PAULO KOGOS CONTRA PIO XI: UMA BREVE APOLOGIA NECESSÁRIA

Soube que o sr. Paulo Kogos em uma história do seu perfil na rede social Instagram (não recomendo nenhuma rede social) disse que Pio XI, de feliz memória, foi o papa “mais frouxo” da história. Digo isso porque perguntaram a ele “Qual o Papa mais frouxo/falso antes de Bergóio [sic]?”. A resposta evidentemente não poderia ser mais infeliz e mostra a quase total ignorância de Kogos com respeito ao papado e respeito devido ao Vigário de Cristo. Segue a imagem abaixo:

Primeiramente, o que realmente marcou o pontificado de Ambrogio Damiano Achille Ratti, o penúltimo Papa da Igreja? A história nos mostra que os papas que carregaram o nome Pio quase sempre se destacaram mais que boa parte dos outros. Como esquecer São Pio V, que fechou o mais importante concílio ecumênico da história da Igreja, o Concílio de Trento, o Missal até hoje usado por católicos verdadeiros, a sua quase participação mística na Batalha de Lepanto etc? Tem também Pio VI, com sua espetacular Constituição Auctorem Fidei, documento que é uma referência até hoje, em que condenou várias proposições do Sínodo de Pistoia, conciliábulo jansenista. Pio IX, que na minha opinião foi o maior Papa desde São Pedro, o mais mão de ferro da história da Igreja, o Papa da importantíssima encíclica Quanta Cura; do Syllabus; do Concílio Vaticano I, o último concílio ecumênico da Igreja; que condenou diversas vezes o liberalismo, racionalismo, comunismo e diversas outras falsas doutrinas; também memorável pela promulgação dos dogmas da Infalibilidade Papal e Imaculada Conceição, muito difamado até hoje. E evidentemente destaco também São Pio X, Papa notável por seu combate feroz contra o modernismo e Pio XII, o último Papa da Igreja, o verdadeiro Papa de Fátima, o Papa que pegou o mundo se revirando e deu todas as atualizações que a Igreja precisava (diferente do conciliábulo Vaticano II). E o que fez Pio XI de tão especial?

Pio XI foi o Papa das encíclicas Quas Primas, que promoveu a doutrina do Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo; da Casti Connubii, que enfatiza a doutrina católica sobre o Sagrado Matrimônio; da Miserentissimus Redemptor, relembrando a devoção ao Sagrado Coração de Jesus; da Quadragesimo Anno, condenando o liberalismo e socialismo em homenagem aos quarenta anos da Rerum Novarum de Leão XIII; da importantíssima Mortalium Animos, sobre a autêntica unidade da Igreja condenando o falso ecumenismo hoje promovido pelo falso clero modernista; e por fim das encíclicas Non abbiamo bisogno e Mit brennender Soger, que condenam respectivamente o fascismo e o nacional-socialismo, que Kogos tanto detesta. Pio XI foi responsável por diversas concordatas com países católicos com destaque para o Tratado de Latrão e foi o Papa que canonizou São Roberto Belarmino e o elevou a Doutor da Igreja, assim como o importante santo também jesuíta São Pedro Canísio, ambos os doutores adversários ferozes do protestantismo.

Como podemos ver, Pio XI foi um grandíssimo Papa que em muito pouco deve para os seus outros homônimos. Todavia, sua imagem foi muito estigmatizada por causa de três coisas, e Kogos chamou a atenção para duas. A primeira coisa que o estigmatiza – a qual muitos tradicionalistas, infelizmente chamam atenção, mas não é o caso de Kogos – foi o fato de supostamente não ter dado atenção para as profecias de Fátima e não ter atendido aos pedidos de Nossa Senhora. As aparições foram em 1917, e o pontificado de Pio XI foi de 1922 a 1939. O pedido de Nossa Senhora foi em 1929, quando ela disse: “Chegou o momento em que Deus pede que o Santo Padre, em união com todos os bispos do mundo, consagre a Rússia à minha Coração Imaculado, prometendo assim salvá-la. São tantas as almas que a justiça de Deus condena pelos pecados cometidos contra mim, por isso venho pedir reparação: sacrifique-se com esta intenção e reze”. Isso foi pouco menos de dez anos antes do fim de seu pontificado. O pedido é, não nego, muito conveniente, mas cabe lembrar a muitos que não existe nenhuma obrigação formal do Papa realizar tal consagração por se tratar de uma revelação privada. Pio XI não chegou nem perto de pecar por encerrar o seu pontificado sem consagrar a Rússia. Quem o critica por isso está simplesmente colocando a doutrina do papado abaixo de uma revelação privada. É inverter totalmente os valores.

Com relação aos Cristeros, que impiamente Kogos chamou de traição, convém lembrar o seguinte: a assistência do Espírito Santo não dá ao Papa o poder de onisciência que só cabe a Deus. Pio XI não conhecia as contingências do conflito. A sua dedicação durante toda a Guerra Cristera foi heróica e paternal, mas infelizmente em 1928, influído por bispos liberais tanto do próprio México como por americanos, aprovou um acordo pelo qual convidava os cristeros e depor as armas em troca da liberdade de culto para os católicos, que viviam no jugo anticristão do Partido Revolucionário Institucional. Os cristeros cumpriram o acordo, mas o regime judaico-maçônico de Portes Gil, sucessor do maçom Plutarco Elías Calles, massacrou os que fizeram isso. Sabendo disso, o Papa Pio XI, sofrendo muito com um coração aflito, voltou ao combate. Tanto que publicou em Acerba animi, que denunciou a violação do acordo e enfureceu o governo. O sr. Kogos ignora esse fato? Parece que sim. Será que ele faria melhor se estivesse sentado no Trono de Pedro no lugar de Pio XI? Aliás, quem faria melhor? A primeira pergunta tem resposta óbvia, mas a segunda não tem. Vamos à terceira coisa.

Novamente temos aqui o Pio XI em situação difícil. Ainda que a condenação à Action Française fosse um erro de estratégia, a pergunta é: foi errada no âmbito doutrinário? A resposta é absolutamente não. A direita é tão inimiga da Religião quanto a esquerda. Isso devemos deixar bem claro. Vamos aos fatos: a esquerda detesta a Religião e mostra isso explicitamente. A direita gosta da Religião porque lhe é útil. E assim via a Action Française, que era totalmente laicista e positivista, mas por ser uma oposição à esquerda liberal, que era de fato muito pior, contava com apoio de vários clérigos, entre os quais o mais notável era o Cardeal Louis Billot, que renunciou depois ao seu cargo. A Action Française tinha como principal mentor Charles Maurras, que publicou diversos livros com várias citações anticristãs e que por isso foram parar no Index Librorum Prohibitorum, Charles Maurras foi excomungado e o movimento Action Française condenado.

Aqui vemos uma coisa que poucos entendem: é evidente que o que a Action Française era na melhor das hipóteses um mal menor, mas ainda assim um mal, não um bem. Erram, portanto, os defensores de Charles Maurras, entre os quais podemos incluir gigantes entre os quais admiro como Gustavo Corção e o Cardeal Billot e outros nomes do movimento tradicional como Jean Madiran e Mons. Lefebvre. Erram também o que querem condenar taxativamente crendo que a Action Française defendia um totalitarismo e que a democracia seria um mal menor. Não é um mal menor e tanto que a democracia liberal foi condenada por São Pio X em Notre charge apostolique.

Agora fica a pergunta: Pio XI seria frouxo condenando a Action Française por quê, se a própria obra de Charles Maurras e os princípios do movimento eram dignos sim de serem condenados? Pode-se discutir se aquele momento era oportuno ou não. Se a condenação serviu para muitos católicos caírem para a esquerda, como aconteceu com Jacques Maritain, julgo discutível. E ainda digo que o ato de Pio XI serviu mais para desmascarar os católicos esquerdistas do que fazê-los desiludir. Não sou do tipo que pensa que a ocasião faz o ladrão, mas que a ocasião o revela. A condenação da Action Française foi exatamente isso. Assim fica clara a coisa: podemos discutir se a condenação naquele momento era oportuna ou não, mas que se poderia ou mesmo deveria isso é indiscutível.

Assim vemos uma razão gravíssima para desvincular o nome de Paulo Kogos do sedevacantismo como já expus AQUI. Insultar um Papa de tão grande e feliz memória é inadmissível para qualquer um que se digne de receber esse importante e grave título de católico. Espero de coração que Paulo Kogos leia esse texto e reflita a sua atitude.

2 comentários em “PAULO KOGOS CONTRA PIO XI: UMA BREVE APOLOGIA NECESSÁRIA

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  1. Salve Maria! Ótimo artigo, no mesmo nível dos outros! Luciano, saberia me informar se Pio X, Pio XI ou Pio XII foram assassinados? Já vi em comentários no Youtube algo semelhante, mas não achei informações mais concretas sobre isso.

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