A PERGUNTA FUNDAMENTAL, A LINGUAGEM E A NOÇÃO DE VERDADE

A PERGUNTA FUNDAMENTAL

Quando as crianças começam a aprender a falar e raciocinar, elas são dominadas por uma pura e inocente curiosidade. Não é a vã curiosidade dos mundanos, que podemos chamar de “gula no olhar”, mas um honesto desejo de conhecer, pois o homem que busca esse conhecimento honesto, passa a conhecer o bem que devemos buscar e o mal que devemos evitar. Devemos ser, assim, como criancinhas, como ensina o Nosso Senhor, conhecer honestamente o bem e desejar esse bem, mas para tal, é necessário saber o que perguntar. A criança é humilde e pura. Assim também devemos ser na busca da sabedoria.

Aprendemos em outro lugar que o ente é aquilo que é (cf: BREVE NOTA SOBRE O ENTE) e que sem o ente, é absolutamente impossível qualquer pensamento. Mas aqui implica um problema seríssimo: se tudo é ente, então não precisamos saber mais nada. Podemos apontar uma pedra, uma árvore, um cão, um homem etc e dizer que é ente. Mas na prática não é assim que as coisas funcionam porque, com efeito, vemos diante de nossos olhos, que entes são diferentes. Então, saber que tudo é ente não ajuda em nada. Devemos assim saber o que é cada uma das coisas. Para isso é preciso saber fazer a primeira pergunta que o sábio costuma fazer e sempre com a humildade de uma criança: O que é [isso/esta coisa]? Apontar algo e perguntar o que é e responder que é ente não ajuda nada, não responde a nada. No estudo da filosofia de forma mais avançada, há ainda a pergunta “se existe”, mas aqui devemos lidar apenas com o que é evidente, isto é, que não há dúvida se existe por estar acessível aos nossos sentidos. Ademais, como responder a tal pergunta? Qual é a forma mais correta de responder?

Quando perguntamos o que é tal coisa, geralmente respondemos apenas dando o nome. Nome, segundo o Filósofo, é uma voz significativa por convenção, sem tempo, e nenhuma parte sua separada é significativa (Periermeneias, 16a19s). Vejamos por partes como explica Santo Tomás de Aquino no Comentário a essa obra fundamental (In Periermeneias I, 4, 3-8). Ele observa cinco coisas na definição de Aristóteles:

  1. A voz para Aristóteles é um som emitido pela boca de um animal. É a primeira forma de comunicação que utilizamos;
  2. O nome é uma voz significativa porque significa algo. Mesmo o homem pode emitir uma voz que não significa nada, como um gemido. Nome, ao contrário, deve necessariamente significar algo.
  3. Por convenção ou beneplácito, porque o nome é uma matéria da linguagem e linguagem é uma arte que serve para comunicar concepções mentais a outrem. Um nome cujo significado não tenha sido reconhecido por convenção não pode ser comunicado.
  4. Nome é sem tempo para distinguir do verbo, que é temporal. A definição de verbo é quase igual da definição do nome, com a única diferença de que o verbo é com tempo.
  5. As partes dos nomes não podem significar nada. Aqui vemos a diferença entre o nome e a oração, que é composta por mais de uma palavra.

Quando, por exemplo, dizemos “homem”, proferimos uma voz que deve significar por convenção aquela coisa que você e também a pessoa comunicada conhece como “homem”. Mas temos de dar mais um passo. Apenas dizer o nome ainda não basta porque precisamos conhecer a coisa bem para que não caiamos na língua bífida dos modernistas. Aqui aprendemos o que é ente e o nome, que deve significar o ente. Mas a inteligência humana foi criada para ir além do nome e do ente significado.

Se retornarmos ao que foi dito, vemos que os entes reais, que por sua natureza são por si, aos quais chamamos substâncias, vemos que eles são diferentes. Foi explicado que nas substâncias temos o que chamamos de acidentes, e, de fato, os acidentes diferenciam a maior parte das substâncias como veremos. Mas aqui não é a principal forma de diferenciar uma substância da outra. Se pegamos, por exemplo, João e Pedro, vemos aqui dois homens, cuja diferença principal é numérica, pois João é um homem e Pedro é outro homem. Depois pode haver outras diferenças acidentais como cores, tamanho, peso, posição, local etc. Mas sabendo que ambos são homens, não há muito o que perguntar, pois para o sábio a diferença acidental em nada interessa, pois se perguntarmos a diferença que há entre João e um cão ou um carvalho, fica muito mais difícil, pois aqui não há semelhanças acidentais apenas. As diferenças acidentais entre dois homens são muito mais fáceis de identificar do que entre um homem e um outro animal bruto, porque no primeiro caso são de dois indivíduos da mesma espécie e no segundo temos dois indivíduos de espécies animais diferentes. Se se trata entre um homem e um carvalho, já são dois reinos diferentes. Então vemos aqui uma diferença muito mais profunda do que cor, altura e qualquer outro acidente, mas sim uma diferença segundo o modo de ser da coisa.

O que aqui digo é que não basta dizer o nome da coisa, mas dizer o que ela é. Aqui entramos já num terreno mais aprofundado, pois demos um passo mais além do que foram os filósofos modernos que rejeitam o que vai além dos acidentes (que eles chamam de fenômenos, daí vem a fenomenologia, que contamina o pensamento do falso clero modernista, como se vê principalmente nos ratzingerianos). Rejeitar o que vai além dos acidentes é simplesmente se nivelar no nível dos animais brutos, que conhecem apenas o mundo sensível. Uma vez que conhecemos as coisas que nos são externas e pelos sentidos percebemos os seus acidentes, a nossa inteligência nos permite perceber o modo de ser das coisas. O que vemos, pois é o seguinte: existem substâncias que possuem um domínio, um senhorio maior sobre seus acidentes do que outras substâncias. Assim, observamos que uma pedra é inerte ao que lhe é externo, enquanto a árvore que está ao seu lado cresce, as suas folhas mudam de cor e pode brotar uma outra árvore da mesma espécie da semente desta que cair perto. A árvore vai crescendo, mas não por um inerte acúmulo de material como acontece com certas formações rochosas, mas por virtude do seu próprio organismo que ainda busca seus nutrientes da entranha da terra e pela realização da fotossíntese. Isso se deve ao fato de que a árvore é viva e o senhorio sobre os acidentes das substâncias viventes é a principal características destas em detrimento das que não são viventes. Vemos aqui um verdadeiro abismo entre uma pedra e uma árvore.

A diferença entre a árvore e um cão é também abismal, pois aqui vemos uma substância que já busca por si mesmo recursos que não se encontram onde ele estava anteriormente. Ele possui a capacidade de já, ainda que com muitas limitações, aquilo que ele precisa buscar e o que precisa repelir. É próprio dos animais conhecer pelos sentidos externos e, no caso dos mais evoluídos, internos. Alguns possuem todos os cinco sentidos externos (visão, audição, tato, olfato e paladar). O tato é o mais geral de todos e os outros quatro sentidos têm algo de tato. Tanto que uma luz muito forte dói na vista e um som muito alto faz doer o ouvido. Todos os animais possuem pelo menos o tato, como alguns mariscos, que só possuem esse sentido. Aqui temos a substância vivente sensível, que, diferente das substâncias viventes vegetais, possuem as potências sensíveis no seu ser.

Todavia, a diferença que há entre um cão e um homem é também gigantesca. Não se trata apenas de conhecer sensivelmente as coisas, mas sim de ser inteligente ou não. A diferença entre um cão e um homem é infinitamente maior do que entre um ignorante analfabeto e um filósofo genial porque não se trata aqui de uma diferença de nível de potência, como pretendia iniquamente Charles Darwin, mas uma diferença daquilo que chamamos essência, que explicarei em breve. Enquanto os animais brutos conhecem apenas o que é sensível, pois não possuem si a necessidade de conhecer mais do que isso, o homem, mesmo os mais ignorantes, conhecem o que a coisa é. O homem sabe o que é uma galinha, mas a raposa só conhece a galinha como algo de comer. Isso porque o homem é racional, enquanto todos os outros animais são brutos ou irracionais. É a potência racional que faz o homem conhecer as coisas por suas causas, meditar, desenvolver artes e, principalmente, conhecer e buscar deliberadamente o seu fim último com essa mesma potência elevada sobrenaturalmente com a virtude sobrenatural da fé. Por essa razão é absolutamente impossível um macaco desenvolver a potência racional. 

A conclusão é essa: na diferença entre a pedra e a árvore, dei uma diferença entre uma substância não-vivente (mineral) e vivente. A diferença entre a árvore e o cão é a diferença entre uma substância vivente vegetal e uma substância vivente sensível (animal). A diferença entre o cão e o homem é a diferença entre uma substância vivente sensível bruta e a substância vivente sensível racional. Aqui o nome animal deve significar o gênero próximo da espécie do homem, que é SUBSTÂNCIA VIVENTE SENSÍVEL RACIONAL. Chamando pelo gênero próximo e diferença específica: ANIMAL RACIONAL. Assim podemos dar as respostas. Se um homem se dá aos sentidos e for perguntado o que é isso, podemos responder o que é isso, respondemos que é um homem. Todavia, se perguntar o que é homem, respondemos pela definição dada acima, depois de uma prudente e sábia divisão da noção de substância: que o homem é substância vivente sensível racional ou animal racional.

Aqui alcançamos a definição de homem. Definição vem de definir (do latim: definitio), que significa dar fim, discernir os limites ou encontrar os aspectos qüididativos (explico mais tarde o que significa isso) ou essenciais da coisa. A definição de definição (com o perdão da repetição) que Santo Tomás dá é “uma oração que significa ‘aquilo que [a coisa] é” (Comentário ao Analíticos Posteriores de Aristóteles, II, lição 2, 49). Nem em todos os nomes sempre encontraremos a definição, pois em alguns encontramos apenas o conceito, que é de característica mais descritiva, uma vez que a definição encerra totalmente o que a coisa é. Quando chamamos o homem de substância vivente sensível racional, temos aí absolutamente tudo o que o homem é. Numa pitoresca anedota, Diógenes o Cínico, ao ouvir Platão definir o homem como bípede implume, furtou uma galinha de uma granja, a depenou e jogou diante de Platão exclamando: “Eis aqui o teu homem!” Diante dessa cena, Platão teria dito que o homem seria um bípede implume com unhas chatas. O que ainda é uma definição infeliz, pois ainda se foca nos acidentes e não naquilo que há de essencial, no modo de ser das coisas.

LINGUAGEM E A NOÇÃO DE VERDADE

Aristóteles, no seu fundamental livro Sobre a Interpretação, nos ensina que os nossos sentidos recebem da realidade o que chamamos de influxos. Esta realidade é absolutamente autônoma e que existe independente da nossa existência, apesar do idealismo surgido na Alemanha e no Império Prussiano, como ensinarei mais tarde. Esses influxos são o vermelho da maçã, o calor dos raios do sol, o odor dos perfumes etc. O ato de receber esses influxos chamamos de paixões (palavra muito deturpada pelo movimento romântico) e essas paixões (que são todas dos sentidos externos: visão, audição, tato, paladar e olfato) formam a imagem sensível na imaginação, que chamamos também de fantasma. A formação dessa imagem sensível se dá com os quatro sentidos internos. Assim, o sentido interno do sentido comum reúne as informações das paixões, a imaginação ou fantasia compõem a imagem sensível ou fantasma, a memória guarda essa imagem sensível (que também se torna a imagem intelectual como veremos) e a cogitativa ou razão inferior (que nos animais chamamos de estimativa) distinguirá essas imagens. A partir dessas imagens sensíveis, o intelecto agente abstrairá as imagens intelectuais e assim vai fecundar o intelecto possível. Essa parte é bem árdua de entender, mas o mais importante é entender que, como dito acima, a imaginação serve a inteligência, se subordina a ela. Ademais, a abstração descrita aqui é ensinada por Santo Tomás, retomemos aqui o que Aristóteles ensina.

Aristóteles ensina que as paixões formam no intelecto as concepções mentais, que são as imagens intelectuais. Essas concepções mentais devem necessariamente significar as coisas das quais derivam as paixões causadas pelos influxos da realidade. E depois lembramos depois que o homem é um animal social. Ora, o homem é racional, mas ele também nasce completamente desprovido de qualquer meio de defesa ou ataque. Com efeito, ele dependerá quase que totalmente de outro para cooperar com a segurança, sustento e a própria formação. O homem, para ser mais própria e perfeitamente homem, precisa de outrem para aprender a ser assim e desenvolver as suas principais potências: o intelecto (com qual conhece a coisa e raciocina) e a vontade (com qual quer o bem conhecido pelo intelecto). O homem assim forma a imagem intelectual da coisa conhecida pelo intelecto independente de outrem, mas para aprender o que tal coisa é precisa de outrem. A pessoa para aprender precisa de outrem, mas como isso se dá? Ora, aprende a partir do momento em que a concepção mental conhecida passa a ser comunicada mediante o signo verbal. Esse signo verbal deve significar a concepção mental que a pessoa tem e essa concepção mental deve significar a coisa abstraída mediante as paixões. Aqui temos a definição da primeira arte que o homem desenvolveu, que é a Linguagem. A definição de Linguagem é: a arte de comunicar as nossas concepções mentais a outrem.

Mas nem sempre é possível encontrar a pessoa a quem precisamos comunicar as nossas concepções mentais. Mas a inteligência humana desenvolveu uma arte que ajudou a resolver esse problema, que, a partir de certos artefatos adequados (veremos mais tarde o que são as artes servis), produz signos escritos que necessariamente devem significar os signos verbais. Assim surge a arte da Gramática que é: a arte de comunicar as nossas concepções mentais a outrem distante no espaço e no tempo.

O fato de as concepções mentais deverem significar a coisa abstraída é essencial. Pois, de fato, se a nossa concepção mental não significar necessariamente a coisa e acabamos por não conhecer a coisa. A concepção mental que formou na inteligência mental acaba por ser falsa. Isto é, é falsa porque a inteligência, por formar uma concepção mental falsa da coisa, não se adequou à coisa. Para que a concepção mental da coisa seja verdadeira é necessária uma adequação entre o que se formou na inteligência e a coisa inteligida. Assim alcançamos aqui o conceito clássico de verdade que Santo Tomás usa na Suma Teológicaa verdade é a adequação entre a coisa e o intelectoVeritas est adequatio et rei et intellectus (I, q. 16, a. 1, corpus). Aqui temos a noção de verdade segundo o nosso intelecto. Com relação a Deus é diferente. A coisa é absolutamente verdadeira segundo a relação com o intelecto com o intelecto de que depende, por isso que a nossa noção de verdade aqui é acidental porque as coisas em si não depende de nosso intelecto. A verdade propriamente dita depende única e exclusivamente segundo o que está no intelecto divino porque absolutamente tudo depende do intelecto divino. A verdade segundo a nossa noção é acidental porque é uma relação: a relação de adequação entre o intelecto e a coisa.

Esclareço então o que é a verdade aqui: é a adequação entre o intelecto e a coisa. É a verdade abstraída pelo intelecto que dirá se a coisa abstraída é verdadeira ou não. Todos os entes enquanto entes são verdadeiros porque todos possuem as suas formas no intelecto divino. Mas a concepção mental de tal ente nem sempre será adequada e se não se adequar, teremos aqui a falsidade. A falsidade aqui não é o mesmo que hipocrisia, como usamos na linguagem do cotidiano. Falsidade é apenas a inadequação entre o intelecto e a coisa. E isso também difere da mentira, que é a expressão verbal contrária ao que está no intelecto e assim induzir outrem ao erro. Com relação à mentira, ainda que a pessoa diga algo verdadeiro, se a intenção for expressar algo diferente que está no intelecto e assim querer induzir outrem ao erro, ela estará mentindo. Nesse caso, a pessoa que está mentindo estaria dizendo a verdade apenas acidentalmente. Assim como uma pessoa que abstraiu falsamente uma coisa (inadequação entre o intelecto e a coisa) e expressar essa abstração falsa não estará mentindo porque, ainda que expresse uma falsidade, não é com a intenção de levar alguém ao erro, pois é a convicção errônea dela.

Essa noção de verdade nos dá uma luz importantíssima que nos faz chegar a diversas conclusões. Uma delas é a seguinte: se a coisa é absolutamente verdadeira segundo a relação com o intelecto de quem depende e tudo depende do intelecto divino, isso nos faz concluir que a Verdade absoluta é Deus. Deus é a Verdade propriamente dita como Nosso Senhor Jesus Cristo disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6). Depois, convém dizer que a verdade (segundo a noção que tratamos aqui de relação de adequação) é justamente combatida porque as pessoas que a combatem rejeitam a Deus. Que a verdade para nós dependa de tal relação de adequação, isso enfurece os liberais modernistas. Podemos enxergar isso na ideologia de gênero, pois uma pessoa que rejeita o sexo com qual nasceu é provavelmente o mais explícito exemplo de inadequação que vemos hoje. O problema maior é que não raro o mundo moderno, dominado por liberais, quer forçar a inadequação, que é provavelmente a pior das tiranias porque é o mesmo que nos obrigar a negar a verdade e consequentemente a Deus.

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