MONSENHOR LEFEBVRE CONTRA BUGNINI: UM CONFLITO MUITO ALÉM DA MISSA

O personagem mais notável após o término do Concílio Vaticano II foi sem dúvida o Mons. Marcel Lefebvre. Ainda que tenha cometido seus erros, pois é dele inclusive a concepção bem errônea da Paixão da Igreja, como podemos ler nessa infeliz citação:

É preciso ter vivido desde 1960 até aos nossos dias para saber que papas podem conduzir a Igreja à sua ruína. Isso parecia-nos impossível, conhecendo as promessas da assistência do Espírito Santo. Contra factum non fit argumentum. Contra fatos os argumentos não valem nada. Os fatos estão aí, diante dos nossos olhos. Então, é necessário concluir que Nosso Senhor, pronunciando estas promessas da assistência até ao fim dos tempos, não excluiu períodos de trevas e um tempo de Paixão para a sua Esposa mística (apud. Mons. BERNARD TISSIER DE MALLERAIS; Marcel Lefebvre, a biografia, Editora São Pio X, 2021, p. 561) [Todos os grifos em negrito são meus].

Todavia, ele teve seus acertos e aqui o objeto principal do texto será justamente os seus acertos. Ele infelizmente errou nos princípios, mas acertou o objeto e a matéria, mas não tratarei disso porque já suficientemente tratado nas postagens anteriores. Mons. Lefebvre foi o primeiro bispo a diagnosticar corretamente o problema e muitos do sacerdotes sedevacantistas saíram de sua linhagem (Pe. Anthony Cekada, Mons. Sanborn, Mons. Dolan, Mons. Kelly etc., foram ordenados diretamente por Mons. Lefebvre e há diversos sacerdotes que ou foram ordenados por bispos da FSSPX ou da Resistência ou ordenados por bispos que foram ordenados sacerdotes por Mons. Lefebvre). Em suma, a importância do Mons. Lefebvre dentro do movimento tradicional como um todo (mesmo para os sedevacantistas) é inegável. Ele errou, mas aqui vamos tratar de um ponto positivo dele.

Muitos focaram nos conflitos com Paulo VI e João Paulo II, mas há nos bastidores um conflito que poucos notaram o qual gostaria de tratar aqui, que é o conflito com o Annibale Bugnini. Ademais, vamos ao fato principal: o missal de São Pio V foi sim ab-rogado na falsa igreja iniciada com o Vaticano II. Isso é fato. Para dar um exemplo mais explícito, vejamos o que Paulo VI disse em certa ocasião:

É em nome da Tradição que nós exigimos a todos os nossos filhos e a todas as comunidades católicas celebrarem a liturgia segundo o rito renovado com dignidade e fervor. O uso do Novus Ordo não está de modo nenhum deixado à discricionariedade dos sacerdotes e dos fiéis […] A Instrução de 14 de Junho de 1971 provisionou que a celebração da Missa segundo o rito antigo somente se pode permitir, com a permissão do Ordinário, a sacerdotes velhos ou enfermos, quando celebrem sem ninguém presente. Novus Ordo se promulgou para substituir o Vetus Ordo depois de madura deliberação e para cumprir as decisões do Concílio. É exatamente da mesma maneira que nosso predecessor São Pio V tornou obrigatório o missal reconhecido por sua autoridade debaixo do Concílio de Trento. Pela mesma autoridade suprema que nós recebemos de Cristo, nós decretamos a mesma pronta obediência a todas as demais reformas, sejam litúrgicas, disciplinares ou pastorais que nos anos recentes emanaram dos decretos do Concílio (Consistório para nomeação de 20 cardeais, 24 de maio de 1976).

Aqui vemos que Montini quis sim impor o novus ordo e acabar com o “vetus ordo”, isto é, a autêntica missa católica, o Rito Romano. Claro que se reconhecia Montini como “Papa” Paulo VI, Mons. Lefebvre lhe deveria obediência, mas não podemos negar que recebeu uma iluminação divina para perceber que o que estava sendo imposto é uma revolução litúrgica. É o que diz o diálogo que teve com o Cardeal Amleto Cicognani, que teria concordado com Mons. Lefebvre.

– Eminência, não ireis deixar passar tudo isto! É uma revolução na liturgia, na Igreja.

– Oh! Monsenhor – respondeu o Cardeal levando as mãos à cabeça, – bem que sou da vossa opinião. Mas o que quereis que eu faça?O Padre Bugnini pode entrar no gabinete do Santo Padre e fazê-lo assinar tudo o que quer!

– Não sou o único a ter ouvido isso – precisava o Arcebispo – ; o Cardeal dirigia-se a mim, mas outras pessoas no escritório da Secretaria de Estado tinham ouvido isso como eu (apud. Marcel Lefebvre, a biografia, p. 424).

Mas afinal, que é esse então Pe. Bugnini? O Pe. Annibale Bugnini foi ordenado sacerdote em 1936 por Mons. Alcide Marina e sagrado por Paulo VI em 1972, já no rito novo, isto é, recebeu provavelmente uma sagração episcopal inválida. Bugnini participou da chamada Comissão Piana, cujo principal êxito foi a Semana Santa de 1955, que não foi em si má, dado que é impossível um papa legítimo aprovar qualquer coisa má, mas que serviu de pretexto para os modernistas iniciarem, depois do pontificado de Pio XII impor os maiores absurdos que já começou no Concílio Vaticano II com um absurdo inaudito: a alteração no Cânon Romano (no caso, a inclusão do nome de São José, uma vez que antes só tinha nomes de mártires).

No vigésimo capítulo do seu livro póstumo [A Reforma Litúrgica (1948-1975), Paulinas : Paulus : Edições Loyola, 2018. Desde já, simplesmente A Reforma Litúrgica], Bugnini reclama da oposição à sua ímpia reforma. E nesse capítulo, menciona com destaque o nome do Mons. Lefebvre, e dele escreve:

Todavia, a contestação assumiu proporções mais graves e preocupantes quando dela se fez paladino o bispo Dom Marcel Lefebvre. Toda a atenção logo se concentrou nele, que se tornava chefe da oposição à renovação conciliar e ao próprio Concilio. Em Ecône, na Suíça, havia fundado uma “Fraternidade sacerdotal” e um seminário, cujos membros estavam destinados a exercer o ministério segundo a liturgia pré-conciliar. A atividade deles e a do próprio Dom Lefebvre, em diversas dioceses da França, Suíça, Inglaterra, Itália, logo começaram a semear confusão e perturbação entre os fiéis. Em resposta aos recursos dos bispos, a Santa Sé determinou uma visita apostólica a Ecône por parte de uma comissão formada pelos cardeais Garrone, Tabera e Wright, a qual decidiu:

1) a dissolução imediata da Fraternidade Sacerdotal São Pio X;

2) o fechamento do Seminário de Ecône;

3) a proibição ao clero e aos fiéis de apoiar, com suas ajudas, as obras de Dom Marcel Lefebvre (A Reforma Litúrgica, pp. 261s).

Perceba o leitor que essa decisão foi pelo fato de o seminário fundado por Mons. Lefebvre a exercer o catolicismo de antes do Concílio Vaticano II. A confissão do Bugnini é notória. Citando o Cardeal Sustar, deixa também clara a supressão do Rito Romano feita por Paulo VI e tão desejada por ele:

O secretário da Congregação escreveu a monsenhor Sustar, no dia 18 de outubro de 1973, esclarecendo os termos da questão:

1. O “Missal de Pio V” foi definitivamente ab-rogado pela Constituição Apostólica Missale Romanum. Basta ler-lhe a cláusula final.

2. A introdução do novo Missal, porém, acontece com gradação, em consideração do tempo necessário para as traduções. Começada no dia 30 de novembro de 1969, deveria ser executada por toda a Igreja no dia 28 de novembro de 1971 através do Ordo Missae. Quanto às outras partes, depende das Conferências Episcopais estabelecer quando devem entrar em vigor. Quando uma Conferência estabelece a entrada em vigor do texto em vernáculo, automaticamente torna-se obrigatório também o respectivo texto latino.

3. Por isso, a data para o uso obrigatório do novo Missal não é a mesma para toda a Igreja, mas é diferente em cada país e regiões linguísticas, de acordo com a decisão de cada Conferência episcopal (A Reforma Litúrgica, pp. 266).

Isso revela bem o desejo do Bugnini. Bugnini, como vemos, odiava a missa tradicional e sempre trabalhou pela destruição dela sob o pretexto de renovação. Bugnini sempre trabalhou conscientemente para isso. Vamos tomar um exemplo: em agosto de 1968, mais de um ano antes da aprovação do rito novus ordo, foi realizado entre os dias 18 e 25 de agosto o Congresso Eucarístico de Bogotá, com a presença de Montini. O evento foi muito elogiado por Bugnini (Cf: A Reforma Litúrgica, pp. 744s). No dia 19 de agosto, no Congresso, foi o “dia do ecumenismo” e aqui vale o testemunho do Pe. Joaquín Sáenz y Arriaga:

Ao lado do Legado do Papa, em vestes litúrgicas e em escandalosa igualdade, estavam sentados o padre ortodoxo Gabriel Stephen, o chamado bispo luterano da Baviera, Dieszelbinger, e o padre ou ministro anglicano Samuel Pinzón. A verdade combinava com a falsidade; a Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica fundada por Jesus Cristo no mesmo nível de Seus inimigos, as seitas! Na presença de um espetáculo tão inusitado, pensei na crucificação de Cristo, quando Nosso Senhor no Calvário foi pendurado na cruz entre dois ladrões.

O ministro anglicano, aproveitando uma ocasião tão incomum para colocar as coisas à sua maneira, denunciou a “discriminação latino-americana contra outros credos que não o catolicismo”. Segundo ele, as disposições das concordatas entre os países latino-americanos e a Santa Sé deveriam ser abolidas. Todos os propagandistas protestantes e não protestantes devem ter ampla oportunidade de espalhar seus erros e atacar impiedosamente os dogmas mais sagrados de nossa religião. Esta exigência imperiosa e grosseira foi vista em grandes letras nos profusos anúncios colados nas paredes de Bogotá durante a celebração do Congresso Eucarístico, enquanto os pastores católicos encarregados das ovelhas ignoravam, aceitavam implicitamente e, em alguns casos, olharam para eles com satisfação. Assim, seu ecumenismo sofisticado os fez merecedores de promoções em suas carreiras eclesiásticas! Ao invés de um papa católico, Paulo VI é um papa ecumênico! (The New Montinian Church, Lakeside Press, 1985, p. 105).

Creio que não é preciso ir muito longe para concluir que o evento beirou a blasfêmia e foi antes um sacrilégio do que qualquer outra coisa. Depois, em fevereiro de 1973, houve um outro congresso eucarístico em Melbourne, Austrália. Para ser bem justo com Bugnini, transcrevo o que o próprio relata:

Liturgia para os aborígenes. Foi atentamente estudada pelos bispos, missionários e religiosas que trabalhavam entre as tribos aborígenes da Austrália setentrional e ocidental. Na Missa, mais frequentes foram as intervenções da assembleia com cantos e refrões. Uma única leitura: o evangelho da última Ceia, cujo conteúdo foi descrito através de mímica, porque os aborígenes não têm a tradição de ler uma mensagem em um livro.

A Oração Eucarística foi própria, composta pelos missionários locais, aprovada para o congresso. Em seguida, os bispos interessados obtiveram a licença para usá-la habitualmente nas Missas celebradas entre os aborígenes. As intervenções com refrões da parte da assembleia são frequentes. No prefácio, cada proposição vem sublinhada por uma aclamação do povo. A expressão que volta continuamente é “Pai dos céus”, “Pai, tu és bom”. O Santo é parafraseado assim: “Pai, tu és bom. Nós estamos felizes próximos ao homem Jesus, teu único verdadeiro Filho. Pai, tu és bom. Vem, Senhor Jesus, vem e fica conosco”.

O Pai-nosso é emoldurado, antes e depois, por uma antífona que diz: “Tu és nosso Pai, tu vives nos céus, nos te falamos. Pai, tu és bom, tu és nosso Pai, tu vives nos séculos”. Depois da comunhão, uma dança “cerimonial” exprime o agradecimento

A Congregação do Culto acompanhou, reviu, acompanhou a análise junto aos outros organismos da Cúria, de todos os textos do congresso. A distância e o período do verão (para a Austrália) tornaram árdua a vigília do congresso. Mas o sucesso foi semelhante à fé que o havia inspirado e à recíproca harmonia e confiança entre uma parte e outra do mundo (A Reforma Litúrgica, p. 746).

Abaixo vemos bem como foi o Congresso:

Vemos que realmente o Congresso foi um sucesso e tanto. O humanismo profano triunfou. Dois anos depois, a FSSPX é suprimida. Aqui ainda lembro que reconheço que o Mons. Lefebvre errou nos seus princípios, mas não no objeto combatido, assim ele teve os seus méritos. Ainda nesse período, Mons. Thuc e Mons. Antônio de Castro Mayer não tinham manifestado uma oposição mais firme. É justo dizer, portanto, que Mons. Lefebvre foi o primeiro bispo a se opor publicamente ao Concílio Vaticano II e ao rito novus ordo e que Bugnini foi um dos responsáveis diretos por isso. Havia, portanto, uma briga que ia muito além da missa. O confronto era entre duas religiões, porque a religião do Vaticano II não poderia ficar apenas na doutrina e disciplina senão também demandava um rito próprio e o rito segundo o missal de São Pio V era totalmente católico. Bugnini foi o encarregado de fazer esse rito segundo a religião do Vaticano II. Por isso, acho justo encerrar esse texto com uma breve citação de um sermão proferido ainda em 1976 daquele que definiu o Concílio Vaticano II como o golpe de mestre de Satanás (a melhor que eu vi até agora):

A Revolução fez mártires, mas isso não é nada em comparação com o que fez o Concílio Vaticano II: sacerdotes apóstatas do seu sacerdócio! Este casamento entre a Igreja e a Revolução, pretendido pelos católicos liberais, que agora triunfam dizendo: “Com o Vaticano II, as nossas teses estão aceitas”, este casamento é adúltero. O novo rito é um rito bastardo, os novos sacramentos são também bastardos, os padres que saem agora dos seminários são padres bastardos: já não sabem que estão constituídos para subir ao altar e oferecer o sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a única Pessoa do mundo que pôde dizer “Eu sou Deus” e, por este fato, é o único Rei da humanidade. Não haverá paz na terra senão no reino de Nosso Senhor Jesus Cristo (sermão proferido no dia 29 de agosto de 1976, no Palácio do Desporto da Feira Comercial de Lille, apud Marcel Lefebvre, a biografia, p. 522).

Apesar de sua inteligência iluminada para diagnosticar tão bem a crise, infelizmente, Mons. Lefebvre não chegou às devidas conclusões. Que Senhor Bom Deus se apiede dele pelos seus méritos e que esses méritos pesem mais que os erros. Ainda hoje esteja numa posição diferente da qual foi Mons. Lefebvre, não perdi a minha estima por e por isso aqui deixo esse breve texto e que esse confronto no futuro seja visto não como sinal de divisão dentro da Igreja, mas como a exposição de uma falsa religião que se infiltrou dentro dela e que, de alguma forma, Mons. Lefebvre ajudou muito a perceber isso. Muitos sedevacantistas poderão objetar, mas eu jamais seria da posição sem ele. Creio que muitos além de mim também não.

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