PIO XII E ROOSEVELT: UM CASO DE DIFAMAÇÃO

Tempos atrás, a Associação Cultural Montfort resolveu investir em ataques à posição sedevacantista e uma das objeções é uma difamação ao grande Papa Pio XII. Sabemos pois que é de praxe que boa parte dos resistentes difamem papas do passado para defender a sua insustentável posição teológica que sempre resulta na indocilidade para com o papa. Todavia, quando se trata de uma organização como a Montfort, a coisa piora, pois são décadas e décadas difamando os papas e hoje, para responder a todas essas difamações, é necessário muito tempo para dar as devidas respostas e hoje darei a minha contribuição para defender esse que foi o maior papa do século XX desde São Pio X.

O argumento é o seguinte: Pio XII teria caído em heresia ou cometido grave erro contra a fé ao anexar um telegrama do então Presidente Franklin Delano Roosevelt em sua alocução ao membros do Sacro Colégio e da Prelatura Romana por ocasião das felicitações de Natal em 24 de dezembro de 1939. Inclusive, a alocução foi publicada nas Atas da Sé Apostólica (AAS XXXII, pp. 6-13) assim como a resposta ao telegrama no mesmo volume (pp. 40-47, escrita em 7 de janeiro de 1940). Isso é o que dá a entender, pois, se baseando na reprodução do telegrama de Roosevelt. Com efeito, o Sr. Alberto Zucchi escreveu, repetindo as difamações de Orlando Fedeli, em seu infeliz artigo o seguinte:

Em 24 de dezembro de 1939, o Papa Pio XII lançou sua primeira Rádio-Mensagem de Natal, e nela introduziu uma novidade extraordinária e perplexitante: a inclusão, no seu texto, da íntegra de uma carta pessoal que o Presidente dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt, acabara de lhe enviar. Essa carta foi publicada sem críticas ou ressalvas pelo Papa, endossando, portanto, o texto do anti-católico presidente americano.

Curiosa a falta de noção do Sr. Zucchi nesse parágrafo. E ele continua:

A defesa do ecumenismo feita pelo Presidente americano é clara. O apoio dado por Pio XII a este texto é inequívoco. Se o texto tivesse sido publicado pelo Papa Francisco, como uma carta remetida por seu amigo secretário geral do partido comunista chinês, certamente seria apresentado como mais uma prova pelos sedevacantistas de que o Papa seria um impostor. Porque então a mesma situação não serve para acusar Pio XII? Isto para não mencionar que foi Pio XII quem iniciou a reforma litúrgica…

E para ele, nem mesmo São Pio X escapa como lemos mais adiante:

Será que mesmo São Pio X escaparia das condenações de Frei Tiago? Creio que não, pois é conhecido que São Pio X elogiou o movimento Sillon e posteriormente admitiu seu erro condenando o mesmo movimento na Encíclica Notre charge apostolique, de 1910. Ora, se todo o pronunciamento em matéria de Fé e Moral feito pelo papa tiver que ser infalível, quando São Pio X elogiou o Sillon ele não poderia ser papa e, se já não era papa antes, de nada adiantaria o seu arrependimento para retomar o lugar de Pedro.

Seria ingenuidade ou maldade? Aqui é evidente que o Sr. Zucchi não sabe nem o que é infalibilidade e nem como um papa pode ser deposto. Creio que ele jamais leu nenhum autor sedevacantista e procura tirar conclusões de comentários internéticos. Francisco manda uma carta parabenizando o promotor de sodomitas James Martin, isso não necessariamente o faz ser deposto, mas é um sinal suspeito de que ele não é papa. Se São Pio X elogiou erroneamente o Sillon, é porque ele não sabia o que o movimento era nessa época. Ora, o carisma da infalibilidade papal protege a inteligência do papa do erro na hora de ensinar em matéria de fé e moral, não o faz conhecer todas as contingências, como São Pio X ignorava com respeito ao Sillon. Mas retornemos ao caso de Pio XII.

Sua Santidade Pio XII errou contra a fé ao anexar uma carta do maçom anticatólico Roosevelt? A resposta é não. Primeiro, porque a alocução inteira foi plenamente ortodoxa. Depois, a anexação o telegrama de Roosevelt foi publicado no Osservatore Romano, não na Atas da Sé Apostólica, livrando assim que um conteúdo nada católico tivesse valor magisterial. Todavia, para o Sr. Zucchi, deveríamos crer que isso seja uma razão para rejeitarmos Pio XII como papa, o que não faria o menor sentido. Aliás, será que o Sr. Zucchi realmente crê que os católicos daquela época realmente esperariam um texto católico vindo de alguém que eles sabiam não ser católicos? Creio que ninguém minimamente ajuizado esperaria, o que mostra a desonestidade ou a ignorância do Sr. Zucchi. Mas há um outro fator a se entender. Seria evidente que Pio XII não seria grosseiro ou descortês com Roosevelt, por mais maçom que ele seja, mas sim diplomático devido ao contexto da época. Principalmente pelo fato de viver num barril de pólvora. A Segunda Guerra Mundial tinha acabado de começar e Pio XII viveu todo esse período em que o mundo testemunhou a pior e a maior guerra da história. Gostando ou não dos Estados Unidos (e eu particularmente detesto esse país pelo que conheço hoje), esse país seria útil no momento para conseguir certa segurança. Provavelmente, Pio XII esperava deles a possibilidade de se alcançar alguma paz terrena, ainda que a paz terrena seja distinta da de Cristo, é bom lembrar que em si é boa desde que seja por bom fim. Uma aliança com não católicos nesse caso não seria ilícita desde que isso não implique renunciar as verdades de fé. Coisa que, ao contrário do que faz os falsos papas, Pio XII jamais fez e nem faria.

Será que isso não seria mais que o suficiente para expor a maldade disso? Ademais, ensina Dom Félix Sardá y Salvany:

O Liberalismo, por moderado e fagueiro que se apresente na forma, é, em sua essência, oposição direta e radical ao Catolicismo. Os liberais são, pois, inimigos natos dos católicos, e só em algum conceito acidental podem ter interesses verdadeiramente comuns.
Podem, não obstante, dar-se alguns raríssimos casos. Pode, com efeito, suceder que contra uma das frações mais avançadas do Liberalismo, seja útil em certos casos a união de forças integralmente católicas com as de outro grupo mais moderado do próprio campo liberal (O Liberalismo é Pecado, Editora Santa Cruz, 2020, p. 145).

Pio XII queria a sua segurança evidentemente, assim como da Igreja local e certamente desconhecia diversas contingências sobre a pessoa do Roosevelt. Lembrando que se Pio XI já estava cercado de víboras que o recomendaram a condenar a Action Française e sugerir que os cristeros se renderem, quanto mais Pio XII em sua época. Infelizmente, os falsos tradicionalistas ou mesmo muitos sedevacantistas querem criar uma memória infeliz desse grande homem que viveu o talvez mais turbulento período da história da humanidade e fez o que pôde ao seu alcance e ações criminosas como a da Montfort mostram que tais pessoas não entendem nada, se recusam a entender ou simplesmente mentem.

Assim, fica claro que, ainda que a Associação Cultural Montfort tenha conteúdos úteis em muitas aulas, em outras aulas e em artigos como esse, possui conteúdos perniciosíssimos difamando papas como Pio XII, Pio IX, Pio VII e outros papas que elogiaram A Divina Comédia de Dante Alighieri. Para o Sr. Zucchi, infalibilidade implicaria ter a mesma interpretação que Orlando Fedeli tem da obra. Para essa gente, nem São Pedro escapa das difamações, bastando ver a interpretação equívoca que dão à resistência de São Paulo.

Sei que isso aconteceu há alguns meses, mas como não vi ninguém defendendo Pio XII, eu resolvi hoje escrever a respeito. Que Pio XII, do céu, rogue por esses infelizes que o difamam e se convertam verdadeiramente a fé católica.

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