A MAÇONARIA PROVA A EXISTÊNCIA DO INFERNO, 1950 | por Pe. RÉGINALD GARRIGOU-LAGRANGE, O.P.

NOTA: Título original: "Confirmação: a maçonaria, que nega o inferno, é uma prova de sua existência". extraído do livro O Homem e a Eternidade, Ecclesiae, 2018, pp. 121-125.

Lendo a Encíclica de Leão XIII, Humanum genus, sobre a maçonaria, de abril de 1884, e as obras mais objetivas sobre esta questão (obras resumidas no verbete Franc-maçonnerie do Dictionnaire de théologie catholique) vemos qual é o objetivo real dessa instituição. [Ver também no Dict. Apologétique de la Foi catholique, o bom artigo Franc-Maçonnerie par l’historien.]

Depois que a malícia do demônio dividiu o mundo em dois campos, diz em resumo Leão XIII, a verdade tem seus adversários implacáveis. São as duas cidades opostas de que fala Santo Agostinho; aquela de Deus representada pela Igreja de Jesus Cristo, com sua doutrina de salvação eterna; e aquela de Satanás, com sua revolta contínua contra o ensinamento revelado. A luta é perpétua entre esta dois exércitos, e depois do fim do século XVII, data dos inícios da franco-maçonaria, que reuniu todas as sociedades secretas, as seitas maçônicas organizaram uma guerra de extermínio contra Deus e a Igreja. Elas têm como objetivo descristianizar a vida individual, familiar, social, internacional, e para isso todos os seus membros se vêem como irmãos em toda a superfície do globo; constituem uma outra igreja: uma associação internacional e secreta.

Leão XIII, no fim da mesma Encíclica, aponta a maneira com que estas seitas clandestinas se insinuam na confiança dos príncipes, sob o pretexto falacioso de proteger sua autoridade contra a dominação da Igreja; na realidade, é a fim de minar todo poder, como prova a experiência; porque em seguida, diz o Papa, esses homens enganadores bajulam as multidões, fazendo brilhar a seus olhos uma prosperidade da qual os reis e a Igreja seriam os únicos inimigos. Em suma, precipitam as nações no abismo de todos os males, nas agitações revolucionárias e na ruína geral, da qual não lucram senão alguns ardilosos.

Este objetivo real de descristianização da sociedade foi primeiramente mascarado por um objetivo aparente. A seita se apresentou no início externamente como uma sociedade filantrópica e filosófica. Mas em seguida, após seus triunfos, tirou a máscara. Ela se glorifica de todas as revoluções que agitaram a Europa, em particular da Revolução Francesa, de todas as leis contra o clero e as ordens religiosas, da laicização das escolas, da retirada do crucifixo dos hospitais e tribunais, da lei do divórcio, de tudo o que descristianiza a família e diminui a autoridade do pai, para o substituir pela do Estado ateu. Ela pratica a divisa: dividir para reinar. Separar da Igreja os reis e os Estados; enfraquecer os Estados, separando-os uns dos outros para dominá-los por um poder oculto internacional; preparar os conflitos de classes, separando os patrões dos operários; enfraquecer e arruinar o amor da pátria; na família, separar os esposos tornando o divórcio legal e sempre mais fácil; separar, enfim, os filhos dos pais, para fazê-los presa da escola chamada neutra, mas ímpia, e do Estado ateu.

Ela pretende trabalhar também pelo progresso da civilização, rejeitando toda revelação divina, toda autoridade religiosa; os mistérios e os milagres devem ser banidos do programa científico. O pecado original, os sacramentos, a graça, as orações, os deveres para com Deus são absolutamente rejeitados; do mesmo modo a distinção do bem e do mal: o bem é reduzido ao útil, toda obrigação moral desaparece e as sanções da outra vida não existem mais. A autoridade não vem de Deus, mas do povo soberano.

Em particular, o ódio de Jesus Cristo reina na maçonaria, a blasfêmia e a imprecação são especialmente reservadas ao seu santo Nome; buscam mesmo hóstias consagradas para profaná-las do modo mais ultrajante. A apostasia é exigida na recepção dos graus elevados. Aos olhos dos iniciados, como àqueles dos hebreus endurecidos, a condenação de Jesus de Nazaré pela autoridade judiciária é perfeitamente justificada e a crucifixão legitimada. A Igreja Católica é, portanto, combatida como inimiga. Enfim, a noção de Deus, primeiramente tolerada, é riscada do vocabulário maçônico.

A perversidade satânica da obra aparece enfim pelo segredo que envolve seus projetos. Os principais objetivos, discutidos nos comitês misteriosos, são absolutamente subtraídos do conhecimento dos profanos e mesmo dos afiliados de categoria menos elevada. Quanto aos iniciados, quando da recepção dos graus superiores, juram nunca revelar os segredos da sociedade, e eles que se posam como defensores da liberdade, se entregam completamente a um poder oculto que não conhecem, e cujos projetos mais ocultos provavelmente não conhecerão nunca. O roubo, a supressão de documentos importantíssimos, o sacrilégio, o assassinato, a violação de todas as leis divinas e humanas poderão lhes ser impostas; sob pena de morte, deverão executar estas ordens abomináveis.

Julga-se a árvore por seus frutos; a raiz desta arvore má é o ódio a Deus, a Cristo Redentor e à sua Igreja; é, portanto, uma obra satânica, que é, à sua maneira, uma prova da existência do Inferno, deste Inferno que a própria seita pretende negar.

Não se deve, portanto, surpreender que a Igreja tenha condenado várias vezes a franco-maçonaria, sob Clemente XII, Bento XIV, Leão XII, Gregório XVI, Pio IX, Leão XIII. [Cf. Denz., 1697, 1718, 1859ss.] O Santo Ofício, na sua circular de fevereiro de 1871 ao episcopado, impõe mesmo a obrigação de denunciar os corifeus e os chefes ocultos destas sociedades perigosas; o filho não é dispensado de denunciar seu pai e vice-versa. O esposo deve agir do mesmo modo com relação à sua esposa, o irmão com relação à sua irmã. [Cf: Dict. théol. cath., art. Franc-maçonnerie, col. 728] O bem geral da sociedade requer essa severidade. O motivo desta decisão do Santo Ofício é fundado nas mentiras a que recorrem as lojas, apresentando ao público nomes falsos.

A maçonaria, que é a primeira a negar o Inferno, é, portanto, por sua perversidade satânica, uma prova de sua existência. Isso aparece especialmente nas profanações da Eucaristia; são manifestamente inspiradas pelo demônio e supõem sua fé na presença real. Esta fé do demônio, como explica Santo Tomás, [ST, IIa IIae, q. 5, a.2.] não é a fé infusa e salutar com humilde submissão do espírito à autoridade de Deus revelador, é uma fé adquirida que se funda somente na evidência dos milagres, porque o demônio vê bem que são verdadeiros milagres, totalmente distintos dos sortilégios de que ele é o autor. Essas horríveis profanações de hóstias consagradas são, portanto, à sua maneira, uma prova sensível da malícia satânica, e por conseqüência, do Inferno, ao qual Satanás foi condenado. Assim, o próprio demônio confirma o testemunho da Escritura e da Tradição, que ele gostaria de negar.

Além disso, de vez em quando, como na última guerra, aparece um ódio espantoso: diríamos que o Inferno se entreabre debaixo de nossos pés. Isso confirma a Revelação: os crimes dos quais não se arrepende serão punidos com uma pena eterna.

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