SATANÓPOLIS: PERFIL DA FUTURA CIDADE INFERNAL, 2020 | por MARCO SAMBRUNA

“Temos a utopia que merecemos” (Michel Houellebecq).

Introdução

O contraste irredutível entre a Cidade Celestial e a cidade terrena tem raízes bíblicas: no Apocalipse, fala-se da Jerusalém celeste, triunfante no fim dos tempos, enquanto a cidade terrena, representada pelo Império Romano, declina. Por outro lado, figuras da cidade terrena foram Sodoma e Gomorra, destruídas por Deus por causa de seus pecados. Tal oposição incurável é o tema principal da “Cidade de Deus” de Santo Agostinho. No entanto, em nível figurativo, poucas representações são tão eficazes como o tríptico de “O Jardim das Delícias Terrenas“, de Jerônimo Bosch (1453 – 1516).

O tríptico fechado tem uma forma quadrada, com a representação da “Criação”: o mundo primigênio, saído das mãos de Deus, aparece como um orbe transparente; nas asas, há dois retângulos que, uma vez abertos, mostram três cenas que devem ser lidas em ordem cronológica da esquerda para a direita: na extrema esquerda, uma refiguração do encontro entre Adão e Eva; ao centro, o que parece ser uma representação controversa de Éden ou Paraíso e, ao final, à direita, uma representação do Inferno.

É este último painel que eu gostaria de enfatizar: a cena está repleta de personagens minúsculos, homens e mulheres que aparecem como figuras dramaticamente grotescas, vergonhosamente nus, enquanto procuram desesperadamente se cobrir com as mãos. Ao redor deles, gira uma poeira de demônios de morfologia obscena, malignamente deformados e focados nas operações mais inacreditáveis, como devorar os corpos dos condenados, defecar, parodiar uma ordenação insana de maneira satânica. Ao fundo, vislumbra-se uma cidade em chamas, cujas sinistras labaredas iluminam a parte inferior, repleta de condenados, amontoados, marchando em direção a um poço infernal. Para além das particularidades, o que conta é o aspecto geral da obra: dessa cena infernal – que em sua concreção plástica lembra a “Cidade de Dite” [1] dantesca – o elemento do caos descontrolado, da maré crescente de uma desordem em cuja vaga os episódios individuais parecem cavalgar, de uma Babel diabólica em que prevalece um clima taciturno imerso na impiedade. Tudo isso remete à visão de uma sociedade infernal segundo a imagem de uma certa iconografia medieval, com grande presença de fogo, chamas e cenas de desespero: um clima caliginoso, no qual se movem figuras tão blasfemas, que beiram um repugnantemente ridículo.

Se Bosch pintasse o inferno hoje, duvido que recorreria às mesmas imagens. O que ele representou é um símbolo eficaz da desordem revolucionária que precede e prepara a Nova Ordem que se vem construindo desde a Reforma Protestante até hoje [2].

Autores contemporâneos que representaram a cidade terrena em termos infernais usaram caminhos descritivos muito diferentes: basta pensar nas distopias da imprensa stalinista de George Orwell, em “1984”; ou na ditadura tecno-cientificista de Aldous Huxley, em “Admirável Mundo Novo”; ou no coletivismo despersonalizante de Yevgeny Zamyatin, em “Nós”. Na representação da “cidade infernal” de Bosch, caracterizada pelo caos revolucionário babélico, se subentendem as descrições das cidades infernais dos autores modernos, assumindo os traços opostos de um espaço urbano e existencial friamente planejado e organizado nos mínimos detalhes: do caos progressivo, tão abundante nas tradicionais imagens do inferno, alimentado eternamente pelo fogo destruidor, passamos às imagens glaciais de uma cidade perfeitamente esterilizada, em que a destruição ocorre em um níveo silêncio sepulcral, sem gritos de dor, sem estrépitos e quase sem cenas de desespero visíveis.

A realidade é, observando-se, não se tratar de duas imagens opostas resultantes de duas visões antitéticas da “cidade infernal”. Trata-se, ao contrário, de duas representações consecutivas, cada uma das quais expressando dois momentos distintos na construção da distopia diabólica que se vai configurando: o inferno de Bosch de fato simboliza a fase revolucionária, em virtude de sua natureza caracterizada pelo caos que abomina o status quo; a dos autores modernos, ao contrário, imagina a “normalização” daquela revolução em formas sólidas, ou seja, sua cristalização institucional, caracterizada por uma eficiente organização que, por sua vez, abomina o caos. À fase revolucionária, com suas tintas quentes e ardentes, sobrevém a institucionalização da revolução, estágio de tons frios e uniformes.

Vivemos uma era transitória que ainda está caminhando à sua conclusão: em poucos anos – motus in fine velócior– a fase revolucionária atingiu seu ápice desconstrutivo, ao mesmo tempo em que a fase institucional atingiu sua intensidade máxima em termos de zelo: ademais de não ser possível construir um mundo novo senão sobre as ruínas do velho, aqui é onde emerge a relação dinâmica que existe entre a visão babélica – e, portanto, revolucionária – de Bosch, e a visão organizada – e, portanto, institucional – de Orwell, Huxley ou Zamyatin da “cidade infernal”.

Que, se ontem era semelhante a um monte de ruínas fumegantes, agora assume a aparência de um laboratório perfeitamente esterilizado e maniacamente ordenado.

Fase 1: Demolição

Dissemos acima que só é possível construir uma nova cidade sobre as ruínas de alguma outra precedente: desde sempre, as cidades mais modernas surgem sobre as fundações de antigas necrópoles, cujas muralhas, agora abatidas, foram destruídas pela invasão de outros povos portadores de novas mentalidades, novas perspectivas e novos estilos de vida.

No mundo ocidental – mas logo em nível planetário -, a cidade principesca em avançado estado de demolição é a Roma espiritual, ou seja, a Igreja: brechas sempre mais amplas se abriram nos baluartes defensivos, até serem estes transformados em portões. Através dessas brechas cada vez maiores, penetraram em medida crescente as hordas de Gog e Magog, ou seja, as ideologias laicistas e libertárias que, por séculos, a têm assediado, à espera do momento oportuno para invadi-la, demoli-la e reconstruí-la segundo outros critérios, como parece sugerir a pintura de Bosch.

Uma longa, paciente e metódica preparação precedeu, pois, a invasão e demolição da “Cidade Espiritual”, o que não poderia ter-se dado se seus defensores tivessem preservado a antiga combatividade e a intrepidez expansiva que haviam conquistado novos territórios. Mas quando a tensão militante diminuiu progressivamente, os defensores da Cidade primeiro hesitaram, depois buscaram acordo com os invasores e, finalmente, se renderam, provocados também nisso pela direção de líderes de fraca propensão bélica, pouco inclinados a reiterar os feitos de seus antecessores, diplomaticamente mais voltados ao compromisso do que animados pelo espírito militante.

E assim também os últimos resistentes – vale dizer, os defensores que deveriam ter escorado a cidade e corrido sobre as ameias para rechaçar os assaltantes e defender os territórios conquistados – renderam-se como os espartanos aos tebanos: hoje sabemos que a marcial Esparta – ao contrário da mastodôntica e urbanizada Atenas – é uma aldeia insignificante, em cujo seio ainda são visíveis apenas poucos e pobres restos que representam a glória do passado.

A principal causa que desvirilizou os defensores da “Cidade Espiritual” diz respeito principalmente à pusilanimidade dos condottiere: generais moles e indecisos, incoerentes e hesitantes, infectaram com sua debilidade àqueles que, em outros tempos, teriam dado a vida para defender os muros agora gravemente comprometidos da Cidade.

A fé na vitória chegou ao fim: a fé de sempre, arraigada em fundamentos profundos, se foi rompendo, substituída por formas espúrias semelhantes a eflorescências bacterianas que prosperam em um corpo privado de vida. Como em certos tumores, elas brotaram das formas disformes de organismos em processo de decomposição. Essas contrafações garantiram por longo tempo aos observadores a ilusão de se encontrarem diante dos organismos originais que, embora apenas ligeiramente alterados na forma, mantinham a substância.

Deixando de lado as metáforas, a tradicional fé na invencibilidade da “Cidade Espiritual”, com seus dogmas, suas liturgias, seus ritos e suas crenças, foi substituída por três formas fraudulentas, que imitaram sua aparência, enganando àqueles que acreditavam que nada havia mudado.

As três formas substitutivas da religião tradicional de que estamos falando são o sentimentalismo psicologista, o socialismo filantrópico e o moralismo reducionista.

Cada uma dessas três estratégias tenta atingir tantas outras tipologias de partidários da defesa dos muros: o sentimentalismo psicológico busca enfraquecer a resistência das elites culturalmente mais bem equipadas; o socialismo filantrópico visa a enfraquecer a resistência da massa de soldados; o moralismo reducionista pretende enfraquecer a resistência dos quadros intermediários, ou seja, a burguesia.

Todos os três expedientes têm em comum a tentativa de neutralizar as defesas daqueles que resistem, fazendo-o por intermédio de estratégias oblíquas, alternativas a um ataque frontal, que pareceria demasiado abertamente demolidor.

A demolição das muralhas e, imediatamente depois, da Cidade Espiritual, realmente aconteceu de modo lento e indolor, visando a evitar reações sobremodo violentas, que poderiam ter truncado a empresa desde o seu nascimento. Esquematicamente, é possível resumir da seguinte forma a metamorfose da religião tradicional em suas formas paródicas típicas do mundo moderno:

A religião cristã típica do ocidente greco-latino se fragmenta, pois, em três secções: o sentimentalismo psicologista, o socialismo filantrópico e o moralismo reducionista.

Em razão da ruptura do vínculo com o que chamaremos “mundo superior”, ou “sobrenatural” ou, em termos antropológicos, o “sentido do sagrado”, cada uma das três seções terá como objeto correlativo, respectivamente, uma visão mágica, ou utópico-terceiromundista, ou uma visão conformista do transcendente (isto é, essa última considerará a religião como nada mais que uma fábula edificante) [3] .

Sentimentalismo psicologista

Com esta primeira degradação da religião tradicional, verifica-se uma forma de nova religião sem dogmas, no lugar dos quais se coloca um “misticismo extravagante”: o termo “extravagante” é considerado literalmente como “extra-vagante”, ou seja, que “vagueia fora” ou “vagueia longe”.

À diferença da religião tradicional, que sempre tem bebido do mundo superior, a nova religião sentimentalizada bebe do mundo inferior ou – em termos psicológicos – do inconsciente.

Esta primeira forma de fé equivocada, corruptora da resistência dos defensores do sagrado, concerne ao que se pode definir como “sentimentalismo psicologista”. Consiste precisamente em reduzir aos confins infra-humanos – e, portanto, imanentes – instâncias espirituais tradicionais habitualmente enlaçadas ao mundo superior e com ele comunicantes. A psicologia moderna tem atuado nesse sentido em duas frentes: com Freud, racionalizou as experiências espirituais, reduzindo-as a reflexos inconscientes de visões e experiências objetivas vividas em estado de vigília; com Jung, separou a experiência espiritual de sua fonte superior para a vincular novamente a um sistema simbólico atávico derivado de vivências ancestrais primitivas. Em outros termos, com Jung, o transcendente não seria nada mais que uma sorte de memória de massa, na qual se registraram vivências transgeracionais que remontariam a épocas longínquas.

A sentimentalização psicológica da fé tradicional operou por meio de uma estratégia de escape: constatada a impossibilidade de realizar a obra de derrubada, a canhoneio, das poderosas fortificações da Cidade espiritual, os demolidores começaram a apontar aos seus defensores uma nova divindade – um ídolo, portanto -, cuja fisionomia é facilmente confundida com a que se atribui ao Deus tradicional do Ocidente. A capacidade de dissimulação deste ídolo surpreende sobretudo porque veio a imitar, deformando-o, um dos caracteres principais de Cristo: sua misericórdia para com os desnorteados. A misericórdia divina assumiu um caráter não apenas pacificador, mas em especial, pacifista.

A Paz toma, assim, o lugar da Verdade, mesmo quando seja a Paz a Verdade não menos quanto a Verdade seja a Paz. A Paz como valor supremo, que se há de conseguir a todo custo e diante do qual tudo é sacrificável. Nessa perspectiva, a paz não se reduz à pacificação dos povos, mas sobretudo é apresentada como pacificação íntima, como lenitivo contra as ansiedades existenciais e especialmente contra a inquietação da busca metafísica, o menos consciente fosse tal intranquilidade. A sentimentalização psicológica da fé tradicional consiste, pois, nisto: a religião deve garantir a tranquilidade da alma mais que a tranquilidade social. No entanto, como não pode haver tranquilidade sem adaptação – já que remar contra a maré é mais difícil do que se deixar levar pelos acontecimentos -, consolida-se – na esfera católica antes e no Ocidente depois – um dos piores mal-entendidos da história da humanidade moderna, condensado em dois slogans cuja força devastadora abriu enormes brechas nas muralhas defensivas: “tudo é graça” e “Cristo venceu o mundo”. 

A proposição “tudo é graça” foi cunhada pelo escritor católico francês Georges Bernanos no interior de sua novela de maior êxito intitulada “Diário de um pároco de aldeia”. Nele, o sacerdote protagonista do relato chega à conclusão de que a Providência se serve de qualquer situação, transformando-a em bem, não obstante ter sido originalmente gerada pelos erros dos homens. Daqui para considerar a ideia de que tudo contribui para o bem há muito pouco caminho. Assim, para que o bem possa verificar-se com maior facilidade, convém libertar-se do antigo costume que tende a separar totalmente o bem do mal, já que até o mal acaba atuando em favor do bem.

A outra proposta mal entendida é “Cristo venceu o mundo”.

A afirmação é teologicamente correta, porque Cristo, com sua Ressurreição, realmente venceu o mundo no sentido de que destruiu o que do mundo é o aspecto mais angustiante, isto é, a morte: a morte, com a Ressurreição de Cristo, foi abolida, e em seu lugar se instaurou o Reino dos Céus, eterno e imutável. Mas dizer que “Cristo venceu no mundo” significa que Cristo indicou o caminho supremo para derrotar a morte; não que esta tenha sido vencida prescindindo de qualquer empenho individual. O sacrifício de Cristo, portanto, não nos autoriza aprioristicamente a arriar os estandartes da guerra em vista da salvação individual e da necessidade de ser “sal da terra”.

Deste nocivo mal-entendido surge um otimismo de fundo, que tomou forma de crença de que o nosso seja um mundo maravilhoso, onde tudo é possível, e onde a felicidade e a salvação eternas estão ao alcance da mão sem necessidade alguma de fastidioso ascetismo ou de formação espiritual, e muito menos de estudo da ciência sacra.

Socialismo Utópico

Esta segunda paródia da religião tradicional entende o completo oposto dos dois slogans acima mencionados. Se no “sentimentalismo psicologista” vigorava a regra segundo a qual “tudo é graça” e “Cristo venceu o mundo”, no socialismo utópico vale o lema segundo o qual “Nada é graça” e “O mundo ainda espera redenção”. 

Nada é graça porque, numa perspectiva marxista, o motor da história não é a Providência divina, mas a luta de classes. Depois de mutadas as relações de força entre classes subalternas e dominantes, as sociedades se configuram. Nada se obtém pela graça, senão que tudo se conquista pela luta: não é a mente guiada pela misericórdia divina que educa a mão, mas é a mão que, tendo a necessidade de obter o necessário para a vida, educa a mente para pensar de forma eminentemente pragmática. Com este ponto de vista, advém então claramente como a redenção não é um a priori estabelecido a partir do sacrifício de Deus, mas sim uma meta que ainda deve ser alcançada por meio da construção de uma sociedade sem amos nem servos, igualitarista e autárquica. A utopia ainda não construída torna-se, dessa forma, um arremedo da salvação eterna ou do Paraíso: a eternidade já não interessa mais à salvação individual (ou seja, fora da salvação universal), mas sim à salvação coletiva ou da espécie. O que conta não é o homem, mas a humanidade, e a religião não se dirige mais a um Deus transcendente, mas imanente, em uma nova forma de panteísmo naturalista.

A utopia socialista visa a derrubar a sociedade tradicional, fundada nas relações hierárquicas como imagem da hierarquia celeste, e à concomitante construção, sobre tais escombros, do “Homem Novo” socialista, cujo habitat não é mais constituído pela natureza, mas pelo artifício da metrópole. Em uma segunda fase, o utopismo socialista prevê uma espécie de “retorno à natureza” com a insígnia do ambientalismo/ecologismo e do primitivismo, em que tudo é comum e a família mesma já não existe. Em outras palavras, o modelo terceiromundista é assumido como utopia desejável e esperada, mas encerrado em uma realidade física separada da natureza e imersa no artifício de cidades cada vez mais anônimas.

Moralismo Conformista

Esse modelo, de ascendência majoritariamente burguesa, tem como progenitora a ética protestante.

Seu fundamento prático é o que popularmente se define como “fé atuante” ou “testemunho silencioso”. Tais expressões tendem a consolidar uma categoria de “mito cotidiano”, em que a própria banalidade assume um caráter salvífico diante de uma resignação muitas vezes inerte.

Daí surge o estabelecimento de uma espécie de laissez faire espiritual, que é a contrapartida religiosa do laissez faire postulado por Adam Smith como fundamento do liberalismo econômico. Assim começa a fase do mal-entendido. Os defensores das muralhas delegam à Providência o resultado da batalha, nutrindo a confiança de que uma intervenção do alto pode determinar o resultado. Novenas, ladainhas e devoções estão desvinculadas das obras dos homens, de sua ação e de sua vontade, diferente do que já fora antes: o indispensável viático propiciatório antes de qualquer batalha. Onde se reuniam os bizantinos, em Hagia Sophia, antes de enfrentar em batalha os otomanos, para obter força, coragem e espírito de sacrifício, agora os fiéis se reúnem para se abandonarem nas mãos de Deus, na crença de que nenhum de seus esforços tem influência. Trata-se evidentemente de uma inércia ou “religiosidade estática” que, sob o pretexto de fé que tudo confia a Deus, tem como meta a manutenção e a cristalização do status quo, sobretudo social. Nessa forma paródica da religião tradicional, a fé consiste em uma espécie de “compulsão para repetir” ritmos de gestos e operações mentais sempre iguais. Mas, como a “compulsão à repetição” é um modus vivendi de matriz neurótica, um certo desconforto começa a se insinuar: a reação, e um senso de humildade equivocado, são, então, instrumentalizados para dar justificação metafísica aos automatismos cotidianos, aos quais muitas vezes acompanham primeiro o tédio e, depois, uma assustadora sensação do absurdo, tudo isso destinado a desembocar naquele existencialismo ateu típico da modernidade.

Fase 2: A Edificação de Satanópolis

Mesmo a “cidade infernal” institucionalizada na “cidade soviética” constitui já uma possibilidade que pertence ao passado, tanto quanto a “cidade infernal” pintada por Jerónimo Bosch. Agora, a Satanópolis em vias de construção será semelhante à cidade soviética no que diz respeito à paisagem urbana, mas diferirá profundamente em termos do temperamento psicológico e espiritual de seus habitantes.

A revolução soviética foi um acontecimento traumático que, embora tenha tido uma longa gestação a partir do Iluminismo, se confirmou na breve virada de alguns meses após a queda do último czar, passando pelo governo provisório de Kerensky, até a formação do estado soviético: muito pouco tempo para que uma revolução social, econômica e cultural também pudesse ser uma revolução antropológica: “o novo homem soviético”, de quem sempre presumiu o regime stalinista ser pai, jamais existiu. A alma do povo russo permaneceu profundamente religiosa, não obstante a propaganda invasiva do regime ter divulgado a metamorfose e decretado sua morte. Stalin e seus sucessores falharam na missão de transformar o homem, no sentido de mudar antropologicamente seu caráter após a revolução. A propaganda, a brutalidade policialesca e as armas de sedução, antes, e de perseguição, depois, não puderam mais que arranhar a alma do povo russo, obtendo apenas uma adesão formal e verbal aos dogmas soviéticos. No entanto, o coração do homem não mudara.

Ao contrário, a instituição da Satanópolis que se vai construindo prolongou a fase revolucionária até o alvorecer da modernidade, promovendo uma longa introdução ou preâmbulo, que melhor tem preparado o terreno na educação e doutrinação do novo homem, destinado não a viver, mas apenas a habitar na cidade infernal contemporânea: os instrumentos da pedagogia anticrística, centrados no ateísmo, antes, e no niilismo, depois, chegaram perfeitamente onde a torpe propaganda do regime soviético havia falhado. As massas que a revolução soviética não teve tempo de desvirilizar e mutar antropologicamente, pela atual revolução laicista, ao contrário, têm sido oportunamente recondicionadas em um arco temporal prolongado de, ao menos, três gerações, desde os anos de 1950 até agora.

A nova cidade infernal hodierna irmana-se àquela soviética em aparência ou forma externa, mas sua capacidade de condicionar as mentes é muito mais eficaz: na realidade, sua edificação opera segundo os ritmos de uma marcha lenta, porém inexorável, que eliminou progressivamente o principal obstáculo – o katechon em termos bíblicos (katechon, do grego: τὸ κατέχον, “aquilo que retém”; ver 2 Tessalonissenses 2, 7) – que poderia impedir seu desenvolvimento: a religião tradicional. Esta, por meio de uma série de estágios graduais, foi primeiro subtraída do sagrado, depois profanada, logo ridicularizada e, finalmente, dissolvida.

Se na ex-URSS a revolução antropológica, da qual nasceria o homem novo socialista, era apenas a mera ilusão de uma chusma de fanáticos, na moderna Satanópolis tal revolução é, ao invés, perfeitamente realizada, e o novo homem está prestes a se tornar uma horrível realidade.

À luz de tudo isso, a paisagem urbana de Satanópolis estará privada de símbolos ou elementos que evoquem a ideia do sagrado como o entendiam as religiões antigas. O homem é capaz de expressar o sagrado de três maneiras: como soma de caracteres, como percepções, como matéria e forma.

A essência do sagrado é a confiabilidade de que goza: isso tanto mais determina o destino dos homens quanto mais este tenha confiança em suas características constitutivas de liturgias e ritos, em sua análise do tempo como sucessão de memórias que o renovam, na percepção visual dos símbolos que orientam a mente em direção a um destino. 

A missão do sagrado consiste em apresentar símbolos de um destino: os símbolos religiosos orientam os povos a uma perspectiva transcendente; os símbolos laicistas orientam a mente a uma perspectiva imanente. Pode-se dizer, portanto, serem os símbolos do sagrado a chave para acessar um destino que transcende a vida terrena por um caminho linear; já os símbolos do profano são a chave para abrir a possibilidade de uma função: daí deriva a formação de um homem que sempre opte por se confiar aos símbolos do sagrado visando a se encaminhar a um destino, ou dar-se-á seu recrutamento se ele elege se confiar aos símbolos laicistas que o encerram dentro de uma função. Nessa perspectiva, enquanto o sagrado indica o caminho de uma missão em busca do cumprimento, o profano indica o caminho de uma função em vista de um automatismo, isto é, o desenvolvimento de uma mansão pré-estabelecida no slogan nietzschiano do “eterno retorno”: está-se assim encerrado na vida quotidiana onde os mesmos gestos, os mesmos pensamentos e as mesmas operações se repetem até se tornarem um automatismo narcotizante. 

Então, o divino é o que engendra o destino por intermédio do sagrado, e o antidivino é o que o circunscreve dentro de um automatismo funcional.

Por isso, os construtores da cidade infernal têm como meta, numa fase ainda primitiva de seu projeto, realizar uma substituição: substituir os símbolos e a linguagem do sagrado pelos do profano. Pois esta Satanópolis começará a se erguer quase imperceptivelmente por meio de uma lenta, porém constante, remoção dos símbolos do sagrado: os símbolos do sagrado, para os construtores da cidade infernal, representam um perigo formidável, porque inflamam a luta entre a decisão por um destino pessoal contra a opção pela automação funcional em um mecanismo coletivo. Os construtores de Satanópolis sabem que os símbolos sagrados são um fragmento da verdade que se faz visível, ou seja, são historicizados em formas visíveis como a arte sacra, a liturgia, os ritos e os sacramentos: em virtude disso, sua primeira preocupação é a de os eliminar. Feito isso, se empobrece a própria possibilidade de que possam atuar na determinação do destino de um povo. Em seu lugar, se constituem quase furtivamente os símbolos laicistas, cuja finalidade é sedar as salutares preocupações do espírito, como o faria um narcótico.

As figuras ou símbolos do sagrado são tanto mais eficazes para revelar um destino – e, portanto, para desviar do automatismo funcional -, quanto mais potente é seu impacto: um símbolo do sagrado é mais eficaz onde chegue a perturbar e, em alguns casos, inclusive traumatizar. Ao contrário, os símbolos do profano são mais eficazes quanto mais consigam anestesiar por meio do automatismo funcional. Para tanto, o símbolo do sagrado – isto é, a arte, o rito e a liturgia – deve ter caráter de autonomia e evitar qualquer usabilidade utilitarista, visando a mostrar sua independência do profano: se falta essa independência, o sagrado permanece oculto, e o destino, velado.

No caminho de substituição silenciosa dos símbolos religiosos pelos profanos como aspecto prioritário na construção de Satanópolis, as figuras visíveis da igreja – repetimos: arte, rito, liturgia, homilética e edifícios sagrados – abandonaram seu caráter sagrado para assumir o da usabilidade utilitária típica do profano. Não há mais impacto desestabilizador ou descontextualizador causado pela autonomia do sagrado, mas sim a instituição de “áreas comuns” tecidas para garantir um vínculo de dependência entre o sagrado e o profano laicista, do que deriva a banalização dos símbolos do sagrado, os quais, ao invés de libertar, acabam facilitando a organização do automatismo funcional de matriz coletivista.

É, pois, prioritário para os construtores da cidade infernal desarmar os símbolos do sagrado, a fim de os banalizar: não devem mais ser contemplados no estupor que gera um detonador saudável, que é preliminar, por sua vez, a uma inquietação saudável.

Os símbolos do sagrado falam, e sua narrativa naturalmente necessita de uma linguagem adaptada: por exemplo, a homilética e a oração. 

Por isso, torna-se de fundamental importância para os construtores de Satanópolis recorrer a uma narrativa alternativa que imponha uma linguagem alternativa: já não mais a linguagem do sagrado, mas a do profano, ou seja, a terminologia técnico-jurídica, em conformidade ao automatismo funcional no qual cada disciplina será inserida.

Em suma, o primeiro aspecto típico da nova cidade infernal, claro aos olhos dos homens do passado, mas agora invisível ao novo homem, que não será capaz sequer de suspeitar de sua ausência, será o desaparecimento dos símbolos do sagrado, isto é, dos símbolos religiosos.

Assinalamos como primeiro critério na elevação de Satanópolis uma fase desconstrutiva: o centro histórico, ou seja, o local onde se concentraram os mais ricos e numerosos testemunhos da arquitetura cristã, será progressivamente abandonado. No Inferno do “Jardim das Delícias Terrenas”, de Bosch, no topo da pintura, as chamas devoram e consomem o que resta de uma cidade: é uma ação rapidamente destrutiva e ingenuamente brutal em sua horrível evidência. Na cidade infernal que se vai edificando, a fase desconstrutiva é muito mais lenta, progressiva e, sobretudo, menos diretamente perceptível, mas igualmente brutal: habituemo-nos a pensar nos centros de Roma ou Florença, ou qualquer outra cidade europeia, como lugares que serão gradualmente abandonados, até que fiquem quase completamente desabitados: já são visíveis os primeiros sinais desse abandono incipiente, como os sintomas que indicam o aparecimento próximo de uma enfermidade; não diferentemente do que acontece na Acrópole ateniense, muitas catedrais europeias (como Notre Dame antes do incêndio que a consumiu) caem lenta e literalmente aos pedaços, em meio à indiferença geral não apenas da administração da cidade, mas até (muito mais grave) dos cidadãos mesmos. Espetáculo análogo podemos observar em certos bairros antigos de Pisa ou Veneza, onde já em algumas ilhas desabitadas da Lagoa as antigas igrejas definham em derrelicção (abandono).

As igrejas não serão demolidas a fim de não despertar a indignação daqueles que ainda estão espiritualmente despertos, senão que serão simplesmente abandonados à incúria. Por portões forçados ou simplesmente derrubados, qualquer um poderá entrar a qualquer hora do dia ou da noite para levar o queira entre o que restou desprotegido: mobiliário sacro, cálices, pinturas de temática religiosa, ornamentos sacerdotais abandonados na sacristia ou móveis antigos de madeira preciosa.

Despojadas de seus ornamentos, as igrejas não esgotarão sua função de receptáculo de toda violação, mesmo a mais brutal, e permanecerão à disposição inerme de quem as quiser pichar com escritos obscenos, blasfêmias e símbolos anticristãos; em lugar de afrescos antigos, agora descoloridos pela umidade que penetra por paredes mofadas, na virada de uma noite, veremos aparecer murais de tonalidades violentas, cheios de cores vivas e pintados com escritas coloridas indecifráveis.

Após o esbulho e os saques, numa terceira fase de seu martírio, as igrejas serão rapidamente transformadas em garagens para guardar motos ou bicicletas, armazéns abarrotados de ferrugem inútil, de objetos que não servem mais, de lixo doméstico, como se fossem grandes cantinas.

À noite, grupos poderão se refugiar, acender fogueiras, ouvir música sintética e se alterar com drogas ou álcool. Lá fora, a rápida deterioração continuará, feita de fragmentos de gesso que se desprendem das paredes, tetos que não resistirão mais à infiltração da água da chuva, afrescos e decorações externas que se consomem sob a ação das intempéries, enquanto as estátuas antigas perdem os braços, as asas e as cabeças.

Nas cidades provinciais, outrora distantes das metrópoles, mas agora quase engolfadas por elas em virtude do avanço edilício, já é possível observar, entre antigas casas de fazenda ou burgos despovoados, o triste fim dos nichos sagrados, onde as pinturas de temática cristã são abandonadas à ação do tempo. Os ex-votos que outrora povoavam as paredes desapareceram, quiçá removidos por alguma mão piedosa para serem preservados ou, mais prosaicamente, foram furtados.

O fenômeno do abandono das estruturas sagradas é ainda mais evidente em alguns retiros alpinos e apeninos: antigas igrejas de montanha, construídas com pedra sólida, começam de súbito a cair a partir do telhado, até que a entrada se torne impossível em virtude de estar o pavimento repleto de escombros. 

Em seu lugar surgirão estruturas semelhantes à chamada “Sala de Meditação” na sede da ONU em Nova York [4].

Fase 3: Dogmas de Satanópolis

A edificação de Satanópolis pressupôs um longo período de gestação, que se pode definir como “fase revolucionária fluída“. Ao longo de tal período, tudo o que tenha que ver com a tradição afronta uma metamorfose profunda. Não sucessivamente, senão que concomitantemente a esse processo de demolição, se concretiza uma “fase de institucionalização“, que tende a solidificar a nova sociedade demoníaca cuja ereção, no intervalo, vai-se consubstanciando.

O roteiro de “demolição”, a cargo da “fase revolucionária fluída”, e o da “edificação” por obra da “fase institucional estática”, envolvem alguns aspectos principais assim passíveis de resumir:

Consultoria Religiosa

A religião imutável, ou seja, a catequética, que designa por artigos específicos as regras de conduta com respostas claras, íntegras e inequívocas, será definitivamente substituída por uma religião de aconselhamento, em que o ministro do sagrado se transforma, de sacerdote, em conselheiro: esta última figura, típica do mundo anglo-saxão, coloca questões oportunas e pratica a arte de escutar sem dar respostas, sem aconselhar, sem exortar, sem admoestar, sem corrigir e sem apontar, mas simplesmente – segundo o princípio cardeal do aconselhamento psicológico – colabora com o solicitante a fim de ativar suas respostas internas, para que encontre por si mesmo, e com base em sua própria orientação cultural, a resposta para seus próprios problemas. O sacerdote torna-se assim um conselheiro, isto é, um facilitador a serviço não já do “fiel”, senão que mais oportunamente do “cliente” ou do “usuário”, que deve parir, por si mesmo, segundo os princípios da maiêutica filosófica grega, as respostas às suas próprias perguntas.

Nessa nova perspectiva, os catecismos, a teologia moral e inclusive o decálogo serão relativizados em um subjetivismo que só se torna aparente a partir do momento em que for interpolado – e, portanto, condicionado – pelas novas categorias laicistas.

Tais categorias laicistas se concentrarão no relativismo ético e no subjetivismo apenas na medida em que não incluam as visões tradicionais de mundo derivadas das religiões históricas: mais do que relativismo absoluto, o novo modelo interpretativo da realidade responderá a critérios de relativismo seletivo, em que qualquer instância encontrará o direito à cidadania sempre que não seja de matriz tradicionalmente ocidental e particularmente cristã.

Quando, no usuário que pede luzes, ainda emerjam resíduos do velho credo como critério de decisão, o sacerdote conselheiro deve transformar-se de facilitador em condutor, visando a orientar a decisão do indivíduo, eliminando os esquemas interpretativos pré-constituídos a priori: a finalidade do ministro do sagrado será pregar e convencer o usuário a se tornar intérprete da modalidade adaptativa: o segredo da felicidade consistirá na anulação das próprias aspirações e dos próprios talentos em nome de uma imunidade de rebanho mais tranquilizadora e narcótica em relação às próprias ambições, e da dormência atrófica dos melhores talentos pessoais.

A nova religião civil e constitucional de apoio a Satanópolis responderá a um lema que retoma o credo: “Não elevar os medíocres ao nível dos melhores, mas que os melhores se conformem com os medíocres”.

Assim se termina, num último impulso paradoxal de honestidade, por mostrar os verdadeiros objetivos do relativismo seletivo: ele se mostrará finalmente por aquilo que é, ou seja, um novo puritanismo dogmático e intransigente, segundo o qual o cliente é livre para fazer qualquer coisa que se lhe imponha o reto pensamento laicista: somente dentro deste perímetro o ouvinte terá liberdade para se mover, e somente no interior deste perímetro o sacerdote de Satanópolis poderá ser um facilitador que orienta, de preferência, gentilmente, mas brutalmente se necessário, com o usuário a ser conduzido à modalidade adaptativa. O pastor/conselheiro terá também, portanto, a tarefa de reconduzir o paciente infectado fora do perímetro do relativismo seletivo para o interior do rebanho coletivo, zelando pela ortodoxia de seu conformismo.

Hospitalização do Corpo

Depois da alma, o corpo é o bem mais próprio e pessoal que um homem possui. Em Satanópolis, os cidadãos são convencidos por todos os meios de coerção a entregá-lo ao Estado: esse gesto, do ponto de vista psicológico, sanciona a renúncia à gestão do próprio corpo e, portanto, de si mesmo. Quem renuncia ao próprio corpo, delegando sua gestão a uma realidade burocrática, abdica da liberdade.

No plano biopsicológico, os homens deixam de ser varões no plano físico e volitivo, e cessam de ser pais no plano social e psicológico. Os conceitos de “masculinidade” e “paternidade” estão em processo de desertificação, e os de “coragem” e “virilidade” são vistos como resíduos de uma época da qual se envergonhar.

Ao mesmo tempo em que Satanópolis se consolida, o corpo masculino enfrenta um processo de desvirilização: tudo o que pertença ao domínio da força, da coragem e da saúde é estigmatizado como bárbaro, irracional e indigno do novo homem. Também o corpo, assim como os símbolos do sagrado, deve ser desestruturado: o esporte é cada vez mais regulado por regras que impedem qualquer contato físico, por menor que seja, enquanto em nenhum campo como o esportivo o acréscimo da paridade física entre homens e mulheres encontra tão grande acolhida; devemos esperar a instituição de torneios e eventos esportivos em que se enfrentarão equipes mistas, compostas por homens mortificados em seu físico e mulheres masculinizadas, em que o jogo se assemelhará mais a um minueto do século XVIII do que a uma ação de jogo.

Já agora podemos reconhecer os primeiros sintomas da desvalorização aviltadora da atividade física voltada ao desenvolvimento da energia vital: ela é rotulada como vagamente reconduzível ao culto fascista do vitalismo, do ativismo e da ação rápida e decidida.

O corpo do novo homem, em fase preliminar sofre, como tudo o mais, um processo de “obscenização”: reduz-se a um pergaminho sobre o qual imprimir horríveis motivos de tatuagens, sempre mais simbólicas, de uma agressividade de que deverão ser vicariantes, substituindo-as por um pálido simulacro da força física desaparecida em um corpo agora fraco e enfermiço; o que antes pertencia ao corpo em termos de energia vital será, logo em uma primeira fase, representado por motivos que reclamam a ideia de uma força bruta e instintiva, tal como certas raças caninas eram mais ferozes para mascarar sua inadequação física em comparação a raças fisicamente muito mais estruturadas.

Por trás das aparências de uma tatuagem desesperada, o corpo se tornará cada vez mais flácido, delicado, débil e, portanto, favorável ao desenvolvimento de uma personalidade tendencialmente anoréxica, insegura e hesitante, especialmente diante da necessidade de tomar decisões importantes.

A propaganda dos Retores da cidade infernal nada fará senão continuar soando o hype de um corpo que deve ser maniacamente higienizado e preservado de todo contato com agentes externos que o possam infectar, sujeito a esterilizações contínuas, cujo bom resultado implica, entre outras coisas, a redução aos termos mínimos de todo o contato social. Um corpo ao qual se subministram doses cada vez mais fortes de antivirais, vacinas e antídotos, que reduzirão sempre mais a capacidade autônoma de produzir anticorpos de forma natural.

A doença em si, mesmo uma simples gripe, será percebida pelo sujeito que a padece com sentimento de culpa, causado por sua negligência em aceitar os cuidados minuciosos que as autoridades da cidade infernal estabeleceram, e pela recusa em submeter-se a tais precauções: o corpo não deverá mais adoecer – assim se lhe vêm assegurando -, e isso não em virtude de sua saudável resistência (natural), mas sim graças às substâncias químicas que lhe serão injetadas.

Quando Satanópolis se tornar uma realidade manifesta, o corpo será hospitalizado, ou seja, reduzido a um estado de precariedade permanente, em que qualquer esforço que exija funções metabólicas simples – comer, dormir e defecar – deverá ser tratado com extrema cautela, ou melhor, adequadamente reduzido: a fragilidade do corpo imporá um regime alimentício “amébico” e rigidamente vegetariano, enquanto a atividade física será reduzida ao mínimo indispensável.

E, finalmente, o corpo enfrentará um confinamento entre espaços cada vez mais sufocantes, vedados e esterilizados.

Segregação Ecofóbica

A ecologia – elaborada sob o pretexto aparentemente nobre de preservar o planeta da doença mortal representada pela superpopulação – uma vez cumprida sua tarefa de culpar os homens, zombando deles como assassinos do ecossistema, se transformará em ecofobia: o ambiente natural passará a ser vítima das carniceiras mandíbulas humanas – que o devoram para fins de seu próprio usufruto. Será, por isso, separado como agente patogênico capaz de destruir a vida física dos homens. O amor ao meio ambiente em detrimento do homem se voltará no contrário, ou seja, em hostil suspeita contra a natureza; será inculcada a necessidade maníaca de proteger o corpo humano – agora débil e perenemente doente – da vigorosa brutalidade do meio ambiente, que será apresentado pela propaganda como saturado de vírus, gerador de patologias e repositório de doenças.

A demonização do meio ambiente justificará, assim, a segregação ecofóbica dos homens: eles ficarão confinados em uma cidade cada vez mais separada dos campos, montanhas, morros, rios e mares. Será promovida a instituição de um “salvo-conduto”, que autorizará a circulação fora dos aglomerados urbanos, reservado apenas a cidadãos que cumprirem determinados requisitos cada vez mais exigentes, como atualização permanente da vacinação, aquisição de uma comprovação institucional de “boa conduta”, prestação de exame acerca da ortodoxia do regime, e a adesão a todas as iniciativas institucionais estabelecidas. Em Satanópolis, massas cada vez mais comprimidas de pessoas terão que viver em espaços restritos, rigidamente higienizados e obsessivamente esterilizados. A natureza demonizada será antes abandonada: aldeias alpinas e apeninas, antigos burgos e antigos assentamentos serão posteriormente despovoados, e se transformarão em montões de ruínas, desaparecendo no silêncio das catacumbas: muros e campanários desmoronarão, enchendo de escombros as velhas ruas; as praças e ruas serão invadidas pela vegetação, que rachará o asfalto e as pedras; as casas vazias ecoarão o rumor do vento e se tornarão morada de animais noturnos.

A natureza vai retomando aos poucos o que foi dela por milhões de anos, enquanto, do lado de fora da última rodovia abandonada, os contornos das cidades artificiais se delineiam como fortalezas no meio do deserto. O homem, separado do habitat natural, unirá a decadência física à psicológica: confinado aos limites asfálticos de um mundo artificial de cores desvanecidas, e prenhe da fetiez dos desinfetantes, os homens se tornarão cada vez mais estranhos ao mundo, incapazes de se perceberem como parte de um cosmos inteligente. Privados da dimensão natural como seu habitat, e forçados a viver em ambientes cada vez mais metalizados e plastificados, os sentidos do paladar e do tato vão se atrofiando lentamente: a comida será insípida, e o apetite diminuirá. As superfícies polidas e as linhas ortogonais enfastiarão o olhar, tornando-o embotado e desprovido de curiosidade; a alegria estética de um panorama de uma colina ou da vastidão do mar virão tão raramente, que muitos esquecerão de sua existência.

A natureza demonizada assustará o homem, que a perceberá como inimiga: melhor o cinza dos palácios que o verde vivo da vegetação; melhor o asfalto alcatroado que os caminhos nas florestas; e melhor a exalação pungente dos desinfetantes que o perfume dos prados floridos.

O homem, expropriado de sua dimensão natural, tornar-se-á melancólico e se apagará até ser reduzido a uma larva bem penteada e perfeitamente higienizada.

Depois, a natureza também terá que ser sanitizada e esterilizada, o que não excluirá a aplicação de enormes fogos depuradores em nome da saúde dos corpos dos homens, que agora mal conseguirão ser curados de uma simples gripe sazonal: bosques carbonizados cobrirão as encostas das montanhas, onde troncos completamente enegrecidos serão tudo o que restará das antes frondosas árvores seculares cheias de pássaros e vida. Poucas estepes ressecadas serão o mísero testemunho do que outrora foram florestas e arvoredos, assim como os pensamentos depressivos de mentes atônitas e enfraquecidas serão apenas o pálido resíduo da vitalidade que outrora animava os homens quando estavam em contato com a natureza.

Tudo isso enquanto, para lidar com a escassez de gêneros alimentícios de primeira necessidade, serão instituídos modernos servos de gleba, ligados à terra, que não poderão abandonar. Sua tarefa será unicamente produzir o suficiente para garantir um nível de subsistência.

Medicalização Da Psique

Tranquilizantes, soníferos e sedativos serão sempre os suportes indispensáveis ​​que os homens não poderão mais subestimar, tanto quanto um par de robustas muletas pode sustentar um homem doente por causa de um infortúnio.

Os sedativos servirão para congelar as emoções e suavizar a inteligência; o novo homem será fundamentalmente obtuso, incapaz de impulsos vitais e analfabeto sobre as paixões.

Se o objetivo da psicologia era levantar o homem afetado pela inanição e pela abulia, a ciência da mente a serviço de Satanópolis terá a tarefa de introduzi-lo a elas.

Toda manifestação de curiosidade intelectual, capacidade crítica ou engenhosidade será vista como suspeita de ser potencialmente subversiva. Cada movimento emocional, desejo de emancipação e toda manifestação do instinto natural, mesmo que moderada, serão considerados uma forma de neurose digna de cura. Os fármacos serão os sacramentos mediante os quais as inquietudes serão narcotizadas, e os desejos de êxito individual anestesiados. O próprio desejo de constituir família, constituir prole e ser monogâmico será considerado como expressão de uma psicose incipiente.

Estar saudável significará ser infinitamente adaptável às circunstâncias, totalmente ratificado pela inanição espiritual e pela inércia existencial. Nada deve perturbar o procedimento monótono e repetitivo de uma vida privada de inclinação emocional.

Automatismo Da Vida Cotidiana

Se na fase revolucionária fluida a orgia da criatividade chega a atingir o bizarro, o grotesco e o extravagante, de modo que cada manifestação inusitada e blasfema era vista como modelo a imitar, a fase institucional estática determinará um brusco giro. Cumprida a tarefa de destruir a sociedade tradicional, em Satanópolis, a “quotidianidade” (a vida cotidiana) será articulada pela repetição de gestos divididos, repetidos monotonamente segundo uma ordem rigidamente preestabelecida e imutável: regrar-se-á cada hora de cada dia, em que se experimentarão as mesmas coisas fúteis, ontem igual a hoje, hoje igual a amanhã.

Cada gesto individual, reiterado numa espécie de coerção neurótica daquilo a ser repetido, acostuma a mente a se concentrar na execução de uma partitura sempre igual, em que o espaço reservado à criatividade e inventividade é reduzido a zero. Os cidadãos de Satanópolis deverão pensar em uma só coisa de cada vez, de forma consecutiva e conclusiva; nenhum gesto ou volição da mente deve permanecer inconclusivo ou incerto, senão que tudo deve ser concluído segundo regras-padrões bem delineadas, sem digressões. As atividades do corpo e da mente serão reguladas por protocolos para os quais, estabelecida uma causa, deve inevitavelmente seguir-se um determinado efeito: verifica-se, assim, em nível coletivo, um reflexo condicionado do tipo pavloviano. Nenhum passo poderá ser dado fora de uma via pedonal obrigatória, nem se poderá ver uma câmera televisiva, com as quais o espaço público estará saturado, sem experimentar um movimento de medo.

Aumentar-se-ão as horas de trabalho. O esforço físico e psíquico que exigirá o trabalho será caracterizado pelo tédio de gestos continuamente idênticos e repetidos, acompanhado de fadiga ocasionada pela compreensão de ações percebidas como sem sentido, porque se ignora para que servem, e porque separadas do produto final do trabalho, sobre o que nada se saberá.

O tédio psicológico e a fadiga corporal serão um excelente antídoto contra qualquer espírito de iniciativa, e o melhor freio contra o pensamento crítico. A dúvida, a incerteza ou a agitação serão atrofiadas, e as funções da mente e do corpo, reduzidas à execução de exercícios menores. Todo horizonte ideológico ou de perspectiva será, portanto, fortemente redimensionado.

Esterilização Cultural

Nos países de tradição democrática, os grandes meios de comunicação detêm o monopólio da “consciência crítica” contra o regime vigente. Solicitam interrogatórios e levantam questões, desenvolvendo assim a função de anticorpos contra o vírus da deriva autoritária.

Em Satanópolis, as más ações, ou seja, a progressiva redução da liberdade, serão justificadas por boas intenções, isto é, pela suposta salvaguarda de um “bem comum” abstrato e de contornos vagos. A construção do “bem comum” justificará os muitos sacrifícios e renúncias que se pedirá aos homens, enquanto em nome do “mal menor”, avançarão demandas cada vez mais exigentes de renúncia às liberdades fundamentais.

Em Satanópolis, toda expressão cultural enfrentará um processo de degradação que a conduzirá de uma visão geral e abrangente às minuciosas microanálises focadas em detalhes individuais: a literatura se tornará mera informação; a história se tornará sociologia; e a filosofia, psiquiatria. Todas as formas de conhecimento terão que rescindir os vínculos com a transcendência, aniquilando-a principalmente com a imanência.

As ciências humanas converter-se-ão em meras representações de dados factualmente visíveis ligados à vida cotidiana, e sua função não será mais levantar questões (especulativas), mas apenas indicar procedimentos e protocolos. A informação deverá comunicar os fatos sem comentá-los ou interpretá-los; a sociologia, com o subsídio da estatística, representá-los-á matematicamente, e a psiquiatria dá-los-á uma explicação pseudorracional à qual aderir de maneira fideísta.

A escola, a informação e as famílias serão sovietizadas, isto é, transformadas, ao final e ao cabo, em veículos de slogans, de palavras de ordem e de epigramas de rápido e fácil aprendizado, tanto para as jovens gerações quanto para os adultos infantilizados. O abuso da palavra “amor”, já abundantemente usada para fins manipulativos, será ainda mais acentuado: por “amor”, dever-se-á odiar a si mesmo, à sua própria história e à sua própria individualidade. Por “amor”, ninguém se deverá escandalizar por mais nada.

Cohausing (lares coletivos)

Se na fase fluida da revolução prevaleceu a tendência de dividir e isolar, naquela em que a revolução estará institucionalizada, prevalecerá a tendência à associação.

Associacionismo, é claro, não escolhido ou desejado, mas imposto: o homem não poderá mais se esconder dos demais homens, a intimidade será reduzida a alguns momentos de alívio, e o desejo de intimidade será percebido como uma potencial desordem psíquica.

No entanto, dado serem o lar e a família os lugares para preservar um espaço privado, ambos os aspectos estarão sujeitos a um processo de erosão.

A casa, como lugar privado para viver, será penetrada por necessidades que se farão passar por sociais: com toda a probabilidade, estabelecer-se-á a “necessidade moral” de não ter uma casa demasiado grande para as exigências da família: se o for, estabelecer-se-á a obrigação legal ou a compulsão moral de oferecer hospitalidade às chamadas “categorias desfavorecidas”, especialmente se forem imigrantes, tudo em nome da solidariedade.

A casa poderá ser mais facilmente invadida e revistada pela polícia, poderá ser controlada e vigiada a qualquer hora do dia ou da noite, como se fosse a cela de um prisioneiro, mais ou menos como poderia acontecer na antiga URSS ou RDA. Dado que a destruição da família acompanha o tamanho da casa, a diminuição progressiva do número de membros da família será acompanhada pela redução dos espaços privados de habitação. Estes processos de “miniaturização” (minimalismo!) e “coletivização” encontram suas expressões mais evidentes na prática de “co-housing” (em Espanhol, “covivienda“), já em fase avançada de consolidação nos países escandinavos, não em vão naqueles em que a família tradicional e natural se desintegra com maior rapidez [5].

A prática do cohousing consiste na construção de grandes unidades habitacionais em que exista apenas um único espaço privado, geralmente constituído por um quarto e um banheiro – mais ou menos como um quarto de hotel -, e uma série de espaços comuns a serem compartilhados com outros co-alojamentos, tipicamente: uma grande sala comum, cozinha e alguns espaços de lazer.

O modelo de cohousing está diretamente relacionado às ideias do antropólogo e filósofo Claude Levi Strauss, pai da corrente de pensamento denominada “estruturalismo”.

O estruturalismo imagina e desenha os contornos da sociedade futura, e especialmente da família, como comunidade tribal primitiva, caracterizada pela poligamia, comunidade de descendência, distribuição de bens e abolição da propriedade privada.

Além disso, a fabricação de moradias compartilhadas será facilitada pela prática da monoparentalidade feminina: as mulheres poder-se-ão tornar mães sem a ajuda de um varão, simplesmente injetando diretamente no útero fluido seminal vendido por “bancos de esperma” especiais ou também por correspondência, como já é possível hoje nos países do norte da Europa. As mulheres não necessitarão mais dos homens para se converterem em mães, e o próprio homem, degradado em sua paternidade, será cada vez mais marginalizado.

Em Satanópolis, portanto, a sociedade será composta principalmente por homens solteiros e mães solteiras, que viverão em microunidades habitacionais semelhantes a nichos e dotadas de grandes espaços coletivos, cujo uso estará rigorosamente regulamentado em termos de horários, formas de cuidados e regras de uso. Já não será mais possível autogerenciar o espaço privado simplesmente porque os lugares onde as pessoas viverão serão coletivizados.

Em pouco tempo, pois, as casas, tal como existiram há séculos, serão inúteis e, de fato, tachadas de nocivas ao meio ambiente, pois ocupam porções excessivas de espaço.

Pornomania & Sexofobia

Um dos fundamentos da mudança na fase fluida da desconstrução foi o “amor livre”. As incitações à prática do sexo em todas as suas formas foram, em particular, sobremaneira extravagantes, bem como excessivamente promovidas e estimuladas pelos meios de comunicação de massa, por influenciadores, psicólogos e sociólogos. O “amor livre” não respeita ninguém: a traição mesma é incentivada entre os cônjuges, e a fidelidade conjugal é rejeitada como resquício machista do passado. O amor livre é portador de emoções, liberdades e novos cenários; a fidelidade é tida como símbolo do imobilismo sufocante, da mumificação e do tédio.

Na fase sucessiva, em que se consolide e se institucionalize o processo revolucionário, e uma vez que o “amor livre”, juntamente com outros fatores, tenha esgotado seu papel de desintegrador familiar, o sexo livre também será demonizado e visto como um instinto troglodita, digno de uma sociedade de bárbaros e não exatamente do homem novo, altamente higienizado e coletivizado. Muito mais civilizada, confortável e higiênica será a prática da masturbação sistemática, o que, sobretudo na perspectiva desnatalista vigente em Satanópolis, representará o avanço da infecundidade. A nova conquista triunfante na cidade infernal será então representada pela pornomania e pela sexofobia.

Aparentemente, os dois termos por si só são contraditórios: por intermédio da mídia, a pornografia será transmitida a todo momento e em todas as ocasiões em canais normais de televisão, visando a desencadear uma verdadeira pandemia pornográfica, ou seja, uma “pornodemia”. O sexo virtual e onanista substituirá o real e dual, de modo que a difusão da prática da pornomania acarretará uma diminuição do sexo natural. Agora, como a propagação da pornomania é proporcional ao abandono e consequente diminuição do sexo natural, este será demonizado: a sexofobia, portanto, se tornará desenfreada e considerada dentro dos limites do delito, além de incorrer na reprovação moral coletiva.

Conclusão

A conclusão não pode ser senão una, clara e inequívoca: se não despertarmos, e se não assumirmos agora que tudo o que foi exposto acima já está em fase de edificação, tudo se tornará uma trágica realidade, por mais que pareça exagerada ou desproporcional. De resto, a história está repleta de eventos que, antes de serem verificados, pareciam inconcebíveis, e não é aqui ocasião para os relembrar. Portanto, o que fazer? Antes de tudo, invocar o celestial auxílio. Logo, convém desde já nos libertarmos dos laços que nos prendem aos bens materiais. Feito isso, desaparece o medo de perder algo e, assim, fica-se mais livre para prosseguir. Isso é tudo até aqui.


NOTAS

[1] Infierno, VIII canto, VI círculo – em que epicuristas e hereges são condenados.

[2] Sobre a jornada em etapas da revolução, ver Plinio Corrêa de Oliveira, Revolución y Contrarrevolución.

[3]A propósito do declínio da religião tradicional, remeto ao aprofundamento em meu estudo: Marco Sambruna, Il declino del sacro, Ed. Radio Spada.

[4] Sobre a ”sala de meditação” nas Nações Unidas, ver: https://www.unavox.it/ArtDiversi/DIV2661_Belvecchio_Meditation_room_all-ONU.html

[5] Sobre este aspecto, recomendo vivamente o artigo intitulado “A cosa serve l’uomo?” (¿A qué sirve el hombre) no seguinte link: https://www.vita.it/it/article/2016/08/05/a-che-cosa-serve-luomo-in-svezia-non-serve-a-niente/140360/.


Fonte: Miles Christi Resístens – Publicado em 02/mar/2022. Tradução do ensaio de Marco Sambruna, publicado na RADIOSPADA – (Parte 1, Parte 2, Parte 3 e Parte 4) (28/jan a 10/fev/2022)

Tradução do Espanhol ao Português: Gislene Nogueira

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