DOIS RITOS, DUAS RELIGIÕES

NOTA: texto antigo que escrevi também pela ocasião da promulgação do motu proprio Traditionis Custodes. Fiz reparos para que melhor se adeque à minha atual posição sedevacantista.

O que a é Santa Missa

Primeiro, vamos dar a definição do que é a Santa Missa. Quem nos dá é o teólogo tomista Merkelbach, ao dizer que a Santa Missa é “o sacrifício incruento da Nova Lei, no qual o corpo e o sangue de Cristo, sob as espécies de pão e do vinho, por uma imolação mística, são oferecidos por um legítimo ministro de Cristo a Deus, a fim de reconhecer seu supremo domínio e aplicar os méritos do Sacrifício da Cruz” (Summa Theologiae Moralis, III, 308). Tal definição deveria ser o suficiente para vermos que o que se ensina sobre a Instrução Geral do Missal Romano de 1969 em diante se afasta muito do que é ensinado não apenas nessa citação, mas também como é ensinado no Concílio de Trento.

Na Instrução Geral do Missal Romano (a partir de já IGMR) de 2002 lemos o seguinte:

Na Missa ou Ceia do Senhor, o povo de Deus é convocado e reunido, sob a presidência do sacerdote que faz as vezes de Cristo, para celebrar o memorial do Senhor ou sacrifício eucarístico. A esta assembléia local da santa Igreja se aplica eminentemente a promessa de Cristo: “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou Eu no meio deles” (Mt 18, 20). Com efeito, na celebração da Missa, em que se perpetua o sacrifício da cruz, Cristo está realmente presente: na própria assembléia congregada em seu nome, na pessoa do ministro, na sua palavra e, ainda, de uma forma substancial e permanente, sob as espécies eucarísticas (IGMR, 2002, 27).

O parágrafo destoa totalmente do que lemos na definição do Padre Merkelbach e do que ensina o Concílio de Trento. Enquanto na definição do dominicano se encontra, se evidencia, a qüididade da Santa Missa, aquilo que realmente a missa é segundo o Concílio de Trento definiu, na descrição da IGMR isso não parece. Na descrição modernista, a essência da missa consiste na reunião do “povo de Deus”. Depois, enfatiza isso citando o Evangelho: “Onde dois ou três reunidos em meu nome, etc.” Parece evidente que essa descrição desvaloriza significativamente as missas privadas, cujo valor é o mesmo em substância das públicas. Com efeito, se a IGMR nos diz que a essência da missa é uma reunião, não terá mais sentido termos missas privadas [1] [1 IGMR, 2002, 254: “Não se celebre sem a assistência de um ministro ou ao menos de algum fiel, a não ser por causa justa e razoável. Neste caso omitem-se as saudações, as admonições e a bênção do fim da Missa”]. Isso já nos mostra por que o novus ordo possui uma das suas notas mais conhecidas: a de fazer a missa parecer muito mais uma ceia do que um sacrifício.

A bula Quo Primum Tempore

Quase quatrocentos anos antes de a missa nova ser promulgada, São Pio V tinha feito a Reforma definitiva do Rito Romano. Como disse antes, São Pio V não criou um rito novo. O Rito Romano é de herança apostólica e sempre foi uno e se desenvolveu como vemos na forma atual organicamente, sempre buscando melhorar.

Durante a Idade Média, tivemos uma multidão de ritos além do Romano. Depois veio a Revolução Protestante e eis que os hereges investiram contra a liturgia, fazendo uma verdadeira anti-propaganda contra o Rito Romano. Como muitos impostores tomaram as paróquias depondo seus párocos e sabendo que a unidade do Rito foi ameaçada, a reforma do Concílio de Trento se fez necessária e o rito verdadeiramente católico precisou expressar ali a sua mais manifesta identidade e eis que surge assim o que chamamos de Missa Tridentina, que nada mais é que a Santa Missa rezada na forma do Rito Romano segundo a reforma do Concílio de Trento. São Pio V, como dissemos, não inventou absolutamente nada. Ele simplesmente codificou e canonizou o rito e essa canonização é expressa na bula Quo Primum Tempore (desde já QPT).

Na bula, no ponto 6, lemos que “[…] a fim de que todos, e em todos os lugares, adotem e observem as tradições da Santa Igreja Romana, Mãe e Mestra de todas as Igrejas, decretamos e ordenamos que a Missa, no futuro e para sempre, não seja cantada nem rezada de modo diferente do que esta, conforme o Missal publicado por Nós, em todas as Igrejas…”. Depois, no artigo 8: “[…] em virtude de Nossa Autoridade Apostólica, pelo teor da presente Bula, concedemos e damos o indulto seguinte: que, doravante, para cantar ou rezar a Missa em qualquer Igreja, se possa, sem restrição seguir este Missal com permissão e poder de usá-lo livre e licitamente, sem nenhum escrúpulo de consciência e sem que se possa incorrer em nenhuma pena, sentença e censura, e isto para sempre” (QPT, 8). Depois: “Da mesma forma decretamos e declaramos que os Prelados, Administradores, Cônegos, Capelães e todos os outros Padres seculares, designados com qualquer denominação, ou Regulares, de qualquer Ordem, não sejam obrigados a celebrar a Missa de outro modo que o por Nós ordenado; nem sejam coagidos e forçados, por quem quer que seja, a modificar o presente Missal, e a presente Bula não poderá jamais, em tempo algum, ser revogada nem modificada, mas permanecerá sempre firme e válida, em toda a sua força” (QPT, 9). E encerra assim: “Assim, portanto, que a ninguém absolutamente seja permitido infringir ou, por temerária audácia, se opor à presente disposição de nossa permissão, estatuto, ordenação, mandato, preceito, concessão, indulto, declaração, vontade, decreto e proibição. // Se alguém, contudo, tiver a audácia de atentar contra estas disposições, saiba que incorrerá na indignação de Deus Todo-poderoso e de seus bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo” (QPT, 14).

Por que citei esses trechos? Para mostrar os pontos em que a bula cita as palavras “para sempre”, “jamais”, “em tempo algum”, “permanecerá sempre firme”. A bula, como se vê, possui todas as notas de infalibilidades ao menos nessas partes. A bula serve aqui para demonstrar toda a autoridade com que esse rito foi canonizado. Não se proíbe mudanças acidentais, claro, como fizeram até Pio XII, mas jamais permitiu mudanças como fizeram como o novus ordo, que é um rito bastardo saído de um laboratório. É, pois, relevante sim mencionar essa bula e explicitar a temeridade com que o rito novus ordo foi instituído mostrando que, muito provavelmente, este é um rito ilícito (que um papa legítimo jamais poderia aprovar em circunstância alguma, pois os pretensos reformadores foram absolutamente indóceis com o Magistério e não pensaram nas ímpias conseqüências decorrentes.

Em verdade, razão por que o Rito Romano só pode ser um e porque é o rito que realmente agrada a Deus, nem precisamos dessa bula para defender intransigentemente a chamada Missa Tridentina. Esse rito se formou organicamente sempre se reformando para melhorar e expressar cada vez melhor a fé católica e combater heresias. Nisso, como se verá, o novus ordo é a radical antítese do rito tridentino.

A oferta de Caim

Sei que o título é muito forte, mas explicarei por que chamo assim. É evidente a discrepância que há entre ambos os ritos, seja na origem e seja no ser do rito em si. A intenção descrita dos ritos no Concílio de Trento e na Instrução Geral expressam uma diferença não apenas acidental, mas essencial. Em um vemos um autêntico sacrifício e no outro uma reunião, uma assembléia. Claro que a Igreja se identifica com uma assembléia, pois etimologicamente, Igreja vem de ekklesia (ἐκκλησία), que significa “assembléia”. Mas a Igreja é uma coisa e rito é outra. O rito é próprio da Igreja, mas se distingue dela. O rito, a missa, é antes o sacrifício da religião da Igreja, o sacrifício que o ministro de Cristo realiza em nome da Igreja para maior glória de Deus. Nesse sacrifício, o corpo e o sangue de Cristo são misticamente imolados de forma incruenta renovando aquele sacrifício do Calvário. No Rito Romano reformado no Concílio de Trento, temos o autêntico sacrifício, ou melhor a renovação daquele sacrifício ao qual o Verbo encarnado se deu por amor ao Pai e para a nossa salvação onde os infinitos méritos são aplicados. O ofertório dessa Santa Missa reza o seguinte:

“Recebei, santo Pai, onipotente e eterno Deus, esta hóstia imaculada, que eu, vosso indigno servo, vos ofereço, ó meu Deus, vivo e verdadeiro, por meus inumeráveis pecados, ofensas e negligências, por todos os que circundam este altar, e por todos os fiéis, vivos e falecidos, a fim de que, a mim e a eles, este sacrifício aproveite para a salvação na vida eterna. Amém” (“Suscipe, sancte Pater, omnipotens aeterne Deus, hanc immaculatam hostiam, quam ego indignus famulus tuus offero tibi, pro innumerabilibus peccatis, et offensionibus, et negligentiis, et pro omnibus circumstantibus, sed et pro omnibus fidelibus Christianis vivis atque defunctis: ut mihi, et illis proficat ad salutem in vitam aeternam. Amen”).

A oração tradicional do ofertório manifesta com perfeição a intenção de se realizar um sacrifício agradável a Deus. Como sabemos, pois, que tal sacrifício, nesse rito e com essa oração, é realmente agradável a Deus? Leiamos a Sagrada Escritura: “Abel também ofereceu dos primogênitos do seu rebanho: e o Senhor olhou para Abel, e para os seus dons” (Gên. IV, 4). Ora, hanc immaculatam hostiam poderia ser traduzido também por “esta vítima imaculada” e vítima pressupõe aqui um sacrifício. Logo, Abel ofereceu um sacrifício agradável a Deus tal como o Rito também oferece. Ainda no Gênesis, Noé agradou a Deus com sacrifícios e depois no Antigo Testamento vemos uma multidão de sacrifícios agradáveis a Deus (cf: livro do Êxodo, por exemplo).

E quanto ao novus ordo? Retornemos à Sagrada Escritura: “Passado muito tempo aconteceu oferecer Caim em oblação ao Senhor dos frutos da terra. […] [O Senhor] não olhou, porém para Caim, nem para os seus dons” (Gên. IV, 3.5). Ora, o ofertório do novus ordo diz o seguinte: “Bendito sejais, Senhor, Deus do universo, pelo pão que recebemos da vossa bondade, fruto da terra e do trabalho do homem, que hoje vos apresentamos e que para nós se vai tornar o Pão da vida”. Veja que enquanto no Rito Romano o ofertório é rezado como se a hóstia estivesse consagrada mesmo não sendo, ao contrário do rito novo. Não há um sacrifício propriamente dito, mas um tipo de troca com a intenção de um lucro. Este ofertório simplesmente tangencia a blasfêmia.

Curiosamente, o comportamento do alto clero após a promulgação do novus ordo para com os padres que resistiram ao rito não foi muito diferente do mesmo Caim, com todo apoio do arquiteto do mesmo rito, o Bugnini. Houve uma perseguição cruel e os documentos Summorum Pontificum e Traditionis Custodes são análogos ao convite de Caim feito a Abel. Porém, a maldade o rito novo não pára por aí.

Vernáculo, “abusos litúrgicos” e comunhão na mão

Em favor da brevidade do artigo, não me estenderei muito. Creio que o que se vê nesses ritos em nada pode estimular a piedade por si mesma, ao contrário do Rito Romano. Ainda que possam existir pessoas piedosas que freqüentam o rito novo, tal piedade não decorre do rito, que é mau, mas pelo sincero amor a Deus. O fato de tal pessoa assistir a esses ritos é algo acidental e não essencial e geralmente muitas dessas pessoas desejam assistir a um rito digno e no fundo vêem que tal rito tem algo de errado, mas que por desconhecimento teológico mais profundo as impede de enxergar. Mas podemos enumerar os principais erros do novo rito em quatro: vernáculo no lugar do latim, o rito dialogante estimulado pelo ad populum, os ditos “abusos litúrgicos” e por fim a ímpia comunhão na mão. Há outros fatores que renderiam livros e livros, como de fato foram escritos diversos livros só sobre isso ou pelo menos com parte dedicada. Aqui farei um resumo.

Vernáculo no lugar do latim

Muitos aqui argumentam absurdos como que na última ceia Nosso Senhor Jesus Cristo teria rezado em aramaico, coisa que Michael Davies refutou, apesar de sua ingenuidade em crer que não era a intenção do Concílio Vaticano II acabar com o latim como se lê em diversas páginas de sua famosa trilogia [2] [2 A trilogia do Michael Davies sobre o Concílio Vaticano II e a reforma litúrgica decorrente dele é composta pelos títulos: A Reforma Litúrgica de Cranmer (Editora Permanência, 2017), O Concílio de João XXIII (2018) e A Missa Nova de Paulo VI (2019). Os títulos são recomendáveis na medida em que o leitor tenha consciência das ressalvas que se deve dar]. Ademais, é mais provável que tenha se dado em hebraico. Quanto às orações rezadas nas liturgias orientais, não são necessariamente em vernáculo, mas na forma arcaica dos idiomas locais. Quanto à licença que a Santa Sé concedeu para que se rezasse as missas em persa e em chinês, devemos considerar isso uma exceção e não a regra, pois tais exceções devem se entender como uma exceção dada devido às dificuldades lingüísticas. O que não faz o menor sentido é querer missas em vernáculo nos países ocidentais depois de séculos e séculos de missa em latim.

Ademais, aqui repito as palavras do Padre Júlio Maria:

Por que a Igreja conserva o latim? Porque sendo a Igreja universal, espalhada no mundo inteiro, é necessário que haja um laço comum de linguagem que una todos os fiéis do mundo. // O protestantismo, sendo uma seita local ou regional, deve adotar para o seu culto a língua do país onde penetra. // O Catolicismo é mundial. Tem sua língua própria, que todos os padres conhecem e falam, conservando, deste modo, a unidade perfeita do culto, de preces, de textos da Sagrada Escritura etc. // Quem quiser possuir as traduções, pode adquiri-las, desde que sejam aprovadas. // Aliás, a Santa Missa não é tanto uma oração, mas é o sacrifício do Calvário, representado e renovado, e para isto não é preciso os fiéis acompanharem as orações de ouvido; podem lê-las pessoalmente. // Quanto ao culto de pregação, comentários, interpretação da Bíblia, tudo se faz em vernáculo. // O uso do latim obriga o padre a longos estudos, enquanto no protestantismo qualquer roceiro analfabeto de hoje é promovido pelo a pastor no dia seguinte. // Se os pastores protestantes soubessem um pouco de latim e de grego, como os padres, não diriam tantos disparates na explicação da Bíblia (Ataques Protestantes às Verdades Católicas: Com as respectivas respostas irrefutáveis, Santa Cruz Editora e Livraria, 2018, p. 70s).

E Sua Santidade Pio XII confirma: “O uso da língua latina vigente em grande parte da Igreja, é um caro e nobre sinal de unidade e um eficaz remédio contra toda corruptela da pura doutrina” (Carta Encíclica Mediator Dei, n. 53, 20 de novembro de 1949). Pela sua imutabilidade, o latim é adequado para transmitir o que é imutável. Por isso o latim é adequado tanto para ser usado nos documentos oficiais como nas orações litúrgicas no Rito Romano. Todavia, o Concílio Vaticano II preparou a destruição do latim nos seguintes termos com a Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium:

36 § 1. Deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos, salvo o direito particular.
§ 2. Dado, porém, que não raramente o uso da língua vulgar pode revestir-se de grande utilidade para o povo, quer na administração dos sacramentos, quer em outras partes da Liturgia, poderá conceder-se à língua vernácula lugar mais amplo, especialmente nas leituras e admonições, em algumas orações e cantos, segundo as normas estabelecidas para cada caso nos capítulos seguintes.
§ 3. Observando estas normas, pertence à competente autoridade eclesiástica territorial, a que se refere o artigo 22 § 2, consultados, se for o caso, os Bispos das regiões limítrofes da mesma língua, decidir acerca do uso e extensão da língua vernácula. Tais decisões deverão ser aprovadas ou confirmadas pela Sé Apostólica.
§ 4. A tradução do texto latino em língua vulgar para uso na Liturgia, deve ser aprovada pela autoridade eclesiástica territorial competente, acima mencionada.

Esses parágrafos estão cheios de armadilhas. Seria uma ingenuidade muito grande crer que a intenção do Concílio Vaticano foi preservar o latim. O parágrafo § 2 deixa claro isso e isso antes mesmo da promulgação do novus ordo. Quem leu o livro do Padre Ralph Wiltgen, O Reno se lança no Tibre, deverá entender até onde quero chegar. No livro do padre americano, lemos como os bispos, cardeais e peritos dos países por onde o Reno passa (Áustria, Suíça, Alemanha, França, Holanda, podemos incluir a Bélgica como exceção) trabalharam para influenciar o Concílio. No caso da constituição sobre a liturgia, temos a autoridade do bispo da diocese de Linz, cidade alemã, Monsenhor Franz Salesius Zauner. Monsenhor Zauner foi uma autoridade muito competente e conseguiu uma ampla aprovação sobre essa constituição (cf: O Reno se lança no Tibre, Editora Permanência, 2007, pp. 141-145).

Abusos litúrgicos?

Abusos litúrgicos são os supostos desvios do missal com uma finalidade estranha à liturgia em si. Vemos hoje missas com temáticas em que absolutamente nada lembra o santo sacrifício e chega a colocar em xeque mesmo a validade do mesmo sacramento. Todavia, vale lembrar que os principais intérpretes de tais missais, de tais rubricas etc., são os bispos e os papas e od que se reconhece como tais hoje rezam ritos com tais abusos. Chamam “abusos litúrgicos” (depois explico as aspas) as tais missas afro, sertanejas, indígenas, do palhaço ou os ritos que chegam ao cúmulo de termos no altar pessoas de outra religião participando e mesmo hereges e cismáticos pregando no lugar do padre.

Vemos que nesses casos, já é mera aparência de um rito não católico, mas vemos nesse caso algo que põe a fé em risco. A pessoa já fica confusa sem saber se participa de uma missa (que por si parece um rito humanista) ou de uma festa pagã. Nesse caso, já vemos que assistir a uma missa dessas para supostamente cumprir preceito já é inadmissível, pois o sacramento já está duvidoso, pois fica incerta a presença da intenção mínima de se realizar um sacrifício ali.

Mas convém aqui e agora explicar o porquê das aspas. Com efeito, diz Constituição Sacrosanctum Concilium: “Na reforma e incremento da sagrada Liturgia, deve dar-se a maior atenção a esta plena e activa participação de todo o povo porque ela é a primeira e necessária fonte onde os fiéis hão de beber o espírito genuìnamente cristão. Esta é a razão que deve levar os pastores de almas a procurarem-na com o máximo empenho, através da devida educação” (n. 14). Repare que a grande preocupação do Concílio é a “participação dos fiéis”, não mais a glória de Deus, mas sim a participação dos fiéis. Isso se confirma mais adiante:

A santa mãe Igreja, para permitir ao povo cristão um acesso mais seguro à abundância de graça que a Liturgia contém, deseja fazer uma acurada reforma geral da mesma Liturgia. Na verdade, a Liturgia compõe-se duma parte imutável, porque de instituição divina, e de partes susceptíveis de modificação, as quais podem e devem variar no decorrer do tempo, se porventura se tiverem introduzido nelas elementos que não correspondam tão bem à natureza íntima da Liturgia ou se tenham tornado menos apropriados.
Nesta reforma, proceda-se quanto aos textos e ritos, de tal modo que eles exprimam com mais clareza as coisas santas que significam, e, quanto possível, o povo cristão possa mais facilmente apreender-lhes o sentido e participar neles por meio de uma celebração plena, activa e comunitária. (21)

Parece uma língua bífida atuando aqui, misturando mentira com verdade. Ora, fala de reforma geral, ora fala que tem partes que devem ser mudadas. No fim do ponto 21, lê a real intenção: novamente um fim puramente humanista desligado da glória da Santíssima Trindade. Tudo isso foi escrito antes mesmo de surgir a nova missa, mas está claro que a constituição foi escrita tendo em vista do que viria, pois o que está escrito no documento não parece coadunar com vemos no Rito Romano. Isso significa que o novus ordo não é bom mesmo quando não há desvios nele. Primeiro, porque quase não tem como distinguir o que realmente é realmente um desvio ou não. Mesmo aqueles que se reconhece como papas e os bispos rezaram e rezam missas assim. João Paulo II esteve em uma missa onde uma aborígene de Papua Nova Guiné leu a epístola com os seios de fora. Segundo, o próprio pai do novus ordo, Annibale Bugnini, comemorou tais inculturações [3] [3 Existe a sã e boa inculturação quando, por exemplo, um templo pagão é adaptado para ser não mais pagão e desde já católico. Elimina-se as imagens de ídolos e outras imagens, coloca-se a de santos, e consagra o templo a Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim temos um templo católico com a arquitetura local típica. Assim ajuda os moradores locais, mas ordenando-os à verdadeira fé porque ajudou num aspecto acidental. Quando se reza uma missa com temática afro, sertanejo, infantil etc., isso já deixa de ser meramente acidental, pois são mudanças que afetam o rito e, logo, a lex orandi e a lex credendi. Tais inculturações litúrgicas colocam em risco a fé, ofende o Nosso Senhor e destrói a própria natureza da liturgia] diversas vezes em seu livro A Reforma Litúrgica. Por fim, os próprios reformadores que trabalharam para Bugnini deixam claro que criaram o novus ordo assim justamente porque queriam um rito que variasse de igreja para igreja e de padre para padre.

Como falar de abusos se temos inúmeros exemplos demonstrando de que em geral não são exatamente abusos? Prefiro dizer que a imposição do novus ordo que é o abuso.

Comunhão na mão

A comunhão na mão é o que há de mais perverso, ímpio e satânico no novus ordo. Tal prática é proibida no Rito Romano, mas que ganhou concessão no novus ordo. Para defender tal absurdo, se valem argumentos arqueológicos, como dizer que tal prática era praticada na Igreja Primitiva. O arqueologismo, vale lembrar, foi condenado por Pio XII [4] [Cabe aqui lembrar os exemplos que Pio XII dá de arqueologismo: “está fora do caminho quem quer restituir ao altar a antiga forma de mesa; quem quer eliminar dos paramentos litúrgicos a cor negra; quem quer excluir dos templos as imagens e as estátuas sagradas; quem quer suprimir na representação do Redentor crucificado as dores acérrimas por ele sofridas; quem repudia e reprova o canto polifônico, ainda quando conforme às normas emanadas da santa sé” (Mediator Dei, n. 57). Prova-se que o novo rito está em plena ruptura com o que Pio XII ensina]. Se a Igreja deixou tal prática, é porque já não convinha.

Se a existia tal prática, que era meramente tolerada, não existe mais. Ademais, vamos aqui focar na principal razão dos pedidos do retorno da comunhão na mão: ecumenismo. Os protestantes ordinariamente comungam na mão, assim um rito em que se comunga na mão dentro da Igreja Católica daria a ela de ser uma igreja que busca se aproximar dos irmãos separados. A que preço? A grave irreverência para com o Nosso Senhor Jesus Cristo. O historiador da religião Michael Davies denuncia que depois que a Igreja proibiu a comunhão no Ocidente, a primeira pessoa a defender a comunhão na mão foi o herege calvinista Martin Bucer. Com efeito, diz o herege:

De fato, não tenho a menor dúvida de que o costume de não colocar esses sacramentos nas mãos dos fiéis tenha sido introduzido a partir de uma dupla superstição: primeiramente a falsa honra que quiseram mostrar para com esse sacramento, e em segundo lugar a odienta arrogância dos padres que reivindicam para si uma santidade maior que a do povo de Cristo, pelo poder do óleo da consagração. O Senhor, sem dúvida, entregou-os, seus sagrados símbolos, nas mãos dos apóstolos, e ninguém que tenha lido os registros dos antigos pode ter qualquer dúvida de que esse era o costume observado pelas Igrejas antes do advento da tirania do Anticristo Romano.
Como, portanto, deve ser detestada toda superstição do Anticristo Romano e restaurada a simplicidade de Cristo, dos Apóstolos e das Igrejas antigas, desejo que os pastores e instrutores do povo sejam ordenados a ensinar fielmente a seu povo que é supersticioso e errado pensar que as mãos daqueles que acreditam verdadeiramente em Cristo sejam menos puras que suas bocas, ou que as mãos dos ministros sejam mais santas que as mãos dos leigos, e que por isso seria errado, ou menos adequado, como anteriormente foi crido erroneamente pelo povo comum, para o leigo receber esse sacramento na mão. E que, assim, as indicações dessa iníqua crença sejam removidas, como aquela em que os ministros podem manusear os sacramentos, mas não permitem que os leigos o façam, e em vez disso colocam os sacramentos em suas bocas – o que não é apenas estranho ao que foi instituído pelo Senhor, mas ofensivo à razão humana.
Daquela forma, os bons homens serão facilmente trazidos ao ponto em que todos receberão os símbolos sagrados nas mãos, a conformidade no recebimento será mantida, e haverá salvaguardas contra todo abuso furtivo dos sacramentos. Porque, apesar de por um tempo poderem ser feitas concessões para alguns cuja fé seja fraca, dando-lhes os sacramentos na boca quando assim o desejarem, se eles forem cuidadosamente ensinados, em breve se conformarão ao restante da Igreja e tomarão os sacramentos nas mãos (apud MICHAEL DAVIES; A Missa Nova de Paulo VI, Editora Permanência, 2019, pp. 399s).

Como podemos ver, o protestante Martin Bucer odiava a Igreja Católica e negava os dogmas da Presença Real de Nosso Senhor Jesus Cristo no Sacramento da Eucaristia e da transubstanciação com tal virulência que impunha a comunhão na mão para enfatizar essas negações. Martin Bucer, conspirador que atuava contra a Santa Missa, influenciou os outros hereges de renome dentre os quais citamos Thomas Cranmer, que, como Michael Davies expõe na sua trilogia, realizará a ímpia reforma na qual deixará a liturgia anglicana completamente diferente da anterior e será imitada por outros conspiradores que se dizem reformadores pouco mais de 500 anos depois com o Vaticano II e a instituição do novus ordo, a ponto de muitos protestantes elogiarem, como o Max Thurian, da Comunidade de Taizé.

Assim, virão coisas piores, por exemplo, ministros da Eucaristia leigos distribuindo a comunhão nas mãos de outros fiéis. Inclusive mulheres vestidas imodestamente e em duas espécies (a comunhão em duas espécies foi proibida no Rito Romano para combater uma heresia que dizia que só se comunga o Cristo inteiro em duas espécies. Essa prática retornou pelas mesmas razões da comunhão na mão como mostra Michael Davies). Assim, conhecendo toda essa história, fica impossível defender a comunhão na mão e, conseqüentemente, a missa nova.

Conclusão sobre os ritos

Fica evidente aqui que se trata de um rito de uma outra religião e muito provavelmente feito com as piores intenções. Deduz-se isso a partir mesmo dos padres que participaram das reformas. Especialmente pela chamada Comissão Piana, que “[e]m doze anos de vida (28 de junho de 1948 – 8 de julho de 1960), a Comissão realizou 82 reuniões e trabalhou em segredo absoluto. O sigilo foi tanto que a publicação do Ordo Sabbati Sancti instaurati, nos primeiros dias de março de 1951, colheu de surpresa os próprios oficiais da Congregação dos Ritos” (ANNIBALE BUGNINI; A Reforma Litúrgica, p. 42). Sabemos que as autênticas reformas que ocorreram antes foram com a finalidade de expressar melhor a fé católica e combater as heresias. As reformas lideradas por Bugnini seguiram o caminho inverso, para expressar um humanismo e assim a fé fica reduzida. Se consideramos isso e compararmos com o que Monsenhor de Ségur disse em seu A escola sem Deus, percebemos que tais reformas são de inimigos de Deus e não por quem quer promover a Igreja e a glória do Senhor. Leiamos o que o Bispo francês escreveu: «o que se oculta no íntimo do pensamento destas gentes, moderadas na aparência, que pedem a separação da Igreja e da escola, é o ódio à Igreja, o ódio à Jesus Cristo, o ódio à Deus e à Religião».

Pronta essa conclusão, creio que não preciso me estender mais aqui.

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