obstante isso, o Vaticano II não é dogmático (pp. 49-51) mas pastoral (pp. 23, 58-65, embora não se entenda o que isso quer dizer: pp. 47 e 63), mas, sobretudo, não é infalível, nem irreformável, nem vinculante (p. 51), se bem que se deva acolhê-lo como magistério solene (p. 52): entenda quem puder! A mesma coisa Mons. Gherardini disse, a seu tempo, das canonizações dos santos etc.: o motivo? Poder não aceitar – e mesmo poder criticar – um ensinamento oficial da “Igreja” e do “Papa”, sem ser constrangido a pôr em dúvida a legitimidade do “Papa”. Pouco importam as contradições e o aviltamento do Magistério da Igreja, o qual falível, reformável e não vinculante seria inútil e extraviante.

Para concluir: luzes e sombras de um livro

Escusamo-nos com Mons. Gherardini pelas arestas polêmicas deste artigo, e pelas eventuais incompreensões minhas. O seu livro, e os subsequentes, pedem uma atenta resposta in medio Ecclesiae. Dirige-se este, primeiro que tudo, a Bento XVI, e conclui-se de fato com uma “súplica” ao próprio (pp. 253-257). Não foram dadas ainda respostas, a não ser, como alguns fizeram notar até mesmo em Si Si No No, pelos fatos ecumênicos que são substancialmente um embargo [um “fin de non recevoir”, em francês no original – N. do T.] e uma porta fechada às observações precisas do teólogo da escola romana.

Entre os “tradicionalistas” (infeliz etiqueta) a acolhida foi mais positiva. Negativa por parte de alguns sedevacantistas e de alguns ambientes da Fraternidade São Pio X (Saint-Nicolas de Paris), positiva da parte da maioria da Fraternidade: Mons. Fellay, o Pe. du Chalard of course, o Pe. Pagliarani e a Tradizione CattolicaSì sì no no (que qualifica o ensaio de Mons. Gherardini como “magistral”). Os primeiros apresentam o livro como uma defesa da hermenêutica da continuidade; os outros como uma admissão da hermenêutuca da ruptura e uma prova do fato de as coisas estarem mudando se é que já não mudaram.

Parece-me que a nossa resposta deve ser mais articulada e complexa, como o livro que resenhamos.

Mons. Gherardini admite, com efeito, ainda que com muitas contradições, a existência de uma oposição entre a doutrina do Vaticano II e a da Igreja. O ensaio dele foi apresentado e, assim, de certo modo endossado por dois bispos, ainda que materialiter, o de Albenga e o de Ceylon; o de San Marino apresentou, por sua vez, a reedição de Romano Amerio; o primeiro livro de Mons. Gherardini foi editado por uma congregação religiosa (os Franciscanos da Imaculada). Certamente, como vimos, a denúncia do Vaticano II é limitada e contraditória, mas existe. Ela pode ser então usada, ao menos, como argumento ad hominem, para demonstrar que o problema existe, e que colocá-lo não é… um delírio! Mais. Mons. Gherardini escreve: Concilio Ecumenico Vaticano II. Un discorso da fare [Concílio Ecumênico Vaticano II. Um discurso a ser feito]. Ou seja: o questionamento sobre a ortodoxia do Vaticano II é um dever (p. 17) urgente e imprescindível, o mais importante para a Igreja. É verdade. Mons. Gherardini espera um esclarecimento: também nós, se bem que as modalidades desse esclarecimento sejam diversas, coisa não negligenciável! Esperamos que Mons. Gherardini, os teólogos na sua esteira, os bispos materialiter se ponham esse problema, aprofundem-no, e possam chegar à clarificação necessária, que incluirá, como já tivemos ocasião de escrever, uma modalidade semelhante àquela utilizada para esclarecer mas também para condenar o sínodo de Pistoia. Esse é o lado positivo do livro (e dos subsequentes), com a condição de que a análise crítica, então, não pare aqui. Se cremos na indefectibilidade da Igreja, e a Tese de Cassicíaco crê nela, e todo católico deve crer nela, não podemos não esperar também uma emenda de alguns – não necessariamente todos – daqueles que aderiram ao Vaticano II e aos seus erros, inclusive dentre os que ocupam as sés episcopais.

Se, em contrapartida, o livro de Mons. Gherardini (e outros similares) for visto como ponto de chegada e não como ponto de partida, ou como um ensaio “magistral” com o qual devemos nos alinhar, ou como a prova de que o “pontificado” de J. Ratzinger é restaurador da Tradição, aí então nossa recusa e nosso repúdio a essa manobra é total e definitivo. A tentativa de certas casas editoriais, de certas congregações religiosas, de certos representantes velhos e novos do assim chamado “Tradicionalismo”, de fazer aceitar de algum modo o modernismo do Vaticano II sob forma de “reforma da reforma” que deixa viva a reforma, deve ser decididamente denunciada e combatida.

Numa palavra, está bem que modernistas e liberais se desloquem rumo à verdade (contanto que não se detenham a meio caminho); não está bem que os católicos vão ao encontro deles movendo-se rumo ao modernismo e ao liberalismo ainda que “católico”. O problema das contradições internas do Vaticano II não é nosso – ou seja, daqueles que recusamos o neo-modernismo – mas deles, daqueles que o aceitaram; que alguns desses se façam perguntas, é positivo; que devamos fazer-lhes companhia e pôr em dúvida aquilo que é certo, é um discurso… a ser evitado.

Notas

1) A primeira edição de Iota unum remonta a 1985, pela imprenta do editor Ricciardi (desde 1938 pertencente ao conhecido banqueiro Mattioli). As edições Lindau, de Turim, cuidaram, em junho de 2009, da reedição, com um posfácio de Enrico Maria Radaelli. A edição Lindau de Iota unum foi apresentada em Roma a 30 de outubro de 2009, na Biblioteca Angelica, pelo prof. Radaelli, por Mons. Livi, pelo Pe. Nitoglia e por Francesco Colafemmina. Iota unum foi, porém, republicado (abril de 2009) também pela casa editora de Verona (sobre a qual, cf. adiante a nota 6) Fede e cultura, com prefácio de Mons. Luigi Negri, Bispo de San Marino. Fede e cultura é também a editora de duas obras de Mons. Gherardini. O catálogo das edições Lindau é muito interessante: abundam os autores do “tradicionalismo” mais ou menos ratzingeriano e os escritos antimuçulmanos (Del Valle, Bat Ye’or, i foglianti, C. Panella, G. Meotti e G. Israel etc.) e filo-hebraicos. Uma etiqueta, porém, das mesmas edições Lindau, de 2000, é L’età dell’Acquario [A Era de Aquário], especializada na publicação de textos maçônicos, esotéricos, teosóficos e Nova Era. Seria interessante saber quem são os responsáveis pelas (ao menos aparentemente) contraditórias escolhas editoriais da pequena casa editora de Turim. Uma primeira resposta encontramos ao constatar que Ezio Quarantelli, diretor editorial da Lindau, é também diretor responsável de Confini. Temi e voci dal mondo della cremazione [Confins. Temas e vozes do mundo da cremação], publicação da Fundação A. Fabretti (notório maçom do Risorgimento) da Socrem (Sociedade pela cremação). Ucci ucci, sento odor di massonucci! Digo logo que creio 100% na boa fé dos católicos que colaboram com Lindau (não é fácil encontrar um editor para quem, como nós, carece de meios), penso que as considerações desta nota possam ser úteis para desconfiar, no futuro, de quem se serve de nós e para procurar entender qual pode ser eventualmente a estratégia do inimigo em promover paradoxalmente autores e livros católicos.

2) Segundo Mons. Livi, Romano Amerio se insere numa corrente de “pensadores como Pascal, Arnauld, Buffier, Reid, Vico, Jacobi, Kierkegaard, Balmes, Newman e Rosmini, todos pensadores anti-cartesianos e anti-hegelianos, mas não anti-modernos”. O rosminianismo de Amerio é declarado, embora Rosmini tenha sido condenado pela Igreja e depois reabilitado por Ratzinger (cf. Sodalitium, n. 53 p. 34); um belo exemplo de “variações da Igreja Católica (sic) no século XX”.

3) Que, por si e especulativamente, Iota unum não se insira na corrente “ratzingeriana” da “hermenêutica da continuidade” não é uma opinião nossa, mas é tese defendida pelo próprio Amerio e por seus discípulos, como o professor Enrico Maria Radaelli: “O questionamento de fundo posto por Amerio em Iota unum – e na sua continuação Stat Veritas, publicação póstuma em 1997 aos cuidados de Enrico Maria Radaelli – é o seguinte: Toda a questão sobre o presente estado da Igreja se encerra nestes termos: é preservada a essência do catolicismo? As variações introduzidas fazem-no perdurar na circunstancial vicissitude ou antes fazem-no transgredir ad aliud? […] O nosso livro inteiro é um compêndio de provas desse trânsito” (p. 626 e, no Posfácio, p. 689). E ainda: “O Posfácio a Iota unum, sintetizando toda a tese do livro, mostra que as hermenêuticas sobre o concílio Vaticano II hoje são três: a primeira: é a hermenêutica sofística extrema da ‘escola de Bologna’ (Dossetti, depois Alberigo, hoje Melloni) e em geral de toda a ‘nouvelle théologie’ (Congar, Daniélou, De Lubac, Ranher, Schillebeeckx, von Balthasar etc.); é não teórica; ela promove e espera a descontinuidade e a ruptura das essências entre Igreja precedente e Igreja subsequente ao Vaticano II sob a cobertura das equivocidades textuais; a segunda: é a hermenêutica sofística moderada dos Papas que promoveram, atuaram e em seguida seguiram o concílio; é também ela não teórica; mas, ao contrário da primeira, que ademais a formou e produziu, ela estuda em tudo os modos de dar continuidade entre a essência pós e pré-conciliar, buscando torcer no sentido da Tradição as anfibologias e as equivocidades textuais supramencionadas; a terceira: é a hermenêutica veritativa de Amerio e, em geral, de todos os empurrados (mas só depois do concílio) para o assim chamado ‘tradicionalismo’; é teórica, portanto irrefutável e, na medida em que se apóia na Tradição, vinculante; ela constata e denuncia no Vaticano II a tentativa de ruptura e de descontinuidade com a essência; acrescente-se, no mais, que a irrealizabilidade dessa tentativa é, por todos os resistentes ao concílio (sem falar dos chamados ‘sedevacantistas’), crida absolutamente com fé, e por Amerio, como visto acima (primeiro parágrafo) e como evidenciado no Posfácio (§ 3 b, p. 698), também solidamente demonstrada, de modo que o Trono mais alto e toda a Igreja voltem o quanto antes a disso se beneficiar” (E. M. Radaelli). As últimas palavras dessa longa citação evidenciam as contradições de Amerio: o Vaticano II rompe – essencialmente – com o ensinamento da Igreja, mas – recusado o “sedevacantismo” – atribui-se o ensinamento dele à Igreja mesma, em contradição portanto consigo mesma. E destarte não é o “sedevacantismo” (ou, pelo menos, a Tese de Cassicíaco) quem nega o que “deve ser absolutamente crido com fé” (ou seja, a indefectibilidade da Igreja: as portas do inferno não prevalecerão contra ela), mas os “tradicionalistas” que negam a vacância da Sé, sejam os sequazes de Amerio ou de Mons. Lefebvre, segundo os quais é a Igreja Católica que, sofrendo uma variação essencial, é e não é ao mesmo tempo a mesma de antes. Por onde, se especulativamente Amerio se opõe ao Vaticano II (e não só a abusos ou entendimentos errados do Concílio), na prática, a vida inteira, ao contrário de Mons. Lefebvre, ele aceitou as suas reformas (inclusive a litúrgica), a sua disciplina, a sua hierarquia.

4) B. GHERARDINI, Quale accordo tra Cristo e Beliar? Osservazioni teologiche sui problemi, gli equivoci ed i compromessi del dialogo interreligioso [Que acordo entre Cristo e Belial? Observações teológicas sobre os problemas, os equívocos e as transigências do diálogo inter-religioso], Fede e cultura, Verona, abril de 2009 e, do mesmo autor, Ecumene tradita, Il dialogo ecumenico tra equivoci e passi falsi [Ecumenicidade traída. O diálogo ecumênico entre equívocos e passos em falso], Fede e cultura, setembro de 2009.

5) Assim um seu editor, Fede e cultura, apresenta Mons. Gherardini: “Brunero Gherardini (Prato, 1925), sacerdote (1948), laureado em teologia (1952) com especialização na Alemanha (1954-55), antigo catedrático da Pontifícia Universidade Lateranense e decano da Faculdade de Teologia, cônego da Basílica de São Pedro no Vaticano desde 1994, Diretor responsável da Revista Internacional “Divinitas” desde 2000, por trinta anos consultor da Congregação para a Causa dos Santos, escreveu além disso 80 volumes e várias centenas de artigos. Centro de sua investigação: a Igreja. Colateralmente mas em função complementar, aprofundou a figura e a obra de Lutero, a Reforma, o Ecumenismo, a Mariologia e a teologia espiritual. É uma das vozes italianas mais conhecidas inclusive no exterior”. Podemos acrescentar que Mons. Gherardini foi postulante da causa de beatificação de Pio IX. Ao contrário de Amerio, Mons. Gherardini não é rosminiano, mas tomista, se bem que da escola (que pretende ter redescoberto o “tomismo original” e conciliá-lo com Kierkegaard) do padre estigmatino Cornelio Fabro. Padre Guérard des Lauriers não compartilhava da interpretação que Fabro dava do pensamento de Santo Tomás.

6) Uma palavra sobre a casa editora Fede e Cultura de Verona, a não confundir com a associação Fede, Cultura e Società do Pe. Guglielmo Fichera. F&C não é a editora do livro ora resenhado, mas das obras subsequentes de Mons. Gherardini: vale a pena – assim como com a ed. Lindau – interessar-se pela outra editora, junto com Lindau e em concorrência com Lindau, de Romano Amerio. A casa editora nasceu apenas em 2005, mas em pouquíssimo tempo assumiu posição de primeiro plano entre as casas editoras próximas ao “tradicionalismo”. A linha não é, de fato, a da “hermenêutica da ruptura” mas a da “hermenêutica da continuidade”, em pleno apoio a J. Ratzinger e ao Motu proprio Summorum Pontificum, desejando explicitamente a Reforma da reforma. A casa editora se apresenta e se reconhece numa citação de “são” Josemaria Escrivá de Balaguer, e tem como “Protetor” o “Beato” Antonio Rosmini (condenado pela Igreja), “campeão da liberdade intelectual e responsável cultural”. É dedicada a ele uma coleção. Daí deduzo que F&C são “católicos-liberais”. São também decididamente favoráveis ao Judaísmo e ao Estado de Israel, malgrado Mons. Gherardini! Dentre os “links” amigos do diretor da casa editora, Giovanni Zenone (Prêmio Attilio Mordini, figura também conhecida de nossos leitores), figura no primeiro plano, com direito a bandeira israelita, o sítio de “Israele.net”, portal de Israel em italiano. Um dos livros do próprio Zenone, Il chassisismo. Filosofia ebraica [O chassidismo. Filosofia hebreia], publicado com prefácio de Massimo Introvigne (bem conhecido de nossos leitores) descreve a seita judaica como “esplêndido capítulo da religiosidade e do pensamento humano” e exalta o pensamento de Martin Buber. No campo filosófico, na esteira de seu mestre Mons. Livi (já citado a propósito das ed. Lindau) G. Zenone escreveu Maritain, Gilson e il senso commune, elogiando o humanismo integral maritaineano e pondo-se na corrente de pensamento pascaliana. Os “amigos” recomendados são – entre outros – CristianitàAlleanza Cattolica (Introvigne colabora com a F&C e a Lindau), Lepanto (que tem direito a uma coleção), os discípulos de Plinio Correa de Oliveira, os carismáticos de Mediugorje… todo um mundo que certamente não pode ser considerado oposto ao Vaticano II, mas que é a “direita” do mesmo. Quanto a Mordini, não espanta a simpatia por Israel de um “prêmio Mordini” (que militou, durante a guerra, como voluntário no exército alemão), já que Mordini considerava o hebraísmo e o islão religiões irmãs do cristianismo e, como Evola, admirava a Cabala (cf. FRANCO CARDINI, L’intellettuale disorganico [O intelectual desorgânico], Aragno ed., Torino, 2001, pp. 9, 57-59; F. CARDINI, prefácio a “Francesco e Maria” de A. Mordini, Cantagalli Siena 1986, pp. 8-9); sobre todo o ambiente, cf. o sempre atual Costruiremo ancora cattedrali: l’esoterismo cristiano da Giovanni Cantoni a Massimo Introvigne [Construiremos ainda catedrais: o esoterismo cristão de Giovanni Cantoni a Massimo Introvigne], in: Sodalitium, n. 50, pp. 17-34)

7) Mons. Gherardini – nas páginas talvez piores de seu livro – chega ao ponto de fazer sua a crítica que DH e o Vaticano II fazem à prática da Igreja, considerada “não conforme” assim como “contrária” “ao espírito do Evangelho” (cf. DH 12; Gherardini p. 170). Assim, Cristo teria combatido a intolerância pré-cristã (seja a pagã seja a veterotestamentária), assim teria sido Ele próprio vítima da intolerância, sendo que “alguns homens da Igreja agiram com a mesma intolerância que havia condenado à morte Jesus; a estes alude DH 12 frisando a falta de obediência deles ao Evangelho. A paz religiosa de Constantino (313), ainda que somente pelo ‘espaço de uma manhã’, havia, sim, privilegiado a Igreja, mas a preço caríssimo: a intolerância contra hereges e pagãos. Uma tal intolerância não correspondia nem ao ensinamento do Evangelho, nem àquele espírito evangélico sobre o qual a tradição patrística já vinha modelando o padrão da existência cristã…” (p. 171). Após ter condenado as conversões forçadas operadas por Carlos Magno (transeat, p. 171), Gherardini faz de Santo Tomás um campeão da tolerância (confundida com a liberdade do ato de fé, p. 172) para, em seguida, acrescentar inacreditavelmente: “Diversamente, enfim, pensaram inclusive alguns Papas”: os culpados de intolerância antievangélica teriam sido Paulo IV (com a instituição do gueto), Gregório XIII (com a obrigação para os judeus de ouvir as pregações cristãs), a Inquisição, que foi “tudo menos equilibrada” (p. 172). Embora postulador da causa de Pio IX, imperitamente defendido por ele (p. 175-177), Mons. Gherardini se mostra – nestas páginas – como aquilo que é: um católico-liberal.

8) Preciso que utilizo o termo “lefebvriano” no sentido, não polêmico ou depreciativo, de sequazes das doutrinas e da espiritualidade de Mons. Lefebvre; assim como se fala de dominicanos, franciscanos, inacianos, salesianos, tomistas, escotistas etc. Nesse sentido o termo não designa somente os membros da Fraternidade São Pio X.

9) Das duas, uma. Ou as “autoridades” conciliares não tencionam ensinar, e isso de maneira habitual, ou então tencionam ensinar. No primeiro caso, não tencionam realizar objetivamente e habitualmente o bem e a finalidade da Igreja, nem assumir as funções essenciais da Autoridade, pelo que, não são e não podem ser a Autoridade; no segundo caso, ao ensinarem o erro manifestam não ter a infalibilidade, a divina assistência, mas acima de tudo e mais claramente ainda “o estar com” (“Eu estarei convosco…”) prometido por Cristo, e portanto não podem ser a Autoridade. Em ambos os casos, não são a Autoridade.

Trad. br. por F. Coelho, São Paulo, set. 2011.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: