A HONRA DEVIDA A SÃO MARCELINO: REFUTANDO DIFAMAÇÕES

Infelizmente nos últimos dias, dada a repercussão de várias pessoas que mudaram da posição RR para a dita sedevacantista, choveu artigos e vídeos mentirosos e espalharam histórias difamando papas santos. Uma dessas histórias é a do Papa São Marcelino, grande papa e mártir.

O que usaram recentemente é uma obra do Padre Jean Croisset, intitulado Ano Cristão. Eu não me disponho dessa obra em português, mas em espanhol e em PDF. O trecho, que traduzo do espanhol, diz o seguinte, reproduzindo a fala dos padres que testemunharam a penitência de São Marcelino como se tal fosse uma refutação ao sedevacantismo:

A Primeira Sé do mundo não reconhece tribunal superior. [Pois]* imitastes a Pedro pecador, imita a Pedro penitente, sê sua cópia, assim como sois seu sucessor. Por sua contrição e por suas lágrimas obteve a remissão de vossos pecados; pelas vossas [lágrimas] deveis vos esperar da bondade infinita de Deus dos vossos [pecados]. Nenhum de nós terá a ousadia para julgá-lo; sê vós mesmo o vosso juiz; cabe a vós o escândalo que haveis dado (Año Cristiano o Ejercicios Devotos para todos os Dias del Año, Libreria de Rosa y Bouret, 1864, tomo IV, p. 603). * parte parcialmente ilegível. Deduzo que seja a palavra “Poes” que esteja escrito no arquivo.

O trecho é, de fato, comovente e mostra a submissão que os bispos tinham ao papa e a piedade deles. Esse trecho é usado pelos militantes ditos tradicionalistas para dizer que temos um exemplo de um papa que supostamente apostatou da fé católica. Será que alguém um dia quis usar esse argumento contra a posição católica contra esse santo papa? Sim, muitos, mas aqui usarei um autor pouco lembrado que para atacar a infalibilidade papal, falou da “apostasia” de São Marcelino: o gramático protestante Eduardo Carlos Pereira, autor de O problema religioso da América Latina. O Pe. Leonel Franca refutou esse livro de capa a capa sem deixar pedra sobre pedra. Ao responder o autor, pareceu responder às difamações espalhadas recentemente pelos ditos tradicionalistas. Leiamos a resposta:

“O Papa Marcelino (296-303) para fugir à perseguição, tornou-se idólatra: entrou no templo de Vesta, fazendo ofertas a esta deusa”, p. 371. – Queimar incenso é definir um dogma? Marcelino ensinou porventura “na esfera de suas atribuições oficiais” ser a idolatria verdade revelada que deve ser admitida por todos os cristãos? Dada por um instante a autenticidade do fato, estaríamos em presença de um pecado pessoal de um Papa. Mas um gramático não deveria confundir infalibilidade com impecabilidade. A infalibilidade imuniza a inteligência contra o erro, a impecabilidade preserva a vontade da culpa. O Papa é infalível, não impecável. Como o mais humilde pároco de aldeia, como o mínimo dos fiéis, ele se ajoelha aos pés do confessor para receber a absolvição de suas faltas. Todos os dias, antes de subir ao altar, também o Pontífice percute o peito, repetindo: Peccavi… meà culpa. – Mas no caso presente nem o substratumhistórico da objeção subsiste. A apostasia de Marcelino é uma das tantas fábulas inventadas pelos donatistas contra os católicos. Um “estudo dogmático-histórico” não deveria dar acolhida a semelhantes lendas! (A Igreja, a Reforma e a Civilização, Editora Centro Dom Bosco, 2020, pp. 205s).

São Roberto Belarmino, cardeal e Doutor da Igreja ensina:

O décimo [erro atribuído aos Romanos Pontífices] é Marcelino, o qual sacrificou aos ídolos, segundo consta do pontifical de Dâmaso e da epístola de Nicolau I a Miguel. Mas Marcelino nem ensinou algo contrário à fé, nem foi herético ou infiel, a não ser por um ato externo perpetrado por medo da morte. Por outro lado, se ele caiu ou não do pontificado por causa daquele ato externo, isso não tem muita importância, visto que ele mesmo logo abdicou do pontificado, e pouco depois foi coroado pelo martírio. Eu creria, porém, que ele não caiu do pontificado ipso facto, porque constava suficientemente para todos que ele sacrificou aos ídolos somente por medo. Acresce que Santo Agostinho diz que Marcelino era inocente, e nenhum dos antigos historiadores faz menção desse lapso (De Romano Pontifice, lib. IV, cap. VIII).

Ou seja, se realmente o Papa São Marcelino fez isso, fez isso por medo e conta como pecado pessoal. Nenhum autor aqui diz que foi um ato de apostasia dada a falta de liberdade e a violência imposta. Se os padres teriam dito o que foi relatado no Ano Litúrgico do Padre Croisset, foi por causa do seu pecado pessoal praticado pelo medo e não enquanto ato de apostasia porque isso o deporia automaticamente, como ensinam os teólogos e canonistas que já citei em outras ocasiões. Isso não parece ser difícil de entender. E ainda devemos acrescentar que nem todos pensam que São Marcelino fez isso. Então, cito aqui um autor do século XX que duvida que São Marcelino tenha queimado incenso aos ídolos:

Disto se aproveitaram os hereges donatistas, no século IV, para acusarem o papa Marcelino de apostasia. Afirmaram que ele entregou aos perseguidores os objetos da Igreja e que, levado ao templo de Júpiter, ofereceu incenso à estátua do deus imperial. (Diocleciano, imbuído de idéias orientais, exigia que o considerassem Jove, isto é, Júpiter – usava diadema na fronte, era saudado com genuflexão e criara uma guarda pessoal de soldados chamados “Jóvios”). O Liber Pontificalisbaseado na informação donatista, e um apócrifo “Sínodo de Simessa” contam-nos que Marcelino, arrependido, apresentou-se ao referido Sínodo – numerosa assembléia de bispos – que o acolheu, mas não ousou julgá-lo. Ambos os documentos afirmam que ele tornou a ser preso e morreu mártir. É difícil saber-se ao certo o que aconteceu. Eusébio de Cesaréia, historiador dessa época, não fala dessa suposta apostasia. Alguns calendários antiquíssimos não estão de acordo (Pe. IRAN CORRÊA, S.D.B.; A Biografia dos Papas, Editora das Américas, 1952, p. 71).

Creio que todo católico piedoso deve sempre, ao conhecer todas as versões da história, ficar com a mais favorável ao papa. Principalmente se este papa for um santo reconhecido. Assim, conhecendo essa piedosa opinião do Padre Iran Corrêa, que provavelmente era desconhecida do Pe. Jean Croisset e São Roberto Belarmino, é mais conveniente ficar com ela. Não condeno quem segue a opinião dos outros dois autores, mas é mau usar dessa opinião para difamar um papa e defender uma posição teológica particular, que é o que acontece. E o pior: comparam isso aos atos de apostasias públicos e deliberados desses hereges que ocupam a Cátedra de São Pedro desde João XXIII, que é uma comparação completamente desonesta.

Deus tenha misericórdia dessas almas que fazem isso e que São Marcelino interceda para que se arrependam desse grave pecado.

São Marcelino, rogai por nós!

3 comentários em “A HONRA DEVIDA A SÃO MARCELINO: REFUTANDO DIFAMAÇÕES

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  1. Eu não disse que São Marcelino apostatou da fé católica, mas que fez um ato público de apostasia. Isso são coisas diferentes. Fazer um ato público de apostasia no dito caso, se deu porque o Santo padre estava sob tortura e não porque apostatou, mas foi público porque a intenção de seus perseguidores era levar os fiéis à apostasia pelo gesto do Papa. Por isso São Marcelino se arrependeu, não por ter apostatado como o senhor insinua que eu disse, mas por ter feito um ato público que levou muitos fiéis a pensarem que o Papa apostatava. A ênfase na minha aula foi nesse arrependimento de São Marcelino, porque um arrependimento vale mais que mil pecados. São Marcelino no alto do céu sabe o que eu disse.

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    1. Não é a minha intenção insinuar nada, caríssimo Professor. Todavia, vi outros afirmarem (inclusive conhecidos comuns nossos que não mencionarei) enfaticamente que realmente apostatou e não sei até que ponto o que o senhor colocou ali pode ser mal compreendido por outros. Principalmente pelo fato de citar o caso de Francisco, este sim um apóstata formal e público da fé católica tal como seus predecessores até João XXIII. Não bastaria isso para entender o que o senhor disse de maneira distinta do que alega ser? E é inevitável isso, visto querem de toda forma mostrar que estamos errados a tal ponto de criarem toda forma de difamações a papas do passado como fazem inimigos da Igreja e do papado.

      Ademais, a minha intenção foi contextualizar melhor as coisas citando outros autores pré-Vaticano II, que não são modernistas e que, por mais piedoso que o Pe. Jean Croisset possa ter sido, conheceram a história com maior riqueza de documentações a ponto de mostrarem que isso pode não ter acontecido, como é o caso do Pe. Iran Corrêa. Portanto, há razões para duvidarmos se isso realmente aconteceu com estudos aprofundados.

      Não quero realizar nenhum ataque, tanto que sequer mencionei o nome. Mas sinto que devo, até como forma de reparação aos erros da minha posição anterior, empreender esse trabalho defender os papas do passado.

      Fique com Deus.

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    2. Professor Carlos Bezerra, o Sr. e o Sr. Luciano Takaki são (eu espero que ainda sejam) grandes amigos, e o Sr. sabe que um amigo nunca ofereceria veneno a outro. Porque sua caridade não conversa com o Luciano sobre os motivos que o levaram a adotar a posição dita sedevacantista? De modo que o Sr. possa vir a conhecer o que pensam os adeptos dessa posição, pois ao que me parece vós apenas conhece o anti-sedevacantismo. O Luciano pode ser para vós fonte segura e neutra para lhe mostrar o pensamento Belarminista e Ultramontanista que triunfou no Concílio do Vaticano (o verdadeiro) e nos anos seguintes a ponto de influenciar diversas encíclicas pontificeas, e de ser ensinado na eclesiologia da Pontifícia Universidade Gregoriana até no mínimo na época do pós-CVII.
      Enfim, façam as pazes (e busquem a Verdade), pois “quem encontrou um amigo encontrou um tesouro”.
      Fiquem na paz de Jesus Cristo e no Amor de Maria.
      Salve Roma Eterna!

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