BREVE NOTA SOBRE O ENTE

A inteligência humana é limitada por depender dos sentidos* – externos e internos – para reunir os dados necessários para alcançar aquilo que é o seu objeto, e por isso dizemos que a nossa inteligência é a ínfima de todas as inteligências, muito abaixo dos anjos e infinitamente abaixo de Deus. E por objeto chamamos aquilo ao qual a coisa se direciona. Assim, por exemplo, entende-se que o objeto do sentido da audição é o som. Com efeito, o objeto da inteligência deve ser aquilo que lhe é próprio para que se possa operar. E o objeto da nossa inteligência é o ente.
E o que é o ente? É o que é ou o que tem ser.

Sobre o ente, escreveu Santo Tomás de Aquino que «o ente por si se diz de dois modos: de um modo que é dividido por dez gêneros; de outro modo, significando a verdade das proposições. A diferença destes é que, do segundo modo, pode ser dito ente tudo aquilo do qual pode ser formada uma proposição afirmativa» (De Ente et Essentia, cap. I, 3). Atenhamos ao segundo modo de se dizer ente: «[é] tudo aquilo do qual pode ser formada uma proposição afirmativa» (loc.cit.). Assim podemos entender melhor o que ele é sem dar saltos indevidos pois para compreender o primeiro modo teria de entender o que são os dez gêneros, que são as categorias.

Se o ente é aquilo que tem ser, então basta ter ser para lhe dar uma proposição afirmativa. Assim, desse modo podemos dizer que as privações e negações podem ser entes, como, por exemplo, a cegueira do olho, como ensina novamente Santo Tomás no mesmo lugar. Assim, dizemos que tudo é ente: desde um vago pensamento até Deus, que é o próprio Ser Subsistente por si mesmo.

Uma confusão comum, presente até entre os tomistas modernos, é o uso do termo ser no lugar de ente. “Ser” em latim é esse e “ente” é ens. Muitos entendem que ens seria a conjugação do verbo esse no particípio presente. Todavia, parece que o mais correto é dizer que é particípio modal, tal como o fluente está para fluir, ente está para o ser, ou melhor dizendo: ens está para o esse. O ser, por assim dizer, é o que podemos chamar nesse caso de actus essendi, isto é, o ato daquilo que está sendo.

Assim, fica explicado o objeto da inteligência: o ente. Assim, o ente apetece a nossa inteligência porque ela sempre tende a conhecê-lo. Por isso apenas Deus pode apetecer totalmente a nossa inteligência porque é o ente por antonomásia, pois n’Ele o ente e o ser se coincidem uma vez que é o Ser Subsistente por si mesmo, a fonte de todo ser, o ente que é causa de todos os entes.

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* Sentidos são uma espécie de potências presentes na alma dos animais brutos e do próprio homem (que são, como se verá mais para frente, substâncias viventes e sensíveis). Há duas espécies de sentidos: externos (visão, audição, olfato, paladar e tato) e internos (sentido comum, memória, imaginação e cogitativa, este último chamamos estimativa nos animais brutos).

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